A PONTE DE WESTLAKE

O ar frio da noite era mais do que cortante, parecendo ser agravado pelo breu que envolvia as ruas da cidade. A única fonte de luz, precária, era um poste na esquina da viela, o vidro da lâmpada estava quebrado e era um milagre a luz ainda estar funcionando. Alguns mosquitos voavam abaixo do bulbo e suas sombras eram alongadas nas paredes de concreto. O filete de luz que se atrevia a iluminar o beco revelava um garoto escondido atrás de um carro enferrujado.

Estava ali há algum tempo, as mãos agarrando os joelhos cobertos pela calça jeans rasgada e com as barras sujas. Seus dedos tremiam devido à força com a qual ele abraçava as pernas - caso a luz fosse mais forte, seria possível visualizar os nós dos seus dedos adquirindo uma cor branca pálida. Força também, que ele aplicava na ação de morder os lábios na tentativa de evitar bater os dentes. O menor barulho que ele fizesse poderia sentenciar o seu fim. E aquilo simplesmente não era uma opção para Thomas.

Ele esperaria a hora certa, já havia feito aquilo antes. E assim que os primeiros raios de luz agissem ao seu favor, iluminando as ruas devastadas, sua chance de chegar na ponte a tempo seria grande o suficiente para arriscar a corrida. Contudo, aquela não era a hora certa, e Tom não podia estragar as coisas agora. Ele havia aprendido a esperar e o faria de bom grado, Thomas apenas queria que aquele som horrível parasse.

Começou mais ou menos uma hora depois do garoto ter escolhido aquele esconderijo. Primeiro ele ouviu o que parecia ser algo pesado sendo arrastado no asfalto, e obrigou-se a prender a respiração durante os instantes assustadores em que eles passaram na frente do carro. Felizmente, Tom não foi notado. Depois começaram os grunhidos e, entre eles, ruídos do que apenas podia ser algo macio e molhado sendo despedaçado - algo como carne – seguido do som inconfundível de mastigação. Os pedaços eram engolidos apressadamente, entretanto, não havia nenhum sinal de que aquilo iria chegar a um fim rapidamente.

Era de se esperar que o estômago de Thomas se embrulhasse, porém, o garoto reparou, sem saber ao certo se o que constatava era bom ou ruim, que havia se acostumado com aquele tipo de situação. Não era a primeira vez que ele presenciava algo como aquilo desde que se separou do grupo para procurar seu irmão mais novo. Não. Não estava sendo incomodado pelos sons da retaliação. Era uma outra coisa que estava deixando-o apreensivo. Tom demorou alguns minutos irritantes para perceber o que era – e, quando o fez, desejou de todo o coração que não tivesse reconhecido o ruído misterioso. Eram gemidos; gritos abafados seguidos do som de líquido jorrando. Uma voz carregada de dor como Thomas nunca havia ouvido antes. "Ainda está vivo", ele concluiu, perplexo.

Pensou em cobrir os ouvidos, usar a jaqueta para abafar os barulhos terríveis que chegavam até ele, porém, sabia que não podia ficar desprovido da audição. O garoto tinha que estar atento a qualquer coisa, qualquer sinal de que corria perigo iminente ou poderia ser pego. Uma decisão errada tomada e os próximos gritos de dor que ouviria poderiam ser os próprios. Foi quando trouxe os joelhos para o peito e se obrigou a ser forte e tentar não vomitar, por, pelo menos vinte minutos. Naquele espaço de tempo, o Sol nasceria e ele poderia deixar aquele pesadelo para trás. Só mais alguns minutos.

Decidiu então, repassar as palavras do bilhete de Alexandra, como fizera inúmeras vezes depois de ter sido arrasado pela percepção do fato de que sua busca pelo irmão não daria resultados. Thomas se lembrava tão claramente das letras escritas com pressa no papel de embrulho de lanches que podia até visualizar os lugares em que a mão da garota vacilou e produziu pequenas deformações nas letras que costumavam ser traçadas tão firmemente. "Ponte de Westlake, até o décimo dia... retorne". A última palavra era a que apresentava mais linhas tremidas, apreensivas. Thomas perdeu a conta de quantas vezes repassou a mensagem na mente quando percebeu.

O gemido havia cessado. A vítima havia morrido. Agora a única coisa que ouvia eram os sons animalescos dos assassinos, que continuavam se servindo do banquete. E, apesar se ainda serem ruídos saídos de pesadelos, o garoto sentiu uma onda de alívio percorrer o seu corpo. Thomas afundou o rosto nos joelhos, modelando um "obrigado" com os lábios trêmulos. De repente, sentiu os olhos marejados, a sensação antecedendo uma lágrima teimosa que umedeceu a sua bochecha e o jeans. Deixou que a lágrima fosse derramada, e, em seguida, levantou a cabeça, lembrando que não deveria desviar a atenção do que acontecia ao seu redor. Só mais alguns minutos.

Pareceu uma eternidade, mas, eventualmente, os olhos atentos de Thomas perceberam que alguns vultos na rua começaram a ficar um pouco mais definidos. Tom sentiu um impulso enorme de simplesmente sair correndo da proteção improvisada do carro enferrujado ao perceber que o dia começara a amanhecer – impulso que ele soube controlar. Ainda não era a hora certa, as sombras ainda podiam esconder perigos dos quais ele não conseguia correr tão rápido. Mesmo assim, desprendeu os joelhos das mãos e compôs uma postura pronta para reagir ao menor sinal de que o dia já clareara o suficiente.

Não teve de esperar por muito tempo. Em menos de dois minutos, os raios tímidos de Sol já banhavam a rua que dava para o beco de onde Thomas assistia a cena pela qual estivera torcendo. A luz revelava roupas jogadas no meio das ruas e ratos que corriam de volta para os seus ninhos, além de diversos fragmentos de vidro, que antes compunham as vitrines das lojas, brilhavam no chão. Tom registrou todo o cenário antes de se colocar a correr. Levantou com cuidado a cabeça acima do veículo e, com uma olhada rápida, constatou que, fora os que estavam ainda se alimentando no fundo do beco, a rua parecia estar deserta. Gentilmente se pôs de pé, esforçando-se para que os tênis não fizessem barulho enquanto dava passos pequenos até a entrada do beco. A necessidade da refeição mantinha-os distraídos, o que possibilitou que o pequeno trajeto até a rua principal fosse concluído com relativa segurança. Thomas permitiu que um suspiro de alívio deixasse seus lábios. Agora viria a parte perigosa. A ponte ficava no final da rua principal e não tinha jeito de conferir se não haveria mais deles ao longo do caminho. Mas não podia ficar ali parado por muito tempo sem ser visto, a hora de considerar havia passado. Tom respirou fundo e tomou o impulso.

Colocava freneticamente um pé na frente do outro, produzindo baques surdos que ecoavam. As pernas, direita e esquerda, se alternavam rapidamente. Sua pulsação batia como um tambor invisível nos ouvidos. Thomas saltou por cima das roupas e outros entulhos esquecidos com facilidade, seus reflexos repentinamente melhorados por conta do medo que o consumia. Quando cruzou os primeiros metros, uma onda curta de alívio preencheu seu corpo. O garoto estava mais do que feliz por deixar os monstros no beco para trás. Para melhorar ainda mais o seu humor, não muito longe, estava a Ponte de Westlake, brilhando sob a luz do Sol. Só mais alguns metros! Ele conseguiria!

Passou pelo primeiro carro abandonado, desviando do veículo sem diminuir a velocidade. Ainda que cheio de esperanças, Thomas temia que alguns deles pudessem estar escondidos atrás ou embaixo dos carros. Entretanto, não havia ninguém escondido naquele em especial. Continuou correndo. Tom estava passando bem debaixo de um semáforo quando ouviu passos rápidos atrás dele. Sabia que deveria continuar focando na ponte, que não estava longe, contudo, arriscou olhar para trás para ver quem o perseguia. Um segundo de visão foi mais do que suficiente.

Eram pelo menos cinco deles, que avançavam fazendo com que os pés batessem no chão pesadamente. Seus rostos estavam deformados pela fúria. Os dois do meio traziam hematomas negros no rosto e nos braços, arranhões cobertos de sangue coagulado cobriam-nos e o da ponta mancava. Usavam roupas diversas, rasgadas e cheias de manchas de sujeira e sangue que Thomas não sabia dizer se pertencia a eles ou não. Mas o que transformava a visão realmente aterrorizante era o olhar com o qual eles encaravam a próxima vítima em potencial. Os olhos arregalados mostravam que, se houvera algo parecido com sanidade ali, não havia mais. Eram selvagens e amedrontados, completamente instáveis.

Thomas disparou pela rua, agora contornando carros abandonados que jaziam aos montes perto do começo da ponte. O medo varreu qualquer pensamento de sua cabeça. Apenas um comando era gritado na sua mente e este era para ele correr mais rápido. As respirações ofegantes dos seus perseguidores pareciam quase ao seu encalço, o cheiro de carne em decomposição começava a se infiltrar pelas narinas. Ele não poderia ser capturado, não naquele instante, quando estava tão perto de finalmente cruzar a ponte. Uma vez do outro lado, poderia se encontrar com Alexandra e os outros, e esquecer momentaneamente dos horrores que presenciou.

Seus pés voaram sobre o asfalto até que, finalmente, começou a subir a ponte. A inclinação não era muita, mas contribuía para desacelerar o ritmo deles, assim como os carros largados no caminho. Thomas se esforçou para não perder o ritmo. Impelia as pernas cansadas para frente, sabendo que diminuir a velocidade simplesmente não era uma opção. Assim que calculou ter colocado uma distância razoável entre ele e os infectados, arriscou mais uma espiada. Aquele que mancava havia desistido da caçada assim que percebeu que teria de subir a ponte, entretanto, os outros pareciam tão esfomeados que não foram intimidados. Mesmo exausto e aterrorizado, Tom sentia que iria conseguir atravessar a ponte em segurança, e, uma vez do outro lado, teria reforços para combater seus perseguidores.

Quando o garoto começou a se aproximar do meio da ponte, ele a viu. Os cabelos louros, compridos, estavam amarrados em um rabo-de-cavalo alto. E, apesar de Thomas estar muito longe para captar qualquer detalhe real, ele podia jurar que Alexandra não o havia visto. A imagem parecia até surreal depois do que fora os nove dias mais longos da sua vida. Ele podia sentir a felicidade se espalhando pelo seu corpo como se houvesse sido atingido por um raio. Tom abriu a boca, preparando-se para gritar pela garota.

Foi naquele instante em que o alcançaram.