Ela suspirou mais uma vez. Os pés enterrados na areia, os dedos retorcidos divertindo-se com os grãos infinitos.

O mar estava calmo, parecia querer consolá-la sobre seus sentimentos conflitantes.

Cheia de aflição, seus dedos se entrelaçaram, apertados. Eu deveria estar mais feliz, não deveria?, ela pensou. Devia estar feliz por eles. Devia estar pulando de alegria.

Em vez disso, ela sentia frustração, solidão e, talvez acima de tudo, medo.

Agarrou-se com unhas e dentes a algo que achava ser impossível e, de repente, não era mais impossível; era perfeitamente plausível. Normal, até.

Seu coração afundou e pulou uma batida. Ela estava feliz? Talvez feliz não fosse a palavra certa. Alegre, é, talvez fosse isso.

Soltou uma baforada de ar. Se a vida era tão simples como todos diziam, do que ela tinha medo?

- De viver – a resposta na voz suave não fez com que ela se assustasse. Afinal, ela sabia que ele viria, mais cedo ou mais tarde. Ele sempre vinha.

O banco de madeira ganhou mais um ocupante.

Os pés dele também estavam descalços. Ele vestia roupas muito brancas o que, de alguma forma, resaltava ainda mais seu cabelo louro cacheado e olhos verdes escuros.

Ele tinha um sorriso inocente no rosto,infantil, que contrastava perfeitamente com seus olhos cheios de sabedoria. Ele era muito novo para saber de tanta coisa, pelo menos era o que parecia. Mas a questão é que ele sabia de muita coisa sobre ela.

O suspiro dela foi uma resposta rápida à chegada do homem.

-Eu só respondi – disse, encolhendo os ombros, adotando uma postura séria e professoral.

- Eu sei – admitiu, frustrada.

Por que tinha que ser tão complicado para ela? Tão simples para os outros?

- Você está fazendo parecer mais difícil do que realmente é.

Ela sabia disso. Ele sabia disso.

- Para mim é difícil.

- Eu sei; eu estou aqui – respondeu, gesticulando para si mesmo. – Só posso ajudar você até certo ponto. Não posso fazer nada por você.

Ela fechou os olhos e apertou a ponte do nariz.

O fato era: ela tinha imposto um limite para si mesma, um limite que ela não havia parado para pensar "e se acontecer?". Aconteceu e só então ela percebeu como as coisas tinham mudado.

- Sabe quando você fica muito tempo longe de casa e, quando você volta, tudo parece diferente? – ela perguntou e ele balançou a cabeça imediatamente, sorrindo enviesado – Tudo está como era antes, cada coisa no seu lugar, mas ao mesmo tempo... – ela gesticulou com as mãos, como se quisesse tirar algo do fundo da garganta, mas não conseguiu.

- Todos seguiram em frente –

- E eu ainda estou aqui, exatamente no mesmo lugar – complementou, escondendo o rosto nas mãos, bufando.

- Está esperando o quê? – perguntou.

Ela abriu a boca para responder e nada saiu.

- Eu sou uma covarde – ela disse e esperou pela resposta dele.

Esperava que ele dissesse que não, que ela estava enganada e que era a pessoa mais corajosa que ele já conheceu. Mas a resposta não veio e ela choramingou.

Ele riu de forma contida, mas era possível sentir seu divertimento.

- Eu lhe avisei. Disse para abrir os olhos. – ressaltou – Você está olhando para trás. Está se esquecendo de viver. Tudo o que você vê significa frustração. Oportunidades vêm, mas elas também vão embora, não vão ficar esperando eternamente por você. As pessoas têm suas próprias vidas e preocupações. O mundo não gira a sua volta, você sabe disso.

- Eu sei – respondeu, resignada. – Mas o que eu posso fazer com isso? – Ela perguntou, fechando a mão no peito.

Ela podia imaginar o coração de vidro, antes rachado, agora caindo aos pedaços.

- Conserte – disse ele. Ergueu sua mão e pegou a dela, apertando-a com força delicada e revigorante. – Levante. Comece a andar. Tome atitude. Decida-se.

- Mas... – começou. Ela não gostava de teimar com ele. Ela não queria realmente uma resposta – E ele? Ele nem sabe que eu existo.

Ele ficou tanto tempo quieto que ela chegou a pensar que ele não iria responder. Ficou ali, segurando a mão dela, encarando-a, o rosto sério, mas suave ao mesmo tempo. Sua boca não se abriu por muito tempo.

Se ela não o conhecesse, diria que estava brincando com ela. Ele nunca faria isso.

Ela olhou em volta, rapidamente, para ver se algo tinha chamado a atenção dele, mas nada de interessante havia ali, apenas coqueiros, o mar, a areia e o banco. O céu era de um azul límpido, mas ela duvidava que isso lhe chamasse muita atenção.

Depois de um tempo (ela não soube precisar quanto), ela entendeu. As palavras vieram à sua boca, ao mesmo tempo em que vieram em sua mente.

- Paciência – Disseram os dois ao mesmo tempo.

Paciência para ter uma resposta.

Sua mão deslizou da dele e ela suspirou de novo.

- Você é muito mais importante do que pensa que é – O ar sério com que ele disse isso confirmava como ele realmente acreditava nisso.

Ele acreditava. Ela devia acreditar também.

Ele lhe deu um tapinha na perna, como um velho amigo. Ela cedeu e sorriu.

- Eu não quero ter que voltar aqui pelo mesmo motivo. – avisou ele, num tom de falsa ameaça.

- Não senhor – brincou ela, sorrindo simpaticamente.

Ele lhe deu um beijo inesperado e fraternal na testa e se levantou, esticando-se como um gato que acabara de acordar.

Sorriu uma última vez e contornou o banco por trás.

Ela recostou-se no banco, arrastando os pés na areia.

Talvez, só talvez, a vida não fosse tão complicada assim.