N/A: Um detalhe: no meio do texto podem aparecer alguns números no lado de algumas palavras russas. Era para ser aqueles numerozinhos pequenos para depois, nas notas finais, ter a tradução da palavra, mas o FP desformatou e ficou um bruto de um número. :/


A DONZELA DA NEVE


I. UM RETRATO DO INVERNO RUSSO

Antes da história propriamente dita, talvez seja válido explicar algumas coisas sobre o inverno russo. Ele é belo, é claro, como não seria? Suas nevascas escondem paisagens inteiras por sob a neve que despenca dos céus e, com esse cobertor branco e impiedoso, vem também o frio. Não aquele friozinho que arrepia os pêlos dos braços e faz você querer pegar um casaco, mas aquele frio que congela, que enrijece as articulações e que corta, aquele frio que faz qualquer um evitar se mexer, como se a imobilidade fosse manter o calor de seu corpo intacto.

Dito isso, é fácil de compreender que o inverno russo é belo, assustador e perigoso ao mesmo tempo. É bonito como a neve, branquinha e brilhante, esconde tudo e cria paisagens únicas que nunca se repetirão, afinal, no dia seguinte aquilo já terá derretido ou mudado de forma por conta do vento ou de mais neve. É assustador como o vento uiva ao redor de tudo e todos, como se quisesse espantar toda a vida dos locais por onde passa. É perigoso como o frio se embrenha nas veias das pessoas, correndo por seu sangue até chegar em seus corações, parando-os sem piedade alguma.

II. O COMERCIANTE E SUA FAMÍLIA

Apresentado o estado no qual se encontrava o cenário da história na época em que esta aconteceu, agora vamos aos personagens desta. Aliás, antes disso, talvez alguém se pergunte 'Cenário? Que cenário?', mas basta dizer que o nome específico do local onde ocorreram tais acontecimentos não é de grande importância, apenas saiba que tudo isso se deu em uma pequena vila embrenhada no meio das florestas e que, naquela época, como era de se esperar, estava coberta por um belo manto branco de neve.

Mas agora, aos personagens, que são mais importantes do que o cenário.

Vivia então nessa vila um senhor comerciante com sua família. A esposa deste senhor havia falecido anos antes, deixando-o com sua filhinha, Lizavieta. Agora, anos depois, havia casado com outra moça, uma viúva de nome Agrafina Borisovna, que levou consigo sua própria filha, uma menina da mesma idade de Liza, Natasha. Os quatro viviam bem. As duas meninas se tratavam como irmãs e Agrafina Borisovna cuidava de Elizavieta como se fosse sua própria filha, para a alegria do comerciante.

III. UM POUCO SOBRE AGRAFINA BORISOVNA

Ela era uma mulher bonita de cabelos e olhos escuros, com um sorriso diferente que sempre parecia ter algo escondido nele. Sua maior falha era ser orgulhosa demais. Apesar de saber que a primeira esposa de seu marido já estava morta há anos, não se conformava com o fato de que a filha dele se parecia tanto com a falecida, pois assim era, já que Lizavieta1 não tinha praticamente nada do pai, nenhum traço brusco e duro como os do homem, mas sim a delicadeza e beleza daquela que outrora fora a mulher do comerciante.

É claro que Agrafina Borisovna tratava bem a menina, afinal, não iria entrar em discórdia com o marido por conta de uma criança, mas, ao mesmo tempo, se remoia por dentro, sabendo que, com o passar dos anos, a garota ficava cada vez mais e mais parecida com a mãe. E enquanto a mãe de Lizavieta estivesse viva naquela casa – mesmo que apenas na imagem da filha -, seu marido continuaria completamente fiel à ela.

Foi no meio de um de seus inúmeros devaneios a respeito do assunto, durante uma manhã gelada, depois de uma noite de nevasca que prometia se repetir por mais algumas noites, que uma ideiazinha apareceu na sua cabeça. Aquele tipo de idéia que começa pequena, mais como um sussurro no fundo da mente, e que vai crescendo e crescendo até não poder mais ser ignorada. Foi assim que tal idéia, um tanto sombria, até ela reconhecia isso, surgiu.

Mas que idéia era essa? Simples: mandaria o marido levar Lizavieta para o meio da floresta para que esta buscasse lenha ou qualquer coisa que servisse para alimentar o fogo – estavam sem nada mesmo e a neve que estava vindo o fazia necessário – e encontraria um jeito de atrasar o comerciante na hora de ir buscá-la, fazendo com que ela passasse a noite ao relento. Um homem adulto dificilmente conseguia sobreviver a uma nevasca no pico do inverno, logo, uma menina não tinha a menor chance contra aquela força da natureza. Dessa forma, não sobraria mais vestígios da primeira esposa em sua casa.

IV. A PRIMEIRA NOITE

Naquele fim de tarde, o senhor comerciante pegou a filha e a levou para a floresta, a pedido da esposa, para que ela procurasse por restos de lenha e gravetos que pudessem alimentar o fogo – "Sempre deixam alguns restos na floresta, assim gastamos menos" -, enquanto ela e a filha, Natasha, se ocupavam em preparar o jantar e ele saía para visitar alguns clientes.

A menina não perguntou nada, estava acostumada com aquele tipo de tarefa e até se divertia com aquilo. Quando o pai se foi, ficou um bom tempo no meio das árvores, catando tudo o que pudesse servir para acender uma lareira, e cantarolando. Quando a noite começou a cair, sentou-se em um tronco caído no meio da clareira onde o pai a havia deixado e o esperou. Esperou, esperou e esperou até que o céu escureceu e nada de seu paizinho aparecer.

O que havia acontecido era simples: depois de voltar para casa do trabalho, o comerciante fora surpreendido por um bom jantar com muita comida e vodka para aquecê-lo. Era um plano simples, como pensara Gruchenka2, fazer com que o homem se esquecesse de buscar a menina na floresta. Logo, enquanto o pai se encontrava praticamente desmaiado na cama, depois de muito comer e beber, Lizavieta se encolhia em cima daquele tronco, escondendo as mãozinhas dentro do casaco em uma tentativa quase inútil de se aquecer contra a nevasca que prometia cair naquela noite.

V. O SENHOR DAS NEVES

Muita gente conhece, mas poucos acreditam na existência deste, aquele que traz o frio e a neve. Ele não é gente, mas sim uma espécie de espírito ou criatura mística que percorre o mundo levando o inverno. Com um sussurro, o vento o leva para onde ele quiser e com um sopro ou pedido gentil, as neves mais traiçoeiras caem por sobre os lugares por onde ele passa. Não que ele seja uma criatura ruim e malévola, não. Esse ser gosta de se divertir, para falar bem a verdade, e se assemelha muito à uma criança. E, assim como uma criança, a maldade lhe é natural, mesmo que não seja por querer... Para ele, cobrir uma cidade de neve era divertido e bonito, logo, o fazia.

O nome de tal entidade varia de lugar para lugar ao redor do mundo – Jack Frost, o Velho do Inverno, Padre Invierno, entre outros -, mas, ali, era conhecido como Morozko. Veja bem, ele, como já foi dito, era mais um espírito do que algo físico, mas também podia assumir essa forma e, quando estava visível fisicamente e não era apenas o vento gelado, a neve branca ou a geada, Morozko podia ser qualquer coisa, desde uma raposa da neve até uma pessoa. Uma de suas formas favoritas, no entanto, era a de um jovem rapaz, já que esta lhe permitia correr e brincar como os humanos o fazem, sem contar que era divertido pregar peças nas pessoas quando estava sob aquela forma.

Naquela noite em especial, Morozko viajava pelo vento, carregado por este, ao avistar uma criaturinha embrulhada em casacos que tremia toda no meio daquela floresta. Indo até o chão, ele a observou de longe, espiando por entre as árvores enquanto o seu vento uivava e a fazia tremer ainda mais. Um sorrisinho travesso apareceu em seu rosto ao perceber que ali estava a sua chance de se divertir decentemente depois de um dia inteiro carregando neve pelos lugares, afinal, não era todo dia que se via alguém naqueles lugares onde ele podia se mostrar, ainda mais alguém jovem... Os jovens tem mais facilidade de ver criaturas como Morozko, pois, quando os vêem, não ficam achando que estão loucos e que o que está na frente de seus olhos é apenas uma ilusão.

Rindo, e sua gargalhada parecia se misturar ao vento causando um som quase que assustador, Morozko pulou para a clareira onde a garota estava, fazendo-a pular, assustada. Mas logo a mocinha se acalmou, sentando-se novamente e voltando a enfiar as mãos dentro do casaco.

"Boa noite, boa noite!" ele saudou, vendo um sorriso gentil aparecer no rosto da garota. "O que a traz aqui, devushka3? E qual o seu nome?"

"Elizavieta Fyodorovna. Vim pegar lenha para o fogo." Ela apontou para um montinho de madeira abandonado aos seus pés, já molhados demais, pela neve, para serem usados. "Mas meu batiushka4 parece ter se esquecido de me buscar."

Morozko a encarou por um tempo, antes de estalar os dedos e rir.

"Enquanto espera por ele, vamos nos divertir!" disse ele, correndo até ela e a segurando pelo casaco para levantá-la do tronco onde estava sentada.

E, assim, os dois jovenzinhos – pelo menos em aparência, pois Morozko nem sabia mais que idade tinha – passaram a noite correndo para lá e para cá no meio das árvores de tal forma que a menina logo se aqueceu. Quando o sol começou a aparecer no horizonte, Morozko se despediu com uma reverência, antes de sumir, enquanto a menina voltava ao seu lugar na clareira, de tal forma que, quando seu pai, desesperado, chegou lá, encontrou sua filha corada e sorrindo.

Naquela noite, não houve nevasca.

VI. A SEGUNDA NOITE

E qual foi a surpresa de Agrafina Borisovna quando, de manhã cedinho, encontrou o marido e Lizavieta parados na cozinha. O pai abraçava e beijava a menina o tempo todo, apavorado com o quão perto chegara de perder sua liubimaya5. A mulher apenas sorriu, engolindo a própria raiva, antes de ir abraças a garota e mandá-la para junto de sua própria filha.

Naquela mesma noite, Agrafina Borisovna colocou seu plano em ação novamente. Antes de anoitecer, mandou ela mesma a menina para a floresta e foi encontrar-se com o marido e a filha na vila, onde haveria um baile na casa de um senhor nobre. Dizendo ao senhor seu marido que ele deveria pegar Lizavieta na floresta assim que caísse a noite, Gruchenka foi com eles para o baile, mais uma vez tramando distrair o marido o suficiente para que ele se esquecesse da filha.

Tudo correu como planejado. Na festa, sua menina, Natasha, foi chamada para dançar pelo filho do anfitrião, um jovem rapaz que, de acordo com os rumores, estava a procura de uma noiva. Aquilo fez com que Gruchenka e o marido ficassem radiantes, é claro, e, assim como na noite anterior, o comerciante se deixou levar pela comida, bebida e dança, esquecendo-se da filha. Claro que não sem a ajuda da esposa, que, sempre que ele fazia menção de sair da festa, puxava-o para conversar com outra pessoa.

VII. ADEUS AO VENTO

Enquanto isso, Elizavieta Fyodorovna se sentava mais uma vez no mesmo tronco, na mesma clareira, e esperava pelo pai, lamentando-se por não ter prestado atenção suficiente no caminho que tomara para chegar ali, afinal, caso o tivesse feito, poderia voltar para casa. Mas já estava escuro e a escuridão associada à neve poderia pregar peças, principalmente em gente que não sabia por onde andava.

Já estava começando a sentir o desespero crescer dentro de si quando uma gargalhada ecoou no vento. De imediato, Lizavieta a reconheceu e, diferente da noite anterior, na qual ficara assustada, deu um salto e virou-se para ver o mesmo rapaz de antes empoleirado em uma das árvores, equilibrando-se em um galho.

"Boa noite!" ela gritou, sorrindo ao vê-lo pular de onde estava, aterrissando com leveza sobre a neve, seus pés descalços afundando no cobertor branco e gelado enquanto alguns flocos de neve pareciam segui-lo. "Não está com frio?"

"Frio?" Ele riu, sacudindo a cabeça e se aproximando dela, que voltava a se sentar no tronco. "Eu não sinto frio. E você?"

"Um pouquinho." Mas é claro que não era verdade. Suas juntas já estavam doendo e seu queixo batia o tempo inteiro. Sem contar que ela estava mais pálida do que o normal e seus lábios pareciam estar ficando azuis. "Só um pouquinho."

"Sei," sussurrou Morozko, antes de dar as costas para a menina, encher a boca de ar e assoprar o nada. Ao mesmo tempo que fazia isso, um vento terrivelmente forte soprou na direção oposta deles, como se estivesse se afastando, levando consigo o ar gelado e a neve que começava a cair. "Está melhor?"

"Sim. É muito gentil da sua parte, mandar o frio embora," disse Lizavieta, sorrindo.

"Ora, não quero que congele!"

"Mas esse é o seu trabalho, não? Congelar!" Ela riu.

"Com certeza," disse o rapaz, cruzando os braços na frente do peito. "Mas fazer nevar não significa querer congelar todo mundo. Você não se diverte na neve? Aposto que sim, todo mundo se diverte com guerras de bolas de neves e trenós!"

"Sua neve destrói as nossas plantações."

"Bom, aí o problema é com as plantas, que não agüentam o frio!" O rapaz soltou um muxoxo, irritado, antes de ajoelhar-se em frente à mocinha. "Mas olhe, o frio é bonito! É por isso que gosto disso tudo, pois é belo." Morozko gesticulou para ao redor deles, para os montes de neve que se acumulavam no chão e nos galhos, antes de tocar no tronco onde ela sentava. "Só o gelo consegue fazer isso." No local onde sua mão encostara, um belo desenho de espirais geladas começou a aparecer. A menina sorriu. "E isso!"

Ele ergueu os braços e a neve reapareceu ao redor deles, seus flocos rodopiando como pequenas fadinhas dançantes, acompanhando as ordens de seu senhor. Lizavieta riu baixinho, esticando as mãozinhas enluvadas para ver os floquinhos caírem sobre o tecido, antes de voltarem a se erguer quando Morozko ordenava. Aquilo era como um ballet, um ballet onde as bailarinas eram pequeninas e geladas, usando saias de brilhantes de gelo, dando piruetas no ar e acompanhando a coreografia criada, de improviso, por Morozko. Elas rodopiavam, rodopiavam e rodopiavam, de vez em quando criando um tipo de cortininha ao redor deles e, logo depois, caíam sobre os dois, cobrindo-lhe a cabeça e os ombros com uma fina camada branquinha. Era a coisa mais bonita que a menina já vira.

"Parece que estão dançando," disse ela, observando um floco que girava em sua mão.

"Mas estão sem música!" disse Morozko, parecendo indignado, e então assoviou. Como se aquele assovio despertasse alguma coisa no fundo da floresta, o vento veio uivando, não os atingindo, é claro, não queria que Lizavieta ficasse com mais frio, mas, ainda assim criando um tipo de sinfonia que nenhum homem poderia, um dia, reproduzir com seus instrumentos. "Agora sim podem dançar."

Dando um pulo, a mocinha pôs se de pé, rindo e girando, de braços abertos, como se tentasse imitar o movimento da neve. Morozko riu junto e, dessa vez, risada dos dois pareceu se misturar ao vento com tamanha harmonia que a música deste pareceu mais bela e única.

"Ouve! Ouve, malenkaya6!" gritou Morozko, ficando em pé e erguendo o rosto, sorrindo. "Vê só como tua voz faz o vento ficar mais bonito! Vê só como o frio pode ser tão belo como você, moya malenkaya7!"

O tempo passou rápido, em meio à canções sussurradas pelo vento e danças de flocos de neve, e logo o sol se levantava no horizonte, fazendo Morozko desaparecer e o pai de Lizaveta, desesperado, correr até ela.

Naquela noite, mais uma vez, não houve nevasca.

VIII. OUTRO DIA

Quando Agrafina Borisovna acordou naquela amanhã, não poderia julgar-se mais feliz. Sua filhinha, sua Natasha, havia conseguido atrai a atenção do filho do nobilíssimo Ivan Nikolaivich, Pyotr Ivanich, e aquilo fora suficiente para iluminar a sua noite e aflorar a sua imaginação na hora do sono, fazendo-a sonhar com um belo casamento, magníficos vestidos, danças animadas e sorrisos. Sonhara tanto com o futuro da filha que se esquecera por completo da menina que planejara congelar durante a noite e foi só lembrada da existência dessa quando, ao levantar-se e ir até a cozinha, cantarolando e quase dançando, deu de cara com a dita cuja e o pai.

"Minha Liza8," dizia o senhor seu marido, segurando a mão da menina, que ainda estava gelada do tempo que passara ao relento. "Minha Liza!"

Enraivecida, Gruchenka, mais uma vez, fingiu estar aliviada com a volta da menina e até recriminou o marido por tê-la esquecido na floresta. Ao mesmo tempo, tentava pensar em outra maneira de livrar-se da moça: mandá-la novamente para catar lenha naquela mesma noite seria muito arriscado, nem mesmo o senhor comerciante seria capaz de cair naquele truque novamente. Pensou e pensou até lembrar-se que seu esposo iria viajar dali um dia para a vila vizinha para tratar de negócios. Quando ele partisse, mandaria a menina para a floresta e lá ela haveria de morrer congelada. Assim que o pai voltasse, explicaria que Lizavieta havia desobedecido suas ordens e partido, o que levara ao trágico acidente.

'Mas antes hei de ter certeza de que a tal noite será bem gelada,' pensou. Iria esperar e ver se na noite seguinte a nevasca prometida iria cair. Caso o fizesse, levaria a menina. Caso contrário esperaria até que o tempo voltasse a ficar ruim para ter certeza de que Lizaveta não sairia daquela floresta com vida.

IX. A NEVASCA

No dia que antecedeu a viagem do comerciante, o céu se fechou e o vento assoviou por entre as casas da vila com tanta força que até algumas árvores fraquinhas foram arrancadas do chão. O frio dentro das casas estava insuportável, o que fez as três moças da casa passarem o dia enfiadas debaixo dos cobertores. Quando a neve finalmente começou a cair, com força, ricocheteando contra as portas e paredes, Natasha9 encolheu-se, assustada com tamanha violência da natureza, enquanto LizavIeta tentava acalmá-la.

"Ora, não há o que temer," dizia a garota, abraçando a irmã postiça. "Vai ver como amanhã tudo vai estar mais bonito, coberto de neve! E ouça, irmãzinha, ouça o vento! Não é uma música bonita essa que ele canta para nós?"

"Só ouço as janelas baterem e os galhos estalarem," choramingou Natasha. "Desse jeito, nem vamos poder sair de casa amanhã!"

"Não, não, ouça bem! Não preste atenção no bate bate de madeira, mas sim no sopro do vento! Não é bonito?" Lizavieta esticou o pescoço para olhar pela janela e ver o redemoinho de neve lá fora. "E vê como a neve dançando para nós! Vê como é bonito e logo perde o medo."

E, assim fazendo, Natasha surpreendeu-se ao ver que, dentro de alguns minutos, já estava tão entretida quanto a irmã. As duas agora sentavam-se defronte a janela, observando a nevasca lá fora e ouvindo o vento, dando risinhos vez por outra, quase se esquecendo do frio que se infiltrava pelas fendas da casa. Mal sabiam elas, é claro, que a neve que as divertia tanto era tudo o que Gruchenka precisava para fazê-la se decidir de colocar seu plano em prática: aquela nevasca prometia se repetir na noite seguinte, enquanto seu marido estivesse fora, e, assim sendo, ela levaria Elizavieta para a floresta, da onde nem com toda a sorte do mundo, a menina conseguiria voltar viva, não em um tempo como aquele.

X. GRUCHENKA EM AÇÃO

A neve continuava caindo quando o senhor comerciante se levantou naquela manhã para viajar até a vila vizinha. Arrumou tudo o que precisaria levar com calma, como se quisesse aproveitar todos os minutos dentro de sua casa antes de partir, e, quando já não podia mais se atrasar, foi despedir-se das filhas e da esposa.

Foi com grande pesar que ele saiu a cavalo naquele dia, olhando para a sua casa enquanto se afastava. A neve, apesar de persistente, havia diminuído de intensidade e, já na metade do caminho, parou de cair, fazendo com que o resto de sua viagem fosse mais tranqüilo.

Enquanto isso, em sua casa, a esposa levava as tarefas do dia a dia com completa normalidade, esperando para que o fim da tarde chegasse o mais rápido possível. Quando o céu começou a assumir uma cor diferente, ao mesmo tempo que as nuvens de uma iminente tempestade se amontoavam neste, Gruchenka mandou a própria filha ir até a casa de um vizinho para realizar alguma tarefa completamente desnecessária, que só serviria para afastar a menina por alguns minutos, antes de chamar Elizavieta e sair com ela para a floresta.

Enroscando o próprio braço no da mocinha e acariciando-lhe a mão da maneira que uma mãe faria com a própria filha, Agrafina Borisovna conduziu-a por uma trilha tortuosa – não arriscaria usar o mesmo caminho que sabia ser usado pelo marido, afinal, depois de dois dias indo ali, era capaz da menina já o ter decorado -, sempre conversando e atraindo a atenção de Lizavieta para outras coisas que não o caminho, a mesma técnica que usava para desviar a atenção do pai desta nas noites anteriores.

"Junta a lenha pra nós, dorogaya10, e mais tarde venho te buscar," disse Gruchenka, deixando a menina na mesma clareira de antes. "Não vou esquecer-te como fez teu paizinho, não te preocupas."

E ali ela ficou, mais uma vez, andando para lá e para cá, atrás de qualquer coisa que pudesse alimentar o fogo naquela noite, para aquecer as três mulheres da casa. Quando a noite finalmente caiu por completo e já era quase impossível enxergar por onde estava andando, Lizavieta sentou-se novamente no tronco no centro da clareira para esperar Gruchenka, mais calma do que na outra noite, quando era seu pai que a iria buscar. Seu batiushka era meio relapso, sabia disso, sempre precisava de alguém para lembrá-lo do que tinha que fazer, mas a esposa dele não, afinal, era ela quem vivia ajudando o marido a se lembrar de tudo.

Então ela esperou, enquanto a neve começava a cair com mais força, e esperou... E esperou.

XI. ALGUMAS COISAS SOBRE MOROZKO

Morozko é o frio, o inverno, a neve, a geada, o vento gelado, o próprio gelo. Como já foi dito, é uma espécie de espírito que habita a natureza e que à ela serve e por ela é servido. Se nem ele sabe por quanto tempo já viveu, não serei eu quem vai arriscar um palpite, mas o próprio Morozko sabe que já está ali por muitos e muitos anos. Ele já vira animais estranhos que ninguém nunca imaginara existir, já vira pessoas nascerem e morrerem – muitas vezes pelas suas mãos -, já vira impérios serem construídos e destruídos... Em resumo, vira o mundo crescer e se tornar o que era naquela época.

Ele observava tudo enquanto fazia o seu trabalho de levar o frio para os lugares e, sempre que achava que não havia mais nada para ser visto, algo novo o surpreendia. De vez em quando se metia até demais nas coisas e seu frio acabava por influenciar demais alguma coisa, como as grandes nevascas que diversas vezes mudaram as vidas das pessoas. Mas fazia tudo isso sozinho e, na realidade, não se importava com essa solidão. Não, não era solidão, para falar bem a verdade. Ele tinha o vento, a neve e o gelo ao seu lado, sem contar com os animais.

Uma coisa era fato: Morozko sempre gostara de observar as pessoas, brincando com elas de longe, mas só isso estava de bom tamanho... Até encontrar aquela mocinha no meio da floresta. Ao vê-la pela primeira vez, a criaturinha achou que ela era, na realidade, feita de neve. Tão pálida, com cabelos tão claros e olhinhos azuis tão brilhantes, parecia uma escultura de gelo enfiada em casacos. Talvez tenha sido isso uma das razões para, em primeiro lugar, ter se aproximado e arriscado algum tipo de interação que não fosse apenas uma lufada de vento brincalhona ou uma nevasca.

Agora, antes que venham dizer que Morozko é uma criatura gelada, logo, incapaz de sentir qualquer coisa, vale lembrar que, apesar de ser um espírito ou seja lá como alguém deseje chamá-lo, Morozko também tem forma física. Seja uma rapozinha da neve, uma lebre branca ou um rapaz, ele tem em si um coração que bombeia seu sangue pelo resto do seu corpo. Agora, esse coração dele é um tanto peculiar, afinal, nem sempre ele está ali... As vezes, quando Morozko é o vento, pode-se ouvir os batimentos dele nos estalidos que o vento realiza nas árvores.

Mas isso é outra história, estamos falando sobre o coração físico dele. Esse coração é peculiar, pois, apesar de estar batendo dentro de seu peito, ele encontra-se quase totalmente congelado. É como se uma camada de gelo o envolvesse, limitando seus batimentos ao mínimo necessário para que ele vivesse e se divertisse, ao seu modo. Esses batimentos mais fracos eram suficientes para bombear o seu sangue, que, aliás, era como a água debaixo de um lago cuja superfície está congelada: tão frio que chega a ser cortante.

Agora, quando viu a mocinha Elizavieta naquela clareira, na primeira noite, Morozko podia jurar que sentiu algo diferente dentro de seu peito. Ele não sabia, é claro, mas o que aconteceu é que, ao ver o belo rosto da garota, seu coração contraiu-se com mais força. Essa força excepcional foi suficiente para quebrar um pouquinho o gelo ao redor do órgão, deixando que este batesse com mais força a partir daquele momento. E esses batimentos mais fortes conseguiram, com tal movimento, aquecer, nem que fosse apenas um tantinho, o sangue gelado que passava por ele, antes de seguir para o resto do corpo.

Claro que para alguém normal, uma pessoa, tal diferença de temperatura não significava nada. Morozko continuaria, sob as mãos de um humano ou sob as patinhas de um animal, tão gelado quanto antes. Mas para o próprio espírito aquilo era algo diferente, algo bom. Percebera que tal sensação se repetia sempre que se aproximava de Lizavieta e, por conta disso, continuou a procurá-la, naquela clareira, noite após noite. Quando ela não apareceu, deixou-se carregar pelo vento até a vila de onde ela vinha e, depois de olhar por diversas janelas – congelando-as todas, sem querer -, encontrou aquela na qual a menina se escondia. Passou o resto do dia entretendo Elizavieta e aquela outra mocinha que estava com ela, mesmo sem elas saberem, com seus ventos e flocos de neve.

Para a sua alegria, na noite seguinte, lá estava a menina, sentadinha sobre o tronco, como sempre. Também estava tremendo, mas logo ele iria fazê-la esquecer-se do frio, como fizera antes. Naquela noite, como antes, Morozko soprou o vento para longe e ocupou-se em conversar e cantar para a garota. A maioria das pessoas tinha medo da sua voz, já que ela as lembrava das nevascas, mas Lizaveta pareceu ficar encantada.

Já era quase de manhã quando Morozko, tomado por um desejo súbito de sentir aquele calorzinho dentro de si mais uma vez, lembrou-se de um pequeno ato que já vira muitas pessoas realizarem, na maioria das vezes, um rapaz e uma moça, e que, ao seu ver, servia para expressar o quanto um gostava do outro. Como a neve que começa a cair silenciosa, tímida, Morozko levou as mãos pálidas e geladas ao rosto de Lizavieta, que riu e encolheu-se inteira, com frio, antes de encostar os próprios lábios nos dela.

E como aquilo fez seu coração bater! Era como se todo o gelo ao redor dele tivesse derretido por alguns segundos, como se o calor de Elizavieta fosse lentamente transferido para ele através daquele beijo que, apesar de ter sido relativamente longo, era mais inocente do que qualquer outra coisa. Depois de afastar-se, riu, assim como ela, antes de beijá-la de novo.

E de novo.

E de novo.

Até perceber que os lábios de Elizavieta estavam tão gelados quanto os seus.

XII. A VOLTA DO COMERCIANTE

Quando voltou da vila vizinha na manhã seguinte, Fyodor Nikolaivich encontrou sua esposa aos prantos dentro de casa. Em meio as lágrimas da mulher e dos suspiros desesperados da filha postiça, o comerciante entendeu, com o pânico subindo-lhe à garganta, o que havia acontecido: sua filha saíra na noite anterior e perdera-se na floresta. Com a nevasca que caiu depois que anoiteceu, era impossível irem atrás dela e, só agora, era que os homens do vilarejo conseguiram sair para procurá-la.

Desesperado e sem conseguir raciocinar direito, Fyodor Nikolaivich correu para a floresta, atrás daqueles que procuravam a filha. Não demorou muito para encontrar o grupo de homens, jovens e velhos, que se amontoavam em uma clareira, sussurrando entre si coisas como 'Pobre Fyodya11!' e 'Tão novinha, tão novinha...', sussurros os quais sumiram após a sua chegada.

Depois disso, só restou ao pai ver o corpinho da filha caído em meio à clareira. A pele da menina estava quase da mesma cor da neve que o cobria parcialmente, assim com os olhos, uma vez tão brilhantes, e que agora haviam perdido por completo o brilho. Seus dedinhos e lábios estavam roxos. Fyodor Nikolaivich chorou, gritou, soluçou, jogou-se no chão, recusou-se a sair dali e só voltou para casa arrastado pelos companheiros, ainda chorando.

O corpo da mocinha fora enterrado pouco tempo depois e o pai permaneceu inconsolável depois disso. Não importava o que fizessem, o comerciante não saiu mais daquele estado de luto. Era como se seu coração tivesse congelado junto com o corpo da filha. Alguns dias após o enterro desta, o homem tomou coragem de desembrulhar os presentes que havia trazido para as filhas e a mulher, da vila vizinha. Entregara, indiferente, as coisas que comprara para Gruchenka e Natasha, logo antes de sair para a floresta com um pacote debaixo do braço.

Evitando todo mundo, para que não tentassem arrastá-lo de volta para casa, Fyodor Nikolaivich foi até a clareira onde haviam encontrado sua Elizavieta e, ali, abriu o pacote que trazia nas mãos. Era um kokoshnik12 azul, todo enfeitado com pérolas, cuja cor e delicadeza o lembrara tanto sua filhinha que ele tivera de comprá-lo. Agora, não havia Lizavieta para usá-lo, logo não havia razão para tê-lo.

Deixando-o sobre a neve, abandonado, o comerciante deu as costas para aquela clareira uma última vez.

XIII. A DONZELA DA NEVE

Quando ouvira a risada de Elizavieta fundir-se com o som do vento em harmonia perfeita, Morozko sabia que ali havia alguma coisa especial. Claro que, na época, não havia nada que indicasse o que poderia acontecer com a mocinha, mas, agora, ele sabia muito bem o que tudo aquilo indicava. LizavIeta, à primeira vista, havia lhe parecido uma donzela feita de neve e era isso que ela era agora: uma moça da neve.

Naquela noite fatídica, ao perceber que seus beijos e seu carinho, apesar de bem intencionados, eram frios demais para a garota, congelando-a da mesma maneira que ele fazia com as plantas e os lagos, Morozko entrou em desespero. Fez cair a maior nevasca, ordenou que os ventos soprassem o mais forte possível, espantou animais, congelou plantações... Tudo isso como uma tentativa inútil de esquecer o que havia feito com Elizavieta.

Passaram-se alguns dias e, naquele tempo, tudo o que ele fazia era levar uma neve silenciosa e persistente à todos os lugares. Nada de paisagens bonitas, de flores de gelo, de flocos dançantes... Estava triste demais para tudo isso, seu coração voltara a se congelar. Isso tudo persistiu até na noite em que os camponeses, pelos lugares onde ele passava, comemoravam a chegada de um novo ano. Foi nessa noite que ele a viu, rindo e cantando, parada perto das celebrações. Tão alegre, tão viva e, ainda assim, ninguém mais a via, a não ser ele e algumas poucas crianças que por ela passavam e riam de suas brincadeiras.

Snegurochka13, era como as pessoas chamavam a moça que, vez por outra, viam na época do fim do ano. Tão pálida quanto a neve recém caída, vestida com um pesado casaco azul e um kokoshnik da mesma cor, adornado de pérolas, que ressaltava tanto os seus olhos, que pareciam duas pedrinhas brilhantes em seu rostinho bonito. Era assim que ele a vira pela primeira vez e era assim que passou a vê-la para sempre, a partir daquela noite, como a Donzela da Neve.


N/A:

1. LIZAVIETA: diminutivo carinhoso de Elizavieta.
2. GRUCHENKA: diminutivo carinhoso de Agrafina.
3. DEVUSHKA: "garota" (pronunciado 'DIE-vush-ka')
4. BATIUSHKA: meio que uma forma de se falar com figuras de 'respeito'... Padres ou pais, por exemplo.
5. LIUBIMAYA: algo nas linhas de "meu tesouro"/"minha amada"
6. MALENKAYA: "pequena"/"pequenina" (pronunciado 'ma-lin-ka-YA').
7. MOYA MALENKAYA: "minha pequena" ('maya malinkaya').
8. LIZA: diminutivo carinhoso de Elizavieta.
9. NATASHA: diminutivo carinhoso de Natalia.
10. DOROGAYA: "querida" (pronunciado 'da-ra-GA-ya')
11. FYODYA: diminutivo carinhoso de Fyodor.
12. KOKOSHNIK: um tipo de tiara ( . /tumblr_m5y2kwWAuV1qdsbmxo1_r1_ )
13. SNEGUROCHKA: 'Donzela da Neve'/'Snowmaiden'.

Ok, isso aqui foi uma viagem linda onde eu devo ter acabado com os contos russos de uma maneira linda. Eu tenho um livro onde tem a história russa do Jack Frost (sim, o agora famoso Jack Frost), ou "Morozko", que foi a inspiração/base dessa história aqui. Ai acabei juntando a figura da 'Snegurochka' que, dependendo da versão da história dela, ela tem uma certa relação com o Jack Frost (ou Father Frost, depende), as vezes ela é mulher, as vezes ela é filha, as vezes ela é neta... De qualquer jeito, o Father Frost, na Rússia, é meio que o nosso Papai Noel, e a Snegurochka meio que é a 'ajudante' dele, mas ela também está relacionada ao Ano Novo, depois do início da URSS, quando proibiram a celebração do Natal e tals. A história de cada um deles (Snegurochka, Morozko, Father Frost, etc) tem na internet, caso alguém queira procurar. (:

Eu tentei meio que seguir uma escrita a la continhos de fadas mesmo, o que é estranho, mas ok...
De qualque jeito, espero que tenham gostado :) reviews são sempre bem vindos, vocês sabem disso.