(…)

There is no directions given,

Just some trust in human mind to rely on, and to hold on to.

(…)

My mind in complete haze.

I pass by, don't dare to stop

When there's someone I see,

There's no one here with me,

I'm fooled by something inside my head.

(…)

Scary thoughts and frightening sounds

(…)

I can't really sense my surroundings,

Seems to be all dark around,

Nothing there, to lighten up my way.

Lene Marlin – "Where I' m headed"


Capítulo 2 - Montmartre


A semana que se seguiu foi bastante produtiva a nível social.

A chegada à faculdade nos restantes dias da semana revelou-se muito agradável e, para minha surpresa, a maior parte dos colegas eram bastante simpáticos e afáveis. Como qualquer pessoa que vai estudar para o estrangeiro, tinha algum receio de não ser particularmente bem recebida, mas felizmente não foi esse o caso. Conheci uma rapariga bastante amável que, ao ver o meu semblante perdido, se dirigiu a mim, oferecendo a sua ajuda. Chamava-se Adèle e era uma rapariga de tez rosada, com olhos claros - azulados –, cabelo castanho claro, ligeiramente ondulado e de feições tão características que a faziam assemelhar-se a uma boneca de porcelana. Desde que a conheci, mantive-me quase sempre perto dela, dentro e fora das aulas, questionando-a constantemente acerca do funcionamento das aulas práticas e dos inúmeros entraves linguísticos com que me deparava.

Finalmente, chegava o fim-de-semana e poderia descansar minimamente, se não fosse a energia inesgotável da minha colega de casa que, às oito da manhã de sábado, já estava pronta para dar início a uma tournée pelas lojas de Paris. Compras.

Não tive muita hipótese face às suas investidas e argumentos acerca das inquestionáveis razões para sair da cama tão cedo. E assim foi. Eram dez da manhã e já estávamos em La Défense, uma zona nos subúrbios oeste de Paris com inúmeros edifícios ultra-modernos que criavam uma atmosfera quase independente do resto da cidade. Ali, num imenso centro comercial espelhado, - Les Quatre Temps - pretendíamos cumprir o objectivo de saciar o apetite consumista de Shiva. Pessoalmente, não estava com muita disposição para fazer compras, mas a convicção da minha recente amiga era tal que, meia hora depois, já estava a experimentar roupa com ela.

Apesar da minha escassa iniciativa em tocar em assuntos que não fossem a faculdade, tinha que admitir que estaria a perder muito divertimento se não estivesse com ela e, até certo ponto, se não me deixasse levar, de vez em quando, pelas suas extravagâncias. Talvez este fosse um ponto (entre tantos outros, sem dúvida alguma) que eu devesse tentar melhorar na minha fastidiosa personalidade. O que restava da manhã, assim como toda a tarde, passou célere, enquanto nos divertíamos e, rapidamente se aproximava a hora do jantar em Montmartre, o momento tão esperado do dia para Shiva.

Saímos de La Défense e rumámos para Montmartre, para o local onde o jantar ia ter lugar. Extasiada, Shiva informava-me que tinha sido ela a escolher o restaurante, a reservar mesa e que estava muito entusiasmada com a expectativa de conhecer melhor os colegas de intercâmbio que, segundo ela, por terem mais em comum, tendiam a aproximar-se uns dos outros, o que não era, de todo, irreal, mas não era regra geral, como tínhamos observado em primeira mão na reunião de intercâmbio. E, mais uma vez, ela se referia com amargura aos dois "artistas" antipáticos e anti-sociais que tão ofensivamente se tinham recusado a fazer parte da sua ideia inovadora.

Montmartre localizava-se, literalmente, numa colina, assemelhando-se a uma simples vila, mas de onde se podia observar a agitada metrópole Parisiense. Após subirmos várias escadarias íngremes com centenas de degraus que quase me esgotavam as forças – tendo em conta os quilómetros que já tinha percorrido no centro comercial –, caminhámos por mais algumas ruas caracteristicamente estreitas, de calçada, onde as moradias permaneciam pintadas de branco e onde existiam vários jardins que se prolongavam até às mais variadas escadarias, rusticamente iluminadas por candeeiros antigos. Chegámos finalmente ao local onde já se encontrava Thomas, presumivelmente à espera que alguém conhecido aparecesse, naquele espaço que era a Place de Tertre. Ao vê-lo, a face de Shiva iluminou-se de uma forma tão óbvia que tocava o exagero. Sinceramente, ela conhecia-o havia meia dúzia de dias. Resolvi não dar importância ao momento, pois provavelmente seria o entusiasmo a falar mais alto.

A Place de Tertre era relativamente ampla, mas não excessivamente grande, onde existiam vários restaurantes, cafés e já se dispunham vários pintores com as suas telas, expostas em vitrinas claramente improvisadas para o momento. Grande parte deles dedicavam-se a desenhar retratos e caricaturas, abordando as pessoas que ali passavam, disponibilizando a sua arte. Ponderei seriamente em pedir a um deles que me desenhasse a carvão, mas se o fizesse, só seria depois do jantar.

Subitamente, vi Vera aproximar-se de nós, com um semblante próximo do da neutralidade e, dirigindo-se a Shiva, informou-a que os outros não viriam, por motivos alheios ao conhecimento dela. Como tal, éramos uma multidão de quatro pessoas para uma mesa reservada para vinte. Pareceu-me ver Shiva corar de irritação, ao ver como o evento organizado por ela não tinha tido o sucesso esperado. Após um pequeno silêncio, vi-a dirigir-se ao restaurante, com o intuito de comunicar ao gerente que afinal, só eram quatro pessoas. Thomas e Vera comunicavam, mais uma vez, sem palavras, deixando-me a sensação de que algo mais se passava entre eles, embora eu não compreendesse o porquê da necessidade de esconder fosse o que fosse. Mas enfim, eles lá teriam as suas razões.

Shiva regressava agora, com um semblante bem mais leve. Pelo alívio que emanava, o diálogo com o gerente do restaurante tinha sido amigável.

- Vamos, então! - Informou ela, fazendo-nos sinal para entrar.

O restaurante não era grande, mas tinha um aspecto bastante confortável, a decoração era simples e típica. Sentámo-nos numa mesa para quatro pessoas, onde começámos a conversar alegremente. Foi Thomas quem iniciou a conversação.

- Então, Maria…- afirmou, na minha direcção. Como reflexo, olhei para ele, curiosa. -Estás em que faculdade?

- Eh… Medicina - respondi eu. - E tu? – Inquiri.

- Letras - retorquiu ele, com um sorriso. - Assim como Vera.

O característico sotaque cerrado de Thomas fazia-o proferir o "V" mais como "F", com vogais graves, de tal forma de mais parecia pronunciar o nome de Vera como Fêrra e, constatar esta realidade fazia-me esboçar um leve sorriso, enquanto tentava abstrair-me da sua cómica troca de consoantes.

- Estudam o mesmo? - perguntei eu, tentando dar continuidade ao diálogo.

- Não, eu estudo Filologia Germânica e Vera, Filologia Românica. Mas estamos ambos na mesma faculdade.

- Claro - acenei eu, com um ligeiro sorriso. Agora sim, compreendia o porquê da cumplicidade entre eles, pois era mais fácil conviver com alguém de áreas semelhantes, na mesma faculdade, ainda que não me parecesse que fosse assim tão inocente. Seguramente, algo se passava entre eles, ou então… ia passar-se, quase de certeza.

- Já exploraram Paris? - Disparou Shiva, mudando de assunto.

- Mais ou menos - declarou Thomas. E continuou, com um sorriso. - Ainda só passou uma semana, só tive tempo para descobrir onde era a faculdade e localizar as salas de aulas.

- Como eu te compreendo… - afirmei eu, em tom de desabafo, na direcção dele.

Continuámos a conversar e a conviver animadamente, durante todo o jantar, ao som da mais variada música francesa, donde se destacava a incrível "Le petit pan au Chocolat" do não menos famoso Joe Dassin, a qual Shiva cantarolava divertida, pedindo inclusivamente ao garçon que passasse a música repetidas vezes, para que ela pudesse treinar o seu francês. Como opção unânime, resolvemos experimentar um prato típico do país – Tartiflette - que se revelou uma escolha divinal, em termos gastronómicos, pois consistia numa verdadeira iguaria concebida à base de queijo Reblochon.

Já eram quase onze da noite quando decidimos sair. Todos ríamos, genuinamente divertidos com a nossa aparente dificuldade em comunicar as nossas intenções aos pacientes garçons que nos serviam no restaurante, sempre com um sorriso nos lábios. Desembocámos novamente na praça central, que agora parecia bem mais pequena, devido à quantidade de pessoas que ali se encontrava.

- Crepes? - Sugeriu Shiva, olhando-nos, expectante.

- Boa ideia! - Exclamou Vera.

- Vão andando. Eu já vou ter convosco - declarei eu, enquanto apontava na direcção dos pintores. - Portrait - afirmei, com uma pronúncia marcadamente exagerada.

- Queres que espere por ti? - Sugeriu Shiva, sorrindo.

- Não, não é preciso…vai ser rápido. E não te preocupes, eu não me perco!

- É já ao fundo daquela rua. É fácil - elucidou Vera, enquanto apontava para uma das ruelas à nossa esquerda.

- Até já! - Exclamei eu, enquanto me dirigia ao pintor que se encontrava disponível naquele momento. Sentei-me no local que ele indicou e deixei-me estar, contemplando aquele espaço, tentando memorizar os sons, os cheiros, os pormenores daquele sítio tão agradável. Paris teria certamente imenso para oferecer e eu tinha que pensar, seriamente, em tirar algum proveito.

Em vinte minutos o desenho estava terminado. O pintor entregou-mo e eu não pude deixar de o observar de forma curiosa. Era estranha a forma como eu estava representada naquele pedaço de papel: as linhas do meu rosto eram tão marcadas, o sorriso parecia forçado e os olhos… bem, mostravam mais do que deviam, uma expressividade excessiva, com demasiada transparência, um caminho directo até aos confins da alma. A única característica que imediatamente identificava como minha era, sem dúvida, o cabelo, com os caracóis viçosos e indomáveis. Nesta pintura, mais parecia estar a olhar para um familiar afastado do que propriamente para mim própria. Engraçado, esta não era a imagem que eu tinha de mim mesma e, lamentavelmente, talvez esta fosse a forma como os outros me viam, como alguém comum e insalubre.

Repentinamente, despertei do pequeno momento de introspecção, para concluir que tinha que ir ter com o resto do grupo que, a julgar pelo apetite voraz de Shiva, já teria certamente dado lucro suficiente à casa de crepes. Olhei em meu redor, tentando orientar-me e recordar para onde teria que dirigir-me. Apesar de todas as ruas me parecerem iguais, alguns segundos foram suficientes para deduzir qual das ruas era a correcta e, de forma apressada mas firme, pus-me a caminho.

-/-

Nas estreitas ruas por onde caminhava não circulavam veículos, somente pessoas e, à medida que avançava, estas eram cada vez mais escassas. Era um bairro muito pitoresco e alegre. Contudo, a noite estava escura e só a fraca luz dos candeeiros permitia que eu visualizasse toda a longitude do percurso que me aguardava. Presumivelmente ter-me-ia enganado, porque nesta rua não havia nenhum estabelecimento comercial e, em meu redor, só existiam moradias, muito provavelmente abandonadas ou em recuperação. Definitivamente, havia pouco movimento e… Raios! Agora sim, tinha a certeza absoluta que estava na rua errada.

À medida que caminhava pela calçada, só ouvia o som dos meus apressados passos, enquanto pensava na forma mais rápida de encontrar a rua correcta, até que, a certa altura, fui invadida por uma sensação de desconforto. Claro…o escuro e a minha imaginação, a dupla infalível para alimentar os mais ridículos pavores na minha cabeça.

Estava distraída, pensando como iria reencontrar o meu grupo de amigos, quando ouvi um gemido abafado vindo de uma ruela escura, à minha direita. De imediato, senti o meu batimento cardíaco acelerar e, instintivamente, olhei na direcção do ruído.

Ali estavam duas pessoas, intimamente entrelaçadas junto à parede, só podia discernir o pouco que a fraca luz do candeeiro me permitia. Parecia-me uma rapariga e um rapaz, mas a confirmação só surgiu alguns momentos depois: a rapariga tinha cabelo loiro, comprido, algo emaranhado e o rapaz, alguns centímetros mais alto do que ela, tinha cabelo escuro, que lhe cobria a cara enquanto estava debruçado sobre ela. Ele tinha também um casaco indistinto, mas era só isso que conseguia ver, pois todo o resto estava obscurecido pela escuridão da ruela. Subitamente, a rapariga moveu-se, trémula, descansando a cabeça sobre o braço dele, que estava posicionado de modo a evitar qualquer tentativa de movimento ou fuga.

Foi aí que vi a cara dela. A expressão dela era de surpresa e os seus olhos emanavam terror e medo numa magnitude tal que eu pensava não ser possível existir. Do seu nariz e boca semi-aberta, escorria lenta e vagarosamente um líquido viscoso avermelhado que, instintivamente, identifiquei como sangue. Fiquei presa naquela visão horrível, não consegui falar, nem gritar, nem mover-me. O que se estaria ali a passar que eu não conseguia compreender o que era, nem no que consistia?

O rapaz moveu-se ligeiramente, de forma lenta mas firme, afastando-se um pouco da rapariga, sem nunca a deixar, até que o olhar dele encontrou o meu. Continuava sem conseguir descobrir os traços da sua face, pois a sua postura era engenhosa e os seus olhos claros tinham uma profundidade intemporal, um brilho absolutamente animalesco, que me fez tremer de medo.

Eu não devia estar aqui, constatei para mim mesma. Ainda assim, não fui capaz de me libertar do seu olhar. Ele não me deixava.

O que era isto?

A cor pálida da sua pele, era algo que me era familiar, mas de onde? Tinha uma cor tão pouco natural, tão… doentia. Subitamente, engoli em seco. Eu sabia quem ele era, a sua tez tinha-o denunciado.

Mas o que estava ele a fazer? – Questionei-me.

- Maria! - Ouvi repentinamente. Pude libertar-me daquela agonizante visão e olhar na direcção oposta. Pelo tom de voz, era Shiva que chamava por mim. - Estamos aqui!

Instintivamente, voltei a olhar para a ruela e, para minha surpresa, não encontrei nada, nem vestígios, nem marcas de que alguém ou algo tivesse estado ali segundos atrás. Por momentos, pensei se tudo o que tinha visto não teria sido imaginação minha. Não. Definitivamente, não poderia ter imaginado algo tão vívido, algo tão… intenso.

Dirigi-me apressadamente na direcção do pequeno grupo que agora me esperava ao fundo da rua.

- Então? Perdeste-te? - Brincou Thomas.

- Acho que sim… - sussurrei eu, com um sorriso amarelo, ainda chocada com o que acabara de observar.

- O que foi? - Questionou Shiva, dirigindo-se a mim e observando a minha postura tensa.

Senti alguma relutância em descrever o que tinha observado. Não era algo fácil de relembrar.

- Acho que vi ali qualquer coisa… – confessei, para logo depois, desmentir. - Não, eu acho que não vi nada… – referi, mais como um sussurro, como se estivesse simplesmente a pensar alto. Todos eles me olhavam como se eu estivesse à beira da loucura.

- Mas, afinal, viste ou não viste… algo? - Reforçou Thomas, visivelmente curioso.

- Parece-me que… sim - afirmei eu, concordando comigo própria, absolutamente segura de que tinha, efectivamente, visto algo.

- E? - Perguntou Vera, olhando-me, também curiosa.

- Foi muito estranho… - comecei eu.

- Estranho? - Agora era a vez de Shiva revelar impaciência face à minha relutância em falar.

- Sim…ali, numa ruela, estavam um rapaz e uma rapariga… - ia eu começar, quando Vera me interrompeu bruscamente.

- Ah, isso. Acontece muito por aqui.

Olhei para ela com olhar inquisidor, atónita.

- Prostituição - esclareceu ela.

- Não me pareceu… isso - hesitei eu, semicerrando os olhos enquanto relembrava o episódio que havia observado, na minha mente. - Ela estava a… - hesitei um pouco antes de dizê-lo. - …sangrar do nariz e da boca.

- Hum! Um cliente violento, talvez - brincou Thomas.

Definitivamente, não me estavam a levar a sério. O que seria necessário eu afirmar para que os conseguisse convencer de que aquilo era algo mais que um simples episódio de prostituição?

- O rapaz… eu reconheci-o - declarei eu.

Foi instantâneo. Olharam todos na minha direcção como eu fosse comunicar um segredo de estado.

- Era um dos rapazes da reunião - sussurrei eu, como se tivesse receio de o afirmar com um tom de voz mais elevado. Seguiu-se um pequeno e incómodo silêncio.

- Os artistas? - Vociferou Shiva, espantada.

- A-Acho que sim - hesitei eu, uma vez mais, embora estivesse completamente segura de que era ele, era aquele rapaz da reunião.

Novamente, senti-me o centro das atenções, mas não pela melhor razão. Provavelmente pensariam que eu era doida ou então que era muito inocente, por não ser capaz de reconhecer à simples vista uma prostituta a trabalhar. Senti o olhar de crítica dos meus colegas na minha face. Claro está que foi Shiva que quebrou o gelo com a mais inesperada intervenção.

- Oh! Será que ele a vai levar para casa e pintá-la numa tela, como fez aquele artista no vídeo Always dos Bon Jovi?

- Shiva! Por favor! - Exclamei eu.

Foi gargalhada geral, a qual tive que acompanhar, dado o ridículo da afirmação.

- Não é nada fora do comum nos artistas, Maria - afirmava agora, Thomas.

- O quê?

A minha curiosidade era sincera, estaria ele a referir-se a levar prostitutas para casa para as pintar?

- Contratar… serviços.

- Ah…

Pois claro, serviços. Tudo isto era demasiado excêntrico para mim. Estudantes estrangeiros de Arte a contratarem "serviços"? Ao fim de uma semana de aulas? Essa não seria certamente uma associação que eu faria de modo imediato e aqueles rapazes da reunião não pareciam ser desse tipo, apesar da sua aparência desconcertante…

- É que a rapariga… não parecia uma prostituta - referi, tentando justificar-me da melhor forma possível.

- A maior parte delas não parece, Maria - constatou Thomas. - E as aparências iludem… bastante - reforçou novamente.

- Estamos em Paris, aqui as coisas são diferentes - advertiu Vera. - Não estás em casa, Maria.

Pelo tom de voz, concluí que era claramente uma provocação e senti suavemente a amargura das suas palavras expressarem a opinião que tinha de mim, que certamente se aproximaria dos conceitos de ingénua e simplória. Não pude evitar olhá-la com reprovação. O modo como ela se expressava era de uma austeridade lamentável. Eu sabia o que tinha visto e sabia que não era nada daquilo que eles tentavam convencer-me que era. Apesar de tudo, achei melhor deixar o assunto morrer ali. Não valia a pena, pois,por mais que eu tentasse explicar que o que eu tinha visto me parecia mais do que uma prostituta com um cliente, sempre encontrariam algum argumento que anulasse a minha linha de pensamento e Vera sempre haveria de encontrar algo para continuar a descompor-me. Por isso, continuámos a andar, até que nos dirigimos para a grande movimentação que se encontrava perto da Basílica Sacré Coeur, apesar de já ser bastante tarde. A forma como estava iluminada conferia-lhe um aspecto quase celestial, embora eu não conseguisse deslocar a minha atenção para apreciar fosse o que fosse em meu redor.

Agora encontrávamos novamente as íngremes escadarias e as infindáveis ruas que nos levariam – finalmente – até à Boulevard Rochechouart, movimentada o suficiente para encontrar facilmente um táxi. Enquanto descíamos, Thomas, Vera e Shiva conversavam alegremente. Só eu, não conseguia esquecer aquele episódio infeliz, talvez por estar ainda demasiado recente na minha memória. Por momentos, desejei ser mentecapta e ignorante, para que não conseguisse entender o que me rodeava nem pudesse contestar o que me diziam. Talvez se não fosse minimamente inteligente, não teria a sensação de que tudo aquilo que tinha testemunhado era mais do que parecia. E isso incomodava-me profundamente.

Uma vez na Boulevard Rochechouart, Shiva apressava-se, com passos miudinhos, a procurar um táxi. Estava cansada de tanto andar e instalava-se agora um vento incómodo, frio para o que era costume em Outubro. O nosso pequeno passeio estava a tornar-se, a todos os níveis, desagradável. Sentia um desejo súbito de chegar a casa. Despedimo-nos rapidamente uns dos outros, com promessas renovadas de outros jantares e cafés em conjunto, nas semanas seguintes.

Em qualquer sítio, mas não aqui, por favor.

Foi o último pedido que verbalizei para mim própria, assim que entrei para o táxi com a minha colega de casa, rumo ao nosso apartamento.

Aconchegada no conforto da minha cama, não conseguia fechar os olhos, pois estava demasiado tensa com todos os acontecimentos dessa noite. O que mais me perturbava naquela imagem que se negava a sair da minha cabeça era o olhar daquele rapaz que tinha uma intensidade tão extraordinária quanto aterradora, como se tivesse algum significado que eu não conseguia depreender qual era, como se ele estivesse a falar numa língua que eu não entendia. Isto era extremamente frustrante, para além do facto de eu não compreender o porquê das circunstâncias. Recusava-me a aceitar que fosse um episódio de prostituição, tal como os meus colegas sugeriam de uma forma tão impetuosa. Simplesmente não podia ser, porque eu sentia que não era assim e esta minha certeza interior começava a ser tão perturbante quanto os factos em si. Fechei os olhos e tentei relaxar, procurando uma linha de pensamento mais racional. Alguns minutos depois, falhava completamente, outra vez. Isto tinha que parar, de uma vez por todas, pela minha própria sanidade mental.

Concentrei-me arduamente. - Não interessa o que viste. Já passou. Não vale a pena perderes tempo a pensar sobre algo que não tem importância… – e, a pouco e pouco, tudo começou a melhorar. Senti a minha mente e corpo a relaxar quando, finalmente, adormeci, num sono tranquilo e livre de sobressaltos.

-/-

Acordei já tarde, com alguém a tocar vigorosamente à porta do meu quarto. Só poderia ser a incansável Shiva, com a sua inesgotável energia.

- Sim? - Rosnei eu, ainda dominada por um sono colossal.

- Olá, dorminhoca! - Afirmava ela, entrando no meu quarto, dirigindo-se firmemente para a janela, começando a puxar o estore, enquanto uma luminosidade gradual começava a inundar aquele modesto quarto, que consistia nos meus aposentos.

- Que horas são?

- Hum… quatro da tarde… - informou Shiva, com um leve sorriso.

- Oh... Raios! - Era tardíssimo. Levantei-me de rompante, puxando os lençóis e a coberta, de forma que fiquei sentada à beira da cama, enquanto Shiva também se sentava ao meu lado.

- Ora, é Domingo! Quando é que nos podemos dar ao luxo de dormir assim, Maria? - Exclamou ela, enquanto observava com atenção a forma das suas unhas, que tinham uma cor escura e densa que eu não consegui discernir qual era, mas aproximava-se do castanho. Certamente consistiria numa tentativa de aproximação a garras.

- Estão enormes, Shiva. Como é que consegues fazer seja o que for com as unhas desse tamanho? - Declarei eu, enquanto sorria, olhando na direcção das suas enormes garras.

- É uma questão de hábito - elucidou ela, com um tom repleto de firmeza. - São lindas.

Pois claro.

- Como te sentes, hoje? - Questionou ela, olhando-me com uma preocupação genuína nos seus expressivos olhos escuros.

- Estou bem. Obrigado - respondi eu, enquanto acenava, como se, desta forma, pretendesse confirmar a minha última asseveração.

- Ontem estavas tão…incomodada! - Declarou ela, hesitando claramente ao voltar a falar daquele assunto. Na verdade, a última coisa que eu não precisava neste momento era alguém relembrar-me do que eu tão forçosamente tentava esquecer.

- Não interessa, Shiva - afirmei, enquanto fechava os olhos e me deixava, novamente, cair para a cama. Só esperava que ela não insistisse muito, porque sinceramente, não tinha mais nenhuma desculpa suficientemente credível que servisse de justificação.

- De certeza? - Reafirmou ela, olhando-me novamente

- Absoluta - reafirmei eu. - Não vou dar importância a algo insignificante.

- Muito bem - sorriu Shiva, aparentemente satisfeita com as minhas ambíguas justificações.

- Vou comer alguma coisa, estou francamente esfomeada! - Declarei eu, enquanto me levantava novamente, desta vez de uma forma mais vagarosa e procurava pelas minhas confortáveis pantufas cor-de-rosa que pareciam estar dispersas em cantos opostos do quarto.

- Eu acompanho-te - afirmou Shiva, enquanto seguia atrás de mim, na direcção da cozinha, reparando que ambas estávamos de pijama, o que classificava o nosso domingo – caracteristicamente - como dia de descanso, a todos os níveis, físico e mental. De forma pachorrenta, com sumos de fruta da época e sanduíches mistas de pão integral, deixámos a tarde passar, ao som dos vários episódios da série "CSI Miami" dobrada em francês, que se revelava a melhor opção de entre as disponíveis nos limitados canais a que tínhamos acesso.

-/-

Estava dez minutos atrasada. Raios! Tentei telefonar a Adèle mais de dez vezes, sem sucesso aparente. Provavelmente ela já estaria na aula, com o telemóvel no silêncio e eu… perdida algures no Hospital Saint-Antoine. Definitivamente, ia chegar atrasada à minha primeira sessão de práticas, facto que me aborrecia de forma visceral. Após várias tentativas falhadas para encontrar o Departamento de Medicina Legal, rendi-me às evidências e resolvi perguntar onde estaria o respectivo departamento - em francês. Fiz um esforço sobre-humano para conseguir elaborar um discurso coerente e perceptível, à medida que me aproximava de duas senhoras com aspecto sério mas acessível, que conversavam animadamente frente a uma marquesa.

- Pardon, le Département de Médicine Légal, s'il vous plaît ?

Olharam-me com curiosidade. Certamente a minha pronúncia característica ter-me-ia denunciado. Com um sorriso na face, uma delas explicou-me com uma lentidão desnecessária, onde estava localizado o Departamento. Felizmente, não estava longe dali, apressei-me a descer dois lances de escadas, depois sempre em frente e última porta à esquerda, recordando as indicações da prestável senhora.

À medida que avançava, caso não tivesse a certeza se o departamento era ali ou não, o cheiro que começava a intensificar-se no ar retirava qualquer sombra de dúvida. Ao abrir a porta, encontrei de imediato uma simpática senhora que me observou com olhar crítico, pois eu estava ligeiramente ofegante da minha pequena corrida. Sem dizer uma palavra, apontou para um recanto onde se encontravam várias dezenas de cacifos, onde presumi que tinha que deixar todas os meus pertences. Aproximei-me do conjunto metálico à minha direita, para encontrar somente um cacifo vazio, ainda com a chave na fechadura. Tal como imaginava, a frequência às aulas práticas era rigorosamente controlada. E eu estava atrasada! Apressei-me a colocar tudo o que trazia dentro do cacifo e voltei à pequena entrada, esperando encontrar novamente a senhora, para lhe perguntar onde estavam a decorrer as práticas de Medicina Legal que, muito graciosamente, me informou onde eram. Alguns corredores mais adiante, comecei a ouvir uma voz forte, com um burburinho característico à mistura. Só poderia ser ali! Graças a Deus! Finalmente, ia terminar a minha odisseia matinal na procura da sala de aula.

Encontrei facilmente o olhar surpreso do professor e o dos meus colegas, não sei se por estar atrasada, se por apresentar um ar de espanto misturado com fatiga, como se tivesse acabado de correr uma maratona. Percorri os olhares até encontrar o de Adèle, que me acenou com um sorriso aberto e reparei também que todos estavam vestidos caracteristicamente, o que me fazia parecer completamente deslocada naquela enorme sala. O professor olhava-me com estranheza por cima dos seus minúsculos óculos, posicionados caracteristicamente na ponta do nariz. Era um homem grisalho, ligeiramente calvo e com barba um pouco comprida e olhos claros, de um azul quase transparente. Também ele se vestia caracteristicamente, deixando entrever a camisa branca com uma elegante gravata azul escura. Subitamente, ouvi-o falar na minha direcção:

- Mademoiselle Maria?

- Oui - respondi prontamente.

- Par ici, s'il vous plaît - ordenou, firmemente, manifestando-se algo incomodado com a minha demora…ou com a minha interrupção, ou… até mesmo, com ambas. Desculpando-me como podia, incansavelmente, segui o professor até uma pequena sala disposta lateralmente à anterior, na qual ele me informou onde estavam diversas vestimentas, as quais teria que usar sempre durante a temporalidade das práticas de Medicina Legal. Rapidamente me vesti, pronta para acompanhar a aula que estava mesmo a começar, tal como havia comentado o professor. Novamente na sala com os meus colegas, reparei que estavam todos dispostos em grupos de três, o que me deixava a mim sem grupo. Mais uma vez, o professor foi extremamente compreensivo e permitiu que me juntasse ao grupo de Adèle, que comigo constituía uma pequena multidão de quatro pessoas.

Éramos dezasseis alunos, dispostos frente a cinco marquesas, ainda vazias. Enquanto o professor explicava o funcionamento das práticas, entraram alguns auxiliares com os nossos "objectos de estudo", ou seja, cinco cadáveres, onde cada grupo iria "trabalhar". Pude observar, de soslaio, a postura divertida e maliciosa dos auxiliares, que certamente esperariam, a qualquer momento, que algum aluno desmaiasse ou fizesse uma cena, mal o professor desse início à aula. Senti um pequeno formigueiro no estômago, estava a ficar um pouco nervosa à medida que observava o professor a destapar os cadáveres, dando instruções aos alunos acerca do que fazer. Por fim, chegou ao meu grupo e enquanto nos advertia das nossas tarefas, olhei sorrateiramente para o vulto coberto diante de mim. Só conseguia distinguir que era uma mulher.

O que se passou em seguida foi muito rápido. O professor começou a destapar o cadáver e mal vi a cara da pessoa à minha frente, senti um choque que me incapacitou de formular qualquer pensamento coerente. Eu conhecia aquela face, tinha-a visto há duas noites atrás, naquela ruela em Montmartre, com aquele… rapaz.

Senti perder as forças e, instintivamente, dei dois passos para trás, colidindo com a mesa dos instrumentos, que caíram ruidosamente no chão. Todos os olhos naquela sala se fixaram em mim e senti o riso abafado dos auxiliares na minha direcção. Naquele momento, não existia ninguém em meu redor, era só eu e ela, não conseguia deixar de olhar para ela. Como era possível ela estar aqui, neste local, morta?

Senti a mão de Adèle no meu ombro e encontrei em mim o seu olhar preocupado.

- Maria? Estás bem?

Não conseguia ouvir nem dizer nada, nem formular o mais simples monossílabo. Voltei a olhar para ela, ali deitada, à minha frente, como uma estátua humana. O cabelo loiro estava agora mais escurecido e a cor dela era de um branco-acinzentado intenso, provavelmente por estar debaixo do foco luminoso. Quase que identificava um brilho em seu redor, como se de um anjo se tratasse. Um anjo caído. Tinha várias marcas nos pulsos, pescoço e peito, que não consegui identificar. Ouvi alguém, longínquo, chamar pelo meu nome.

- O que se passa? Maria? - Era o professor, que me fitava de forma atenta.

Olhei para ele. Tinha que lhe dizer alguma coisa, dar-lhe alguma explicação.

- Eu conheço-a. - Foi o que consegui articular.

Conseguia sentir a tensão no ar que me rodeava, os meus colegas olhavam-me algo aterrorizados e os auxiliares estavam agora perto de mim e do professor, curiosos.

- E-Eu vi-a…- voltei a balbuciar, sem conseguir deixar de olhar para ela.

- Maria, é melhor sairmos. Vamos - interrompeu o professor, apontando para a porta da saída.

Saí acompanhada pelos auxiliares, debaixo do constante olhar perplexo de todos, na direcção de uma pequena sala não muito longe dali, onde me sentei num pequeno sofá. Os auxiliares informaram-me de que o professor viria rapidamente acompanhar-me e saíram, deixando-me sozinha. Poucos segundos depois fui invadida por uma enorme sensação de infelicidade e tive que fazer um esforço considerável para não chorar.

O que era isto? O que teria eu visto e o que se teria passado naquela ruela, para a rapariga estar na morgue daquele hospital? Tinha o meu batimento cardíaco aceleradíssimo, quase conseguia ouvi-lo a sobrepor-se à minha voz interior e estava a ficar taquicárdica. Coloquei as minhas mãos nas fontes e tentei acalmar-me, fechando os olhos e tentando, em vão, pensar em algo menos funesto.

Ouvi alguém aproximar-se de mim e abri os olhos automaticamente. Era o professor, que puxava uma cadeira e se sentava exactamente à minha frente, como se fosse interrogar uma criminosa.

- Então, conta-me o que se passou - pediu ele, calmamente.

Inspirei fundo, numa tentativa de aclarar a minha mente e conseguir explicar com o mínimo de lógica e coerência o que se tinha passado nas últimas quarenta e oito horas.

- Sábado à noite fui sair a Montmartre com uns amigos - comecei. O professor olhava-me atentamente.

- A certa altura perdi-me e… meti pela rua errada - voltei a inspirar fundo. Estava a aproximar-me do momento difícil de descrever. - Numa rua transversal vi…vi-a com um homem.

Olhei novamente para o professor, que se mantinha inexpressivo.

- Continua - disse ele.

- Ela…parecia estar assustada e… – hesitei, olhando novamente para ele, que acenou para que eu continuasse a falar. - …estava a sangrar.

Seguiu-se um silêncio desconfortável.

- Então, não a conhecias – concluiu ele.

- Não, eu só a vi … nas circunstâncias que acabei de lhe explicar - esclareci eu.

- E achas que lhe aconteceu alguma coisa, foi?

- Não sei… – Foi a minha resposta imediata. - Foi uma situação tão estranha, não consigo explicar-lhe o que se estava ali a passar.

- Fala-me do homem que estava com ela - pediu o professor.

O modo como me pediu que descrevesse o "homem" assustou-me ligeiramente, o que me fez pensar que talvez não fosse muito boa ideia referir que o tinha reconhecido. Até porque eu o considerava mais como um "rapaz" que como um "homem", mas a verdade era que eu não sabia concretamente como descrevê-lo.

- Não consegui ver bem… - menti. - Estava escuro… só vi que tinha um casaco escuro e…

- Sim?

- …era muito pálido - terminei, como se esta característica fosse excepcionalmente informadora.

- Pálido?

Acenei com a cabeça, confirmando a minha última afirmação.

- E viste-lhe a cara?

- Não - menti, novamente. Bem, não era propriamente uma mentira, pois se eu não o tivesse visto na reunião de intercâmbio, nunca o teria reconhecido. - Tinha o cabelo a tapá-la - reforcei.

- Mas viste que era pálido.

- Sim…

As minhas afirmações estavam a contradizer-se, de certo modo. Quer dizer, não lhe tinha visto a face, mas sabia que era pálido. Além disso, estava a sentir-me ligeiramente manipulada. Comecei então a perceber o que se estava a passar: se o professor estava a tentar que eu me contradissesse, então estava a conseguir. Era a justificação perfeita para me desarmar.

- Hum. E achas que ele lhe fez mal?

- Não sei - menti, mais uma vez. Eu tinha a certeza absoluta que ele lhe tinha feito alguma coisa. - Provavelmente… não sei.

O professor lançou-me um olhar inquisidor, avaliando a minha resposta cautelosamente.

- Estás em Paris há quanto tempo?

- Há uma semana.

Senti o sorriso dele ainda não tinha acabado de pronunciar as minhas últimas palavras, o que não me agradou de todo.

- Oh, Maria… - continuou ele, sorrindo. - Provavelmente confundiste-a com alguém que viste nessa noite. Ela tem uma cara comum.

Fiquei estupefacta a olhar para aquele homem, que mais parecia estar a zombar de mim e da minha sanidade mental.

- Não é possível que seja a mesma rapariga. Sabes porquê?

Eu mantinha-me em silêncio, olhando-o, atónita.

- Esta rapariga suicidou-se na madrugada de domingo em sua casa. Tinha problemas psiquiátricos.

Fiquei boquiaberta. Como era possível? Eu estava tão segura, tinha a certeza, eu sentia que era ela. Tudo isto era demasiado estranho e, ao mesmo tempo, demasiado complexo para mim. Seria o meu ponto de vista assim tão ridículo? Era ela que tinha estado naquela ruela, com aquele rapaz, era ela a rapariga que jazia naquela morgue. A mesma pessoa.

- Como é que ela se suicidou? - Perguntei eu.

- Isso, mademoiselle, é que eu pretendo que deduza - referiu alegremente o professor. - Estás pronta para voltar para a sala de aula?

- Acho que sim - afirmei eu, enquanto me levantava do sofá.

- Faça o favor - disse o professor, permitindo-me passagem.

Voltámos silenciosamente para a sala de aula, onde estavam os outros grupos, debruçados nos seus cadáveres. Regressei para junto do meu grupo, que continuava a lançar olhares curiosos na minha direcção. O professor ficou connosco analisando o cadáver, dando-nos pistas e informando-nos do que considerava necessário para chegarmos à conclusão que estava já descrita no relatório de autópsia.

- Repara, Maria - chamou ele. - Feridas infligidas com objecto afilado, ângulos de entrada consistentes com auto-agressão e lesão de artérias principais. Causa de morte?

- Hemorragia intensa - respondi eu, automaticamente, enquanto na minha mente pululava a palavra Homicídio.

- Voilá! - Sorriu o professor, na minha direcção.

Senti todo o grupo dispersar, o que significava que a aula tinha terminado. Olhei mais uma vez para aquela rapariga, que parecia estar envolta num manto de serenidade. Instintivamente, toquei-lhe na testa, dirigindo-me depois para o maxilar. Estava fria, e a pele tinha uma textura característica, de uma enorme suavidade. Raios! Tinha a certeza absoluta que era ela.

- Então, Maria, tudo bem? - Perguntou o professor, mais uma vez, dirigindo-se a mim.

- Sim - confirmei eu. - Tem razão, professor. Devo tê-la confundido com alguém que vi naquela noite - menti, descaradamente. Sem dúvida, seria melhor assim, para não levantar suspeitas desnecessárias sobre mim.

O professor, por outro lado, parecia algo desconfiado da minha súbita aceitação dos factos que tão discretamente tinha rejeitado há pouco.

- Obrigado e… desculpe todo este episódio lamentável - reforcei, mais uma vez.

- Até amanhã! - Retorquiu ele.

- Até amanhã.

Apressei-me a sair daquela sala e daquele local, precisava de ar para pensar com mais calma no que ali tinha visto. Tinha uma certeza imperiosa que era aquela a rapariga que eu vira na ruela com ele. E não tinha sido suicídio, eu estava absolutamente ciente disso. Seguramente algo tinha acontecido naquela noite e eu não estava a perceber o que era. Fosse o que fosse, era algo sério e eu tinha testemunhado esse evento.

Aniquilando todo o esforço que tinha feito nos dias anteriores, com o objectivo de esquecer aquele episódio, tentei recordar pormenorizadamente o que tinha visto naquela noite, com o intento de compreender o que se estava a passar em meu redor. O que estava ela a fazer com ele, naquele beco? Afinal eu tinha razão. Ela não era uma prostituta, mas sim alguém… com problemas psiquiátricos. Quem era ele e o que quereria dela? E o que lhe fez ele? Esta última linha de pensamento assustava-me particularmente, porque eu sabia que ele me tinha visto, portanto ele sabia quem eu era. E eu acabava de levantar ondas na morgue do hospital. Tinha que chegar a casa rapidamente, sentar-me e pensar calmamente e em silêncio no assunto.

Nunca a viagem de metro até casa me pareceu tão demorada. Já em casa, no meu quarto, sentei-me na beira da cama e tentei organizar toda a sequência de eventos na minha cabeça. Tinha que ser, acima de tudo, racional, pois tudo isto certamente teria uma explicação óbvia e eu não estaria, certamente, a atingi-la. A imagem daquela rapariga, naquele beco, alternada com a imagem dela deitada naquela marquesa, não tinha uma sequência lógica. Suicídio? Feridas auto-inflingidas? Tudo isto era demasiado conveniente, demasiado… correcto. A certa altura, ocorreu-me que deveria ter pedido o relatório da autópsia. O professor não mo negaria e, certamente, seria um pedido comum entre os alunos.

Tudo isto era uma coincidência perturbante. Se havia algo que me cansava acima de tudo, era eu não compreender o que estava por detrás de todos estes acontecimentos que, para todos pareciam insignificantes, excepto para mim. O que me levaria a contestar tudo e todos? Porquê esta situação, em concreto, a pôr constantemente em causa toda a minha racionalidade?

Não, eu não poderia estar a pensar nestes termos. Provavelmente, seria eu que estaria a complicar o que é simples e a criar uma história misteriosa em redor de uma pessoa que tinha problemas mentais sérios, que a levaram ao suicídio. Talvez tudo isto não fosse mais do que uma coincidência infeliz. Sim, provavelmente seria isso.

Adiante.

Era hora de almoço e não tinha fome nenhuma. Mais uma vez relembrei a face daquela rapariga, tão fria, tão distante. Desejei ser capaz de eliminar estas imagens da minha mente, sem rejeitar instantaneamente todo e qualquer pormenor da história que me tinham "vendido".

Definitivamente, este era um fantasma que eu tinha que exorcizar sozinha.

Nessa tarde e noite resumi-me ao silêncio do meu quarto e somente dirigi um escasso conjunto de palavras a Shiva, que estranhou, como seria de esperar, a minha atitude de alienação. Ainda considerei mencionar-lhe o que se tinha passado de manhã, na aula prática de Medicina Legal, mas desisti da ideia quase instantaneamente. Porque haveria ela de acreditar em mim e nas minhas teorias que, segundo todos, estavam deslocadas da realidade? Certamente haveria de justificar a presença da rapariga na morgue com a mesma certeza e segurança que os demais e eu seria apelidada como aquela tola que alimentava teorias conspirativas. Por momentos, imaginei-me em camisa-de-forças, rodeada de pessoas dispostas a internar-me num hospital psiquiátrico. Sim, sem dúvida seria o desfecho mais provável se eu continuasse a insistir em questionar o que era aparentemente tão óbvio para todos, excepto para mim.

Estava sentada na minha cama, a olhar concretamente para nada, enquanto ouvia Shiva a preparar-se para ir dormir, a julgar pela movimentação que sentia no corredor e na casa-de-banho. Talvez fosse melhor eu fazer o mesmo. Talvez fosse melhor deixar a noite passar e dormir sobre o assunto, para que o amanhã pudesse ser um dia o mais próximo possível do normal.

Só esperava que conseguisse dormir descansada para que o dia seguinte fosse minimamente suportável.