Sussurros


Point of View Ananda Montgomery Night


Eu olhava para seu rosto e sabia que isto era errado, sabia que era mais do que errado. Cruel. Como eu podia tortura-lo desta forma? Não dizia eu que o amava? Porque o prendia a mim de tal maneira que ele se visse impossibilitado de me deixar?

Eu só sabia que o amava e que tinha de tê-lo, egoísta, fraca, sei que sou tudo isto e até mais. Vejo a acusação nos olhos dos outros enquanto não consigo me desligar deste amor triste e fadado á tragédia.

É tão ruim assim amar? Porque eu tenho de amar? Porque tenho de amar ele? Não podia ser feliz com o que tinha? Com aquele que em primeiro lugar me fez acreditar nesta coisa louca e dolorosa conhecida por amor?

Talvez eu devesse ter ficado na ignorância de não acreditar neste sentimento cruel e mesquinho, que só trás dor e mais dor. Porque eu tinha de amar aos dois? Porque eu não podia amar á nenhum deles ou o contrario? Porque eles tinham de me amar?

Tudo o que sei não é suficiente para proteger aqueles á quem eu amo da dor, gostaria de poder envolve-los em meus braços e protege-los da dor que causo e ainda causarei. Gostaria que eles fossem livres, que não me amassem e egoistamente fico feliz que o façam.

Sou cruel, má?

O amor machuca, porque tenho de amar?

Eu vejo-me preso nos olhos deles, tão diferentes um do outro. Um expressando um amor tão cheio de dor e tão impossível o outro me dando segurança e um amor tão... tão cheio de sentimento. Cheio deste cruel e mesquinho amor.

Eu odeio o amor. Eu amo o amor. Eu amo á ambos. Eu odeio o amor que tenho para ambos. Porque fico presa nesta encruzilhada sem saber o que fazer, que caminho seguir?

Certas pessoas contam que existem dois caminhos na vida, um cheio de pedras, perigos e dores. E outro, mais fácil, com joias, felicidade amores. Um é a verdade, outro a ilusão. Mas neste caso me vejo de frente para duas opções com pedras e com joias, com dores e amores. Cada uma delas é única a sua maneira.

Uma delas é como um furacão, bagunçando e levando tudo junto de si, prendendo á todos nele mesmo. Chamando atenção, causando bagunça, rindo, sorrindo.

A outra é como um mar calmo em um por do sol, com sua beleza singela e discreta, com seu atrativo, com sua calma e placidez. Com a segurança e a calmaria.

Tormenta ou calmaria?

Duas opções e uma escolha, me vejo seguindo e voltando, sem rumo e sem saber o que fazer.

Cruel, má, vil.

Eu olho em ambos os olhos e me vejo presa, perdida, apaixonada. Um é a mais pura turmalina, tão brilhante, tão azul. O outro é de um verde-água tão brilhante, tão belo, cheio de sentimento.

Ambos se afastam, dando-me tempo, dando-me uma chance a mais de acabar com a dor de pelo menos um deles.

Me vejo olhando para ambos os caminhos e indo e vindo, sem saber o que fazer. Sinto as ferroadas em meu coração, este órgão cheio de sangue, veias e artérias. Sentir dor nele é errado, é emocional.

É uma emoção na qual não acredito. Amor não existe. É uma farsa. Mentira. Errado. Falso.

Amor pelo que todos contam é cheio de felicidade e beleza, não cheio desta cruel dor, desta indecisão.

O que é o amor?

Olho-me no espelho e vejo a imagem de uma bela mulher, uma bela mulher perdida, sem saber que caminho tomar. Norte, Sul. Direita, Esquerda. Frente, Trás.

Vejo os olhos tão escuros quanto seus sentimentos se encherem de lágrimas traiçoeiras, não havia dito eu que não choraria mais? Porque estas teimosas lágrimas insistem em me inundar os olhos e transbordar?

Egoísta como sou desejo ter á eles para me consolar, me abraçar e dizer que tudo ficará bem. Sei que não vai, sei que pelo menos para um deles nunca mais nada ficara bem.

Olho dentro dos olhos da estranha cheia de dor no espelho, ela me olha triste quase se compadecendo de minha dor. Olho os cabelos negros e toco os meus próprios. Pego uma tesoura e ela espelha meu movimento. Seus olhos escuros suplicam aos meus.

Não faça isso, não assim.

Um sorriso cruel e sádico, triste e zombador aparece nos lábios da estranha ao mesmo tempo que sinto mais uma vez ás lágrimas aparecerem. Ouço o barulho da tesoura cortando um dos cachos de meu cabelo, que ambos meus amores já elogiaram.

Vejo a mexa negra no chão e me apoio na pia querendo gritar e gritar até que esta dor se torne menor. Engulo os gritos deixando somente minha mente protestar.

O que está fazendo? É loucura, pare!

Olho a estranha e mais uma vez ela sorri e pega a tesoura, outro cacho de cabelo cai. E mais outro, e outro e outro.

Ela olha o cabelo negro e liso e seus olhos estranhos e escuros se enchem da mesma tristeza que sei que há nos meus. Mordo meu lábio inferior e ao olhar mais uma vez o cabelo negro vejo novos cachos se formando. A frustração me percorre e ao ver o olhar quase feliz dela me descontrolo e jogo meus punhos em sua direção.

Vermelho. Vermelho. Vermelho.

Sangue vermelho.

Abaixo a cabeça, quase envergonhada e olho a estranho no espelho que tem uma expressão de dor em seu rosto, também vejo a linha de sangue correndo por toda a estranha.

Me afasto do banheiro e ignoro as perguntas, caminho até um dos outros e o toco no ombro ignorando a dor e desejando quase sadicamente que fique uma cicatriz.

- Pode me ajudar? – a voz que sai de meus lábios não é a minha, outrora tão feliz e alegre. Vejo olhos verdes-jade me acusando, queimando. Ignoro.

Caminho até a grande e branca cozinha e me sento, a espera. Logo ele volta com um sorriso pacificador em seu rosto sereno, é sempre assim. Nunca o vi gritar, ou se sobressaltar.

Me irrita a maneira que ele trabalha, costurando o corte lentamente e com cuidado, não mereço eu a dor por separar aqueles quem eu amo daqueles que eles amam?

- Vai ficar uma cicatriz. – a frase vinda do pacificar me enche de júbilo e me permito sorrir, sarcástica.

- Isso é bom. – mais uma vez á estranha voz sai de meus lábios, vejo a curiosidade nos olhos bondosos, mas nada digo.

Ele termina de suturar a mão e a limpa com um algodão, espero que ele termine seu pequeno ritual e me afasto.

- Obrigada. – digo, não olho para trás para ver o que ele pensa.

Ele sabe. Ele sabe. Ele sabe.

Minha mente grita, desesperada. Ela suplica que eu fale, que eu deixe sair. Me encaminho de volta para onde minha amiga estranha está, o mesmo sangue escorre e os mesmos olhos escuros me encaram, ela sorri sarcástica como se gostasse da minha dor, do meu dilema. Em seus olhos escuros e em sua postura vejo a pergunta pairar.

E agora, o que vai fazer?

Pisco e pisco e ouço minha mente gritar e berrar, a estranha sorrir e acusar. Cada uma de um lado, cada uma gritando e acusando, cada uma suplicando e ordenando.

Faça algo.

Nunca vai parar de magoá-los?

Escolha rápido.

Vai continuar a matá-los, com sua indecisão?

Eles entendem!

Eles sofrem.

Me deixo cair no chão e choro, deixo os soluços e as lágrimas escaparem, minutos, horas, segundos depois, jamais saberei eu. Me sinto observada e a vejo, os olhos verdes-jade me acusando, me odiando. Os cabelos tão brilhantes e claros em contraste á estranha amiga minha, a pele quase translucida. Pouco mais alta que eu mesma.

- A culpa é sua. – ela sussurra, cheia de dor, ódio e amargura. Me sinto gritar suplicando perdão, por dentro. Somente por dentro.

De meus lábios mais uma vez a voz estranha diz:

- Eu sei.

Ela me olha com raiva e se afasta, eu me sinto querendo correr para os braços dela lembrando das épocas em que fomos amigas, em que nós ajudávamos uma a outra. Mas agora sei que tudo que irei receber daquela que foi minha irmã é ódio. Com razão.

- Nini... – sussurro, sem nem mesmo saber porque. Ela para e me olha, as lágrimas caem dos olhos dela e ela sussurra acusadora:

- Porque você o tirou de mim?eu abaixo minha cabeça e ouço os passos de minha acusadora irem embora.

Eu te disse.

Ela vai te perdoar.

Fecho os olhos e apago as vozes de minha mente, apago tudo, menos três pares de olhos. Um verde-jade cheio de dor e acusação. Um azul turmalina cheio de carinho e compressão e dor. Um verde-água cheio de amor, dor e tristeza.

Mordo meu punho e grito, somente desta vez.

Qual será sua escolha? – é o que ambas as vozes que não querem silenciar sussurram.