Caprichos

Na primeira vez em que eu me apaixonei pela vida, eu tinha cinco anos. Ela era toda linda, com seu cabelo dourado trançado rente ao couro cabeludo. Às vezes, ela segurava a minha mão quando íamos pro recreio. Eu lembro que até a escola parecia mais divertida. As manhãs tinham outro brilho e eu nem reclamava quando minha mãe me arrancava de baixo das cobertas quentinhas.

Aí depois de um ano os pais dela se mudaram para outra cidade. Um tempo depois, eu vi um filme em que a mocinha foge com o mocinho para que eles possam ficar juntos e fiquei muito irritado por não ter pensado nisso na hora em que ela me disse que iria se mudar. Minha mãe começou a ter mais problemas para me arrancar da cama.

Na segunda vez em que eu me apaixonei pela vida, eu tinha treze anos. No instante em que meus dedos tocaram as teclas pesadas do Grand Piano, eu sabia que tinha achado algo especial. Durante cinco anos, eu fiz aulas às terças e quintas e, quando eu fiz dezoito e sentia que finalmente poderia fazer o que quisesse, meu pai me disse que eu não poderia tocar piano para o resto da vida, então eu me matriculei num curso de medicina.

Na terceira vez em que eu me apaixonei pela vida, eu tinha vinte e dois anos e estava rumando para minha graduação. Já havia perdido a esperança de encontrar por essas esquinas aquela fagulha de emoção que me faria reconhecer o lugar onde eu deveria estar. Não que eu não gostasse do que fazia: mas não havia calor. Era tudo morno. Tudo quase morto.

E aí eu a vi. Na biblioteca. Procurando a sessão onde guardavam os TCC's. Quando perguntei se ela não gostaria de, sei lá, tomar um café comigo na hora do intervalo para conversarmos, eu sabia que estava no lugar certo. Era como se algo se encaixasse dentro de mim. E era delicioso. Era como se meu sangue começasse a fluir corretamente, como se a vida estivesse se tornando mais simples, sendo que nada havia mudado. Ela apenas havia me dito que... 'pode ser'.

A quarta vez em que eu me apaixonei pela vida, ela estava usando uma daquelas roupas verdes de hospital e me olhando com cansaço, fraqueza e uma felicidade tão plena que eu só podia pensar que aquilo era um sonho. O quarto foi preenchido pelo som do choro daquela que me chamaria pelo resto dos meus dias pela palavra mais bonita que eu já ouvi.

'Pai. Vem pra casa. A mãe ta no hospital.'.

A vida é uma amante caprichosa. Te satisfaz, te magoa, te seduz, te ilude e te desilude tão aleatoriamente que depois de algum tempo você tem apenas uma certeza: ela não dá a mínima para você.

'Pai. Ele pediu. A gente vai se casar!'

Mas, mesmo assim, você acaba se apaixonando de novo e de novo e de novo, porque ela é... irresistível.

'Pai. A gente vai ter um bebê. Vamos dar o nome dela'.