Ela corria o máximo que podia. Seus pulmões quase rasgavam-se à procura de ar, e suas pernas imploravam para que parasse. Mas ela não pararia. Ela sabia que se o fizesse, não teria outra chance.

Se parasse, seria seu fim.

-x-x-

- Eu já disse, Nini. Essa é uma chance de eu conseguir paz para terminar meu livro.

- Eu sei, mas tem certeza que não quer que eu vá junto? Não acho que seja bom você ficar sozinha num lugar tão isolado do mundo.

A morena revirou os olhos enquanto brincava com um pote de remédios entre os dedos. Estava no telefone com a melhor amiga há uma hora e continuavam dando voltas e mais voltas.

- Esse é o propósito, Catita. Como espera que eu consiga escrever se tenho um monte de gente buzinando no meu ouvido? Não se preocupe, lá existe telefone.

- Eu pesquisei. O sinal de lá é péssimo - contrapôs Aninia.

- É a apenas cinco horas daqui, qualquer coisa você pega o carro e vai dar uma de heroína - brincou Ananda.

A loira ficou em silêncio por uns instantes, e Ananda sabia que ela estava considerando todas as hipóteses, inclusive a de amarrá-la à cama.

- Certo. Prometa ligar todo dia, mocinha, senão tenha certeza que apareço por lá mesmo.

- Sim, senhora - riu a outra.

Depois de desligar o telefone, encarou o pote em sua mão. Com um suspiro, abriu-o e pegou duas cápsulas, tomando-as com um gole d'água. Ela sentia-se mal por estar presa àqueles remédios diariamente. Estava num daqueles momentos em que achava que não precisava de nada daquilo, as perseguições e preocupações constantes dos amigos e parentes ou os remédios ou os médicos. Tudo que precisava era de um pouco de paz.

Guardou o vidro de remédios na mala e fechou-a. Era definitivo: o próximo mês mudaria sua vida.

Ela só não esperava que não fosse para melhor.

-x-x-

Depois de uma hora e meia de trem e mais meia hora de estrada com o carro de aluguel, a morena encontrou-se em frente a uma enorme casa antiga. Ela imaginou se conseguiria encaixá-la em seu livro, e que histórias poderia tirar de sua arquitetura e de seus cômodos e móveis.

- Lar, doce lar - murmurou para si mesma.

Pegou a enorme e antiga chave e a encaixou na fechadura. Teve que forçar um pouco para conseguir abrir a porta, mas não houveram maiores problemas. Levou quase uma hora explorando os cômodos do primeiro e segundo andar. Quando encontrou a suíte principal, jogou sua mala sobre a cama e foi verificar o encanamento e aquecimento central no porão.

As luzes funcionavam, mas não eram exatamente fortes, o que deixava todas as sombras meio bruxeleantes. Ananda começou a se perguntar se aquela foi mesmo uma boa ideia. Afastando o pensamento, a morena acendeu o fogo no aquecedor e voltou até a cozinha. A água saía normalmente da pia.

Subiu de volta ao quarto e adentrou o banheiro. Havia ali uma banheira antiga com pés ornamentados de porcelana. Aquilo valia a pena ser citado em seu livro, pensou superficialmente. Mais internamente, uma voz gritava para não chegar perto do enorme e antigo móvel.

Novamente ela afastou o pensamento e abriu a torneira, deixando a água fria correr pela porcelana amarelada. Dentro de pouco tempo, ela começou a esquentar, e a jovem fechou a saída de água da banheira. Enquanto a água continuava a subir, ela voltou ao quarto e abriu a mala sobre a cama.

Ela estava levemente surpresa com o local. Não tinha nem metade da poeira que imaginava que teria. Provavelmente o dono havia realmente mandado fazer uma faxina antes dela ir para lá. Normalmente eles mentiam aos inquilinos sobre isso.

Dando de ombros, Ananda procurou por um pijama quente e roupas íntimas limpas. Aproveitou para guardar algumas das roupas na cômoda perto da janela e, quando lembrou de voltar ao banheiro, a água estava quase passando da altura recomendada. Ela fechou a torneira e prendeu a toalha e as roupas em um suporte na parede. Virou-se para um enorme - e tão antigo quanto tudo naquela casa - espelho em frente à banheira e observou seu reflexo. Não costumava ser tão magra antigamente, pensou.

Prendeu os cabelos negros no alto da cabeça e despiu-se cuidadosamente. Novamente encarou-se na face gélida do espelho. Uma jovem de vinte e cinco anos a encarava de volta. Era tão magra que beirava ao doentio e sua pele antigamente tão dourada estava estranhamente pálida - para não dizer cinzenta. Os olhos continuavam escuros como sempre foram, mas aquela olheiras não pertenciam ao seu rosto.

Ela tentou se lembrar da última vez que pareceu saudável. Seu subconsciente deu um grito e ela resolveu que era perigoso demais cavar suas lembranças. Levantando uma perna, tocou a água com um dedo do pé. Estava quente, mas nada insuportável. Entrou na banheira e suspirou, fechando os olhos.

Nota mental: tirar o espelho do banheiro.

-x-x-

Sentada na enorme cama de dossel, Ananda ligou o notebook e conectou sua filmadora a ele. Constando que não havia nada de novo para escrever ou gravar, resolveu passear mais um pouco pela casa.

Achou uma antiga sala de música no primeiro andar e ficou curiosa quanto aos instrumentos. Havia um enorme piano de cauda perto da janela que ela tinha certeza que faria a felicidade de Aninia. No outro lado, havia um violoncelo encostado à parede. Existia também um antiquíssimo e gigante rádio toca-fitas perto de um espelho, e um armário ao fundo. Cedendo à curiosidade, Ananda aproximou-se do grande móvel de madeira desgastada e o abriu, encontrando inúmeros vestidos de festa, provavelmente na moda há uns vinte anos.

Fechou o armário, pois o cheiro de mofo era quase insustentável, e caminhou até o piano. Certificando-se de que não iria quebrar, sentou no banco à frente dele e passou os dedos sobre as teclas empoeiradas, sem realmente apertá-las. Ela não sabia se ele estava afinado ou não, e não tinha conhecimentos suficientes para verificar, então decidiu apenas observar o belo instrumento.

Um barulho no lado de fora da janela lhe chamou a atenção, e a morena virou os olhos para lá. Através do grosso vidro, ela podia ver muitas árvores imponentes ao longe e um enorme tapete de folhas secas caídas ao chão. Aprumou-se e chegou mais perto da janela, procurando a origem do barulho. Quando localizou, sentiu-se nada menos que surpresa.

Saiu rapidamente da sala de música e seguiu pelo enorme e encarpetado corredor, achando a cozinha ao final e indo para a porta. Forçando-a de leve, conseguiu abrir a tranca e um forte vento jogou-se sobre ela. Apertando o casaco sobre o pijama, caminhou com os chinelos almofadados pelas folhas, fazendo barulho ao quebra-las com seu peso, mas este era sobreposto pelo uivo do vento. Caminhou mais rapidamente até uma cabana de madeira ali perto.

- Quem é você? - Perguntou ela, preparando o spray de pimenta no bolso do casaco.

Mas ela não teria a chance de utilizá-lo, pois ficou completamente hipnotizada pelos olhos do estranho. O homem, que estava de costas, virou-se em direção a morena, fazendo-a parecer menor ainda que já era em relação a sua enorme estatura. Ele tinha os cabelos castanhos escuros bagunçados pelo vento, e os olhos eram de um azul-turmalina extasiante. Ele tinha em suas mãos um rastelo, que usava para afastar as folhas secas de perto da cabana.

Ele levantou uma sobrancelha, divertido com a morena e ainda assim encantado com sua figura.

- Sou o caseiro, e você deve ser a inquilina que vai ficar aqui pelo próximo mês - respondeu, sem perder a pose territorialista.

A morena corou dois tons acima do normal causado pelo vento.

- Ninguém me informou nada sobre você - respondeu, tentando não perder a pose também.

- Se eu quisesse roubar você, já teria atingido você com isso há muito tempo, não acha? - Perguntou, ainda divertido, apontando o rastelo.

Ela tirou a mão do spray e apertou mais o casaco à sua volta, dando de ombros.

- Hoje em dia, podemos esperar de tudo - justificou-se.

Ele sorriu mais ainda e estendeu uma das mãos.

- Dimitri Cestari.

A morena hesitou por um instante, então aceitou a mão dele e percebeu seus calos. Ela não via problema em mãos masculinas, e aquilo fez um calor subir por seu corpo. Então cometeu o erro de olhar novamente nas enormes turmalinas do moreno e perdeu o fôlego por mais tempo.

- Essa é a hora onde você fala seu nome - disse Dimitri, ainda divertido com ela.

- Ah - reagiu ela, acordando de seu transe e voltando os olhos para as mãos dos dois que ainda estavam unidas. - Imaginei que como você sabe de tudo, saberia meu nome - mentiu, colocando um meio-sorriso em seu rosto.

Apesar do susto inicial, ela gostara dele. Totalmente.

- Desculpe, minha bola de cristal está fora de área - respondeu ele, sem se abalar. Nenhum dos dois havia tirado a mão ainda.

- Ananda Montgomery - disse ela. - Então, você mora aí? - Perguntou, apontando a cabana com a cabeça.

- Passei os últimos dois anos aqui, então acho que pode-se dizer que sim - respondeu, então olhou para as mãos dos dois e aumentou ainda mais o sorriso. - Acho que vou precisar dela de volta para poder continuar meu trabalho.

Ananda encarou as mãos dos dois e então lhe caiu a ficha, tirando a sua rapidamente da dele. Com um sorriso amarelo, voltou a apertar o casaco.

- Quer entrar um pouco? Esse vento não está exatamente amigável hoje - convidou.

- Não é dos piores dias - comentou ele, então largou o rastelo, apoiando-o sobre a lateral da cabana, e virou para ela, nunca perdendo aquele enorme sorriso. - Não tem medo que eu pegue uma faca na sua cozinha e corte você em trezentos e um pedaços? - Riu ele.

Ela revirou os olhos, mas não pôde impedir-se de sorrir.

-x-x-

O barulho tique-taqueante que vinha do relógio no final do corredor a estava deixando altamente inquieta. Ela acordara no meio da noite, sem conseguir dormir mais, e ficou se remexendo na cama. Com um suspiro, levantou da cama e correu para o interruptor, acendendo a luz do quarto. Ela odiava imaginar o que poderia esconder-se nas trevas daquele local, principalmente por, como toda boa escritora, ter uma imaginação extremamente fértil.

Ligou o notebook e encarou sua tela. Como a internet lhe fazia falta, pensou. Começou a escrever um novo capítulo, e quando percebeu, seus dedos praticamente se moviam sozinhos. A inspiração era tanta e tão repentina, que ela não ousou questionar, apenas deixou que seus pensamentos a levassem o mais longe que conseguisse.

Um som estridente soou ao seu lado e a acordou de seu transe literário. Saltando de susto, a morena virou para o celular na mesinha de cabeceira e percebeu que já havia amanhecido.

- Dormir não é crime, sabia? - Reclamou ao celular, antes mesmo de dizer 'alô'.

- Se fosse, eu com certeza o faria mais - riu Aninia do outro lado da linha. - Você não me ligou ontem - acusou.

- Achei que ontem não contasse, visto que eu falei com você uma hora antes de vir pra cá - revirou os olhos.

- Muita coisa pode acontecer na estrada, Carina. Você pode ter sido sequestrada, atropelada, mutilada, decapitada, esquartejada,...

- Okay, certo, certo, entendi. Perdoe meu enorme pecado, ó Majestade.

- Pensarei no seu caso. Haverá uma penitência - respondeu a loira em um tom risonho.

- Aceito minha punição - riu de volta.

- Ah, você não deveria ter dito isso - maliciou a outra.

- Pode parar por aí, loirinha maluca. Preciso contar o que aconteceu ontem.

- Aconteceu? - Surpreendeu-se a outra. - O que houve?

- Houve que eu tenho o caseiro mais sexy de todo o mundo - disse a morena, totalmente maliciosa.

- Oh, pode ir contando cada detalhe!

Ananda sorriu consigo mesma. Era tão fácil desviar a mente da melhor amiga.

-x-x-

Naquele dia, a morena estava preparada. Iria aparecer na tal cabana de surpresa, apenas para dar o troco em Dimitri. Estava pronta para aparecer lá em sua visitinha matinal quando tropeçou no carpete da biblioteca. Franzindo o cenho, a morena abaixou-se e descobriu que havia algo ali embaixo.

Examinando os locais à sua volta, encontrou uma ponta do carpete e descobriu que ele não estava colado ao chão. Puxou-o até o relevo perto de uma escrivaninha e espantou-se com o que encontrou.

Era um alçapão.

Ananda hesitou um pouco, mas sua curiosidade como sempre era maior. Puxou a alça e tossiu com a poeira que a janelinha de madeira havia levantado. Percebeu com descontentamento que não tinha nenhuma passagem secreta ou passe para outra dimensão. Ela certamente precisava ler e escrever menos, pensou. Encontrou apenas uma caixa de papelão ali dentro. Pegou-a com cuidado, temendo que se despedaçasse ao seu toque.

Colocando-a no chão de madeira, retirou a tampa cautelosamente. Observou o conteúdo da caixa, franzindo novamente o cenho. Eram fitas de vídeo. No mínimo uma dezena delas. Ela pegou a primeira, procurando por alguma informação. Nada. Apenas a embalagem transparente e o plástico preto.

Ananda resolveu averiguar aquilo mais tarde, e fechou o alçapão, devolvendo o carpete ao seu lugar e levando a caixa até a sala de jantar. Postou-a sobre a mesa de carvalho e apressou-se a caminhar para a cozinha. Pegou um pote que já havia deixado preparado sobre o balcão, colocou um sobretudo e uma manta no pescoço, e saiu para a ventania no lado de trás da casa.

Chegando à porta da cabana, bateu com força. Nada de resposta. Revirou os olhos e bateu novamente. Nada ainda. Bufando, girou a maçaneta, e descobriu que a fechadura estava destrancada. Espiou para dentro e descobriu um local totalmente diferente do que imaginava.

Havia uma lareira de metal ao canto de onde radiava um calor aconchegante, e haviam várias velas espalhadas pelo local: encima da mesa, perto da cama, no chão... A cabana era constituida de um único e enorme cômodo que continha cozinha, sala e quarto. Havia apenas uma porta ao lado que provavelmente levaria ao banheiro. Ananda se perguntou como Dimitri não havia queimado a cabana inteira com tanto fogo.

- Depois eu que sou perigoso. Eu pelo menos não saio invadindo a casa dos outros - brincou Dimitri, parado na porta do banheiro, apenas com uma toalha na cintura.

Ananda voltou os olhos para ele e ficou presa no seu definido tórax, que tinha algumas quase invisíveis cicatrizes. Recuperando-se rapidamente, levantou o pote à altura dos olhos e sinalizou-o.

- Que coisa, política de boa vizinhança virou crime agora? - Perguntou. - Cookies - explicou diante do olhar curioso do moreno.

- Não sabia que você era prendada.

- Existe muita coisa sobre mim que você não sabe - respondeu com um sorriso enigmático.

- Tenho um mês para desvendar você, então - sorriu ele, aproximando-se de uma vela apagada e acendendo-a.

- Qual é a das velas, afinal? Já pensou que essa cabana é feita de madeira? Se uma delas cair, o tapete pega fogo, passando pros sofás e logo chegam nas paredes e você vira churrasquinho.

O moreno ergueu uma sobrancelha.

- Eu gosto do fogo. Gosto de como ele pode nascer de uma simples fagulha e então tomar conta de tudo a sua volta. Gosto da luz dele. Gosto do calor.

Ananda não sabia se era ela, mas cada palavra que saía da boca do moreno parecia um convite a um jogo de erotismo e sedução. E ela queria jogar, para variar um pouco. Pois quando estava com ele, seu passado não lhe assombrava. Quando estava com ele, todas as sombras iam embora... E sobrava apenas o calor.

Soltando o pote sobre a mesa ao seu lado, ela tirou o sobretudo e a manta e os prendeu em um gancho ao lado da porta. Aproximou-se do moreno e encarou o fogo, pensando sobre o que ele havia dito.

- Você não tem medo do fogo?

- Por que eu teria?

- Por que quanto mais gostamos de uma coisa, mais fácil é dela nos destruir - sussurrou ela.

Dimitri prendeu seus olhos nos da morena. Algo nela acordava um sentimento fugaz dentro de si.

- Então acho melhor apenas apreciar o calor enquanto não somos consumidos pela chama - respondeu no mesmo tom, enlaçando a cintura da morena e puxando-a para si.

O coração dela acelerou e ela pôde sentir o dele tão rápido quanto o seu. Deixou sua mão subir pela barriga dele, passando por seu peito, pescoço, rosto, nuca, cabelos. Puxou de leve as mechas ainda molhadas dele, fazendo-o não esperar mais um segundo sequer e cobrir os lábios dela com os seus.

Era um beijo quente e ágil, e logo ambos trabalhavam em tirar as roupas da morena. Quando percebeu, Ananda estava apenas com sua langerie branca de renda. Dimitri pegou-a com facilidade e deitou-a sobre o tapete, envolta por velas e a lareira estalando ao lado. Sem pedir licença, ela puxou a toalha dele enquanto lambia e mordiscava seu pescoço.

Dimitri também não se importou em falar qualquer coisa antes de abrir o sutiã dela com maestria e jogá-lo longe. Por sorte, não acertara vela alguma, e mesmo que tivesse, eles dificilmente perceberiam. Ananda empurrou o moreno para o chão, girando seus corpos e acabando sobre ele. Com um sorriso safado, aproximou-se de seu ouvido e sussurrou:

- Não me importo em ser consumida pela chama.

Enquanto dizia aquilo, suas mãos desceram ao sexo de Dimitri e pegaram seu membro com vontade, fazendo-o soltar um gemido. Ela sorriu mais ainda diante da reação dele.

-x-x-

Sentada em frente à lareira, seus dedos voavam pelas teclas do computador portátil. Sua inspiração estava vindo cada dia com mais facilidade, e ela começara a questionar se teria porque voltar para casa. Tudo que precisava, Ananda tinha ali.

Passaram-se horas até que ela percebesse que o sol havia se posto e que a biblioteca estava envolta em trevas. Apenas a lareira fazia sombras bruxeleantes em cada poltrona, estante e livro daquele local. Fechando o notebook, ela encarou as chamas com um sorriso divertido.

O fogo havia se tornado seu elemento favorito, e não era preciso pensar muito para descobrir o motivo. Haviam passado dias desde aquela manhã na cabana, e várias outras manhãs, tardes e noites semelhantes se sucederam. Ela começava a pensar que havia uma luz no fim do túnel. Seu próprio paraíso perdido. Tais pensamentos apenas a faziam querer escrever mais. Apesar de ela saber que agora, não precisava se reter à imaginação. Ela tinha uma vida real.

Retirando a manta que cobria seu colo e jogando-a em outra poltrona, pousou o notebook e caminhou para fora da biblioteca. Haviam passado horas desde a última vez que comera, e logo seria hora de seu penoso remédio. Mais uma vez ela se perguntou o porquê de continuar tomando ele. Era quase incabível a ideia de ficar depressiva com a vida que ela estava levando. Atravessou o corredor até a sala de jantar, e ia direto para a cozinha quando seus olhos ficaram presos sobre a mesa.

A caixa de fitas. Havia esquecido completamente. Deixando as reclamações lícitas de seu estômago de lado, ela pegou as delicada caixa e a levou até seu quarto, onde sua filmadora estava. Com um sorriso satisfeito, ela percebeu que elas entravam perfeitamente. Ligou a câmera e apertou play.

"- Mamã! Ma-aã! - Um pequeno menino, de não mais que dois anos de idade, ria e chamava pela mãe. Os bracinhos gorduchos erguiam-se para quem quer que estivesse segurando a câmera.

- A mamãe vai voltar logo, querido - uma voz aveludada soou, muito perto da câmera."

Ainda que fosse uma bela voz, de uma mulher provavelmente na sua meia-idade, alguma coisa nela dava calafrios a Ananda. Com um leve aperto no coração, ela acelerou a fita.

"A criança ainda clamava pela mãe, mas aceitou brincar com seus apetrechos infantis enquanto isso. Um barulho foi ouvido na porta, e o pequeno prontamente virou os olhos azuis extremamente esperançosos para a origem do som.

- Ora, ora. Veja quem esperou acordado pela mamãe! - Uma voz risonha e amorosa soou, e passos foram ouvidos. Quem segurava a câmera provavelmente estava sentada ao chão com a criança, pois apenas as pernas da recém chegada foram filmadas.

- Ma-aã! Mã! - Riu a criança, satisfeita pela presença materna. Os bracinhos novamente ergueram-se, dessa vez na direção da mãe, e o rostinho gorducho e avermelhado mostrava toda a afeição que sentia.

A mulher se aproximou do pequeno e esticou os braços para ele, abaixando-se para pegá-lo no colo. No exato momento em que seu rosto ia aparecer..."

Nada.

Ananda bufou frustrada. A fita acabara ali. Quem era a mãe? Pelas roupas, ela poderia dizer que aquilo não acontecera muito antes de uma década atrás. Quem era a outra mulher, que filmava o bebê?

Quem era o bebê?

As perguntas atormentaram a morena, que tinha aquela insistente necessidade de saber dos fatos. Sua mente, como sempre criativa, começou a gerar inúmeras versões para aquela história.

A mulher poderia ser a irmã. A tia. A babá. A avó.

A mãe poderia estar no trabalho. Fazendo compras. Viajando. Até mesmo ter ido ao supermercado da esquina.

E o pai? Onde estava o pai do menino? Nada de 'papá' fora mencionado no vídeo. Ananda não suportava mais, ela precisava de mais informações, ou enlouqueceria nas hipóteses do que poderia ter sido.

Alcançou a próxima fita na caixa e colocou-a no lugar da anterior. No momento que ia apertar o botão play, seu celular tocou. Exasperada, ela retirou o aparelho do bolso.

- Alô?

- Olá, sumida - soou uma voz conhecida.

- Oi, Nini - murmurou a morena, frustrada.

- Nossa, eu sei que você me ama, não precisa ser tão enfática ao demonstrar isso! - Brincou a loira. - Oh, Deus, eu interrompi você e o senhor caseiro gostosão, por acaso? - Perguntou maliciosa.

Ananda revirou os olhos.

- Não, não interrompeu. Eu estava apenas fazendo... pesquisas, para o livro. - Não era exatamente uma mentira, pensou. Ela poderia muito bem usar aqueles três aparentemente normais mas estranhamente curiosos personagens da filmagem.

- Ah, sim, sempre trabalhando. De qualquer modo, eu liguei por uma razão. Está preparada? - Sua voz soava animada no outro lado da linha, e a morena não pôde segurar um sorriso.

- Foi chamada para sair por Johnny Depp? - Brincou ela.

- Oh, não, você sabe que ele seria um enorme grude, caído aos meus pés diante de minha perfeição. Nosso relacionamento seria praticamente impossível - a loira entrou na brincadeira. - Além do mais, Dammy não gostaria muito disso - riu.

- Concordo nesse ponto. Então, o que é?

- Lembra da minha tia que morava na Suíça?

- A da fixação em gatos?

- Por quê todos sempre pensam nela? - Resmungou a loira.

- Talvez por ela ser a mais excêntrica pessoa que eu jamais conheci - respondeu a morena, risonha.

- Você tem um ponto aí, mas bem, não é ela. É a tia Catherine, a que sempre azedava todos os eventos familiares com sua inútil presença, reclamando que os jogos de porcelana estavam arranhados ou que havia pó nas cortinas.

- Ah, sim, tão adorável aquela velhinha - ironizou Ananda.

- Totalmente. Ainda mais por que ela resolveu nos deixar em paz e atormentar os do andar de cima... Ou será que os do andar de baixo? - Riu. - De qualquer modo, ela adoravelmente deixou uma herança.

- Oh, você vai ficar ainda mais rica que já é? Realmente é algo a se comemorar - revirou os olhos.

- Não, bobinha. Ela deixou algo muito mais interessante. Uma propriedade em Waldorf! - A morena ficou silenciosamente encarando o papel de parede por alguns momentos. - Carina? Você está aí?

- Sim, estou - respondeu, limpando a garganta. - Nini, Waldorf é aqui do lado. - Disse lentamente.

- Sim! Você viu que maravilha? Posso ir passar as férias aí e nos encontramos!

Com um suspiro a morena contou mentalmente até dez.

- Essa ligação teve o único intuito de você me informar que não consegue me deixar viver por mim mesma, que não confia em mim para tomar minhas próprias decisões ou mesmo de viver sozinha por um mês?

A loira gaguejou um pouco antes de responder, a animação anterior claramente murcha agora.

- Não estou dizendo que não confio em você, Nands. Eu só... Poxa, foi algo totalmente ao acaso! E é na cidade vizinha, você nem pode dizer que estou na casa ao lado! - Defendeu-se.

- Certo. Que seja. Boa estadia para você. Boa noite - irritada, a morena desligou o celular.

Ficou encarando o aparelho pelo que pareceram décadas até lembrar da caixa de fitas sobre a cama. Colocando o celular de lado, pegou a filmadora e apertou play.

Nada. A fita estava vazia.

Ainda mais frustrada, a morena partia para a terceira fita, quando ouviu um barulho no andar de baixo. Largando a filmadora de lado, desceu da cama e caminhou até o parapeito da escada, espreitando o primeiro andar.

- Boneca? Você está aí encima?

Os lábios da morena curvaram-se em um sorriso divertido. Para o tamanho daquele homem e seus jeitos tão totalmente masculinos, era estranho um apelido tão... delicado vindo dele. Mas aquilo apenas a deixava ainda mais louca por Dimitri.

- Isso depende - gritou para a escada. - Você pretende me sequestrar, trancar em meu quarto fazer de mim sua escrava? - O sorriso mudou sutilmente para um malicioso, e logo o moreno apareceu ao pé da escada.

- Vejo que ando dando o mal exemplo por aqui, senhorita Montgomery - sorriu ele, subindo os degraus, enlaçando-a pela cintura e beijando-lhe calorosamente sem pedir licença. - Você não deu sinal de vida o dia inteiro, resolvi aparecer. - Disse ofegante, enquanto ambos recuperavam o fôlego.

- Acabei me empolgando na escrita - respondeu, corada pelo beijo, ainda arfando levemente. - Aliás, esse foi o propósito inicial da minha vinda para cá. Distrações não estavam nos planos - disse, seus lábios tocando os dele. Então, dessa vez, ela quem começou o beijo.

Do quarto, soou o barulho do celular.

- Você não vai atender? - perguntou ele entre beijos.

- Eu sei quem é, ela que deixe um recado - resmungou Ananda, voltando a beijá-lo.

Dessa vez, eles nem chegaram ao quarto.

-x-x-

Por entre as frestas da cortina, o sol batia vigorosamente contra a cama. Remexendo-se, a morena resmungou. Odiava ser acordada por uma claridade. Abaixando os cobertores, levantou da cama e caminhou preguiçosamente até a cortina, pronta para fechá-la completamente. Antes, porém, seus olhos prenderam-se na figura em seu quintal.

Dimitri estava sentado ao lado da cabana, lendo um livro. Seus cabelos eram açoitados pelo vento, mas ele não parecia se importar. Virando uma página, ele teve o sentimento de que era observado. Levantou os olhos até a janela do segundo andar e sorriu. Era um sorriso contagiante e totalmente belo.

Ananda não pôde evitar sorrir de volta. Ela se perguntava se era possível a existência da perfeição. Não precisou pensar muito sobre isso, ponderou. A resposta estava no andar de baixo, sorrindo para ela como se não houvesse amanhã.

Desistindo do sono, a morena resolveu ir tomar um banho e aproveitar a manhã ensolarada com seu amante. Amante. Era uma palavra tão verdadeira, ainda que tão... errada. Como era possível isso?

Assim que a banheira encheu, a morena despiu-se e entrou. Novamente deixou sua mente mergulhar em um emaranhado de memórias confusas. Dessa vez, porém, ela conseguiu uma imagem.

Era um menininho, entre um e dois anos de idade. Ele ria. E então ele chorava. O que aconteceu? O que havia de errado?

- Quem fez isso com você, querido? Quem o assustou? - Ananda pegou-se questionando a pobre criança.

Ele continuava com os olhos cheios de lágrimas, e então... Breu. Água. Silêncio.

- Ananda! Fale comigo! Ananda, responda!

Todo aquele breu, aquele silêncio, aquela... água, fora jogada para fora de si. Seu corpo tremia sem parar enquanto era abraçada por alguém. Quem era? O que havia acontecido?

Abrindo os olhos, ela percebeu que estava no chão do banheiro.

- Dimitri? - Murmurou, rouca.

- Graças a Deus - ele suspirou, aliviado. - O que você fez, Boneca? - Perguntou ele, retirando os cabelos molhados de seu rosto, enquanto a tapava com uma toalha.

- Eu... Nada.

Ela estava confusa. Ela não estava realmente fazendo nada. Estava apenas tomando banho. Por quê ele pensava que algo diferente havia acontecido? Por quê ela encontrava-se no chão?

- Eu ouvi você gritando - murmurou ele. - Lá de fora. Você parecia agoniada. Quando cheguei aqui, você estava submersa.

Ananda fechou os olhos novamente, tentando lembrar o que havia de fato acontecido. Apenas flashes pulavam em sua mente. A banheira. As imagens. O menino. Lágrimas. Medo. Silêncio. Água.

Dimitri pegou a morena com cuidado e levou-a ao quarto, pousando-a sobre a cama e tapando-a com os cobertores. Seu olhar estava preocupado e confuso.

- Eu juro que não sei o que aconteceu - ela disse depois de alguns minutos. - Eu só fui tomar banho. Eu não entendo - sussurrou.

- Shh. Não se preocupe com isso agora. Descanse. Vou buscar algo para você comer.

Dimitri levantou-se da cama e deu um beijo na testa dela. Então saiu do quarto, parando na porta para assegurar-se que ela ainda estava na cama e viva. Deixando as neuroses de lado, ele deixou a porta aberta e seguiu escada abaixo, encaminhando-se para a cozinha.

Passados mais alguns minutos, a morena suspirou e esticou o braço para a mesinha de cabeceira. Pegou o celular e viu cinco chamadas não atendidas. Uma mensagem de voz. Revirando levemente os olhos, ela discou o número. A gravação monótona apontara a uma mensagem não ouvida, e então a voz de Nini soou.

- Nands, atenda esse celular neste segundo! - Som de movimentação ao fundo. A loira bufou. - Ananda Montgomery deixe de ser idiota! - Suspiro. - Nands, eu liguei para os donos da casa para ver se eles não vendiam... Bem, não importa o motivo. Eu liguei e comentei sobre esse seu caseiro. O tão maravilhoso e perfeito caseiro? Não existe! Ananda, eles não contrataram ninguém! Saia daí imediat-

Um bipe finalizou a mensagem. Ananda encarou o celular atônita. "Não existe" ela dissera. Claro que existia! Ela havia passado a última semana inteira com ele! Engolindo em seco, a morena sentiu um calafrio passar por seu corpo.

Se ninguém havia contratado um caseiro... Quem era aquele homem que estava na sua cozinha naquele momento?

Entrando em desespero, a morena levantou da cama, ainda tremendo um pouco, e correu para a cômoda, pegando as primeiras roupas que achou. Vestindo-se com pressa, guardou o celular do bolso e pegou a câmera e o notebook, metendo-os em uma mochila. Ela ouviu a escada rangendo. Ele estava vindo.

- Boneca? Você se levantou? É melhor ficar um pouco deitada. - Sua voz vinha à distância.

O pavor corria por seu sangue junto com a adrenalina, e ela olhou em volta, procurando por uma rota de fuga. Constatando que seria burrice pular pela janela, saiu pela porta e caminhou para o lado contrário à escada principal.

O lado positivo daquelas casas antigas, era os cômodos para empregados: sempre discretos e afastados do resto da casa. Caminhou rápida e silenciosamente até o outro lado da casa, onde a escada dava para a cozinha. A voz de Dimitri soava ao longe.

- Ananda, onde você se meteu?

A voz dele soava confusa, mas algo na mente da morena se assustava até com aquilo. Como ela pôde se deixar enganar por tanto tempo? O que ela havia feito para merecer aquilo? Ananda simplesmente não conseguia entender.

Alcançando a escada de empregados, desceu os degraus com uma agilidade que não sabia ter. Para seu pavor, no entanto, ouviu os passos de Dimitri - se esse era mesmo seu nome - não muito longe, atrás de si.

Pegando o celular no bolso da calça, a morena discou o número da amiga. Tocou três vezes antes de ser atendido.

- Nands? - Sua voz soava preocupada.

- Nini, onde você está?

- A caminho. E você?

- Me dirigindo para o mais longe dessa casa possível - sussurrou.

- Ele ainda está aí?

Engolindo em seco, ela concordou. Nini soltou mais algumas palavras de conforto, dizendo que já estava chegando. Assim que desligou o celular, Ananda percebeu que estava em grandes problemas: a porta da cozinha estava trancada. Havia um barulho vindo da escada de serviço, e ela sabia que nada de bom poderia seguir daquilo.

- Boneca, para onde está indo?

O homem alto e forte tapava o caminho de volta ao andar de cima.

- Quem é você?

Dimitri ergueu uma sobrancelha, duvidoso.

- Você não lembra de mim?

- Eu lembro de quem você criou. Quem é você de verdade?

- Do que você está falando? - Perguntou ele, dando um passo na direção dela.

Ananda pegou um facão que ficava sobre o balcão no meio da cozinha e o ergueu em direção ao moreno. Ele ergueu as mãos em rendição.

- Não seja hipócrita! Eu sei que nenhum caseiro foi contratado para essa propriedade!

Ele abriu levemente a boca, soltando um som de entendimento. Aquilo acabou com qualquer esperança da morena de haver uma explicação coerente para aquela situação.

- Boneca, eu posso explicar. Largue essa faca, por favor.

- Não! Não me chame assim, não tente inventar desculpas e não se aproxime mais de mim!

- Espera, eu mereço o benefício da dúvida!

A mão de Ananda tremia, mas nem por isso ela deixou de erguer a lâmina afiada.

- Por quê eu o daria? - Perguntou ela, já cansada de tudo aquilo.

Dimitri não esperou outro segundo para fazer um ágil movimento, pegando-a de surpresa e segurando seus braços. Seus rostos se aproximaram e ela conseguia sentir sua respiração. Ambos arfavam, e seus olhos mais uma vez se prenderam.

- A última semana não significou nada pra você? - Perguntou ele, olhando tão profundamente nos olhos dela, que a fazia se sentir ainda menor e mais desprotegida que já estava.

As lágrimas não hesitaram em encher os olhos negros de Ananda. Dimitri não estava em muito melhor estado.

- Se significaram para você metade do que significou para mim - sussurrou ela. - Então por que você mentiu?

O moreno ergueu a mão que segurava um dos braços dela e tocou seus cabelos ainda úmidos, retirando-os de seu rosto. Ela ainda tinha a faca na outra mão, mas não sentia a mínima vontade de usá-la.

- É complicado - respondeu ele. - Mas eu posso explicar a você. Por favor, me escute.

Ela ainda estava presa no feitiço dos olhos turmalina. Ela não conseguia se libertar. Naquele momento ela percebeu que não queria se libertar.

-x-x-

-x-Flashback-x-

Dezenove anos no passado, um menino de aproximadamente dois anos de idade brincava no tapete com sua babá. Ele clamava pela mãe. A babá dizia que ela logo voltaria.

Dentro de alguns minutos ela chegou. Sorridente, pegou o filho no colo e o ninou. Assim que conseguiu fazer com que ele dormisse, voltou-se para a babá.

- Ele nos encontrou. Ele está vindo - sussurrou ela, o pavor evidente em sua voz.

- Como ele conseguiu o endereço? - A babá parecia surpresa.

- Eu não sei. Alguém nos traiu. Por quanto tempo ainda teremos que fugir dele, Nana? - A mulher caiu em lágrimas.

Ela estava exausta daquela situação. Não aguentava mais viver olhando para trás, se perguntando se poderia ser descoberta. Se ele sabia. Se ele conseguiria novamente pegá-la. Ou pior, se colocaria as mãos no seu pequeno tesouro. Seu filho, tão inocente. Seu Dimitri.

-x-Flashback-x-

- Por quê não falou desde o início que essa casa era da sua família?

- Acho que você pode entender que eu não tenho exatamente boas lembranças desse local - disse ele, os olhos presos nos detalhes de gesso das paredes e do teto abobadado da biblioteca.

- O que aconteceu com a sua mãe?

- Byron conseguiu pegá-la - sua voz não passava de um sussurro. - Fui criado pela Nana, a babá, até que ela faleceu alguns anos atrás. Então eu vim para cá, procurando por respostas. Procurando pela minha mãe.

- Não teve muito sucesso, não é?

Dimitri negou com a cabeça, então suspirou.

- Eu não esperava que meu avô fosse alugar essa propriedade. Ela ficou intocada por quase vinte anos, desde que minha mãe foi arrastada daqui.

Ananda baixou os olhos para suas mãos. Aquela história lhe doía, mais do que a uma simples espectadora. Ela sentia a dor daquela mãe, sentia a dor de Dimitri.

- Eu sinto muito ter duvidado de você - murmurou.

Ele voltou os olhos azuis para ela, as turmalinas refletindo um brilho vívido e puro, quase... infantil.

- Você estava certa em duvidar de mim. Eu menti para você, afinal.

- Existe mais algo que eu deva saber?

- Meu nome do meio é Klaus? - Perguntou ele, levemente divertido. Então voltou a ficar sério. - Mas agora é a sua vez. Por quê você toma aqueles remédios? Eu já vi eles antes. São anti-depressivos, não são?

Ela suspirou pesadamente. Sabia que alguma hora teria que falar sobre aquilo com alguém.

- Eu não vou poder dar tantas informações quanto você. Não por que eu não confie em você - adiantou-se ao ver o olhar dele. - Mas por quê eu realmente não tenho muitas lembranças do que aconteceu. Segundo o psicanalista, eu bloqueei minhas memórias. Eu bloqueei três anos da minha vida, e não tenho ideia do que aconteceu durante esse tempo. Só sei que foi o suficiente para eu não querer sair da cama por meses.

Ambos ficaram em silêncio. Não havia mais muito o que dizer. Dimitri colocou um braço sobre os ombros da morena e puxou-a para junto de si. Ambos encararam a lareira recém acesa. Algo dentro de Ananda ainda gritava para sair, mas ela não conseguia entender o que era.

Alguns minutos depois, a morena lembrou-se de algo importante: Nini. Ela estava vindo, e provavelmente estava quase chegando. Pegou o celular do bolso, mas ele não tinha sinal ali. Com um suspiro, a morena pediu desculpas a Dimitri e saiu da biblioteca, seguindo para a cozinha, onde sabia que tinha algum sinal, afinal havia falado com Nini dali. Enquanto esperava que o celular revivesse, percebeu a mochila caída ao canto. Provavelmente a havia deixado cair ao pegar a faca, meia hora antes.

Largando o celular sobre o balcão, pegou a mochila e a abriu. A câmera estava ali. Uma luz piscou em sua mente. A terceira fita ainda estava ali dentro. Mais uma vez aquele mesmo bichinho da curiosidade, que soltava um alarme em seu interior toda vez que se aproximava daquelas fitas, manifestou-se.

Depois de hesitar por alguns momentos, a morena apertou o botão play.

"- Você realmente precisa filmar tudo, Nana? - A voz aveludada da mãe do menino parecia urgente.

- Você sabia que estão começando a aceitar gravações nos tribunais? Tudo que acontecer pode ser usado a nosso favor!

- Ou contra nós! Você sabe que ele pode conseguir os melhores advogados - contrapôs ela, nervosa.

- Você também pode! Não vou desistir, querida. Você sabe disso.

Com um suspiro exasperado, a morena concordou levemente com a cabeça. Seu rosto ainda não era visível, pois ela não parava de se mexer de um lado ao outro do quarto em que estava, guardando as suas roupas e as do filho. Então o pequeno apareceu na porta, uma expressão sonolenta, as mãos gorduchinhas esfregando os olhos.

- Ma-mã? Viajá? - Perguntou ele em sua voz infantil.

Ela suspirou novamente, dessa vez triste. Era óbvio que ela não gostava de ter que fugir com seu filho a cada poucos meses, dando a ele uma nova casa, um novo modo de vida, até mesmo um novo nome.

- Sim, meu amor. Vamos viajar de novo - ela se abaixou e pegou o pequeno no colo, dando-lhe um beijo no rostinho rechonchudo.

Então ela virou para a câmera. Os olhos negros demonstravam medo, a pele dourada levemente corada, os cabelos tão escuros quanto os olhos bagunçados pela correria."

Com um arfar chocado, Ananda jogou a filmadora sobre o balcão, dando um passo para trás. Como aquilo era possível? Como diabos Ananda aparecia como a mãe de Dimitri naquelas filmagens?

Seu celular voltou a tocar. O som, no entanto, parecia completamente longínquo. A morena arregalou os olhos. Cenas começaram a passar por sua mente como em flashes, e ela caiu ao chão, tremendo.

-x-Flashback-x-

Ananda encontrava-se em uma casa de campo de sua família. Seus pais estavam dando mais uma daquelas festas chiques e tediosas para a alta sociedade, onde todos fingiam ser o que não eram para conversar sobre coisas que não gostavam e receber elogios que não precisavam. Aquela era a tentativa frustrada de seus pais para tirar a 'ideia maluca' de sua cabeça de se tornar escritora.

Seus olhos prenderam-se em um jovem que parecia tão deslocado ali quanto ela. Ele tinha cabelos loiro-prateados e olhos de um azul límpido, como o mar no verão. Ele sorriu para ela e se aproximou, fazendo uma leve e fora de moda reverência. Aquilo, no entanto, apenas a divertiu.

- Lucien Daratrazanoff.

- Ananda Montgomery - sorriu ela, erguendo a mão para ele, que charmosamente a levou aos seus lábios.

- Encantado.

-x-x-x-

Era agora uma pequena capela no interior da Inglaterra, e ambos sorriam como se não houvesse amanhã.

- Lucien Daratrazanoff, você aceita Ananda Kaylie Montgomery como sua legítima esposa?

- Aceito.

-x-x-x-

- É um menino. Você já escolheu o nome?

- Sim. Seu nome será Klaus - a morena sorriu iluminada para o pequeno bebê em seus braços.

- Onde está o pai?

O sorriso sumiu instantaneamente.

- Ele não estava se sentindo bem - respondeu, os olhos ainda presos no filho.

-x-x-x-

Um ano havia se passado, e Ananda há muito já havia descoberto que não existiam contos de fada. Seu marido se mostrara um bêbado agressivo, e cada vez que o pequeno Klaus chorava, ela era obrigada a colocar-se no caminho dele para que Lucien não o machucasse.

- É só uma criança - ela chorava. - É o seu filho!

A babá, Nana, havia sido desde o início seu único auxílio. Ela não podia contar às amigas o que acontecia. Não podia contar aos pais. Não podia contar a ninguém.

-x-x-x-

- Nós vamos fugir, sra. Ananda. Já consegui cuidar de tudo, um amigo vai nos pegar na estação de trem.

A morena olhou agradecida para a babá, os olhos cheios de lágrimas, as roupas compridas escondendo os hematomas. Seu marido sabia aonde acertar para poder manter as aparências.

- Obrigada, Nana - sussurrou ela, abraçada ao filho.

A babá sorriu e pegou a criança dos braços da jovem, tocando de leve seu rosto. Ela tinha especial afeto pelo filho dela.

- Vá dormir um pouco, querida. Logo estará livre.

-x-x-x-

Ao longo do ano seguinte, a morena descobriu como era a vida de fugitiva. Algo, no entanto, continuava muito errado. Nana parecia cada vez mais fixada em Klaus, e isso despertou um alarme na mente da jovem.

No aniversário de dois anos de seu filho, a morena acabou mexendo nas coisas da babá, e descobriu um recorte de jornal. A manchete dizia 'Mãe perde bebê durante o banho". Ananda leu rapidamente a reportagem, e descobriu que uma mãe banhava o filho quando ele teve insuficiência respiratória e morreu.

Arregalando os olhos, a morena ouviu um barulho no banheiro. Correu para lá, e Nana estava com o bebê mergulhado na banheira.

- Vamos ficar bem limpinhos, não é, querido?

- Nana, largue ele - disse ela, aproximando cautelosamente dos dois.

- Por quê, querida? Ele adora tomar banho, não é? Meu pequeno Benjamin adorava seus banhos também - murmurou ela, esfregando o corpo do pequeno.

A morena sentiu um aperto no coração. O menino não se mexia.

- Nana, entregue o meu filho, por favor.

A babá virou-se irritada.

- Você não sabe se comportar, sabe? Você com certeza não aprendeu com seu marido. Mas não se preocupe. Agora que eu finalmente peguei meu Benjamin de volta, seu marido já foi avisado para buscar você.

Ananda arregalou os olhos. Nana havia chamado Lucien? Ele sabia onde elas estavam? Por que ela havia esperado até aquele momento então, se iria jogá-la de volta aos tubarões? E por quê estava maltratando seu filho, que não tinha culpa alguma?

Então algo lhe ocorreu. No jornal, dizia que o bebê havia morrido em seu aniversário de dois anos.

- Saia de perto do meu filho! - Gritou ela em desespero, empurrando a mulher para longe e se curvando sobre a banheira.

Klaus estava imóvel.

O resto passou como um borrão na frente de seus olhos. Lucien apareceu. Nana tinha uma arma. De onde ela havia tirado aquela arma? Ela começou a atirar. Ela gritava. Lucien gritava de volta.

Ananda não se importava. Seu bebê. Seu pequeno bebê.

-x-Flashback-x-

Encolhida no chão, ela percebeu a verdade, ainda em choque: Dimitri não era seu amante. Era seu filho.

O pequeno menino apareceu ao lado da morena na cozinha e a abraçou.

- Ma-mã. Viajá?

Com lágrimas nos olhos, ela abraçou o pequeno.

- Sim, meu amor. Vamos viajar de novo - sussurrou.

-x-x-

Ela corria o máximo que podia. Seus pulmões quase rasgavam-se à procura de ar, e suas pernas imploravam para que parasse. Mas ela não pararia. Ela sabia que se o fizesse, não teria outra chance.

Se parasse, seria seu fim. O fim de Ananda.

Aninia não parou um momento sequer. Precisava subir a montanha até a casa onde a amiga estava. Ela sabia que Ananda estava em grande perigo.

Quando finalmente chegou à casa, a porta da cozinha estava trancada. Ela deu a volta e entrou pela porta principal. Procurou de cômodo em cômodo, gritando pela morena.

Escritório? Vazio. Banheiros? Vazios. Corredor, biblioteca, sala de jantar. Vazios. Chegou à cozinha. Lá estava ela, caída ao chão, os cabelos úmidos, o corpo tremendo. Encolhida, chorando, em choque.

A loira se aproximou da amiga e tocou seu rosto, fazendo-a encolher-se mais ainda.

- Shh... Calma, querida. Eu estou aqui - murmurou ela, tristeza em seus olhos. Abraçou a morena e ficou um tempo com ela.

Então a ajudou a subir até o quarto, deitou-a na cama, deu-lhe um remédio e ligou para o psiquiatra.

- Espere, vou verificar - disse ao telefone, enquanto procurava nas coisas da morena, até que achou um vidro na cômoda do quarto. - Cheio. Ela provavelmente não tomou um remédio sequer desde que chegou aqui. Sim, eu já dei um remédio para ela dormir. Ela passou dias me falando de um homem. Sim, um tal caseiro com quem ela estaria tendo um relacionamento. Não, eu falei com os donos. Sim. Procurei na casa inteira, não achei ninguém. Certo. Obrigada, doutor.

Desligando o celular, a loira deu uma última olhada na morena, então desceu as escadas e tentou a porta da cozinha. Enferrujada. Provavelmente não era aberta há anos. Forçou ela, e conseguiu quebrar a tranca. Saiu para o forte vento da montanha, e caminhou até a cabana ao lado da casa. A maçaneta funcionou, e ela abriu. Entou no local e suspirou.

Empoeirado. Abandonado. Com cheiro de mofo. Provavelmente ninguém entrava ali há mais anos ainda que usavam a porta da cozinha.

Caminhou de volta para a casa e encontrou a filmadora sobre o balcão da cozinha. Com um certo medo, apertou play.

Nada. A fita estava vazia.

Mais tarde ela encontrou as outras fitas dentro da caixa. Todas vazias.

-x-x-

- Teremos que interná-la novamente. A perda do filho realmente a enlouqueceu. - O psiquiatra comunicou a Aninia, enquanto os enfermeiros a carregavam para a ambulância.

A loira concordou com pesar. Ela se perguntou que tipo de alucinações a morena teria tido, além do tal caseiro. Então encarou o frasco de remédios. Anti-psicóticos.

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N/A: Uma história de suspense/terror/romance baseada num filme que nem lembro o nome. Personagens originais. Gostou? Comente e faça uma autora feliz. Capa no meu perfil.