Vinde Vós

Que sois o Santo

E desatai os nós.

Os nós das amarras aos pulsos

Os nós de ideias arcaicas

De peitos e corações avulsos.

x

Desatai a dor que me destrata

Que corrói e maltrata.

A dor do silêncio,

Do que foi dito ao pau-de-arara

Do grito emudecido, morto

Onde mesmo se iniciara.

x

Da sobrevida de um velho poeta

Que canta atrocidades

Nas entrelinhas de falsos amores

Que dá disfarce aos seus protestos

Que se cala diante dos horrores

Da democracia de um governo desonesto

x

Vós, que sois o Pai

Afastai de mim este Cálice.

Afastai de mim este Cale-se.

De vinho tinto, de sangue.

x

Escutai, Oh Pai,

Esta última prece desesperada

Retirai o silêncio

Que traspassa minha garganta

Como uma santa desalmada,

Entre punhos e joelhos¹

De onde brota o sangue

Quer borbulha dentro de minh'alma.

x

Vinde, Oh Santo

Para que caleis minha voz.

Pois este velho poeta ainda grita

E ainda sangra a verdade recôndita

Das feridas d'uma mão atroz.

x

Vós, que sois o Pai

Afastai de mim

Esta vontade desumana de gritar;

De mudar o imutável,

E a verdade absoluta contestar.

x

Dai-me força para desistir,

Coragem de não continuar,

De o silêncio engolir,

Sorrir, e continuar a cantar.

x

Afastai de mim este Cale-se, Pai,

Que me impede de gritar.

Afastai o silêncio de mim,

Que se põe ao meu ego corroer,

Afastai este Cálice de mim,

Ou me deixai morrer...

Enfim.