Sexta à noite virando a madrugada de sábado. Viro o espelho na minha direção por que mereço olhar. Afinal, me pus nessa posição. Meu reflexo me olha com a mistura de repreensão e complacência que sei que sai de cada poro meu. A sexta à noite vira madrugada de sábado e eu verto lágrimas ardidas que em nada aliviam o aperto no meu peito. Sinto como se estivesse me rasgando e tentando achar a solução apesar de tudo. E sei que mereço olhar, por que a culpa é minha. Não, não, não to querendo me colocar de propósito no papel de culpada. Não quero piedade. Só quero olhar. Sei lá, se olhar o bastante talvez eu entenda. Por que é sexta à noite. Sábado de madrugada. Por que devia estar exausta, mas essa agonia no peito não me deixa dormir. Não é só minha culpa, veja. Podia muito bem dizer apenas que é culpa dele, e me livrar de qualquer responsabilidade. Mas estou aqui por que quero, por que quis, por que escolhi assim. Sexta à noite virando sábado no meu rosto lavado por lágrimas no espelho me olhando de maneira acusativa e compreensiva e sabendo que nada disso é o bastante ainda. Eu vou continuar aqui.
Sofrer antes, durante e depois. Olhar pra trás e dizer: eu sabia e eu fui assim mesmo. Como se implorasse pra tomar no cu. Tenho mais é que me foder, eu sei... lavo o rosto, pego meu chá, e vou dormir. Não queria ser a mulher sentada sozinha no canto do bar com uma garrafa de cerveja e um copo só, esperando. Não queria ser a mulher chorando olhando no espelho implorando ao próprio reflexo por respostas. Mas eu me pus nesse posição. Melhor, me pus, e ninguém me tirou. Tudo bem. Boa noite.
Acho que uma hora a gente já passou tanto tempo fingindo que tudo estava bem que no final fica tudo bem... e vai ficar tudo bem, mas eu preferia que ficasse tudo certo primeiro, antes de ficar bem.