Capitulo 1: Primeiro encontro

Rosie POV

Com tantas lembranças e justo uma das mais queridas me vem na cabeça. Em meus dezoito anos de idade, nunca me ocorreu acontecer algo tão maravilhoso e... Inesquecível.

Eram 1964, meus ídolos, Os Beatles tinham partido em sua turnê na América e acredite, rolaram muita coisa boa por lá.

América. Uma terra tão desconhecida para mim. Bom, nem tão desconhecida assim. O fato é que depois da turnê, veio o tão esperado filme e depois sua volta à Inglaterra. Nem é preciso dizer que isso me deixou muito feliz, pois me deixou mesmo.

Julho de 1964. Adoro o verão inglês. Sinto-me livre e leve como um pássaro. E também nesta época do ano que libero meu lado cultural. Sou pintora e tudo que é belo, consigo projetar lindas imagens e selecionar as melhores cores para uma grande moldura. Pintei diversos quadros da família, dos amigos, da vizinhança, para trabalhos do colégio e principalmente, pintei do meu grupo favorito. Mais especificamente de John Lennon. Cada dia mais amava esse homem. Ás vezes me surpreendia com minhas atitudes. Tratava aquela situação como algo sério. Tipo, como se eu fosse à esposa legítima dele e não a tal de Cynthia Powell. Afinal de contas, o que ele viu naquela mulher para escolhe - lá e não eu?

Perguntas assim nem o Freud conseguiria me dar uma resposta plausível.

Naquele mês, minha extravagante e divertidíssima Tia Julia veio nos visitar em Liverpool.

Minha Tia é demais. Nas suas passagens no nosso bairro, o Burttonwood, ela sempre conta as grandes novidades e aproveita para fazê-lo uma espécie de turnê artística no bairro e na cidade toda.

Como artista plástica á lá Yoko Ono (mas não chega ser tão doidona como a "japa-girl"), não poderia perder essa.

Enquanto minha mãe conversava com a tia Julia, Vivian e eu ficamos no quarto, ouvindo o papo.

-- Mana, sobre o que elas conversam tanto?

--Sei lá, Vivi. Rotina ou aqueles papos de comadre e vovózinha.

Diferente das anteriores, essa parecia ser um assunto muito importante por que a tia tinha na voz um tom meio de súplica e mamãe com cara de poucos amigos.

Para nossa surpresa, a porta se abriu e nós as irmãs saímos de perto. Disfarçamos com uma função no quarto: eu estudava na cama e Vivian escutava o disco dos Beatles na vitrola e lia um gibi de super herói.

Mamãe resolveu me chamar.

-- Rosie. Venha aqui!

Obedeci e ai...

-- Querida sobrinha, falei com sua mãe se você pode me ajudar na minha galeria de arte e consegui a permissão.

Aquilo era realmente muito bom. Desejava muito auxiliar minha tia na galeria e também tinha oportunidades em expor minhas obras.

Mas a coroa não se deu por vencida.

-- Uma condição: Não quero Rosie envolvida em festinhas de artistas ou coisa assim!—Advertiu Martha (é a minha mãe) para Julia.

Pelo visto a desconfiança ficou meio no ar.

Uma semana depois comecei meu intenso trabalho na galeria. A tia gostava de pintar tudo que estivesse relacionado aos dias de hoje. Por isso seus recentes quadros falavam tudo sobre os jovens e o conceito do rock ' n' roll.

Enfim consegui junto postar meus quadros. Bom, selecionei os melhores. Uns continham desenhos abstratos, outros eram traços semelhantes aos desenhistas japoneses.

Como estou em minhas férias de verão no meio do semestre, tinha muito tempo em cuidar do local e supervisionar as visitas.

Estava limpando alegremente os quadros da tia e cantarolando quando não dei por conta, uma pessoa tinha entrado na galeria. O barulho dos passos dele me "acordaram". Olhei de soslaio e vi que era um rapaz alto por volta de seus vinte e quatro anos, terno preto e um penteado meio desgrenhado, mas arrumado e charmoso.

Até aí estava legal e voltei ao meu serviço. Novamente aqueles passos barulhentos. Fiquei com medo de o indivíduo ser um assassino serial que se vestia com classe ou fosse um seqüestrador.

Não era um, nem outro. Ele se aproximou de mim e fez um comentário educado.

--Meu próprio rosto ganhando formas de desenhos nipônicos. Queria saber quem me desenhou?

Esse tipo de pergunta inflamou meu ego, de verdade e no meu impulso temperamental, olhei para ele e tudo que queria fazer era surtar como uma verdadeira frenética nos shows. A pessoa que deseja me agradecer pela obra era ninguém menos do que John Lennon. Sim, meu amado John!

--Fui... Fui... Fui eu, senhor Lennon. —Gaguejei. Que droga. Odiava gaguejar assim na frente de alguém tão importante.

Ele me olhou bem fundo nos olhos como se quisesse certificar que era eu mesmo que o desenhei.

--Hei! Eu te conheço. Você é aquela menina lá no Palladium que não gritou feito doida e me pediu um autógrafo com classe. – Disse sorrindo para mim.

-- É, sou eu.

-- Você é uma artista e tanto. Essas pinturas são suas?

-- A metade delas é minha. A outra é da minha tia, a dona da galeria.

-- São muito fascinantes esses desenhos.

-- São mesmo.

E ali ficamos conversando de obras de arte, habilidades no desenho e outros. Notei que Lennon me olhava com certo ar de segundas intenções. E eu tentei esconder minha insegurança com meu sorriso. No final, John me deu uma rosa vermelha com uma página de caderno escrito algo. Ele me deu um beijo na bochecha e sussurrou no meu ouvido:

-- Queria tanto te reencontrar mais uma vez. Até mais, Rosie.

Fiquei vermelha na hora e me despedi dele. Abri o bilhete e li o que estava escrito:

Desde o show no Palladium, não parei de pensar em você.

Seus olhos verdes e seu sorriso se tornaram minha inspiração.

Adoraria poder te ver só uma última vez antes da minha partida para Londres.

Av. Saint Julius, 12, Liverpool Blue Stars Hotel

Um encontro?! John Lennon me propondo um encontro? Nossa! Isso sim era inusitado mesmo.

Continua....