O Castelo__ Maya Amamiya

O sinal de fim do período escolar toca. Os alunos da Faculdade Estadual saiam apressados, como se tivessem compromissos a serem feitos ainda naquela manhã de quinta-feira. Deveres ou não, isso não importava para a estudante Vera Gonçalves. Nunca gostara de História, mas a pedidos e insistências do pai—um professor aposentado—acabou por ceder aos estudos. De inicio foi uma grande barra enfrentar a concorrência no vestibular. Depois as coisas foram ganhando um eixo próprio, na qual Vera teve de se acostumar tanto com novos horários quanto ao equilíbrio da vida social.

Enquanto seguia para o terminal de ônibus, a estudante pensa qual tema será para o próximo relatório, um trabalho maçante para a faculdade. Mesmo valendo uma grande nota para o semestre, não estava realmente preocupada. Era uma grande aluna. Sua fama de geniosa se espalhou por todo canto da faculdade. Inclusive para os alunos de nível intelectual um pouco mais avançado. Inteligente, dedicada, mas totalmente despreocupada.

Embarcou no transporte sem muito ânimo. Pensou em todas as possibilidades de um bom ensaio histórico e tudo em vão.

"Quem sabe escreva sobre lendas gregas". Idéia sugerida por seu amigo e colega Daniel Canabarro. O jovem já tem um tema em mente: falaria sobre a Paz de Ponche Verde, o famoso tratado de paz onde o Rio Grande do Sul terminava com a guerra contra o império.

Mais uma vez perdida nos devaneios, em uma parada perto da sinaleira, Vera resolveu olhar um ponto que lhe despertou a atenção. Tratava - se de um castelo medieval, perto do cruzamento da Rua Fernando Machado com a Vasco Alves.

Aquele castelo era perfeito. Com certeza tinha muitos fatos a serem contados e com uma boa análise e pesquisa, era possível redigir por umas dez ou vinte folhas um excelente texto relativo sobre aquela moradia feita de pedras e com ares da Idade Média.

Chegando a casa, almoçou rápido, trocou de roupa e ligando o notebook, buscou por pesquisa rápida tudo sobre o famoso castelo. O celular toca. Era Daniel.

Empolgada, atendeu o chamado do amigo.

-- Tenho grandes novidades.

-- Já sei! Conseguiu tema legal para o trabalho, não é?

-- Espertinho!

Riram no telefone sobre os comentários. Daniel falava mais uma vez sobre os resultados de sua procura sobre o tratado de paz do Sul Brasileiro. Curioso em saber qual assunto sua amiga vai escrever, arriscou na pergunta:

-- Ta e aí? Ainda não me falou sobre o quê vai escrever...

-- É o seguinte: conhece um castelo perto da Fernando Machado?

-- Acho que sim. Não tenho certeza. Ele tem modelo de construção medieval?

--Sim! Então você conhece?—ainda mais animada.

-- Não só conheço como também sei o nome. Chama-se O Castelo Van Drakon. Vai falar sobre isso?

-- Claro que sim, ué. Você sabe que adoro tudo envolvendo Idade Média, castelos e reinados. Puxa, é tão bacana. Porto Alegre possui um castelo! Talvez eu mude de idéia sobre o curso de História.

Dan tremeu a mão que segurava o celular no ouvido. E um calafrio invadiu o quarto do jovem. Não podia acreditar. De tantos tópicos, assuntos e temas, por que justo aquele castelo?

Ninguém se aproximava daquele local por enormes motivos envolvendo assombrações. Não, não podia deixar à amiga fazer a pesquisa sobre ele.

-- Vera tem certeza que vai escrever sobre o castelo do centro?

-- Já falei que sim, tchê! – já se irritando com a insistência de Daniel. –Outra coisa: amanhã irei lá para o meu reconhecimento. Quer ir junto?

-- Nem morto. Aliás, amanhã é sexta-feira 13. Odeio ir a lugares assustadores nesse dia.

Mais risos por parte de Vera.

-- Ai Daniel, meu estimado e medroso colega. Será que é tão difícil entender? É por isso que estudamos História na faculdade. Para comprovar fatos e não lendas e mitos que podem ser falsos. Mas, se não quer ir, tudo bem eu vou sozinha! E agora vou estudar. Até amanhã.

-- Até amanhã—despediu-se sem muita alegria.

O tempo estava sendo favorável para a quinta-feira. Um lindo sol da tarde iluminava toda a Capital inteira. E a noite chegou de forma rápida e com direito a uma linda lua cheia.

Arrumando tudo para amanhã, Vera mal podia conter de animação. As coisas estavam saindo muito bem e a sorte estava do seu lado.

O estado amanhece... Com nuvens brancas e sem possibilidade do astro-rei. Depois de tomar café, a garota pega seu material, despede dos pais e sai em direção à parada de ônibus. Nem foi preciso uma espera de longos minutos. Embarcou no primeiro já estacionado. Calculou o tempo exato. Dentro de quinze minutos estaria na Rua Fernando Machado. No entanto, pensou em Daniel.

O amigo não gostou da decisão dela para uma visita no Castelo Van Drakon, o lugar mais assombrado de Porto Alegre. Mas agora não era o momento de lamentações.

E sim para um profundo estudo sobre o lugar. Reconheceu o ponto de desembraque. Deu o sinal e depois desembarcou sem problemas. Atravessou duas ruas com calma e caminhando nas duas quadras, o local já este bem a vista.

Do outro lado da rua, Daniel desembarcava de outro ônibus e viu sua amiga entrando no castelo. Decidiu alcança- lá na correria mas com movimento daquela avenida, dificultou as coisas.

Não estava nem um pouco magoado pela irritação dela. Mas sim preocupado com que pode acontecer. Muitas pessoas já entraram lá e nunca mais voltaram. Já houve casos de desaparecimento de crianças que entraram e depois não se souberam notícias.

Quando estava prestes a atravessar a rua, uma mão tocou seu ombro. Era o professor Teixeira Nunes.

--Hei Daniel, o que houve para estar tão assustado?

Assustado e nervoso, Dan justificou:

--Vera... ela... entrou... no castelo.

*Sugestão da autora: a partir desta parte, leia e ouça junto à música Nymphetamine, do Cradle of Filth.*

O primeiro passo foi dado. Vera não sabia ao certo o que sentia. Tudo ali mesmo sendo da Antiguidade, havia uma espécie de medo. E o silêncio parecia contribuir com tudo aquilo.

Viu mais adiante um corredor com três janelas. Sentiu-se segura por algum tempo.

Olhou as pinturas na parede. Todas com retrato de uma mulher loira. Vera logo deduziu de quem se tratava. Era Beatrice Mendes, antiga moradora. Pelas pesquisas vistas no computador, Beatrice era filha única de uma família de políticos respeitáveis. Casou-se com um homem de origem britânica, Patrick Van Drakon. O marido construiu aquele castelo em honra a sua amada, no entanto era muito ciumento e por conta disso a manteve trancada dia após dia.

Enquanto caminhava para explorar mais o local, Vera ainda escrevia seu ensaio histórico. Subiu as escadas e no segundo andar deu de cara com mais um corredor. Desta vez era sombrio. E sem luz. Por sorte levara uma lanterna em casos de emergência. No lado direito, continha três portas.

Como toda curiosa, Vera resolveu entrar na primeira porta. Ao abrir veio de novo aquela fobia. Encontrou uma cama ensangüentada, roupas rasgadas e um cheiro forte de cadáver. Não ficou mais de um minuto ali. Fechou de imediato.

Foi na segunda porta. Foi o maior susto de sua vida. Caiu a seus pés mais um corpo inerte. Gritou de horror por ver aquele homem, vestindo um jaleco todo manchado conter hematomas e cortes profundos no corpo. Correu pelo corredor e entrou sem querer na última porta.

"Por favor, sem nada de assustador...", pensou muito nervosa.

Vera chorou de verdade. Estava realmente com medo. Ela que sempre se julgou alguém que desconhecia as fraquezas humanas, estava ali chorando depois de presenciar cenas um tanto perturbadoras.

O quarto é escuro. Graças à lanterna, Vera pôde iluminar por todo lado. Ouviu um barulho abjeto.

-- Quem está aí?—perguntou

Aparentemente estava tudo normal. O frio no corpo ainda deixava preocupada.

-- Eu desisto! Vou sair daqui. —Falou a si mesma e decidida.

Ao sair do quarto foi surpreendida com um golpe de raspão no ombro. Gritou de dor e medo, mas conseguindo fugir. Olhou rapidamente para trás. Viu uma figura de capa negra segurando uma faca e gemendo de forma horripilante.

Correu até chegar à saída. Vera girou a maçaneta, mas a porta não abria. Como se uma força maior quisesse manter ela junto ao castelo.

Bateu com força na porta e gritou por ajuda.

-- Socorro!! Abram a porta a porta. Quero sair!!!!--- ainda batendo com mais força, mostrando as mãos doloridas e manchadas.

Um milagre aconteceu. A porta se abriu e revelou ser Daniel, o melhor amigo de Vera e o professor Teixeira.

-- Vera, o que aconteceu?—Perguntou Daniel ao ajudar a amiga a se recompor, depois do ataque sofrido.

-- Não quero cruzar neste lugar! Quero ir embora....—e desatou num choro desesperado.

No hospital, Vera teve o ferimento cuidado e com a ajuda da família e de Daniel, conseguiu superar o susto.

Na faculdade, os dois estavam conversando na sala sobre o ocorrido, antes da entrega dos trabalhos.

--Não era minha imaginação. Foi real. Não pude encerrar meu reconhecimento. – lamentou Vera.

-- Pelo menos você sabe o motivo de ninguém chegar perto do castelo. – disse Dan, ao arrumar seus livros. – Logo depois de Patrick Van Drakon abandonar a esposa, Beatrice arranjou um amante. O dentista Hélio Rondelli. Os dois ficaram juntos por dois anos e depois apareceram mortos, com marcas de esfaqueamento. Aqueles que entraram ali nunca mais foram vistos pela vizinhança. A porta trancava automaticamente e perturbados, todos cometiam suicídio e outras práticas de morte.

Vera compreendeu tudo. Os quartos que ela conheceu eram os momentos na qual Beatrice Mendes passou. O primeiro quarto foi o casamento consumado e desgastado, com direito a manchas de sangue. O segundo quarto era o assassinato do dentista Rondelli. E o terceiro quarto era o momento do desaparecimento.

Vera teria remetido a loucura se ficasse mais um pouco no castelo.

Agora mais do que tudo, sabia de uma coisa: o segredo do castelo levaria qualquer um a sua ruína.

Fim

Escrito e finalizado em 13 de agosto de 2010.

Re-editado em 12 de setembro de 2010

N/A: O Castelo Van Drakon não existe. E nem as pessoas citadas também existe. Lenda inspirada na história do Castelinho do Alto da Bronze, em Porto Alegre.

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