Fui-me então.

O fechar dos olhos...!

O envolver duma escuridão...!

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Fui-me então.

Desta minha vida parti.

E sequer lembro se existi.

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Mas trouxe a caneta comigo.

(E ela ainda é tão viva...!)

Ao pulsar em meu bolso, seu abrigo

Clama por outra saída.

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Mas sabes bem pequena,

Sempre fostes meu coração.

Lembra-te de como era tenra

Ao deslizar nos dedos de minha mão?

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Eras tão bela no rodopiar vertiginoso

Que se fixava no papel, feito eterna espiral

Mas agora este poeta é morto,

E fazer verso agora é vital.

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Pois já não me lembro

Do mundo que deixei

Lembro, apenas, das rimas que fiz

Dos amores que versei.

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E se agora eu o refaço

É porque não ouso esquecer

Não sei dar nó sem laço

Tampouco sei se sei morrer.

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Escrevo sussurros cadenciados

Pois sou feito de tinta azul

Preciso do meu silêncio gritado!

Vivo nas entrelinhas dum poema cru.

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Escrevo também seus sorrisos

Os triunfos que deixei há muito,

As alegrias efêmeras e intrínsecas

No perfume doce dos teus olhos úmidos.

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Recriei, em tinta de caneta

O tontear do prazer.

Refiz estrelas e planetas

Só pra vê-los quando anoitecer.

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Mas sou menino-cinza:

Sem noite não sei existir.

Não sei morrer sem rima,

Mas não sei rimar sem deixar cair.

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Fiz meu mundo em poesia,

Reticências e vírgulas

Mas fracassei! Meu mundo não me pertencia

Pois sou nu: despi-me da vida.

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Mas sou poeta morto:

Fracasso de sorriso enviesado.

Meu mundo agora é outro;

Que estes versos padeçam comigo:

Enterrados.