Apenas um encontro__ Maya

Eu me lembro como se fosse ontem. Minha filha Marie e suas amiguinhas do colégio junto com os companheiros de banda dela não acreditam que tive mesmo um encontro. Um encontro com uma lenda do rock.

Tudo começou em 1963, uma banda formada por quatro jovens rapazes da minha cidade, Liverpool fez da Inglaterra a 2ª terra do rock. Naquela época as adolescentes entraram numa espécie de surto histérico, meu deus! As meninas choravam e se declaravam apaixonadamente por cada um deles e até tentavam chegar perto deles.

A única pessoa que conseguiu chegar perto dos quatro cabeludos e ainda por cima não surtou na frente deles, foi justamente minha irmã mais velha Roselyn.

Mesmo sendo uma criancinha nos meus oito anos, eu amava Os Beatles. Amava principalmente Paul McCartney e Ringo Starr.

Paul com seu rostinho de anjo é realmente irresistível. Vivia suspirando por ele. Diversas vezes disse para Rosie casar com ele e não com John Lennon. Nada contra o John. Só que ele é casado. Talvez se não me engano, o único casado do grupo!

Mas não adiantava. Rosie sempre preferiu Lennon.

Minha melhor amiga Sanae Wakabayashi é uma super fã dos Beatles. Ela tem a mesma idade que eu. Foi com ela que falei sobre Beatles e junto se tornou minha testemunha do tal "encontro".

Era junho de 1963. Odiava essa sensação climática. Uma hora esquentava, outra ficava tão fria quanto às geleiras da Sibéria. Depois de assistir apenas duas aulas, os alunos foram liberados mais cedo.

-- Ah, que dia tão maçante!—reclamou minha amiga nipônica

-- Eu que o diga! Não tava afim nem um pouco de voltar para a casa. - reclamei junto

-- Tem medo de a sua mãe pensar que está matando aula?

-- Nem é isso. É que hoje queria muito estudar. Maldito dia que o professor Reymond falta...

-- Você é diferente Vivian. Gosta de estudar e é muito aplicada nas tarefas. Já eu sou preguiçosa.

Sanae não tinha vergonha de admitir que odeie estudar. Nas varias vezes que fui na casa dela, era uma festa só. Teve até um dia que convidamos nosso amigo garoto, o descendente de russo Yuri.

Nossa diversão era regada de música, televisão e ler muitas revistas em quadrinhos da Marvel.

-- Não é verdade... – ri um pouco sem graça do comentário dela

-- É sim, Vivian-chan! Queria ser tão estudiosa como você.

-- Bom, na próxima vez eu te convido para ir à minha casa. E desta vez é pra estudar e não bagunçar. Entendeu Sanae-chan?

-- Entendi!

Enfim, a parada do nosso busão. Havia bem pouca gente ali. A diferença era que todos embarcavam nos ônibus que apareciam a cada 20 minutos.

E durante nossa espera, um homem de terno preto impecável, um cabelo sedoso com formato de uma tigela e narigudo ficou parado ali quase junto a nós.

Ele parecia nervoso e se mesclava no meio da minoria de gente. Olhei para ele. Lembra-me alguém. Alguém que conheço...

Sanae também olhou para o estranho narigudo engravatado e cutucou para mim:

--Vivi-chan, ele é parecido com Ringo.

Parecido ele é sim. Quando ia fazer um comentário, outro homem engravatado apareceu. Esse era um gatão!

-- Sanae olha para esse outro carinha!

-- Por Kami-Sama! – exclamou com olhinhos puxados bem arregalados.

Resolvi dar uma de espiã mirim e tentei ouvir o que eles tanto falavam. Nossa, pareciam nervosos e gesticulavam muito.

Por que será?

Nosso ônibus finalmente apareceu e embarcamos e junto, a dupla sinistra.

Sentamos no lado equivalente ao do motorista e mais uma vez olhei para os dois. Foi aí o momento mais revelador da minha vida! O narigudo tinha no bolso uma baqueta! Mais exatas duas baquetas lustrosas!

Meu coração deu aquela disparada. Suei frio e minhas mãos tremiam. Por um momento deu vontade de surtar ali mesmo.

Descemos na nossa rua, ufa!

Não demonstrei para minha amiga o meu nervosismo. Meu estado era em ponto de bala.

--Vivi, eles devem morar na mesma rua que nós.

-- Por que diz isso?

-- Porque desceram na mesma parada. E pelas minhas observações, só nós que moramos e descemos aqui na parada. O pessoal restante são só adultos e adolescentes.

Que grande observadora! Ela nunca errou disso eu sei. No caminho, paramos em frente ao portão Strawberry Fields e ali ficamos mais um pouco conversando.

Sem saber, a "dupla engravatada" se aproximou de nós e perguntaram educadamente:

-- Senhoritas, vocês sabem qual é o caminho para loja de instrumentos chamada Grand Guitar?

-- Sei sim! Só seguir reto na Rua Penny Lane e aí tem uma confeitaria. É depois da confeitaria que está à loja. —disse sem gaguejar e olhando bem firme nos olhos tão amáveis de Paul.

-- Obrigado, senhoritas! Existe algo que possamos fazer como retribuição?

Sanae e eu pensamos e pensamos...

--Tem sim. – disse. – Se casando comigo!

Piadinha meio sem graça, mas foi divertida! O que não imaginávamos era que havia uns fãs pastoreando o local.

-- Olhem! São Paul e Ringo!

Gritos de histeria e perseguição. Todo mundo correu atrás deles. E quanto a nós as amigas?

Corremos juntos. Não com os afoitos fãs e sim com os dois Beatles. Sorte minha que conhecia um atalho e ali entramos na rua de nossas casas. Sem fãs perseguindo, sem pessoas olhando a cena engraçada.

Sanae se recusava a acreditar que ajudamos Paul McCartney e Ringo Starr. No final, eles autografaram nossos cadernos e despedimos deles. Ah, que encontro mais emocionante!

-- Amiga ninguém vai acreditar em nós.

-- É, ninguém mesmo. Exceto minha irmã Rosie. Sabe de uma coisa? Eu vou desenhar o Ringo e deixá-lo numa moldura especial.

-- Legal! Quando ficar pronto, me mostra?

-- Claro!

Anos depois, em 1975...

Cinco anos depois da separação dos Beatles, me senti um pouco desmotivada. O desenho estava pronto e a moldura também. O problema era meu nervosismo. Meu namorado americano, Paul Hemingway deu muita força para mim. Deu para perceber a ironia né?

Apaixonada por Paul McCartney e namorando um estadunidense chamado Paul Hemingway.

Um ano depois enviei minha carta e meu quadro ao meu grande ídolo e dois meses depois me casei com Hemingway. 1985 nasceu minha filha, Marie Anne, parecida comigo e herdando o lado meio doido do pai (quando conheci Paul, ele era um cara bem engraçado e as vezes neurótico).

2005

-- Que sortuda hein mãe?—disse Marie enquanto lavava a roupa.

-- Não só eu. A mãe da Shizune também os viu.

-- Queria ser uma adolescente nos anos 60... – bem sonhadora.

-- Eu sei filha. Mas foi apenas um encontro especial, entre um baterista e uma aluna da 2ª série. Uma recordação de toda fã apaixonada!

Eu sei que depois dos meus relatos, minha filha contará para outras pessoas. No passado os coleguinhas não acreditaram. Tempos depois as equipes da Polícia Britânica ouviram e como ficaram impressionados. E para encerrar, digo a você, caro leitor, tudo que você precisa é de amor!

Lista de Personagens

Vivian Danielle Donovan- Irmã mais nova de Roselyn Anne Donovan. Quando era criança, conheceu e ajudou Ringo Starr a escapar da histeria dos fãs. Sua melhor amiga é Sanae Wakabayashi. Casada com Paul Hemingway, Vivian tem uma filha, Marie, que também é beatlemaníaca.

Sanae Wakabayashi- Filha de japoneses, a família de Sanae se mudou para Inglaterra com objetivo de recomeçar a vida e se torna grande amiga de Vivian Donovan.

Paul Hemingway- Estudante americano. Conheceu Vivian em 1975, na numa excursão ao Museu de Cera Madame Tussaund. Depois da formatura, se casou com ela e moraram juntos em Liverpool até o nascimento da filha.

Marie Anne Hemingway- filha única de Vivian e Paul. Herda o lado beatlemaníaco da mãe e o lado neurótico do pai. Torna-se detetive anos depois, em seguida presta serviços de espionagem ao MI6 e se torna uma policial muito competente. O lado policial e justiceiro de Marie será visto nos próximos contos em breve.

FIM