No início dos tempos, quando não existiam homens para andar pela terra, mas os astros já eram nascidos, havia um jardim sem fim aonde Sol e Lua, bons amigos e companheiros de andança, iam para conversar.

Eles eram opostos que se completavam: Sol com sua pele bronzeada, olhos amarelos, cabelos loiros; Lua pálido como uma vela, olhos e cabelos da cor do ébano. Um alegre e falante, o outro de brilho comportado e tímido.

Certa vez, sentados à sombra de uma árvore, viram passar Girassol, criatura adorável, de grande beleza e riso cristalino, junto à outra figura que pouco foi notada na época. Os olhos de Sol e os dela se encontraram e aconteceu o amor à primeira vista. Daquele dia em diante, os amigos passaram a freqüentar o jardim mais vezes, bem como a dama passou a cumprimentá-los e parar para conversar.

Passadas várias semanas, os dois namorados já professavam seu amor em público e Lua sentia-se dividido. Havia se apaixonado pela flor e desejava tê-la ao seu lado, mas sabia que isso seria uma enorme traição ao amigo. Doía-lhe o peito ao ver a bela moça e em seu desespero pensou em várias soluções estúpidas. Poderia sequestrar Girassol. Matar Sol. Mentir para separá-los...

Num sopro de senso baniu todas as ideias ruins e decidiu-se por algo que afetaria somente ele.

– Meu amigo Sol, – disse na tarde seguinte a decisão – desejo-lhe tudo que há de bom, sinceramente, hoje e sempre. E a você, Girassol, desejo que seja feliz com aquele que escolheu.

Surpresos com as palavras de Lua, ambos questionaram o que lhe acontecia, ao que ele respondeu que simplesmente pensava em viajar para longe. Como são bobos os que se apaixonam!, pois acreditaram em tal mentira.

Mais tarde, quando Lua estava sozinho à beira de um rio, orou a Deus pedindo que o perdoasse pelo que faria. Amarrou uma corda ao pescoço e esta numa pedra pesada que levantou sobre a cabeça para jogar no fundo das águas.

Quase era possível ouvir o silêncio da morte quando uma voz doce se levantou:

– Por favor, não faça isso! Eu lhe imploro.

De trás de uma árvore saiu uma donzela pálida de olhos molhados, a mesma que antes andava com Girassol.

– Oh, por favor, não o faça. Eu estava esperando que se matasse para seguí-lo, mas não pude aguentar. Não é justo que morra! Não quero, não posso vê-lo morrer!

– Por que diz isso? – em sua surpresa Lua deixou cair a pedra no chão.

– Porque o amo, senhor. – e essa frase foi dita num sussurro.

Acontece que Dama-da-Noite, e esse era o nome da moça, havia se interessado por ele no mesmo dia do encontro com Girassol. A partir daí, perguntava a sua amiga, todos os dias, sobre o que conversavam, como era o rapaz, e se apaixonou, mas não aproximou-se por ser muito tímida. Ao invés disso, passou a seguí-lo com os olhos, esperar sua chegada. Tudo isso a flor contou de rosto rubro e quando terminou nem ele, nem ela sabiam o que dizer. Por certo tempo ficaram quietos olhando para o nada, até que Lua tomou coragem e pediu para conhecê-la melhor, dizendo que "afinal a morte pode esperar".

Eles se conheceram, passaram muito tempo juntos e são lembrados mesmo hoje quando, depois de os astros subirem aos céus, os Girassóis se abrem pelo dia e vão de leste a oeste, enquanto as Damas-da-Noite perfumam o pós-crepúsculo. As flores se inspiram num amor de antigamente.

.

Dedicado a Bianca de Oliveira, em comemoração ao seu décimo oitavo aniversário.