Era uma vez

Um grãozinho de areia.

Vivia em uma praia qualquer,

O lugar pouco importa, afinal.

Vivia sozinho, abandonado,

Como um marginal.

Não tinha ninguém,

E ninguém o tinha.

Vivia sua triste vida sozinha,

Perdido em devaneios

Perdido em veraneios

Perdido em derradeiros

(sim derradeiros)

Ponteiros.

x

Os do relógio, sabe?

Tão teimosos

Quanto se pode ser.

Insistiam em continuar

Sua dança agonizante

Que faz o tempo passar.

Insistiam, ainda que o grãozinho

Os implorasse para parar.

Isto porque o tempo traz o verão

E o verão traz pessoas.

Oh, como ele odiava as pessoas!

Tão malcriados, o pisoteavam

Esmagavam, e disso se orgulhavam.

Riam-se, cheios de si,

Enquanto o grãozinho, tão pequenino

Já não sabia se estava aqui ou ali.

x

Mas, um dia desses,

O anuviado céu escureceu.

Trovões ecoaram,

As pessoas partiram

O calor desvaneceu.

E quando a primeira gota de chuva caiu

O grãozinho correu,

Mas do destino não se corre,

Oh pequenino.

Já estava escrito,

Ele estava fadado a se molhar.

E a quando a gotinha de chuva o atingiu,

Ele descobriu,

Também estava fadado a se apaixonar.

x

Na chuva eles riram,

Na chuva se perderam

Em devaneios

Em veraneios

E nos malditos, e derradeiros

Ponteiros.

Que o tempo levou.

x

"Não se vá"

O grãozinho implorou.

"Fique aqui comigo, porque eu te amo,

E também estou certo de seu amor."

"Era eu uma lágrima"

disse ela

"Que no calor evaporou,

E chuva se tornou."

"Portanto, não sei amar

Só sei sofrer;

Só sei chover;

Só sei chorar."

"Não é preciso saber para amar.

Olhe para nós:

Tão diferentes e tão iguais.

Não há regras.

Apenas sinta, se permita,

E vence-se até o frio mais atroz."

x

A gotinha enfim entendeu.

O que era amar.

Mas o tempo passou,

E a levou pro mar

Onde tornou a evaporar.

Mas ela, do grãozinho não se esqueceu.

Apenas guardou-o em seu aquoso coração.

"Eu volto"

Disse ela.

"Volto no próximo verão

Para tudo recomeçar

Na próxima chuva...

Só pra te buscar"