N.A.: Ah como seria boa a sensação de dever acabado se não viesse junto com um pouquinho de nostalgia... Para quem perguntou (e ainda perguntará) se tenho outros trabalhos em mente, sim, tenho muitos trabalhos em mente. O problema é que eles ainda continuam somente na minha cabeça e eu não sei quando vou poder estralar os dedinhos e começar a colocar em palavras, mas espero que seja em breve. Muito obrigada a todo mundo que acompanhou o meu trabalho, aqueles leitores que chegaram de última hora, aqueles que ficaram quietinhos, e aqueles que ainda virão! Obrigada Dany por suas mágicas com meus textos. Obrigada Idril por seu apoio. Obrigada Mila pelo incentivo. Obrigada Paulawot e Carol por acreditarem em mim. Obrigada a todos que apostaram no meu potencial desde as fanfictions (em especial os leitores de Green Eyes) e me incentivaram a criar algo só meu. Espero não ter desapontado ninguém.

Estou providenciando uma versão da história em PDF. Quem quiser que eu mande, é só se manifestar por aqui (apenas certifique-se de que o site não suma com o seu email, por favor) ou por email para (arroba)yahoo(ponto)com(ponto)br.

Agora chega de conversa e vamos ao que interessa: o Epílogo! Até breve!

Epílogo

Certo, o Michel provavelmente não pretendia que eu lesse isso antes de sexta-feira que vem, mas ele devia ter sido mais cuidadoso com seu notebook, como o pai dele. Pelo tamanho disso, imagino que ele obteve sucesso em esconder de mim por tempo suficiente, mas já que encontrei, pretendo dar uma pequena contribuição à obra, para o caso de Lola querer ler isso quando crescer.

Brincadeira, Lola jamais vai ler isso.

Primeiro, deixe que eu me apresente. Olá, meu nome é Diego. Você deve ter ouvido falar sobre mim, se chegou até aqui sem ter espiado as últimas páginas primeiro.

Tenho vinte e seis anos, sou praticamente casado, formado em Engenharia Mecatrônica e prestes a adquirir meu segundo diploma de pós-graduação. Praticamente casado porque na próxima sexta vai fazer sete anos que Michel e eu estamos juntos, sendo que já dividimos o mesmo teto há cinco. Mas não moramos sozinhos. A Lola está me olhando torto enquanto escrevo isso, como se me desafiasse a deixá-la de fora. Só não se engane com a aparente calma dela, é tudo fachada. Ela só está cansada do passeio que acabamos de fazer de bicicleta. Bem, pelo menos eu estava montado na bicicleta.

Lola é um beagle de onze meses, a propósito. Praticamente um bebê e, pela experiência que Michel e eu temos tido até agora, dá tanto trabalho quando uma criança. Se quer um conselho, nunca deixe um beagle começar a farejar, cara.

Mas é claro que você deve estar interessado em saber o que aconteceu desde a parte em que Michel interrompeu sua narração. Aliás, devo alertar você para não acreditar piamente em tudo o que ele escreveu aqui. Essa é só a versão dele de tudo que aconteceu. Por exemplo, eu falo muito mais palavrão do que ele transcreveu aqui. Sério, ele deixou praticamente todas as minhas falas decentes! Minha mãe provavelmente teria tido orgulho de mim se me conhecesse através dos olhos de Michel. Também não sou tão bonito quanto ele faz parecer. Ou pelo menos não era antes das plásticas.

Está bem, estou brincando. Nada de plásticas. Por enquanto.

Michel também é modesto demais. Ele é, de longe, o mais bonito de nós dois. Mas não vou ficar fazendo muita propaganda para não incentivar a concorrência.

Voltando ao que interessa, você já deve ter desconfiado que a história de Fátima era verdadeira. Pelo menos o juiz se convenceu disso depois de analisar as provas que minha tia apresentou. Demorou muito mais tempo do que esperávamos, mas a história foi finalmente esclarecida. Casimir conseguiu reduzir sua pena e já cumpriu toda ela, mas nunca mais tive notícias dele. Frontin conseguiu se safar a princípio, por falta de provas. Faz algum tempo que desisti de brigar pelas quatro pedras que ele roubou. Fátima tinha razão ao dizer que infelizmente não havia muito que pudesse ser feito, principalmente por causa da legislação. Mas no fim o dinheiro do suborno de meu padrasto parece ter se esgotado, pois seus comparsas acabaram se voltando contra ele e o denunciaram por vários motivos. Frontin acabou abandonando a esposa e fugindo ao ser acusado de vender carros roubados e receber uma ordem de prisão da Receita Federal por sonegação de impostos de anos atrás, além de uma multa astronômica.

Para ser sincero, não me importo mais com as pedras perdidas. A única coisa que fiz questão de recuperar logo depois de terminadas as investigações foi a caixinha de músicas da minha mãe. Mantenho-a na cabeceira da minha cama, onde posso olhá-la todas as manhãs e me lembrar de tudo o que passei para chegar onde cheguei.

Nunca tive a oportunidade de saber o que realmente aconteceu entre minha mãe e Frontin, na verdade. No entanto, mesmo se tivesse, não sei se gostaria de saber. Às vezes penso que meu padrasto sempre foi um vigarista de merda, mas algumas vezes também penso que poderia ter sido diferente se não fosse por causa dos diamantes. Afinal, minha mãe confiou seu segredo a ele. Ela não pode ter sido tão ingênua a esse ponto. Talvez a ganância tenha corrompido meu padrasto, como minha mãe temera que acontecesse comigo. Ângela certa vez disse que imaginava que minha mãe tivesse contado a Frontin sobre a existência das pedras logo que adoeceu pela primeira vez, temendo que o tratamento não tivesse resultados e ela não sobrevivesse até que eu completasse a maioridade. Por isso Frontin me mandou para o internato, para que ela não tivesse oportunidade de me contar antes de morrer. Não acho nada difícil isso ter acontecido, afinal foi nessa época que a atitude dele começou a mudar a meu respeito.

Seria besteira dizer que não saí daquele hospital diferente de quando havia entrado, apesar de muito mais rico. Meu pulmão nunca mais foi o mesmo. Não que isso me atrapalhe no dia a dia, mas nada de esportes radicais para mim. Porém também seria exagero dizer que minha vida mudou drasticamente depois disso. Demorou algum tempo para eu me dar conta de fato de quanto dinheiro possuía e ainda mais algum tempo para começar a usá-lo. Fátima me indicou algumas pessoas de confiança para ajudarem no meu planejamento financeiro e não perdi tempo em aplicar minha herança e fazê-la render de diversas maneiras. Com o tempo descobri que tenho facilidade para identificar os melhores investimentos. Ângela chama isso de intuição, mas eu acho que isso é coisa de mulher. Chamo isso de sorte.

Michel tinha razão sobre o carro ser minha primeira aquisição, mas não comecei com o MC12 Maserati. Na verdade só adquiri um Camaro há uns três anos atrás. Afinal, já que não posso correr com minhas próprias pernas, preciso de algo que o faça por mim. Até hoje Michel desaprova meu jeito de dirigir, mas devo dizer que ele já não é mais o mesmo motorista de antes depois do Audi que dei de presente para ele, por mais que ele negue ter se deixado tomar gosto pela velocidade.

A casa só veio pouco mais de um ano mais tarde, com a condição de que Michel viesse morar comigo. Afinal, que graça teria morar numa puta casa como esta sem ninguém para dividir a cama ou disputar pela melhor poltrona na frente da TV?

Também passei a fazer doações periódicas para o Hospital do Câncer, entre outras entidades. O que não falta é gente enchendo o saco para me convencer a fazer doações, mas sou bastante seletivo quanto a isso.

Entre os investimentos que fiz, está a empresa de Michel e seus sócios. A empresa cresceu tanto que eles tiveram que contratar funcionários para fazer o serviço enquanto planejam e administram. Os três estão agora mesmo numa vídeo-conferência com alguns colaboradores. Eles me devolveram cada centavo que investi com juros e correção depois que a empresa decolou, já que não me interessei em me tornar sócio. Na verdade foi com esse dinheiro que comprei o Audi para Michel como presente de aniversário de trinta anos.

Tenho dedicado a maior parte do meu tempo para os estudos, já que não tenho mais que trabalhar para pagar as contas. Recentemente, entretanto, recebi uma proposta para lecionar numa faculdade de engenharia renomada e acabei aceitando. Ainda acho estranho pensar em mim mesmo como um professor, mas culpo Michel por isso sempre que posso. A convivência com ele está fazendo de mim um nerd. Estou até pensando em começar um mestrado ano que vem. Ou talvez fazer faculdade de gastronomia apenas por diversão.

Estaria mentindo se dissesse que não fiz muitas extravagâncias ao longo desses anos. Exatamente como Michel previu, aprendi a pensar diferente por causa do dinheiro. Por isso mantenho meu namorado por perto sempre que possível para me segurar de fazer algumas cagadas. Mas não apenas por isso. Afinal, quem mais eu levaria como companhia para as viagens ao exterior?

Uma das minhas maiores extravagâncias é minha coleção de carros antigos. Tudo começou quando inventei de comprá-los para treinar minhas habilidades mecânicas e fazer trabalhos para a faculdade, mas essa desculpa já não cola mais. Michel desistiu de me fazer parar de procurar por eles, mas a verdade é que eles parecem vir até mim, implorando para serem reformados e ocuparem minha garagem. Meu sogro é a única pessoa que me entende, na verdade, e sua empolgação me faz pensar em meu pai e seus aviões. Às vezes fico imaginando como teria sido se meus pais tivessem feito escolhas diferentes, no entanto pensar no passado não me traz melancolia. Sinto que o destino cobrou um preço caro no começo da minha vida, mas reservou muita coisa boa para mim em compensação.

Ainda mantenho contato com Fátima, apesar de não passarem de alguns emails e cartões em ocasiões especiais. Michel às vezes toca no assunto dos meus meio-irmãos, mas eu sinceramente não acredito que um dia vá mudar de idéia a respeito deles. Nem mesmo de Antonella. Não posso culpar Michel por tentar, afinal ele tem uma ótima família de sangue. Não tenho o que reclamar dos meus sogros e cunhadas. Mas a minha família continua sendo meus amigos.

Fer se mudou com Paula logo depois que deixei o apartamento dele. Ela não trabalha mais como vigia. Agora é personal trainer numa academia, enquanto Fer montou sua própria bicicletaria. Lourdes também já não trabalha mais no Balistieri. Ela abriu algumas cooperativas e ONGs das quais sou um assíduo doador. Nós ainda visitamos hospitais sempre que possível, mas já não somos mais os Doutores da Alergia desde que Diogo e Henrique se mudaram para seguirem suas carreiras como atores profissionais. É difícil conciliar nossos horários agora, mas procuramos nos manter em contato. Ainda tenho esperanças que os quatro compareçam sexta-feira à festa, apesar de Diogo já ter avisado que talvez não consiga vir.

Scarlet ficou de passar aqui em casa hoje à noite para me contar como estão os preparativos para a comemoração. Ela me garantiu que ela e Gustavo estão firmes agora, apesar de ter dito isso antes de darem um tempo pelo que me pareceu a décima vez. Tom e Michel voltaram a ser melhores amigos, aliás. Rosana viaja bastante como estilista, mas confessou para mim, não faz muito tempo, que está realmente feliz com Tom. Ela também não se cansa de se gabar para todo mundo que foi a primeira a saber sobre meu relacionamento com Michel e, bem, de certo modo ela tem toda razão.

Lenora prometeu fazer o possível para vir, apesar de o pequeno Caio estar se recuperando de uma cruel apendicite. Caio é segundo sobrinho de Michel, de cinco anos. Depois dele tem também a Lara, de três, mas Lucas garantiu que já tomou providências para encerrar a produção de filhos. Confesso que não foi fácil me acostumar a ser chamado de tio, mas depois de Lara, acabei me conformando. Felizmente Judite ainda está longe de se casar, ao que parece. Também não posso culpá-la, afinal ela leva uma vida muito boa na casa dos pais, reinando sozinha depois que Michel se mudou definitivamente.

Michel e eu vivemos muito bem. Não que nós nunca briguemos, mas sempre nos entendemos no final. Ele continua sendo o mais chato de nós dois e costuma dizer que nunca vou amadurecer enquanto eu jogo na cara dele que isso é inveja por ter sempre que ser o mais velho e responsável. Confesso que tive muito ciúme no começo da nossa relação. Eu costumava achar que ele acabaria me trocando por uma garota com o passar do tempo. Agora posso afirmar que já não tenho mais essa insegurança. Depois de ler este relato, percebi que ele ainda se culpa por não saber muito bem expressar seus sentimentos o tempo todo, mas já aprendi faz muito tempo a ler as palavras não ditas. Mais do que dizer que me ama o tempo todo, ele me faz sentir amado.

E é justamente por conhecê-lo que reconheço a grandiosidade deste presente. Nós nunca mais voltamos ao assunto de como ele descobriu sobre os diamantes e do motivo por ter escondido de mim. De fato eu parei de pensar sobre esse assunto já faz alguns anos. Agora que sei tudo o que se passava na cabeça dele naquela época, entendo porque isso ainda o assombra.

Se eu confio em Michel? Eu confiaria minha vida a ele. Acho que na verdade nunca deixei de confiar.

Mas já está na hora de virar a página e começar um novo capítulo. Daqui a pouco Michel vai chegar e provavelmente vai censurar algumas palavras do que escrevi depois de me dar uma bronca por ter estragado sua surpresa.

Além do mais, Lola já começou a farejar o carpete. Isso não pode resultar em nada bom.

-Fim-