Lucas estava tão concentrado na visão das ondas que quebravam a apenas alguns metros, que não percebeu o som abafado dos passos que se aproximavam pelas suas costas. Sandra sempre anunciava sua presença antes de aparecer - fosse por uma brisa suave que trazia seu perfume até o garoto ou pelo som dos seus pés afundando na areia enquanto se aproximava. Apesar de daquela vez, o rapaz não ouvir a moça, Lucas não se assustou quando ela sentou-se de costas para ele e descansou a cabeça em seu ombro.

- Pensei que não fosse aparecer hoje. – ele disse, sorrindo.

Sandra deitou um pouco mais a cabeça sobre Lucas, fazendo com que seus cabelos, sempre encharcados de água do mar, caíssem por sobre o peito do garoto, ensopando-lhe a camisa.

- Te deixar esperando é divertido. – Sandra explicou-se.

Toda vez que o garoto ouvia a voz dela, sentia um frio no estômago. A princípio, achou que a reação só duraria os primeiros dias, entretanto, logo se completariam dois meses desde que Lucas se reencontrou com Sandra pela primeira vez e aquela sensação parecia não querer desaparecer. Ele ignorou-a e focou a sua atenção na garota.

- E eu que sempre achei que você costumava se atrasar por que estava ajudando o seu pai com o barco.

- Você sempre foi um tanto ingênuo. – ela retrucou.

Em seguida, mudou de assunto:

- Estamos no meio de outubro, já, não estamos?

- Uhum. – Lucas murmurou.

- O Festival de Redação está chegando, então. – ela relatou. – Você se inscreveu?

O garoto estalou a língua, numa demonstração clara de que o assunto não lhe agradava.

- Ocorreram algumas complicações.

Sandra se remexeu na areia, encontrando estranheza no modo como Lucas tratou o Festival. Carregou seu tom de voz com toda desconfiança que sentia quando fez a seguinte pergunta:

- Mas você sempre foi um dos competidores mais brilhantes dessa cidadezinha. Que complicações você pode ter encontrado?

Lucas respirou profundamente antes de lhe contar os fatos que envolviam a ausência dele no Festival de Redação daquele ano.

- Você se lembra de um garoto chamado Rafael?

Depois de alguns segundos de contemplação da parte de Sandra, o nome foi associado a um rosto do qual ela não gostava nenhum pouco.

- Lembro sim! Ele sempre ficava abaixo de você no julgamento dos textos e nunca aceitava perder. O que tem ele?

- Bom, - Lucas começou. – o Rafael impediu que a minha inscrição chegasse aos organizadores.

- Como sabe disso? – Sandra indagou.

- O nosso professor de português me chamou para conversar e me disse que sentia muito pelo fato de eu ainda estar muito arrasado pelo... pelo que aconteceu... para participar da competição. – o garoto explicou. - Eu perguntei a ele quem havia lhe dito aquilo e ele me disse que foi o Rafael. Adicionando isto ao fato de que ele estava no pátio do colégio, olhando para mim, quando eu preenchi o formulário e coloquei-o na urna, as provas se tornam mais do que suficientes.

- Mas que absurdo! – Sandra vociferou. – Não acredito que ele fez isso! Ora, se eu me encontrar com ele, esse moleque vai ver só!

Os lábios de Lucas se contraíram em um sorriso.

- Sandra, o que você vai fazer? Puxar o pé dele de madrugada?

- Eu bem poderia! – ela devolveu.

A imagem de Sandra cruzando os braços sobre o peito, como ela costumava a fazer quando ficava irritada, preencheu a mente de Lucas. A garota tinha seus acessos de raiva, porém ela nunca falava sério e logo, logo, já estava de bom humor novamente. Além do mais, ele a achava muito fofa com raiva.

- Parece que você não está nem se importando com o assunto, Lucas! – Sandra disse, indignada.

- Não tem necessidade. – ele esclareceu. – Pouco me importa o que Rafael acha ou todos da cidade pensam. Além disso, quem sabe? Se o Rafael ganhar, ele pode acabar desistindo de argumentar com os juízes todas as vezes que receber uma pontuação menor do que a minha no Festival.

Sandra não respondeu durante alguns segundos, discordando claramente com a passividade de Lucas com relação à situação.

- Se você acha que é o melhor a se fazer... – ela disse, apenas.

Os dois não se falaram nos minutos que se seguiram, deixando o oceano compor a trilha sonora do ambiente. Muitas manhãs como aquela foram vivenciadas pelos dois nos últimos dias. Elas eram umas das poucas coisas - se não a única – que Lucas realmente apreciava. Havia, contudo, algo que o incomodava.

- Sandra? – o garoto chamou, hesitante. – Eu gostaria de olhar nos seus olhos quando a gente conversa.

- Você sabe que não pode. – ela disse apenas. – Toda vez que nos encontramos, você me vem com a mesma conversa, não teime comigo!

- Ok, eu tento de novo amanhã. – o garoto prometeu.

Sandra emitiu um som angustiado, porém descontraído, demonstrando que não lhe irritava tanto assim o fato de Lucas pressioná-la diante da proibição. Em seguida, mudou de assunto:

- Vai chover.

E, realmente, o céu adquiria uma cor acinzentada, o vento trazido do mar era frio e as ondas escuras pareciam estar se preparando para uma tempestade.

- Aqui sempre parece que vai chover. – Lucas comentou.

- Não... – Sandra contestou. – Desta vez, será feio.

As palavras dela flutuaram pela mente do garoto por um tempo, porém, eventualmente, se dissiparam. Lucas, em seguida, levantou-se, espanando a calça para retirar a areia que havia grudado no tecido.

- Preciso ir. – anunciou. – Tenho de almoçar para ir à escola.

Atrás dele, ainda fora de seu campo visual, Sandra também se pôs em pé. Ela passou os braços pela cintura do garoto e lhe plantou um beijo suave na bochecha.

- Até amanhã, garotinho ingênuo. – despediu-se.

Antes que ela desaparecesse, Lucas lançou um olhar curioso aos braços da garota, que o apertavam carinhosamente. Eram a única visão dela que ele possuía. Com exceção de ocasionais vislumbres do seu vestido amarelo e das ondas do seu cabelo castanho. Seus braços assumiam uma cor quase totalmente branca, intensificada pela luz pálida do Sol. Debaixo de algumas unhas, Lucas identificou o que pareciam ser manchas de sangue e, no braço direito da garota, jazia um hematoma roxo que parecia nunca sumir. Ele já conhecia aqueles detalhes da nova aparência de Cassandra Martins, mas não achava que, algum dia, se adaptaria a eles.

Antes mesmo que o garoto chegasse em casa, uma garoa fina começou a cair das nuvens. Entretanto, ela não impediu que nenhum morador daquela cidadezinha interrompesse suas atividades matinais. Algumas pessoas dirigiam-se à feira, que tomava lugar na praça pública, enquanto outras saíam para trabalhar em seus respectivos escritórios. Todos trabalhavam assiduamente mesmo que os negócios houvessem desacelerado nos últimos anos.

Afinal, Santa Lúcia era, agora, um ponto quase esquecido no mapa. Ela costumava ser um ponto de estadia para quem viajava pelo litoral, entretanto, além de sua praia não apresentar interesse turístico – era praia de tombo e de águas gélidas e escuras, com rochas, em sua maioria, inacessíveis cercando-a – havia sido construída uma nova rodovia que oferecia aos viajantes um caminho mais direto entre as cidades litorâneas maiores no meio das quais Santa Lúcia estava localizada. Portanto, aquela cidade não recebia visitantes desde então.

Lucas cruzou com alguns amigos dos seus pais no caminho até sua casa, porém, eles não lhe dirigiram nenhuma palavra sequer. Decerto, inda estavam comovidos pelo que havia ocorrido e não sabiam exatamente sobre o que falar com o garoto.