Começa de mansinho, mal dá pra perceber. O céu vai escurecendo, a luz vai se esvaindo, e quando dou por mim estou com o rosto colado no vidro frio da janela, hipnotizado. Inventando minhas próprias palavras entre um trovão e outro, ou desenhando inconsistências no embaçado frágil provocado pela minha respiração. Minha respiração. Isso deve significar que ainda estou vivo, certo?

Eventualmente, há também uma xícara de café, ou um copo de chocolate quente, conforme peça a situação. Mas quase sempre o líquido esfria. Costumo me esquecer tão facilmente dele... Talvez sejam meus lábios que prefiram se encostar-se à janela gélida em vez do quente da bebida.

Pergunto-me como os passarinhos ainda cantam, quando chove. Pergunto-me se eles cantam justamente porque chove. Talvez eles sejam tão dependentes da chuva quanto eu sou. Talvez eles também parem apenas para ouvir seus gracejos, suas melodias de entrelinhas. Costumam acusar-me de me ensimesmar, quando me ponho à janela. Mas sei que não é isso o que ocorre. Ou talvez seja, considerando o fato que, de tanto observar, sinto-me parte da chuva. Ensimesmado nela, como se ela fosse meu mundo, e meu mundo fosse dela. Como talvez seja de fato.

Ora, como afinal deixo-me impressionar? Afinal, é só água caindo.

Só.

Pois é.

Quando chove aqui eu lembro de você.