Era um dia ordinário. Realmente. Não fazia calor, não fazia frio. Não ventava ou chovia. O sol brilhava mansamente, entre as nuvens, às vezes atravendo-se a olhar diretamente para as pessoas lá no chão.

Ele era um homem ordinário, também. Realmente ordinário. Neste dia ordinário, que nada em particular tinha além do fato de ser o dia em que se inicia esta história, o homem ordinário pára sua caminhada repentinamente - onde estaria indo? Para casa? Comprar pão? - e se apoia contra uma árvore. Nada há de particularmente assombroso em sua postura: ele retira parte do peso do seu corpo de sobre suas pernas e apoia-se com a coluna rente ao o tronco da árvore, seus ombros retos e braços pendendo tranquilamente para trás, contra a madeira, sem realmente nem pensar no que fazia. Ele fecha os olhos e fica ali, imóvel.

E anos se passam até que ele se mova novamente.

Nada há de particularmente assombroso acerca da árvore na qual ele se apóia, tampouco. Nos anos que se passam, o homem pacificamente parado contra a árvore por dias e noites, ele e a árvore envelhecem juntos. Ao redor da área da árvore na qual o homem se escora, o tronco se desenvolve de maneira a abraçá-lo minimamente. Olhando-se de perto, há um pequeno relevo na madeira - mínimo, realmente - ao redor dos ombros, braços e cintura do homem.

Nos anos em que o homem permanece de olhos fechados, descansando contra a árvore, várias fotografias da cena são publicadas em jornais. Pessoas vão até onde ele está para vê-lo. Alguns até tentam falar com ele. Uma ou duas vezes um visitante mais audacioso inclusive tentou tocá-lo, forçá-lo a se mexer, mas era tudo em vão: era como se o homem fosse a madeira na qual ele se escorava.

Até que ele acordou.

Chovia, mas a chuva não tinha nada a ver com o fato de ele ter acordado. Afinal, havia chovido várias vezes, e por vezes de maneira muito mais intensa, ao longo dos anos de imobilidade, e ele havia continuado ali, contra a árvore, sem mover um músculo sequer. Mas agora ele acordara. Tropeçando para a frente, pálido e atordoado, a madeira do tronco da árvore estalando onde se partia para deixá-lo se mover. Alguém conhecido o amparava, mas não era ele a causa do despertar.

Nem ele, nem a chuva, nem os trovões, nem os repórteres.

Sem realmente nem pensar no que fazia, ele continuou sua caminhada - onde estaria indo? Para casa? Comprar pão? E por que havia parado, ali, contra a árvore, por tanto tempo, para despertar agora?