Black/White Rainbow

Os trotes ficavam cada vez mais altos, e no horizonte, Macaco viu: mas era a mulher do lenhador! Como ela sabia quando eles teriam terminado? Se não sabia, quais são as chances de ter tanta sorte no horário? Ele percebeu que estava pensando demais... Até que ele se lembrou que tinha cem toras para entrega e não seria um mísero cavalo que teria a força para levar isso sozinho.

Conforme ela se aproximava, ele via que o cavalo puxava um tipo de carroça sem telhado. É quase como se fosse um caminhão em menor escala, e, bem, puxado a cavalo. Não sabia quantas toras seria a capacidade, ou mesmo se o cavalo conseguiria levar aquilo tudo, mesmo levando em conta a sua surpreendente leveza, ainda teria a esposa do lenhador, que o guiaria, sozinho. De qualquer forma, com certeza seria mais rápido do que ele, que planejava puxar uma tora por vez.

A mulher chegou ao ponto do lenhador, que simplesmente despejou as toras no carro puxado. O cavalo inalterado, o homem jogou mais e mais aspirantes a material de construção. A capacidade máxima terminou sendo quinze toras. Depois de apropriadamente amarradas, a loira montou e partiu tão rápido quanto chegou. Assim que essas tarefas terminassem, ele pensava, precisava sentar e conversar com essas pessoas.

Sua primeira prioridade é voltar para casa, mas para fazer isso ele ia precisar primeiro saber onde estava, e se possível como chegou. Para essa função, saber quem eles eram, de onde vieram, e os motivos por trás de suas ações era secundário, mas isso não matava a curiosidade que tinha para com essas coisas.

Enquanto preparava as próximas toras, ele analisava o mundo em que estava. Pela primeira vez questionava se ainda estava na boa e velha Terra, onde a maior parte dos terráqueos parecia viver a sua vida inteira, excluindo-se astronautas e aparentemente, ele. Um mundo onde serras não existem, camponeses ainda são medievais e dependem dos cavalos para tudo?

A mulher do lenhador chegou e ele carregou mais toras. Ele analisava o cavalo também, tinha pêlos marrons, crina e cauda coloridas com a mesma cor, mesmo que em um tom mais escuro. Diferente de quase tudo que vira até ali, a besta era completamente normal, pelo menos comparado aos cavalos que viu em casa, que, admitidamente, não eram tantos.

Não podia tirar o passado das possibilidades, mas aí entrava aquela rede que se tornava um enorme saco d'água. Aquilo parecia um aplicativo bem futurístico, senão mesmo fantasioso. E mesmo na possibilidade magra de estar sendo sequestrado quando, em uma curva errada, seus sequestradores tiveram de deixar seu corpo inconsciente perto de uma lagoa qualquer, e fugir, dando o pontapé inicial em tudo que estava presenciando até aí, isso não explicava o peso das toras, nem a inexistência de serras.

Já na quarta leva de toras, ele voltou a lembrar de sua própria casa. A cidade onde morava era pequena, mas não era nenhum sertão. A vida lá era exatamente como em uma metrópole qualquer, exceto pelo fato de que tudo era em menor escala, mais quieto. As aulas de matemática quais achava ter dormido por sua duração completa voltavam à sua cabeça: era realmente como uma escala. Não queria pressionar mais o assunto, então voltou à tarefa.

Assim que carregadas as toras, no entanto, ele voltou a pensar. Se era efeito colateral do ócio ele não sabia, mas estava pensando muito naquele dia. Talvez ele realmente não tivesse muito no que pensar quando estava em casa. A sua vida era normal. Sempre seguia a mesma rotina: de casa para a escola, da escola para casa. Agora que via de um outro ponto de vista, ele só não saiu dessa rotina porque não quis: era mais seguro e mais fácil assim.

Já na sexta e penúltima leva de toras, ele pensou em algo que o lenhador disse antes, quando havia terminado o que mais parecia uma colheita do que de fato cortar árvores, que levariam aquelas toras usando apenas as mãos. Enquanto aparentava ser apenas uma brincadeira, seu tom era sério (relativamente...), e ele tinha até mesmo pego algumas árvores de baixo de seu braço. Ele sabia que a esposa viria? Isso era costumeiro? Precisava mesmo conversar com os anfitriões da casa.

Já subindo a última leva, que abrigava apenas dez toras e permitia espaço para ele e o lenhador sentarem, ele pensava novamente no que antes achou que era besteira: estava mesmo na Terra, ainda? As memórias do que aconteceu apenas algumas horas antes estavam frescas na sua cabeça. Ele estava pelado, perto de uma lagoa.

Foi quando se deparou com o lenhador, que tinha um abrigo por perto. Até onde ele sabia, ele podia até mesmo ter desenvolvido um novo tipo de compartimento (ou mesmo poderia ser, com já havia especulado, um rico excêntrico que fugia do stress da cidade grande, e teria patrocinado novas tecnologias para deixar a sua vida rural mais fácil) que dobrava as leis da física de forma que só havia visto pela última vez...

Foi quando a sua cabeça teve um impulso para trás. Por sorte não bateu a sua nuca contra uma das toras (elas podiam ser leves, mas ainda eram duras). Como não se lembrou do arco-íris antes? A última coisa que se recordava antes de acordar desnudo na grama foi ter visto um arco-íris preto e branco que desmantelava as leis da física! Que relação ele tinha com isso tudo? Havia de investigar, mas primeiro, voltou à casa do lenhador.

Depositaram as toras remanescentes junto das outras, e voltaram para o aconchego da casa do lenhador. Para a surpresa do garoto, encontrou a menina de vestido branco lendo na sala. Sempre pensou que A pobrezinha parecia estar tão absorvida que não ouviu o rangido da porta se abrindo. Ele se perguntava o parentesco que a garota tinha com o casal da casa, mas isso podia esperar.

Agora ele tinha perguntas muito mais importantes a fazer.