Capítulo Dezoito

A Última Esperança

-Herald, para onde estamos indo?- perguntou Henry meio confuso.

O mago para responder teve de altear a voz, por causa do vento que perpassava assoviando alto pelo céu.

-Segurem firme!- exclamou. –Depois irei contar a vocês, logo, logo.

O dragão oscilava vacilante. Não estava mais agüentando tanto peso. Começou a baixar um pouco o vôo, numa velocidade fora do normal. O mago disse preocupado:

-Oh, não! Enargon está muito fraco. Ultimamente não o dei mais comida.. Não tive tempo, andei meio ocupado ultimamente.

As crianças gritavam assustadas. O dragão vermelho começou a se balançar para o lado, tonto. As crianças se seguraram firme por seu pescoço. O mago segurava com força em seus chifres com as duas mãos.

Do alto do céu via-se abaixo uma visão de mapa de toda a cidade. Pontinhos de carros passavam andando pelas ruas e avenidas. Do alto também se via abaixo muitas colinas, montanhas e pinheiros, florestas, clareiras, lagos, planícies e rios, que se desdobravam desenhando lindas paisagens com vistas maravilhosas e espetaculares.

Herald tentava acalmar Enargon, juntamente com Joel, o encorajando. O mago tirou de seu bolso um pedaço de bife de carne. Jogou-o à frente no ar para o dragão; que voou mais a frente. Abriu a bocarra de dentes afiados e engoliu o bife de carne na boca. Logo após, Enargon arrotou cuspindo algumas chamas flamejantes que se retrocederam no ar sob o céu. Todos se balançaram desviando das chamas.

Enargon sentiu-se segundos mais fortalecido e novamente recuperou suas forças e levantou adiantou mais o vôo.

Para onde iriam agora? Sem rumo? Apesar de a caverna estar destruída, aonde eles iriam a partir de agora?

Wendy e Henry pensaram vários minutos, deduzindo para onde iriam agora. Wendy de um súbito clareou sua mente e lembrou-se: os vales da Escócia; onde o mago sempre ia visitar. Ou talvez a floresta de Madison Fallen? A mina dos duendes? Não. O mago falou afirmativamente:

-Iremos para os vales da Escócia. Levará algumas horas para chegarmos. Segurem-se!

Enargon aumentou a velocidade do vôo, passando acelerado arranhando as nuvens.

-Herald, o que vamos fazer nos vales da Escócia?- perguntou Henry com ar de curiosidade.

-Quando chegarmos vocês irão saber. –Respondeu eufórico.

Horas depois já havia anoitecido. Estava nevando caindo neve levemente pelo céu. Todos se arrepiaram de frio, trêmulos. Henry, Wendy e Joel batiam e rangiam os dentes.

O mago fez conjurar cachecóis da ponta de seu cajado, de diversas cores. Um azul-claro, um verde-esmeralda e um vermelho-escarlate.

Wendy apanhou o verde esmeralda. Henry apanhou o azul claro e Joel o vermelho escarlate. Colocaram os cachecóis, os enrolando pelo pescoço. Sentiram-se imediatamente aquecidos com o cachecol de lã quentinho.

Para chegarem até a Escócia teriam que avançar mais ao norte da Inglaterra; e logo após teriam de passar por Reino Unido. Sobrevoaram por longos minutos pelas florestas temperadas. Segundos depois avistaram ao longe, do alto, a floresta de Madison Fallen, a mina dos duendes e a toca do troll. Continuaram seguindo reto. Henry e Wendy já estavam ficando meio sonolentos e cansados da viagem. O mago falou:

-Agüentem mais um pouco crianças. Estamos quase chegando.

Após longas horas avistaram pelo céu ao longe: a cidade de Reino Unido. Viram do alto muitas ruas, avenidas e prédios. O trânsito da cidade estava bem movimentado. A cidade inteira estava iluminada com várias luzes acesas. Iluminando, assim, a escuridão de breu da noite. Era uma vista bela e espetacular, vista do alto do céu. Era noite de lua cheia. A lua brilhava tremeluzente no céu escuro.

Era meia noite quando chegaram finalmente aos vales da Escócia. Havia lindas paisagens de montanhas, colinas e planícies muito verdes e belas. Pequenos lagos, córregos e riachos desdobravam-se; juntamente com as planícies. A lua cheia iluminava o vale.

A sombra de Enargon refletia-se em uma colina, juntamente com as sombras de Herald, Wendy, Henry e Joel.

Enargon pousou levemente sobre uma colina. Eles então desceram de seu dorso de escamas ásperas.

Minutos depois o dragão cochilou sobre a colina, perto de um pinheiro. Eles viraram-se para observar Enargon, que dormia em um sono profundo.

-Ele está muito cansado. –Disse o mago solenemente. -Depois da longa viagem que fizemos, ele merece um descanso.

-Herald o que vamos fazer agora?- indagou Wendy.

O mago ficou silencioso por um momento. Todos o fitaram ansiosos. Ansiados para um próximo plano. Então Herald quebrou o silencio e afirmou com expressão de liderança:

-Temos que acampar por aqui esta noite. Ajudem-me a conseguir lenha. Vamos fazer uma fogueira.

Os lagos e riachos estavam completamente congelados. Não parava de nevar densamente no vale. O ar estava frio, gélido e cortante.

Wendy e Henry sentiram o frio congelar seus corpos e os transpassarem. Estavam encolhidos. Um abraçava o outro para se aquecer. Joel exclamou, pela primeira vez:

-Vamos buscar a lenha então. –E forjou sua espada de lâminas duplas, reluzindo a luz do luar.

Joel andou pelo leste das planícies. Logo após seguiram-no andando por montanhas íngremes. Que na subida já estava muito difícil; pois a toda hora eles afundavam com seus pés na neve. Com um esforço, depois, todos conseguiram subir. Herald vinha vindo seguindo-os por ultimo, com o seu cajado branco que estava aceso. Iluminado a escuridão da noite.

Depois de terem subido a montanha de neve íngreme, correram os olhos a volta do lugar em que haviam subido e avistaram dois pinheiros aonde a neve ia pousando levemente, caindo sobre eles. Depois ao lado, viram uma árvore comum. Ela era grande e comprida. Todos se aproximaram dela imediatamente. Joel se virou a Henry e falou:

-Henry, pegue sua espada. Ajude-me a cortar o tronco da árvore. –Disse Joel com sua voz aguda, que expressava ordem.

-Ah, está bem. –Disse Henry meio distraído. Ele sacou sua espada sob o alforje que tinha na cintura.

Os dois brandiram ao alto as espadas de lâminas duplas. Cortaram então os troncos das árvores em seguida, com suas espadas. Eles então juntaram as lenhas, uma a acima da outra. Organizadas ao lado da árvore uma a uma, sobre o gramado da montanha coberta de gelo. Wendy, por um momento interrompeu o trabalho deles, perguntando:

-Ficaremos aqui então? Não iremos voltar para o orfanato?

-Ficaremos por aqui só por algum tempo. –Respondeu o mago, observando Wendy. Depois iremos voltar para o orfanato. Precisamos primeiro ver uma coisa.

-E o que é?- indagou a garota curiosa.

-Bom. Primeiro precisarei avisar Catherine , James e Eriel, mandando uma carta. Dizendo que logo irei buscá-los com Enargon. Depois de todos nós já estarmos reunidos. – O mago fez uma longa pausa. Depois ele continuou. –Iremos ao templo das profecias.

-O que? Templo das profecias?! –exclamaram os irmãos.

-Bem, é uma longa história.. – o mago inclinou sua cabeça para o alto. Olhando para o céu. Pensando no que dizer. –Agora que já conseguimos destruir a maldição do livro, Eleanor e Alice irão querer se vingar novamente de nós, e não nos deixarão mais em paz. Elas querem ainda bolar mais planos. Querem fazer de tudo para dominar a terra. –Fez-se uma breve pausa. –Quero que vocês saibam da existência da profecia; se vocês tiverem curiosidade em ver, se for o caso...

-Sim. Queremos ver, Herald. Nos leve até lá. –Os irmãos concordaram com Herald, num breve aceno de cabeça.

-Queremos saber qual será o nosso destino. –Wendy sentia-se encorajada. Queria vingar a morte de seus pais. Vingar-se de Alice e Eleanor de uma vez por todas; antes que elas planejassem um segundo plano.

Henry, porém sentia receios e medos para ver a profecia. Sentia medos de saber qual seria o futuro deles. E se seria um destino triste e sem esperanças? Ou talvez a morte?

Todos recolheram a lenha. Voltaram para a colina onde estava Enargon. Pousaram a lenha perto de um pinheiro da colina, que estava localizado ao lado de Enargon.

O mago acendeu fogo sobre a lenha com o seu cajado. Todos fizeram uma roda em volta da fogueira. Sentados. Aqueceram-se ali. De repente, em um momento descontraído todos começaram a brincar de mímicas em volta da fogueira. Brincavam alegres e sorridentes. Logo depois, eles começaram a contar piadas um para o outro. Soltavam gostosas gargalhadas e divertiam-se. Depois começaram a contar histórias de contos de fadas e lendas sobre o monstro do Lago Ness. Minutos depois eles ficaram exaustos e sonolentos. Bocejavam, suas pálpebras estavam meio caídas e cansadas. Herald fez aparecer da ponta de seu cajado quatro colchonetes com edredons, de cor marrom. Todos então deitaram cada um em seus colchonetes. Amanhã lhes esperava um longo dia.

Wendy e Henry deitaram-se pensativos. Contemplavam no alto as estrelas no céu. De repente lágrimas escorreram-se de seus olhos. Pensaram em seus pais. Sentiram um rancor que os dominava por dentro. Sentiram ódio de Alice e Aurélia.

Na manhã seguinte, quando eles se acordaram; Joel fora pescar no lago para conseguirem o almoço. Já havia parado de nevar. O lago do vale já estava descongelado quando Joel fora pescar os peixes. Wendy e Henry foram atrás de Joel para ajudá-lo com a pesca. Depois de eles pescarem muitos peixes, os colocaram sobre o balde de madeira. Joel tinha ensinado a eles a pescar, pois Wendy e Henry não sabiam absolutamente nada de pesca. Ensinou as crianças a utilizarem o anzol na vara de pesca e o engodo. Depois de terem pescado voltaram lentamente para a colina segurando cada um, um balde de madeira.

O mago estava escrevendo uma carta; que havia pegado de seu bolso um pergaminho enrolado. Depois de ter escrito a carta, estalou os dedos e chamou:

-Amely!- Imediatamente surgiu no ar uma luz verde esmeralda brilhante. Amely apareceu. A fada guia e mensageira de Herald. Ela perguntou meio tonta e vacilante. Olhava para cá e para lá.

-Pois não? Herald.

-Amely , tenho uma carta que preciso mandar a Catherine, James e Eriel. –Ordenou Herald.

-Sim, certo. –Disse Amely com obediência. –Volto em seguida.

A fada então apanhou a carta e sumiu no ar. Largando uma luz brilhante.

A fada de repente surgiu no dormitório de Catherine. Ela estava sentada sobre sua cama pensando nos seus amigos. Catherine se espantou e deu um pulo da cama. Exclamou trêmula:

-Quem é você?! Ah, Amely!

Catherine saiu da cama. Parou a frente de Amely. A observava atenta. Amely mostrou a carta a ela, estendendo seu bracinho de fada. Catherine então pegou a carta.

-O.. Obrigada Amely. –Gaguejou Catherine, sentindo-se ansiosa.

Ela então leu a carta em voz alta:

"Vocês precisam saber de uma coisa muito importante. Preciso avisar a vocês. Daqui a pouco irei buscá-los com Enargon. Me esperem à frente da caverna em ruínas."

Abraços. Herald.

Quando Catherine terminou de ler a carta, sentiu-se confusa. De quê coisa Herald queria contar-lhes? Ela então andou até o dormitório dos garotos logo à direita. Na porta do dormitório de número "três", ela parou à frente. Bateu na porta quatro vezes. Perguntaram do interior do dormitório:

-Quem é?- era James quem perguntou.

-Sou eu James, Catherine. –Respondeu ela meio aturdida.

-Ah, entre Catherine.

-Obrigada. –E ela então entrou no dormitório deles.

Eriel estava mexendo em seu guarda-roupa , arrumando suas coisas. Empilhava um montinho de camisas dobradas, e recolocava no guarda-roupa. Virou-se observando Catherine com surpresa.

-Catherine o que aconteceu? –eles perguntaram.

-Herald nos mandou uma carta. –Ela afirmou em tom rigoroso.

Ela mostrou a carta a eles, que leram em voz alta. Eles também se sentiram meio confusos.

-Bom então nós iremos mesmo, não é?

-Sim. –Disse Catherine decididamente. –É melhor nós obedecermos aos avisos de Herald. Eles são sempre importantes.

Depois de longos minutos eles desceram para o refeitório almoçar. Comeram a comida. Nem a mastigaram direito. Estavam com pressa em encontrar Herald, e ansiados.

Esperaram pelo mago nos quintais à frente da caverna que fora incendiada. Vários minutos se passaram quando avistaram finalmente no céu, um pontinho vermelho que vinha emergindo arranhando as nuvens.

-Herald vem vindo!- exclamou Catherine.

James e Eriel olharam para o céu. O dragão vermelho aproximava-se cada vez mais, chegando até eles. Então finalmente Herald e o dragão chegaram. Pousaram sobre os quintais. O dragão soltou um rugido. Herald desmontou do dragão com cautela. Dirigiu-se aos três que estavam parados em frente às ruínas de pedras, que sobraram das chamas.

-Estão preparados? –ele perguntou com firmeza.

-Ah, sim. –Disse Catherine meio pensativa. Virou-se e murmurou a James e Eriel. –Vocês estão preparados também?

-Sim, podemos ir. –Eles disseram, concordando com a cabeça.

Depois de terem montado em Enargon, ele voou e desapareceu pelos céus.

...

-Será que Herald irá demorar muito? –perguntou Wendy, ansiosa.

-Acalme-se Wendy. Ele só foi buscar nossos amigos.

Wendy sentiu uma intuição; pressentiu que alguma coisa iria acontecer na viagem deles para chegar aos vales, onde estavam.

-Não sei, mais acho que isso vai dar problema..

-Acalme-se Wendy. Ele já vai chegar, logo, logo. Espere só. –Repetiu Henry novamente. Estava impaciente.

Joel estava catando frutas silvestres de uma árvore.

-Herald, sempre sabe o que faz. Seja o que for que aconteça. Ele sempre encontrará uma solução. –Dizia Joel em tom de seriedade.

...