Aparência

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Nunca fui uma pessoa muito preocupada com a aparência. O conforto sempre veio em primeiro lugar. Salto-alto, roupa apertada, maquiagem e dieta nunca foram coisas presentes na minha vida. Nunca usei roupa apertada, só uso maquiagem em casamentos e nunca parei e disse "a partir de hoje, nada de chocolate!". Nunca fui dessas. Nunca tive paciência pra fazer nada disso.

As pessoas diziam que quando eu me apaixonasse, iria começar a cuidar mais do meu corpo e de mim. Estavam erradas. Fiquei apaixonada, fiquei apaixonada outra vez e até namorei, mas nunca me importei em me arrumar para sair ou tentar emagrecer uns quilinhos para a hora que me vissem de calcinha e sutiã. Nunca. Pra mim, tudo isso era perda de tempo. Se alguém fosse se apaixonar por mim, que se apaixonasse pelo que eu era.

Ainda penso dessa maneira hoje em dia, mas a minha aparência começou a me deixar depressiva. Eu não tenho muitas amigas, mas todas que tenho se cuidam, se preocupam com a pele, em emagrecer e afins. Não irei começar a usar maquiagem e coisas do tipo, porque ainda acho isso babaquice, mas eu realmente gostaria de emagrecer e de, sei lá, fazer uma limpeza de pele. Principalmente de emagrecer.

Eu não estou tão gorda assim, provavelmente uns oito quilos acima do peso. Não é assim tão difícil de perder. Com quatro quilos a menos, eu já estaria normal, sem essa incômoda barriga que se faz presente quando eu olho para baixo. Eu não sei por que comecei a me preocupar com isso agora. E nem por que isso me deixou preocupada de repente. Eu olho fotos antigas minhas e vejo como eu era bonita e não sabia, e hoje em dia, puf, virei isso.

Não sei ser feminina. Não gosto de usar bijuterias, não gosto de pentear o cabelo, não gosto de fazer as unhas. Geralmente digo que é porque fui criada boa parte da minha vida pelo meu pai, e me acostumei a usar roupas masculinas, falar palavrão e fazer coisas nojentas não parecerem tão nojentas, mas não sei se é realmente por isso. Talvez seja simplesmente o meu jeito.

Mas agora esse meu jeito me incomoda. Não é por bobagens como querer agradar um menino ou algo do tipo, eu simplesmente me olho na câmera do iPod e penso "Cara, o que aconteceu comigo?". Testa cheia de espinhas, nariz com cravos (Eu sei, preciso de uma limpeza de pele urgente), gordura por todos os lugares... Isso é uma droga, de verdade. Eu deveria gostar de mim mesma, mas não consigo mais.

Sou preguiçosa demais e não tenho tempo para fazer academia (o pouco tempo que me resta eu reservo pra dormir e escrever), então esperava emagrecer simplesmente parando de comer pudim e tomar coca-cola todos os dias. E tentando controlar um pouquinho mais a quantidade de comida que eu coloco no prato na hora do almoço. E cortar a janta e os lanchinhos.

É tão complicado ficar bonita. Ou magra. A sociedade impõe esses estereótipos de pessoas bonitas em todos os lugares, e uma hora ou outra isso penetra na nossa mente. Ao menos penetrou na minha. Não sei se estou frágil demais, talvez seja apenas TPM, mas isso está me incomodando pra cacete agora.

Vou tentar começar a dieta amanhã. Vou tentar marcar limpeza de pele; tentar, sei lá, me depilar com cera quente, parar de roer unhas... Não sei. Se forçar a mudar é chato, mesmo que seja pra melhor. Isso tudo é tão incômodo. Nunca estamos satisfeitos consigo mesmos. Seres humanos são imbecis.

Antigamente minha aparência não me incomodava, mas agora incomoda, e eu estou disposta a fazer tudo (quase tudo) pra mudar isso. Não quero mais me olhar no espelho e ficar com vontade de chorar, pensando "que ridícula". Eu sei que soa como frescura, eu sei que soa como bobagem, mas isso realmente me incomoda e machuca.

Cansei disso. Cansei de ser tão idiota, fresca, boba e estúpida. Cansei de ficar me afogando nas minhas próprias inseguranças. E pra que elas parem, eu vou mudar. Ao menos um pouquinho. Quero poder olhar para o meu reflexo no espelho e pensar "Que linda". Quero aprender a me amar de novo, para nunca, nunca mais desaprender.