Fiquei para ali na soleira da porta ainda por alguns segundo até ver a figura de Gordon sumir da minha vista pelo corredor. Não gostava de admitir, mas a visita inesperada dele havia mexido comigo. Com absoluta certeza relembrar o terrível dia da festa não era algo agradável e essa visita tinha me feito justamente isso. Justamente o que eu não queria. Havia sido humilhante demais. Havia sido o dia de aniversário que ninguém gostaria de ter. Um vento frio soprou no corredor deixando os pêlos das minhas pernas por baixo do vestido longo se eriçarem. Era melhor trancar a porta do apartamento e sair logo, o Sr. Blacksmith me aguardava no carro e não queria fazer aquele senhor me esperar ainda mais. Tranquei com firmeza a porta e segui para as escadas. Enquanto descia os degraus uma estranha sensação de urgência se fez presente, eu não sabia o que era talvez fosse melhor apressar o passo. O ar ali parecia cada vez mais frio então comecei a descer as escadas quase que correndo e no caminho quase atropelei a Sra. Applegate que carregava uma sacola de compras nos braços.

- Srta. Penélope! - disse ela me olhando espantada.

- Oh Deus! Me desculpe Sra. Applegate, estou com um pouco de pressa hoje.

Nem esperei pela resposta dela. Agora eu estava na porta da frente do prédio com meu coração completamente acelerado. Parecia até que eu estava fugindo de alguma coisa. Estranho. O vento gelado continuava a soprar ali fora fez com que meus cabelos escuros se esvoaçassem pelo ar, por segundos tive a nítida impressão de que aquela nuvem de cabelos escuros fossem asas de corvos. Ali fora podia ouvir o rádio do zelador anunciar que a temperatura seria amena durante a maior parte do dia e que a noite ela cairia, mas ali fora o frio parecia querer me engolir viva apesar do que anunciava o radialista. Estava com um frio fora do normal, mesmo com meu vestido longo de lã fina e as mangas longas podia sentir ele passando pelo tecido e até pelo couro das minhas botas de cano longo chegando na minha pele quase tocando meus ossos como se fosse me congelar inteira. Vi um lufada forte de vento fazer os papéis na rua voarem pelo ar. Sentia cada vez mais frio então vesti o casaco que carregava no braço, eu estava toda arrepiada. Algo dentro de mim se agitou quando não consegui me mover dali. O medo se instalou nas minhas entranhas quando senti um sussurro quase inaudível se perdendo no ar "Minhaaa...Bruxxaa..."Sim, eu senti um sussurro. Aquilo não podia ser normal. Tentei me mover, mas não consegui, senti como se estivesse sendo congelada a partir dos pés e foi então que algo dentro de mim explodiu como se fossem labaredas incontroláveis de um incêndio destruidor fazendo o vento e a voz sumirem do ar. Eu estava ofegante. Precisava encontrar o Sr. Blacksmith, porque seja o que fosse aquilo eu tinha feito algo ali, mas nem precisei procurá-lo, ele já estava ali diante dos meus olhos.

- Precisamos sair rápido daqui, venha comigo. - E me levando pelo braço até um luxuoso carro negro que estava com a porta de trás aberta à nossa espera. Deus, o que eu havia feito há pouco? Que voz era aquela? Quando meu olhar se cruzou com o do velho ele apenas disse.

- Sua casa não é mais segura, Srta. Stormbreaker. Iremos tirá-la daqui. Jeremy virá até aqui mais tarde para buscar seus pertences. – Ele me olhava bem dentro dos olhos como se pudesse ver tudo o que aconteceu naqueles segundos em frente ao prédio. – Seus poderes são realmente magníficos milady, mas ainda há coisas a aprender sobre eles. Por enquanto eles lhe são instintivos, mas em breve deixarão de ser.

Aquela história estava começando a me deixar realmente assustada. Precisava urgente de mais respostas. De quem era aquela voz no vento? Melhor, o que havia sido aquilo tudo? Me sentia zonza. Olhei de modo inquisitivo para o homem ao meu lado no carro enquanto o motorista dirigia apressado para longe de onde eu morava. Estava me sentindo mais perdida e sozinha do que no dia do meu aniversário. Precisava... Dele.

- Senhorita? Você está bem, quer alguma coisa?

Sim, eu queria alguma coisa, não sabia bem a razão daquilo, mas queria Gabriel. Eu queria o vampiro naquele momento, pensar nele me fazia sentir segura como se ele fosse minha única ponte para a salvação. Olhei para aquele senhor de olhos sagazes que me encarava preocupado. Eu sentia o mundo girar na minha mente.

- Vampiros dormem de dia? – Ele sorriu para mim e pegou o celular. Essas foram as únicas palavras que conseguiram escapar da minha boca antes dos meus olhos fecharem. Fogos corvos giravam e gritavam na minha mente e o mundo sumiu na escuridão diante dos meus olhos me fazendo mergulhar num mar de lembranças sobre meu dia de aniversário e num redemoinho negro eu estava lá naquele dia novamente. Numa fração de segundos tudo começou a acontecer novamente.

Alex Elliot, meu namorado, estava de mau - humor. Pude sentir isso pelo tom de sua voz ao telefone.

- Droga, Penélope! Escute bem o que vou dizer, docinho... – Seu tom foi um tanto ameaçador. – VOCÊ VAI À PORCARIA DE FESTA E PONTO FINAL! Nem que eu tenha que mandar te arrastar de dentro desse apartamento. – Ele fez uma pausa e quando falou novamente estava mais calmo. – Acho que agora você me entendeu.

A sensação de derrota amolecia minhas pernas enquanto eu olhava todo meu empenho para tornar aquela noite inesquecível ir para o ralo.

- Sim. Entendi, mas é que eu tinha preparado algo especial para hoje. Só para nós dois...

- Penny, seja lá o que você tinha preparado isso com certeza é algo que vai poder esperar. – Podia sentir que ele falava com raiva entre os dentes. – Viviam vai passar ai para te pegar daqui uma hora.

- Como assim, Viviam, vai passar aqui?

A resposta não veio porque Alex desligou o telefone na minha cara e nem tive a chance de falar algo. O que estava acontecendo com ele hoje? O estava acontecendo com esse namoro? Já me bastava que ele estivesse estranho nos últimos dias. Mas agora ele tinha batido o telefone na minha cara e me tratado muito mal. Um vento gelado entrou pela janela e me arrepiou. Um corvo gritou lá fora no escuro, parecia até um presságio de desgraça. Esfreguei os braços com as mãos e sacudi os ombros. Corvos não me pareciam um bom sinal, mas o que faziam corvos na cidade? Apenas dei de ombros e apertei o robe curto de seda vermelha que estava usando por cima da lingerie rendado havia comprado exclusivamente para aquela noite. Olhei desanimada para meus preparativos e apaguei a vela perfumada que havia acabado de acender. Suspirei. Peguei a garrafa de champanhe, os morangos com chocolate e levei para a cozinha. Iriam voltar para a geladeira. Droga! Era meu aniversário, e Alex era meu presente!Peguei um morango do pote e mordi a ponta com o chocolate e atirei o resto dele no cesto de lixo. Bati a porta da geladeira com força e voltei para o quarto. Quando cheguei lá já podia sentir o desânimo subindo pelas minhas entranhas, então me joguei na cama. Tinha preparado aquela noite para comemorar meu aniversário e para recompensar a paciência dele pela espera incansável pela minha... Será que tinha um nome para isso? Olhei para o relógio do criado-mudo, meia-noite, eu estava com oficialmente 29 anos e nunca havia feito sexo com um homem. E eu sabia como ele ficava frustrado com isso. Mas sempre havia algo que não me deixava sentir confortável quando estávamos quase lá. Eu não era virgem por falta de oportunidades. Minha adolescência até foi cheia delas, mas sempre havia algo errado. Não era medo de minha parte, mas parecia que tinha algo que não se encaixava. Algo parecia errado e eu não entendia o que era. Não que eu fosse perdidamente apaixonada por ele, mas gostava de ter aquele homem gostosão grudado em mim. Mas tudo estava dando errado para mim ultimamente. Meu novo emprego estava uma droga, além de ganhar um salário miséria, minha chefe havia decidido pegar no meu pé. Depois perdi minha renda extra com minha dispensa da banda, e agora, essa atitude de Alex. Ainda para coroar a noite de aniversário tinha Viviam que viria me buscar. Poderia chamar isso de um golpe brutal do destino. Ela não gostava de mim desde que havia sido apresentada por ele, e nesse caso posso dizer que foi antipatia mútua à primeira vista. Só que eu era mais tolerante porque os dois eram amigos desde a infância. E eu suspeitava que ela queria que fosse algo mais que amizade entre eles. Não gostava dessa garota, mas não podia escolher os amigos que vinham no pacote junto com meu namorado. Droga de festa! O quê iria vestir? Eu não tinha fantasias de Halloween e a essa hora as lojas de alugueis já estavam fechadas. O que eu iria fazer agora? Mas quando meus olhos deram de cara com meu baixo largado no canto do quarto, uma idéia sorriu em minha mente. Há uns três meses atrás Gordon tinha decido repentinamente presentear todos da banda com presas falsas de vampiro. Ele queria deixar a banda com um clima mais "pesado". Ninguém tinha gostado da ideia porque era muito clichê, só que ele era o líder da banda e estava arcando com as despesas, então todos acataram a excentricidade dele. E Gordon tinha mestrado em coisas excêntricas, bastava dar uma olhadinha no seu guarda-roupa que logo já se entendia do que eu falava. Ele se parecia com o Drácula às vezes. Nunca chegamos a usar as tais dentes de vampiro porque Gordon descobriu que a banda concorrente já usava e os tais dentes foram parar no fundo do armário. Àquela hora da noite era minha única opção. Iria vestida de vampira, agora era só tentar decidir qual roupa usar e descobrir onde estavam esses dentes.

Abri as portas do meu armário e o encarei por um momento. Elas estavam provavelmente na parte do armário onde ficam as coisas que não uso mais, e esse resgate seria quase uma Missão Impossível, mas sem o Tom Cruise. Não hesitei e abri a porta daquela parte do meu armário e comecei a procurar pelas caixas, malas e sacolas. Do meio daquele mar revolto consegui resgatar os dentes falsos e também uma mini saia preta de couro falso que cairia como uma luva para minha fantasia improvisada. Combinei a saia com uma blusa vermelha de caveiras que deixa meus ombros à mostra, e para completar o look, optei por uma meia arrastão preta com um coturno preto de sola alta que só usava nos shows da banda. Atirei as peças sobre a cama e fui separar meu casaco preto longo. Botei o casaco sobre minha cadeira enfrente à penteadeira e atirei meu robe na cama e comecei a me vestir. Quando terminei fui até o espelho e me encarei de traje completo. Estava gostando do que via refletido ali, agora só faltava terminar de me maquiar e colar as presas falsas nos caninos. Iria ser perfeito!

Assim que terminei e me dei por satisfeita com a imagem refletida no espelho, escutei a campainha tocar. Deveria de ser Viviam para minha infelicidade. Fui até a porta e espiei pelo olho mágico. Era a própria. Tirei a tranca da porta e destravei a chave. Viviam entrou apressada e jogou seu casaco de lã e a bolsa em cima de mim.

- Preciso urgente de um banheiro!

- Primeira porta a direita no corredor. – Mal terminei de falar e ela já havia sumido da minha frente fazendo sua fantasia farfalhar com o peso dos paetês costurados nela. Joguei o casaco dela no sofá junto com a bolsa e esperei o seu retorno. Afinal que fantasia mais espalhafatosa era aquela de Viviam? Não tinha conseguido ver nada além de paetês furta cor pendurados que farfalhavam quando ela se movia. Enquanto ela estava lá terminei de fechar o apartamento e voltei para sala. Pelo farfalhar dos paetês Viviam estava voltando.

- Droga de chá para emagrecer! Não paro de ir ao banheiro desde que comecei a tomar. Espero que ele não me atrapalhe durante a festa. Essa pocilga de prédio que você mora decidiu parecer um freezer hoje! – Viviam que há poucos segundo exibia um sorriso convencido agora me encarava de cima a baixo com o cenho franzido. – Que fantasia é essa? – Sorri para ela revelando minhas presas. – Dentes de vampiro? Como... Deixe para lá! Não temos mais tempo para mudar essa sua fantasia medonha. Alex não vai gostar nem um pouco dela...

Minha fantasia medonha? Quase tive um infarte quando vi a dela! E eu é que estava sendo considerada a medonha! Viviam vestia um vestido longo meio branco todo bordado com os ditos paetês furta cor que farfalhavam. Ela parecia um ogro num vestido de festa. O vestido era tão justo que revelava todas as gordurinhas que ela tentava manter escondidas e presas sob a cinta redutora que ela usava por baixo do traje e ainda terminava numa cauda de sereia presa na lateral. Ela havia matado minhas boas lembranças do filme da pequena sereia. Aquele vestido realçava o que ela tinha de pior. Ela agora me encarava.

- O que foi? Tem algo de errado com minha fantasia?

- É linda! - Disse eu tentando disfarçar meu susto, enquanto na verdade pensava "Você parece o monstro de marshmellow do filme dos caça fantasmas. Sua fantasia é tão linda que faz o Hellraiser parecer uma miss", mas não tive coragem. Afinal ela era amiga de Alex e ele já estava chateado comigo.

- Obrigada, agora vamos! Não quero me atrasar para o grande evento da noite.

- Evento? Vai ter alguma apresentação especial durante a noite? – Será que ele havia me preparado uma surpresa de aniversário? Iria ser um sonho se fosse isso.

- É. Algo assim. - Aquele corvo se pronunciou mais uma vez no lado de fora do prédio que até senti um arrepio subindo pela espinha.

A expressão de felicidade dela também me dava arrepios por algum motivo desconhecido. Só esperava chegar com minha sanidade intacta até a festa, pois agüentar ela reclamando e espalhando seu veneno por tudo era uma tarefa difícil, ainda mais sem poder retrucar. Uma lufada de vento gelado nos atingiu assim que saímos no corredor, então estreitei meu casaco e fomos para o carro.

Viviam ficou resmungando e reclamando durante todo o percurso até chegarmos à festa. Nunca me senti tão feliz por sair de dentro de um carro, ninguém merecia ficar ouvindo tudo aquilo num período tão curto de tempo. A casa onde estava acontecendo à festa estava bem a caráter com o tema. Fiquei encantada com o cenário. Precisava dar um crédito positivo a Alex por ter escolhido aquela festa. Era um enorme casarão de dois andares que parecia saído de um filme de terror B e com direito a teias de aranha falsas penduradas por todos os lados. O lugar era grande e estava praticamente lotado, podia escutar da onde estava a música alta e burburinho das pessoas conversando. Sempre gostei de Halloween desde pequena. Sentia uma conexão com a data por mais maluco que isso soasse. Não por ser a data de meu aniversário, mas sempre gostava de ver as pessoas fantasiadas fingindo serem o que não eram, e porque também era a época que na televisão passava direto filmes de terror. Sempre gostei de filmes de terror, principalmente daqueles onde apareciam criaturas que não existiam no mundo real, como vampiros e lobisomens. Filmes de vampiro eram os meus favoritos. Estava tão distraída com os meus pensamentos que me esqueci de esperar por Viviam, que vinha logo atrás de mim com sua adorável carranca. Novamente um vento gelado soprou me fazendo sentir frio. Estranho um frio assim nessa época.

- Você poderia ter me esperado sair do carro... – Reclamou mal-humorada.

- Desculpe Viviam, acho que me contagiei com o clima da festa.

- Hmm... Vamos. Alex ficou de nos encontrar no bar.

Segui logo atrás dela. Pelo caminho topei com diversos fantasmas, múmias, Dráculas, Cleópatras, Jedis, Césares e por mais incrível que pareça tinha até um cara vestido de Jesus cercado por três "apóstolos". Cada louco com sua loucura! Assim que chegamos ao bar fomos atendidas por um charmoso barman vestido de cowboy. Não queria nada alcoólico, mas acabei optando por uma taça de vinho tinto, afinal era meu aniversário e já que Alex e Viviam pareciam ignorar esse fato decidi que iria ser uma das formas de comemorá-lo. Viviam fez uma cara de nojo quando ouviu meu pedido para o barman. Ela pediu o de sempre, duas doses de tequila. Assim que fomos servidas Viviam virou as duas doses uma atrás da outra e me disse apressada:

- Banheiro! Fique aqui esperando por Alex! – E saiu dali quase correndo com seu vestido farfalhante de sereia em busca do banheiro. Deveria de ser o tal chá para emagrecer que estava fazendo efeito novamente. Bem feito! Abri a bolsa e peguei dinheiro para pagar a bebida. Tomei meu vinho e comecei a observar o lugar. Naquela área do bar havia bastante gente que tinha se afastado das pistas de dança para poder conversar melhor. Nem todo aquele burburinho conseguia tirar da minha cabeça a atitude grosseira de Alex comigo. O que aconteceu para deixá-lo daquela maneira? Eu imaginava que fosse a história da virgindade a razão, mas já havíamos conversado sobre isso. Isso para mim era como ter um esqueleto no escondido no armário. Um esqueleto que eu pretendia me livrar ainda esta noite. Senti um arrepio na espinha e tive a impressão que havia algo de estranho com o ar. Dei de ombros, deveria de ser ansiedade pelo que aconteceria esta noite. Tomei o restante do vinho que tinha na taça e a coloquei de volta no balcão. Era um absurdo quererem cobrar alguma coisa por ela, mal dava para encher meia lata de refrigerante!

Senti novamente um arrepio estranho subir pela espinha, e olhei ao redor para ver se não tinha uma janela aberta, mas não vi nenhuma. Estranho. De repente tive a sensação de estar sendo observada, será que Alex havia chego? Resolvi ignorar aquilo. De repente me lembrei de uma coisa que Viviam havia deixado escapar quando foi me buscar, era algo sobre um evento. O que seria? Nada por ali indicava que aconteceria algo especial.

- Penny? – Perguntou uma voz conhecida. – O que você faz aqui hoje?

Quando me virei para trás dei de cara com Gordon. Ele também usava as presas falsas de vampiro e se vestia no estilo gótico como sempre. Mas hoje ele havia se superado, eu nem sabia como descrever sua roupa. Mas para ele isso era normal porque era gótico. Estar podendo usar livremente seus dentes de vampiro deveria de deixá-lo super feliz, afinal ele era aficionado sobre o tema.

- Pois é... Aqui estou eu.

- O que uma bela vampira faz aqui sozinha bem no dia do seu aniversário? Achei que você teria algo mais interessante para fazer do que vir parar nessa festa.

- Não vim sozinha, meu caro Nosferatu. Viviam me trouxe aqui. – Gordon fez um cara de nojo. Ele também não suportava ela.

- Isso não me parece algo muito bom... Acho que passar sua noite de aniversário sozinha com ela seja algo... Muito legal. – Disse ele se chegando para mais perto.

- Com certeza não! – Sorri para ele que me encarava de maneira estranha. O que ele tinha hoje? – Alex vai nos encontrar daqui a pouco.

- Sabe de uma coisa, você está muito bonita hoje, Penny. – Disse ele acariciando de leve uma mecha dos meus cabelos. – Caso ele não aparecer... Você sabe... Vou estar por aqui à noite toda... – E chegando mais perto de mim sussurrou no meu ouvido. – Você fica muito mais bonita com essas roupas...

O que era isso? O mundo enlouqueceu, ou era impressão minha que Gordon estava dando em cima de mim?

- Ok... Qualquer coisa nós nos esbarramos por ai... Ah! Acho que, Viviam, está voltando. - Aquilo fez Gordon desaparecer dali feito uma assombração. Ele odiava Viviam desde que a conheceu. Ela já havia feito algumas investidas para conseguir ficar com ele, mas ele havia escapado de todas ileso. Ele chamava Viviam de criatura horrenda, mas nunca contei para Alex isso, senão ele iria querer defender a "honra" de Viviam. Logo a visão daquela apoteose de paetês farfalhantes se tornou visível. Ela estava se espremendo no meio das pessoas e não parecia muito feliz, aparentemente estava se engalfinhado numa discussão como um lobisomem de mãos bobas. De repente tive a nítida sensação de estar sendo observada por alguém quando o barman me empurrou mais uma taça de vinho e depois apontou para o outro lado da sala.

- Com os comprimentos do cavalheiro do outro lado da sala. – Disse o barman apontando para um canto afastado e mal iluminado onde um homem alto estava encostado. Não pude ver muito bem como ele era devido à falta de iluminação, mas ele parecia ser bem alto de ombros largos e ter cabelos escuros, e erguia a taça em minha direção num comprimento. Lembrava até um galã de Hollywood. Olhei espantada para o barman.

- Pegue, já está pago mesmo. – E dando um olhar de soslaio para Viviam que tentava chegar até ali completou. – Não serei eu a dizer alguma coisa para a sua amiga antipática. – Ele virou as costas e foi atender outra cliente. Decidi aceitar o vinho e a ergui em direção ao estranho em agradecimento. Pude notar que ele sorriu discretamente em resposta. Fiquei muito grata por ele não ter feito a menção de vir até o bar para falar comigo. Seria um caos.

- Credo! Outra taça dessa coisa nojenta? - Viviam havia conseguido chegar ali e estava completamente irritada.

- Alex ainda não apareceu?

- Não. – Respondi eu. – Ele não disse para você a que horas ele iria chegar?

- Ele já deveria de estar aqui quando chegamos.

Ok, aquilo era estranho. Alex não tinha por costume se atrasar para qualquer compromisso que fosse. O que sempre era um problema para mim. Mas o que será que estava atrasando ele? Uma ideia me passou pela cabeça. Seria essa a tal surpresa da noite? Não! Será que ele estava realmente planejando uma surpresa de aniversário para mim? Tentei disfarçar meu entusiasmo repentino, mas não consegui controlar o sorrisinho de contentamento que surgiu em meus lábios. Viviam que agora estava ocupadíssima devorando os amendoins servidos de petisco no bar resmungou algo que não entendi direito:

- Eu não sorriria assim se fosse você... – disse ela de boca cheia olhando ao redor e apontou para a entrada do bar. Logo vi uma expressão de felicidade no rosto dela. – Ele chegou.

Enquanto meu olhar se dirigia a porta não pude deixar de notar que meu estranho admirador não estava mais ali, mas tudo isso foi esquecido quando vi Alex. Ele estava simplesmente lindo vestido de detetive dos anos 50, ou seria 60? Seu cabelo loiro claro arrumado num topete com gel e seus lindos olhos azuis brilhantes. Foi impossível não lançar um enorme sorriso de alegria, alegria essa que foi desaparecendo quando vi que uma loira do tipo top model seguia logo ao lado dele vestida numa fantasia que combinava com a dele. Será que era algum parente dele? Senti toda a minha animação se esvair do meu corpo no momento que vi que eles estavam de mãos dadas. Olhei incrédula para Viviam, que se absteve de soltar qualquer comentário e apenas me lançou um sorrisinho sarcástico. O que estava acontecendo? Quem era aquela mulher, e porque meu namorado estava de mãos dadas com ela?

- Boa noite, Penny. – Disse ele sorrindo com um brilho maldoso no olhar. – Deixe-me apresentar, Cristina. – Fez uma pausa e me olhou bem nos olhos. Pude sentir uma ponta de satisfação em sua voz quando terminou de falar. – Minha namorada.

A garota me olhava de cima a baixo com aquele olhar de desprezo como se eu fosse menos que uma barata. Olhei incrédula e chocada para ele. Aquilo não poderia estar acontecendo, eu deveria de estar num episódio do Twilight Zone. Será que era alguma pegadinha? Se fosse, era algo de muito mau gosto.

- Eu sou sua namorada, e não ela. - Disse automaticamente.

- Não Penny, você não é mais.

- Como assim não sou mais?! Desde quando? – Eu não podia acreditar no que estava acontecendo, era muito pior do que um filme B dos anos oitenta.

- Desde que você transformou nosso namoro algo insuportável, Penélope. – Ele falou aquilo ferozmente entre os dentes para mim. Aquilo me chocou e me magoou ao mesmo tempo.

- Como você pôde? – Balbuciei. – Como você pode fazer isso comigo, e justamente hoje? Por quê? – Já podia sentir as lágrimas se formarem em meus olhos. Alex me segurou com força pelo braço e me ergueu para perto dele ameaçadoramente.

- Por quê?! Você ainda me pergunta o porquê, Penny!? Você é burra, ou cega por acaso?

- Alex... Por favor... Você está me machucando.

- Não me importo com isso! – Disse ele me largando bruscamente. Aquela altura algumas pessoas já haviam se juntado ao nosso redor para ver o que estava acontecendo. – Você não consegue entender a razão? Então vou te explicar com uma única palavra: SEXO. Aquilo que você nunca fez comigo.

O tom amargo que ele usou demonstrou a extensão de sua raiva. Se estivéssemos um filme de terrortrash, eu diria que naquele momento ele iria se transformar num monstro de olhos vermelhos. Mas pelo seu olhar, aquilo ainda não havia acabado.

- Ah! Srta. Virgindade, quero aproveitar para perguntar uma coisinha para você. Esse seu papinho de mulher virgem é real, ou na verdade você é algum tipo de mulher frígida?

Aquilo me chocou. Foi a cereja do bolo. Jamais imaginei que ele pudesse me tratar daquela maneira. Todos ao redor olhavam para nós e cochichavam. Nunca tinha visto aquela maldade em seus olhos antes. A top model varapau ao lado dele ria se deleitando com a minha humilhação, e Viviam sentada no bar só faltava voar pelo ar de felicidade. Não podia suportar aquilo. Era humilhante demais. Então fiz a única coisa que veio em minha cabeça naquele momento, fugir. Saí dali correndo feito uma criança pequena que brigou na escola. As lágrimas corriam livres por meu rosto. Estava humilhada, envergonhada e de coração partido. Queria apenas sair dali. Enquanto corria esbarrei no enfeite de uma das passagens entre os ambientes e engatei minha blusa nele. Droga! Como as lágrimas não me deixavam enxergar direito para me soltar e dei um puxão brusco na blusa que acabou se rasgando com o excesso de força. Minha barriga acabou ficando parcialmente a mostra, então aconcheguei mais o casaco que usava em torno de mim e continuei minha rota de fuga.

- Penny! Ei! Você está bem? Espere ai!!!

Escutei que alguém me chamava, mas não parei para ver quem era só queria sair dali. Desaparecer da face da terra! E continuei a correr sem rumo.

- Peennny! Volta aqui!

A pessoa continuava a me chamar, tive a impressão de que era Gordon pela voz, mas não queria olhar para trás, não queria ninguém comigo. A única que queria ali eu não poderia mais ter. Já faziam anos que minha mãe havia morrido, e anos que eu não tinha mais ninguém. Não tinha amigos que pudesse confiar ou requerer, não mais tinha ninguém. Apenas eu mesma. A dor e o vazio que eu sentia por dentro eram tão grandes que minha vontade era morrer. Sumir do mundo. Por que Deus? Por que isso estava acontecendo comigo, e justo no meu aniversário?As lágrimas eram tantas que toldavam minha visão que acabei tropeçando em algo e caí quase de boca no chão. Não tinha a mínima ideia de onde estava, mas provavelmente estava longe da festa porque não ouvia mais a música ou burburinho das pessoas. Sentei ali mesmo no chão e olhei ao meu redor. Era um terreno meio abandonado todo tomado pelo mato alto, fora onde eu estava, que ficava próximo a um parque de diversões. O parque já estava fechado àquela hora da madrugada.

- Penny! Espera!

Me virei para trás e, vi Gordon correndo em minha direção. Deus, ele tinha presenciado aquela cena de horror também! Quando chegou ele estendeu o braço e me ajudou a ficar de pé novamente.

- Você está bem? Eu vi o que aquele otário fez, por isso vim atrás de você.

Eu queria me desintegrar ali mesmo, mas nem consegui falar nada, as palavras não saiam.

– Minha pobre menina... – Disse ele me abraçando e alisando minhas costas. – Quer que eu te deixe em casa? – Apenas acenei com a cabeça que sim. – Se quiser, você pode até ficar na minha casa também... Sabe, para não ficar sozinha essa noite. Vou pegar o carro, me espere aqui. Não demoro.

Era Halloween e eu estava sozinha no meio do nada num lugar completamente desconhecido. Era meu aniversário e tinha sido enganada e humilhada por meu namorado. Melhor ex-namorado. Agora também tinha Gordon que estava dando à entender que queria tentar a sorte comigo. O que mais faltava me acontecer?

Olhei ao me redor e não havia mais nenhuma alma viva pelo local. O medo começou a surgir com um frio na barriga junto com a sensação que estava sendo observada novamente. Um trovão cortou o céu com um estrondo deixando um facho de luz contrastando no céu escuro, o vento frio soprou fazendo minha pele se arrepiar. Ótimo. Iria chover para completar minha noite. Me abracei apertando mais meu casaco ao redor do corpo para tentar me aquecer. Tinha que sair dali. Mas para que lado? A sensação de medo aumentava cada vez. Será que Gordon ainda iria demorar muito? Não sabia se era uma boa idéia ficar sozinha num carro com ele. Mas não tinha outra opção no momento. Estava perdida nesse pensamento quando senti algo frio tocar meu braço através do casaco. Um arrepio percorreu toda minha espinha eriçando todos os pêlos do meu corpo. Olhei ao redor, mas não vi nada. De repente senti um vulto enorme passar ao meu lado. Fiquei morrendo de medo, aquilo não me parecia nada bom... Então comecei a caminhar em direção ao parque. Senti o vulto passar por mim novamente e acelerei o passo. Senti meu coração pronto para saltar fora do peito quando uma voz me perguntou:

- Onde você pensa que vai?

Estaquei na hora quando o vulto se materializou diante de mim feito mágica. O homem na minha frente parecia ser o cara que me pagou a bebida na festa. Ele era muito alto, mais alto do que Alex com seus 1.80m, e tinha olhos verdes penetrantes fixos em mim. Deus, o que eu iria fazer agora? Tinha que dizer alguma coisa, qualquer coisa que fosse.

- Porque, você, quer saber? – A pergunta era idiota, só eu estava apavorada demais para pensar em algo melhor. Ele apenas riu jogando a cabeça para trás e depois me encarou novamente.

- Me interessa muito saber aonde você vai... Afinal, tenho "assuntos" a tratar com você minha cara... – Ele se aproximou mais de mim pegando no meu braço. O medo tomou completamente conta de mim quando ele sorriu e, pude ver um par real de presas de vampiro surgirem do nada em sua boca feito um filme de terror. – O que foi? Algo está te assustando minha querida? – Perguntou ele com sarcasmo.

- Quem, ou melhor, o que é você?! – Eu sabia muito bem o que ele era, mas não podia acreditar no que via. Estava completamente apavorada.

- Isso não é meio óbvio? Mas vou deixar as coisas mais claras para você, eu sou um vampiro. Um vampiro de verdade.

Quando abri meus olhos, demorei um pouco para me localizar. Eu sabia que estava numa cama, mas não consegui identificar aquele quarto. Havia sonhado com a noite de Halloween e isso mexeu comigo. Foi como assistir um filme de terror em 3D. Mas dessa vez não pude deixar de notar que aquela coisa que me atacou hoje, seja lá o que fosse, também esteve na festa de Halloween. Só que lá, não havia me encontrado. Senti um arrepio querendo subir pelas costas, mas o afastei sacudindo os ombros. A lembrança de meu encontro com Gabriel também estava lá. Pensar nele, por algum motivo, me fazia sentir segura. Um aperto no estômago me chamou atenção e um forte cheiro de ervas invadiu minhas narinas. Logo em seguida a voz do Sr. Blacksmith se fez presente.

- Sente-se melhor agora, Srta. Stormbreaker? – Fui me ajeitando para me sentar naquela cama enorme enquanto minha visão entrava em foco novamente. Afinal, onde eu estava?

- Sim... Que lugar é esse? – Perguntei olhando ao redor e percebendo que se tratava de um quarto muito bem decorado, como nas revistas que via nas bancas. – Meu estômago dói.

- Imaginei que acordaria assim senhorita, é normal isso no começo, ainda mais com a magia forte que corre em suas veias. Nunca havia visto a magia correr assim forte em uma bruxa sem experiência. Agora, beba aquele chá. – Disse o velho apontando para a xícara fumegante sobre o criado-mudo ao lado da cama. Era de lá que vinha o cheiro de ervas. – Beba tudo. Irá sentir-se melhor. – Obedientemente bebi o chá e senti um alívio quase que imediato.

- O senhor ainda não me respondeu, que lugar é esse? – O velhinho sorriu para mim revelando um sorriso cheio de dentes perfeitos e branquinhos, mas tive a nítida impressão de ter algo errado ali naquele sorriso. Só não sei o que era.

- Sua nova casa senhorita, e este é seu quarto. - Com absoluta certeza eu estava com cara de idiota naquele momento. Aquele quarto saído de alguma revista não poderia ser meu. O homem riu de maneira discreta. – Como a senhorita havia me pedido, entrei em contato com Sr. Adrastus. Ele a aguarda na parte de baixo. Gostaria que o chamasse? - Quem diabos era esse? Olhei com uma indagação no rosto para o Sr. Blacksmith, mas logo minha resposta se materializou.

- Não há necessidade de me chamar, Blacksmith, já estou aqui há algum tempo. E sua nova patroa não tem cerimônias comigo. – Disse ele dando um sorriso debochado. Ele olhou diretamente para mim nessa hora só para poder ver meu rosto vermelho.

- E como você pode ver, ela está ansiosa para ficar à sós comigo. Veja só como ela está enrubescida de antecipação por nosso encontro. – Eu queria socá-lo de tanta raiva!

- Senhorita? - Naquele momento aquele senhor me encarava com seriedade. Meu rosto deveria de estar um pimentão. Minha vontade era arrancar aquele sorrisinho sarcástico do rosto dele. – Tem certeza que não quer que eu fique? Estou a dois quartos daqui. – Disse ele lançando um olhar desconfiado para Gabriel.

- Não se preocupe, está tudo bem. Ele só está brincando. – Disse eu entre os dentes soltando um dos meus melhores olhares mortíferos para Gabriel.

- Tudo bem então. – Disse o Sr. Blacksmith já se encaminhado para a porta. – Amanhã cedo mandarei chamá-la. Teremos um dia bastante cheio. – E saiu dali fechando a porta.

- "Amanhã"? – Foi então que percebi que já era noite quando olhei pela janela.

- Sim. E graças à você, meu sono foi interrompido, o que não gosto. Já pensou em como irá me compensar?

Compensação? Ah, esse... esse idiota arrogante ainda vai ver a compensação que vou dar para ele!