Nota: Anam Cara quer dizer "amigo da alma" em gaélico irlandês.


Prólogo

O ar do fim de tarde ainda exala o característico cheiro de terra molhada após a chuva enquanto dois vultos adentram apressados a mata próxima ao acampamento onde costumavam viver e que no momento está prestes a ser atacado pelos inimigos de seu povo.

Apesar do terrível fim que a espera se ficar ali, a garota parece receosa com o fato de estar adentrando a floresta.

NIMUEH: Eu não vou conseguir!

MYRDDIN: Eu sei que vai. Vamos! Estamos quase lá.

Segurando a barra do longo vestido de cor crua adornado com detalhes coloridos, na tentativa de facilitar a rápida caminhada, a jovem se esforça para alcançar os largos e determinados passos do rapaz vestido de preto.

Após andarem mais alguns metros, o casal parou em uma clareira onde apenas um grande e velho carvalho mantém-se de pé cercado pelas outras árvores do local.

MYRDDIN: Chegou a hora.

NIMUEH: Deve ter outro jeito...

Myrddin segurou as mãos de Nimueh para tranqüilizá-la.

MYRDDIN: Os outros já estão a salvo e essa é nossa única chance.

Nimueh soltou um suspiro entristecido.

MYRDDIN: Tenho que ir com nosso povo, eles precisarão de ajuda para se adaptar aos novos tempos. E você precisa ficar com sua irmã.

Ela assentiu com a cabeça, concordando que realmente precisa cuidar se sua irmã e dos outros como ela que sofrem com uma infeliz maldição, destinados a viverem entre terra e água.

NIMUEH: Quanto tempo isso vai durar?

MYRDDIN: Ninguém sabe. Pode ser um ano, cem anos...

Então, deixando seus sentimentos falarem mais alto, Nimueh abraçou Myrddin.

MYRDDIN: Na hora certa vamos saber.

Com essa afirmação enigmática Myrddin se afastou de Nimueh e se aproximando do carvalho, recostou-se em seu enorme tronco.

MYRDDIN: Sabe o que tem que fazer?

Nimueh respirou fundo, triste, porém determinada.

NIMUEH: Sei.

Em Brocéliande, uma agitada cidade de médio porte, o jovem de vinte e poucos anos desperta de um cochilo no sofá do camarim da casa de espetáculos onde deverá se apresentar daqui a poucos minutos, melancolicamente acostumado com os estranhos sonhos que vem tendo nos últimos meses.

Enquanto isso, em uma interiorana cidade vizinha, a garota da mesma idade levanta-se da cama no meio da noite e segue para a janela aberta do quarto onde apóia os braços, cruzados para aquecê-la do vento frio, contemplando a noite estrelada com uma estranha sensação de saudade e uma única certeza: essa será sua ultima noite na cidade de Lock.