O cheiro era insuportável e picava cada vez pior. Da última vez em que vira alguma coisa, seu companheiro estava desmaiado. Ele só o conhecia de vista; era filho de um dos taverneiros do vilarejo e também fora trazido para as masmorras.

Eles nunca mais tiveram paz desde que o primeiro destacamento veio de Yuden.

Zero já não sabia há quanto tempo estava ali. Pelo cheiro, umas duas semanas. Não conseguia mais sentir as pernas, mas sabia que estava sentado em cima delas.

Uma palavra errada, apenas umas graças à sua arrogância. Os Yudenianos ouviram e o pegaram. E depois se seguiram duas semanas de tortura. No terceiro dia lhe quebraram as pernas, no sexto cortaram-lhe a língua ou teria sido no sétimo? Suas órbitas agora estavam vazias, porque ele os tinha desafiado não respondera às perguntas e lutara.

Em meio ao cheiro pútrido, ele podia identificar o aroma doce de pão velho e seco, o que ele se recusaria a ingerir antes, mas agora sua boca sem língua salivava pela comida, ele não podia comer, entretanto; suas mãos estavam amarradas às costas e ele não podia ver aonde estava a comida agora e não podia se arrastar também, pois tinham lhe acorrentado os pés.

Um silêncio repentino o fez parar de se mexer. Sem enxergar, Zero passara a prestar mais atenção em seus outros sentidos, além disso, já estava acostumado com o barulho das armaduras tilintando lá fora, mas de repente o raspar dos metais cessaram somente para dar lugar a uma voz forte.

- Alto lá!

Estremeceu com aquela voz, se de raiva ou de medo ainda não era possível saber. Percebeu então que seu companheiro de cela estava morto, pois ele não ouvira o barulho de suas correntes (e agora notava que fazia muito tempo), nem seu gemido agoniado, o que era bem usual. Aquela voz pertencia a um de seus carrascos que agora, aparentemente, fazia guarda em frente às masmorras.

Respirou fundo, inalando o odor da podridão. Pelo menos não era Ivan, seus capangas não o teriam mandado parar daquela maneira.

Esperou, esperou e conseguiu ouvir uma voz de mulher. Não parecia ser nem um pouco frágil, era quase possível ver uma guerreira como dona da voz.

Ouviu um gemido estrangulado do lado de fora e então a confusão começou. Espadas tiniram e arranharam suas bainhas e logo depois veio o alarme. Houve correria do lado de fora, e a confusão do tilintar das armaduras recomeçou, mas de uma maneira bem mais apressada.

Correria e o som inconfundível de um corpo caindo no chão.

Guardas ficaram agitados na câmara ao lado, mas mantiveram o silêncio, desembainhando suas armas com rapidez de carrascos, esperando para atacar o inimigo desconhecido. Moveram-se rapidamente, pés arrastando-se no chão em uma tentativa fraca de ser furtivo e os guardar tomaram suas posições.

A luta lá fora continuou e não demorou para ser trazida para dentro. Para derrotar todos os guardas lá fora era necessário um grupo consideravelmente grande e de muita experiência. Por um momento, Zero temeu que talvez eles fossem piores que os Yudenianos – embora fosse difícil de acreditar – e se eles estivessem tomando o vilarejo em nome de outra cidade? E se o torturassem mais? Mas seu coração se acalmou quando ele se forçou a pensar racionalmente. Que cidade seria louca o suficiente para se opor a Yuden?

Ouviu barulho de mais armaduras lá fora. Pelo som eram armaduras pesadas, armaduras Yudenianas. Zero tratou de não criar esperanças, porque quem quer que tivesse derrotado os guardas lá fora, não podia dar conta no número que estava vindo para ajudar. Ou talvez...

Pelo que conseguia se lembrar da entrada da masmorra, a única porta de entrada era bem estreita, apenas uma pessoa seria capaz de bloquear. Foi então que ele pensou em ajudar, toda sua exaustão esquecida por conta da adrenalina. Em outras circunstâncias ele teria ajudado – não por ajudar, mas sim para provar que podia ser útil, para si mesmo e para os outros. Teria sido, talvez, o primeiro a levantar uma espada...embora preferisse seu arco, no momento, qualquer coisa servia.

Era uma mistura de sons, ou muito baixos, ou muito altos. Estranhamente, a água corrente do Rio dos Deuses parecia se sobrepor a tudo isso. Era a sobrecarga que sua audição estava recebendo.

O mundo pareceu ficar mudo por um tempo, seu corpo amoleceu e Zero entrou em algum tipo de transe de exaustão sabe-se lá por quanto tempo. Era algum tipo estranho de desmaio, pensou mais tarde. Quando seu corpo tombou para frente, ele não atingiu o chão. Seu rosto entrou em contato com uma superfície fria e lisa. Metálica. O choque da temperatura o fez despertar e sua audição pareceu voltar. O caos tinha acabado, estava tudo estranhamente silencioso. Talvez ele tivesse sonhado.

Uma voz de homem perguntou alguma coisa, quem ele era ou o que tinha acontecido talvez, uma voz que não lhe era familiar. Zero tinha todas as respostas, mas não podia articular

Queria agradecer, queria chorar, queria sair dali, queria sua família de volta, queria voltar no tempo e parar de ser tão arrogante, mas ele sabia que não podia. Ele abriu a boca, mas tudo o que saiu foi um lamento estrangulado, extremamente vergonhoso. Um pedido:

- Por favor – implorou no melhor de sua voz e língua.

O homem á sua frente se afastou e Zero, por reflexo, encolheu-se, lembranças da tortura voltando á tona. Estranhou quando o tapa não veio.

- Você vai ficar bem – o homem disse – Vamos tirar você daqui.