Pai

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Como é o pai de vocês? Ele é um cara legal, que está sempre te dando beijos na testa e te buscando no colégio? Um pai ausente, que você mal consegue ver durante a semana? Um pai que te abandonou? Que morreu? Que é autoritário demais? Que tem outra família? Bem, o meu pai é legal. Muito legal. Mas também é um babaca, e deve ter feito algum curso pra ser tão imbecil assim.

Na minha casa, quem sempre trabalhou foi a minha mãe. Meu pai foi quem cuidou de mim por toda a minha infância, ou melhor, até ele começar a arranjar amantes, o que deve ter sido por volta dos meus cinco anos.

Sinceramente, eu e minha mãe sabemos que ele tinha amantes desde antes de eu nascer, mas acho que com cinco anos que eu tomei consciência disso, quando meu pai transou com a melhor amiga da minha mãe e ela descobriu.

Meu pai era surfista, sabe? Agora ele está bem fodido por causa da idade e não pode mais surfar como gostaria, mas ele é maluco por praia. Ele era surfista, gato e assim tinha várias mulheres sempre aos seus pés. Minha mãe trabalhava que nem uma condenada pra nos sustentar (eu só a via aos finais de semana) e ele ficava comendo umas garotas por aí.

Com oito anos, eu virei cúmplice do meu pai em todas as traições dele. Ele fazia questão de me apresentar e de me levar pra sair com as mulheres que ele conhecia e comia nas horas vagas. Todas me tratavam muito bem, e eu acho que não tinha muita noção de que ele estava fazendo algo errado.

Mas quando a minha mãe descobriu sobre a segunda traição, quando eu tinha nove anos, ela deu um ataque, e acho que meu pai preferiu que eu não soubesse mais das mulheres (talvez ele tenha pensado que eu que tivesse contado pra ela, ou algo do tipo). Foi aí que meu primeiro inferno começou.

Hoje em dia eu não me importo de ficar sozinha em casa, mas naquela época era algo realmente doloroso. Eu chegava do colégio e ás vezes não tinha nem comida e nem um bilhete, pra dizer aonde ele tinha ido. Como minha mãe trabalhava o dia todo, ela não fazia a mínima ideia do que estava acontecendo. Ninguém fazia, só eu.

Minha mãe foi saber o que acontecia numa noite de inverno, que deve ter feito uns 5°C de madrugada. Eu estava com tanto frio e com tanto medo que andei até a portaria do meu condomínio ás 3 da manhã e pedi pros porteiros me acolherem. Eles me deixaram dormir lá, e quando minha mãe chegou, por volta das 5 da manhã, ela me tirou dali e arrumou uma briga séria com meu pai.

Também teve a vez que liguei pra minha tia de madrugada, e meu pai brigou comigo por contar, e a outra vez em que eu estava com uma febre de 40°C sozinha em casa. Mesmo com tudo isso, o meu pai não deixou de me deixar sozinha em casa. Ele devia pensar que surfar e transar era melhor do que cuidar de uma pirralha, certo? Quem não pensaria?

Mas enfim, eu já superei essa parte. Ou acho que superei. Quando eu tinha onze anos, minha mãe teve que fugir pra outro estado porque estava sendo perseguida por agiotas, e ela e meu pai acabaram se separando. Dois meses depois de ela estar nesse outro estado, ele ligou pra ela e contou que estava namorando e que, por isso, não era pra ela voltar pro nosso estado original. Meu pai também fez questão de dizer que eu sabia do caso dele com a tal mulher, e acho que até hoje minha mãe guarda rancor de mim por isso.

Seis meses depois do ocorrido, eu fui morar com minha mãe. Devo dizer que os seis meses com o meu pai não foram nada fáceis, e que eu realmente já estava incomodada de ter que pedir pra comer na casa da minha vizinha quase todos os dias, já que na minha casa não tinha ninguém pra preparar a comida.

Enfim, viver com minha mãe foi legal, vivíamos de favor na casa de um tio meu, mas estava tudo bem. Tive alguns momentos problemáticos, porque meu tio não gostava de mim e meu primo nunca parecia confortável com minha presença, mas de um modo geral, foi tudo bem.

Minha mãe uma vez disse que eu era uma "cobra" e que ela não queria uma filha como eu. Mas talvez a culpa tenha sido minha. Eu dei um ataque quando ela começou a flertar com outro cara num bar, comigo junto dela. E quando eu pedi pra ela parar de conversar com ele, ela negou. Aí eu fui embora e toquei a campainha 3 da manhã, tendo um tio muito puto pra abrir a porta pra mim.

Mas tanto faz, tudo isso é passado, e isso não importa. Afinal, eu vim aqui pra falar sobre o meu pai. Depois de quatro anos, meu pai voltou a morar comigo e com minha mãe. Ele havia perdido suas amantes, que lhe davam casa e comida, e agora não tinha mais onde viver. Minha mãe resolveu estender a mão pra ele. Depois de quatro anos, ele devia ter mudado, certo?

Errado. Felizmente ele não me apresenta mais nenhuma mulher, mas continua maluco como sempre. Meu pai assiste filmes pornôs na sala, com as janelas abertas e se masturba em qualquer canto. Ele anda pelado pela casa e nem mesmo limpa o seu gozo do chão. Nojento, não é?

Há uns quinze minutos, ele entupiu o vaso sanitário e eu disse que queria fazer xixi. Duas horas depois, eu ainda estava pedindo, e ele só o desentupiu quando eu já tinha me mijado nas calças.

Ora, não mencionei que ele bate na minha mãe também. Os dois se batem, na verdade. Sempre um dos dois sai com um dedo ou uma costela quebrada, e não estou exagerando. Meu pai adora ameaçar quebrar todas as minhas coisas, caso eu faça qualquer coisa que ele não queira. Da última vez, ele pisou no meu headphone até que este se despedaçasse no chão.

E a minha mãe ainda hesitou ao me botar num psicólogo. Ela disse que eu era normal, que psicólogo era coisa de maluco... Mas no fim, eu fui ao psicólogo. E amei. Na última sessão, que foi na semana passada, a psicóloga chamou meus pais e conversou com eles. Se as coisas melhoraram? Bem, as brigas diminuíram, mas meu pai continua sendo um babaca, como foi ainda agora. E a única coisa que minha mãe consegue fazer é ficar sentada, assistindo TV.

A pior parte é que eu realmente não sei o que fazer. Vou acabar reprovando no colégio, porque estou ocupada demais pensando no quanto eu quero ir pra bem longe da minha família. Tenho medo de namorar com alguém e essa pessoa se mostrar parecida com o meu pai. Tenho medo de ele quebrar meu notebook caso eu faça alguma coisa.

Eu amo o meu pai. Ele é engraçado, eu sei que posso contar com ele caso tenha algum problema sentimental e ele foi a segunda pessoa a saber que eu tinha ficado menstruada, pois eu fiz questão de ligar pra ele e contar, já que ele sempre foi o meu melhor amigo.

Mas sabe... Eu não aguento mais. Por que ele não pode ser só legal? Ou não ser um babaca? Estou cansada de ter medo, e preocupada com meu futuro. Estou cansada de ser mãe dos meus pais, tendo que cuidar dos dois ao invés dos dois cuidarem de mim.

Ás vezes me dá vontade de morrer, mas eu tenho um longo caminho pela frente. E não vale a pena desistir só por isso. Mas já cansei de me manter forte, mesmo que desabar completamente não seja uma opção. Eu amo meu pai, mas ele é um babaca.

Um completo babaca.