Apesar de tudo ao meu redor parecer normal, podia sentir que meu fim estava próximo, podia senti-lo. Sabia que ele me aguardava por ali, escondido pelas sombras a me observar escolhendo o melhor momento para atacar. O tempo estava esgotado e eu não podia fazer nada, já podia sentir o hálito frio da morte percorrer minha espinha, congelando-me por dentro. Estava paralisada de medo, meu cérebro gritava para fugir, mas meu corpo não me obedecia. Sabia que não restava mais tempo, estava esgotado, igual ao sonho da noite anterior. Senti como se minha alma abandonasse meu corpo quando vi a luz do luar refletir em sua pele pálida e perfeita. Pude ver o brilho maligno de suas presas, quando ele sorriu maliciosamente para mim. Caminhou em minha direção, olhou em meus olhos e sorriu novamente. Não pude me mexer e nem queria. Sentia um enorme medo, mas ao mesmo tempo algo me atraia. Queria fugir, mas minhas pernas ou qualquer um de meus membros se negavam a mover. Ninguém sabia onde eu estava. Não tinha amigos. Não tinha família. Ninguém que fosse sentir minha falta no mundo. Apenas o vampiro que me olhava com malícia, e que agora caminhava calmamente ao meu redor e se aproximava cada vez mais. Estava desesperada, não queria morrer e a única coisa que pude fazer quando senti os lábios frios dele tocarem meu ombro nu, foi gritar.

- Maldito!

Quando gritei não sabia se era de pavor ou pelo prazer inesperado do toque macio e gelado daqueles lábios contra a minha pele. Ele apenas sorriu de maneira sarcástica e continuou sua dança mortal ao meu redor rasgando o restante da blusa que estava apenas pendurada em meu corpo deixando-me apenas de sutiã e saia curta. Senti o ar gelado da noite agredir minha pele nua. Péssima escolha de roupas, pensei comigo mesma quando senti que ele rasgava a lateral da meia arrastão que eu usava. Iria me torturar com certeza, pude ver em seu olhar. Estremeci. Ele riu, mas não disse uma só palavra. De repente, sem que eu pudesse ter notado algum de seus movimentos, puxou-me contra ele rudemente e afastou meus cabelos que caiam pelo pescoço, abrindo caminho para suas presas. Isso fez com que meu pobre coração já acelerado ficasse ainda mais agitado, quase a ponto de sair de dentro do meu peito. Já podia sentir seu hálito frio em meu pescoço, quando um único e ridículo pensamento me ocorreu naquele momento: Estava com quase 29 anos e iria morrer virgem. Quem ainda era virgem aos 29 anos de idade? Porque tudo em minha vida tinha que ser tão patético assim? Alex seu maldito! Por que foi me abandonar justamente hoje?

O vampiro parou de repente e riu. Aproximou-se de minha orelha e falou algo que surpreendeu.

- Isso é algo que pode ser arranjado, minha querida...

Fiquei um pimentão na hora. Ele havia lido meu pensamento. Como poderia saber que vampiros liam pensamentos? Bem, eu nem sabia que vampiros existiam até o presente momento, mas agora eu só queria era me enfiar num buraco e nunca mais sair lá. Ele ria com gosto do meu constrangimento. Como podia ser tão petulante e rir tão descaradamente da minha desgraça? Como fiquei com muita raiva dele naquele momento então esbravejei.

- Como você pode rir assim de mim seu... Seu maldito!

Era impressionante como ele mudava de humor assim tão rapidamente, pois sua expressão debochada logo foi substituída por uma tão séria e gelada que fez com que eu sentisse minha alma abandonando meu corpo e meus ossos derretendo – se é que isso é possível. De repente senti uma dor lacerante em meu cérebro que me fez cair de joelhos com toda força no chão de madeira daquele velho sótão. Era como se minha cabeça tivesse sido aberta e mil facas estivessem cortando meu cérebro em pedaços. Senti-me sem ar para respirar, o lugar cheirava a mofo e eu me contorcia de dor no chão. Eu iria ter uma morte digna de um filme trash dos anos oitenta. Daqueles bem ruins. Iria ser assassinada por um vampiro no sótão de uma casa abandona no dia de Halloween. Não, não um filme trash. Um filme de terror, daqueles ruins que Hollywood anda fazendo ultimamente, onde a mocinha é sempre virgem e está seminua na frente do assassino. Ele caiu na gargalhada novamente. Droga! Esqueci que ele podia ler meus pensamentos... Como queria mandar ele junto com Alex para o inferno e mandá-lo enfiar aquele sorrisinho naquele lugar...

- Pode mandar! – disse ele ainda rindo. – Mas você vai sofrer as conseqüências...

- Por que você não me mata de uma vez seu desgraçado? – disse eu com raiva.

- Porque você é muito engraçada. Não ria assim há muito tempo...

- Ai! O que você fez na minha cabeça...

- Está com dor de cabeça? – perguntou ele, ainda rindo.

- O que você acha? – meu nariz sangrava, quando consegui me botar de pé novamente. Ele apenas ria. Ria de mim. – O que tem de engraçado na minha pergunta?

- É muito engraçado ler sua mente. Você é cômica, seus pensamentos e lembranças são engraçados. – ria ele, encostado na pilastra com uma das pernas sobre um baú velho exibindo sua linda bota de couro preto lustrada. Afinal, por eu estava olhando para as botas do vampiro?

- Ótimo! Agora até um vampiro assassino tira sarro da minha cara. Que maravilha... Sou piada dos outros até na hora de morrer. Que ótimo...

- Não se sinta assim tão azeda, minha bela, prometo que não irei rir de você na hora... – ele sorriu com malícia ao dizer isso. – Só que não irei matá-la agora. Tenho em mente outras coisas para você. Coisas muito mais interessantes...

Pude notar um brilho de maldade passando pelos olhos do vampiro, que me sorria enigmático.

- Então quer dizer que sou patética demais para ser morta por você? – disse eu, com raiva descontrolada botando as mãos na cintura e o encarando nos olhos. Odiava quando alguém ria de mim. Suspirei. – Era só o que me faltava para completar o ciclo de azar em que vivo. Nem um vampiro assassino me quer como jantar...

Ele me encarou espantado.

- Você quer morrer? Quer que eu te mate agora? Estou te dando uma chance única de não morrer... E você me diz isso?! Você por acaso é maluca, garota?

- Você leu minha mente. Tire suas próprias conclusões. – ele apenas riu outra vez.

Uma rajada de vento forte abriu de supetão a janela do sótão me deixando tremer de frio dos pés a cabeça. Comecei a bater os dentes e me abracei tentando inutilmente cobrir minha seminudez. Tentei me mover, mas minhas pernas não me obedeceram. Acabei tropeçando e caindo no chão. Ele me olhava de cima abaixo, sem que eu pudesse definir sua expressão. Olhei para o vampiro, o vento sequer mexeu em um fio de seu longo cabelo negro que caia até o meio das costas. Ele vestia calças de couro preto, uma camisa de botão branca com babados aberta até o meio do peito e tinha um longo sobretudo negro para completar o visual. Era um homem bonito e atraente, daqueles que só se vê na televisão, um verdadeiro galã de novelas. Ele caminhou até mim e, sem eu poder ver o movimento, ele me cobriu com o sobretudo. Comecei a me sentir aquecida na hora. O encarei com uma interrogação no rosto.

- Não quero que você morra antes da hora. – disse ele respondendo a pergunta que não formulei. – Você morta estragaria meus planos.

- Planos? Você tem algum plano para mim além de me matar?

- Sim. – disse ele me dando as costas e voltado a se encostar-se na pilastra. – Mas antes vou deixá-la em casa. Você está imunda.

Eu não conseguia acreditar no que ele havia acabado de dizer.

- Em casa? Mas como...

- Você já se esqueceu que posso ler sua mente quando quiser, ou quer que eu te mostre novamente?

Não precisei responder, pois minha expressão de pavor respondeu por mim, não queria nunca mais sentir aquela dor horrível. Ele sorriu com maldade nos olhos. Seja o que fosse não poderia ser boa coisa, ao menos para mim. Engoli em seco, àquela altura do campeonato eu já estava com todos os pêlos do meu corpo arrepiados de medo. Ele sorriu e sem aviso nenhum me pegou nos braços e saiu pela janela. Ele ia muito rápido, não sabia dizer se ele estava correndo ou voando, apenas escondi meu rosto em seu peito para me proteger do ar gélido da noite. Quando ele parou já estávamos dentro de meu quarto no apartamento que aluguei há nove meses quando me mudei para a cidade, ele provavelmente tinha visto isso em minha mente.

- Chegamos. – disse ele me pondo no chão e quando se dirigia novamente para janela ele se virou para mim novamente – Amanhã à noite voltarei. Esteja pronta. – me olhando de cima abaixo – E espero que com uma roupa mais decente do que esse lixo que você está usando... Ah! Cuide bem do meu sobretudo, ele é um dos meus favoritos. – disse ele desaparecendo na noite.

Assim que ele sumiu me deixei desabar no chão do quarto e chorei feito uma criança pequena. Havia passado perto da morte e ainda estava viva, mas até quando e o que ele queria comigo era um mistério. Ainda com esses pensamentos na cabeça me levantei do chão e parei em frente ao espelho. Ele tinha razão, eu estava imunda. Um verdadeiro trapo. Ainda tinha alguns pedaços da blusa vermelha que eu usava pendurados em mim, arranquei o que restava da meia arrastão que eu tinha usado e joguei num canto. Eu estava um caos por dentro e por fora. Estava toda empoeirada e com teias de aranha nos cabelos, a maquiagem estava para lá de borrada e para completar o quadro o sobretudo dele era muito maior do que eu. Eu parecia uma prostituta saída do meio de um filme B! Ao menos sabia de uma coisa, que na teoria dos filmes de horror, a mocinha virgem sempre sobrevive no final. O que justamente me deixava preocupada. Será que esse filme teria uma seqüência? Esse era o meu medo. Quais seriam os planos do vampiro?