Numa cidade qualquer, num prédio de nome comum crescia uma rosa amarela em meio às rosas vermelhas de um canteiro. E todas as flores desprezavam-na. Chamavam-na Sem-Cor, às vezes também Sem-Graça. E a pobrezinha acreditava. Achava que tinha algum defeito. Questionava o jardineiro quanto ao porque de ser assim. Ele, é claro, não a ouvia ou respondia.

Os dias passavam, a chuva caia, o Sol tornava a brilhar. Sem-Cor permanecia imutável. E quando chegou a hora de as rosas serem vendidas numa floricultura todas foram levadas, exceto ela.

— Adeus, Sem-Graça. – despediu-se uma das rosas.

— Oh!, isso já é absurdo! Não bastasse a minha 'sem-gracisse', serei também esquecida aqui.

Lamentou-se longas horas. Cogitou jogar as pétalas ao chão. Porém não o fez. Deu-se conta do silêncio, da paz que agora habitava o canteiro. As vermelhas eram sempre barulhentas. Algum dia as flores poderiam voltar a nascer ali. Talvez não fossem tão cheias de si quanto às outras. E caso contrário viver só seria agradável, afinal.

A manhã seguinte chegou com os passos do jardineiro. Ele tocou-a gentilmente. A tesoura na outra mão.

— Você era especial. Pretendia deixa-la aqui. Mas ao invés disso será presente a um amigo. – e de maneira delicada levou a rosa até a loja. – Aqui, meu caro Heitor. – dai pousou-a na mão do velho homem.

— Muito agradecido, Miguel.

Foi posta na lapela do paletó e dali saiu à rua. Na outra calçada observou um buque formado pelas vermelhas ser despedaçado e pisoteado por uma mulher histérica que gritava "cafajeste" ao cavalheiro a sua frente. Quanto a rosa de cor singular foi guardada entre papéis e conservada seca pela neta do homem que a chamou Bilho-do-Luar.