Título: Questão de Confiança

Autora: Amy Lupin

Beta: Dany

Resumo: Michel é um rapaz responsável, estudioso, independente financeiramente e filho exemplar. Pelo menos até conhecer Diego, um garoto órfão que cheira a problemas, e de repente, Michel se vê na posse de um porta-jóias roubado que esconde segredos muito valiosos. Dividido entre seu dever como cidadão e sua relutância em se meter em encrencas, Michel acaba se envolvendo irremediavelmente não apenas com o responsável por metê-lo naquela situação, como também em uma intriga muito maior do que ele imagina.

Avisos: esta ficção contém personagens e situações que abordam homossexualidade, apesar de não ter nada gráfico. Se você não gosta do tema, sugiro procurar outra leitura.

Finalmente, este enredo e estes personagens me pertencem. Portanto, caso você deseje utilizá-los de alguma maneira, eu gostaria de ser consultada antes.

-xxx-

Prólogo

"Oi mãe" falei para meu telefone celular, procurando o lugar mais limpo – ou menos sujo – do banheiro da estação rodoviária para colocar minha mala. O lugar menos repulsivo era um banco de cimento na parede, e foi lá que a coloquei. "Já está com saudades?"

"Ah, Michel, eu queria ter dado mais atenção a você antes que você saísse, mas Margareth chegou em cima da hora, ela que sempre se atrasa em pelo menos meia hora, e você sabe como detesto deixar meus clientes esperando..." minha mãe se lamentou.

"Tudo bem, mãe, eu entendo" falei, saindo do caminho quando um rapaz entrou no banheiro. Eu admirava a coragem das pessoas de usarem aqueles banheiros públicos. Só havia me aventurado dentro daquele para atender ao telefone, uma vez que estava barulhento demais do lado de fora. "E a senhora já me deu um abraço" e várias recomendações, "então está tudo bem".

"Mas você se lembrou de pegar agasalho, certo?porque você está indo para o litoral não significa que vai fazer sol o tempo todo..."

"Sim, mãe" concordei resignado. "Lembrei das cuecas, das meias, sapatos, camisetas, escova de dentes e de todo o resto também".

"Barbeador?" ela perguntou. "Tudo bem que Lucas não hesitaria em emprestar o dele para você, mas eu não gostaria que você ficasse incomodando seu cunhado com esse tipo de coisa, sabe..."

"Estou levando meu barbeador" rolei os olhos, reparando que o rapaz parecia estar se divertindo com a conversa. "Mais alguma coisa?"

"Bem... eu realmente preferiria se você tivesse levado a mala maior e colocado seu travesseiro dentro. Você sabe que tem dificuldade de dormir sem ele e da última vez que seu pai e eu visitamos sua irmã ela nos deu uns travesseiros tão fininhos e desconfortáveis e..."

"Eu me viro com qualquer travesseiro, mãe. Honestamente, tenho vinte e dois anos, não doze. E será apenas uma semana, não um mês".

"Ora, desculpe essa sua mãe boba, mas para mim você nunca vai deixar de ser meu garotinho, você sabe..."

"Mãe, tenho que ir" atalhei, olhando no relógio enquanto saía da frente da pia para que o rapaz pudesse lavar as mãos. O mostrador marcava 22h48min. "Já está quase na hora do meu ônibus sair".

"Está bem. Não se esqueça de ligar quando chegar lá. E um abraço em sua irmã por mim... e pelo seu pai, ele acabou de pedir. Faça uma boa viagem".

"Obrigado mãe".

"... e, Michel?"

"Sim?" rolei os olhos novamente quando o garoto olhou em minha direção com um sorriso divertido ao enxugar as mãos.

"Me ligue quando chegar. Não se esqueça".

"Entendido. Tchau".

"Até mais, querido".

"Ela não queria nem que eu fosse sozinho, para começo de conversa" expliquei para o garoto ao fechar o aparelho e deslizá-lo para o bolso de trás da minha calça jeans.

"Mães são todas iguais" ele falou meneando a cabeça. "Primeira viagem sozinho?"

"Sim. Geralmente é minha irmã quem vem nos visitar, não o contrário. Ou nós vamos todos com o carro do meu pai nas férias de verão".

Daquela vez, porém, minha irmãzinha havia ficado de recuperação em História – de todas as matérias – e estava de castigo. Eu havia acabado de me formar na faculdade, já havia iniciado um curso de pós-graduação e era dono do meu próprio negócio de conserto de máquinas – juntamente com alguns colegas – portanto havia me concedido um merecido descanso. Mesmo que por apenas uma semana.

"E você? Também está sozinho?" perguntei mais para ter o que falar do que qualquer outra coisa. Não sou muito bom em conversas casuais com estranhos.

"Sim. Mas não é a primeira vez" ele falou dando de ombros. "Já estou acostumado".

Levantei as sobrancelhas surpreso. O garoto não parecia ter sequer chegado aos dezoito anos. Além do mais ele não carregava nenhuma mala ou mochila.

"Melhor eu ir, ou também vou perder meu ônibus" ele falou e tive que sair do caminho novamente para que ele alcançasse a porta. "Boa viagem!"

"Pra você também" desejei já alcançando minha mala para seguir atrás dele.

Porém o garoto fechou a porta tão rápido quanto havia aberto e encarou-a por alguns rápidos segundos antes de se virar para mim de repente, enfiando a mão no bolso.

"Você pode fazer um favor para mim?" ele falou e puxou algo de dentro do bolso com uma mão, enquanto alcançava meu braço com a outra, empurrando o que parecia ser uma caixinha em minha mão. "Cuide disso para mim. Obrigado!"

Então ele fez a coisa mais estranha. Me abraçou. Assim, sem nem me dar tempo para retrucar alguma coisa ou para assimilar o que estava acontecendo.

"Ei" chamei assim que recuperei minha fala, mas o garoto já havia escapado para o lado de fora, então dei uma olhada para o que tinha em mãos esperando que não fosse uma trouxinha de maconha, nem algo do tipo. Aparentemente, era apenas uma caixinha do tamanho da palma da minha mão com o que parecia ser um retrato antigo na tampa. Mas eu ainda não tinha certeza de qual seria seu conteúdo e estava relutante em descobrir. Pelo peso, podia muito bem estar vazia. Sacudi o objeto só para me certificar e não registrei nenhum movimento do lado de dentro.

Então me ocorreu, como ele me encontraria depois para recuperá-la? Eu tinha certeza que não havia me apresentado, dado nenhuma informação pessoal, nem mesmo enquanto conversava com minha mãe ao telefone. Fechei a caixinha seguramente em minha mão e saí do banheiro. Quase imediatamente trombei com um homem corpulento e por pouco não caí para trás, tendo que me apoiar na parede para recuperar o equilíbrio. Segurando a minha mala de maneira mais firme, pedi desculpas sem olhar para ele ao me desviar, olhando ao redor. O garoto não podia estar muito longe.

E realmente não estava. Mas eu nunca teria me atrevido a aproximar, já que o rapaz estava rodeado de policiais fardados. Quase tropecei nos meus pés ao parar abruptamente, porém ninguém reparou em mim. Todo mundo na estação estava parando para olhar o tumulto com a polícia.

Um dos policiais estava gritando com o garoto e outro estava falando num walktalk, enquanto os outros seguravam os cabos dos revólveres e cassetetes de maneira ameaçadora sem, contudo, desembainhá-los. O que eu achei totalmente desnecessário, uma vez que o garoto claramente não estava armado nem tentando reagir de maneira alguma. Enquanto eu olhava, o policial que estivera gritando virou o rapaz bruscamente, segurando seus braços para trás. O movimento fez com que o garoto se virasse para mim e mesmo de certa distância eu pude ver a careta de dor que ele fez ao ter o braço torcido daquela forma.

Outro policial começou a revistá-lo e enquanto isso o garoto levantou os olhos, seu olhar pousando quase instantaneamente em mim e descendo até a minha mão direita, que eu ainda mantinha seguramente fechada. Ele voltou a olhar nos meus olhos, sua expressão... vazia. Ele não demonstrou raiva, nem medo. Sequer fez algum sinal para que eu escondesse o objeto ou um menear de cabeça. Absolutamente nada. Ele sequer reagiu quando o policial que o revistava retirou um telefone celular e alguma coisa brilhante de seu bolso.

Registrei vagamente uma voz feminina no alto falante anunciando a chamada para o meu ônibus, que partiria dentro de cinco minutos. Porém não conseguia tirar os olhos do garoto enquanto assistia ele ser algemado e sacudido pelos policiais. Alguém trombou no meu braço direito e eu instintivamente coloquei a mão no bolso da frente da calça, deslizando a caixinha para dentro do meu jeans. Não sei por que fiz aquilo. Não faço a mínima idéia do tipo de lógica que me ocorreu no momento, a não ser o fato de que meu ônibus estava para sair e eu não queria perdê-lo. Muito menos ter que dar algum depoimento para as autoridades, afinal eles já pareciam ter encontrado o que procuravam.

Para minha surpresa, o rapaz sorriu. Um sorriso agradecido. Não aliviado ou malicioso ou mesmo maníaco, apenas agradecido. Então ele foi arrastado rudemente por alguns dos policiais enquanto os outros dispersavam a multidão que se formara ao redor.

Eu rapidamente dei meia volta e segui para a minha plataforma.

-xxx-