Companhia das Madrugadas

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No final do ano passado, eu me apaixonei. Tomei coragem pra me declarar e levei um fora. E então veio de novo aquele pensamento "nunca mais vou me apaixonar". Tão burrinha. E inocente. E inexperiente e idiota. Eu me canso às vezes. Humanos são cansativos.

Enfim, essa não é a questão. A questão é que, talvez, apenas talvez, eu esteja apaixonada. Talvez esse mesmo cérebro idiota esteja pregando uma peça em mim, ou talvez eu já esteja apaixonada e apenas não quero admitir pra mim mesma. Minha cabeça é uma confusão, de qualquer forma.

Mas talvez eu esteja apaixonada. Porque passar essa madrugada irritada, chateada e com vontade de chorar porque – por favor, por favor, que motivo besta – ele não apareceu e não deu notícias hoje não pode ser normal. Eu não fico assim. Ele tinha combinado de virar a madrugada comigo e eu fiquei esperando. São 03:53 da manhã e eu acho que ainda estou esperando.

Mas ele não apareceu. Nem agora, nem de manhã e nem a tarde. Nem mandou um sms pra dizer que estava bem, que estava vivo. Bem, espero que ele esteja, porque se ele não estiver, vai ser pior ainda. Mas se ele estiver, eu vou ficar chateada com ele. Eu sei que não devia, até porque eu não tenho direito algum sobre ele.

Mas por que estou começando do final? Assim ninguém vai entender nada. E nem eu, quando reler isso daqui a alguns meses/anos/décadas. Então, deixe-me começar pelo começo. Não exatamente pelo começo. Ah, vamos lá.

Nos conhecemos de um jeito normal, ambos fãs de anime, ambos meio tímidos, ambos divertidos e com assuntos legais para conversar. Normal... E com o tempo, ele virou um grande amigo. O meu melhor amigo. E eu, a melhor amiga dele. Foi ele que me ajudou mais quando eu levei um fora do garoto que eu gostava, e ele que me apoiou em várias coisas.

O conheci mais ou menos ao mesmo tempo que conheci o último garoto que gostei, mas não vi nada demais nele. Nada além de um grande amigo (Ainda acho que não vejo, mas tem algo de errado comigo nessa madrugada, então estou pensando seriamente nisso). Bem, começamos a nos falar mais e mais e mais e acabamos ficando como estamos atualmente, virando madrugadas e madrugadas juntos.

Não estava rolando nada demais. Até que os hormônios começaram a agir e, nessas madrugadas, começamos a fazer brincadeiras que amigos não deveriam fazer. Nada de muito sério, apenas provocações. Ainda estava tudo normal. Isso é, até uma semana atrás, quando eu fui pra outro estado e ele resolveu ir para ele também, apenas para me ver.

Estava tudo normal a noite inteira que passamos juntos, até que fomos conversar num sofá e ele estava perto. Implicância aqui e implicância ali, ele me deu um selinho. Eu ri e me afastei, meio vermelha, meio alegre, meio sem entender. Continuamos conversando e ele veio de novo, dessa vez me beijando de verdade. E ficamos assim pelo resto da madrugada. Fizemos isso no dia seguinte também. Acho que gostamos das madrugadas, elas são algo nosso, um momento que ambos estamos solitários (já que as pessoas estão dormindo) e que somos somente um do outro. Deve ser algo do tipo, um pouco menos gay que isso.

Enfim, eu viajei de volta pra minha cidade, e ele para a dele. Ele é um pouco mais velho que eu. Oito anos de diferença, pra ser mais exata. Não ligamos muito pra isso. Bem, ele liga mais do que eu. Mas não é como se ele parecesse um velho caquético. Ele é lindo, bobo e tem um sorriso de adolescente. Mas não é esse o ponto também.

Depois de voltarmos, as coisas não ficaram estranhas entre nós. Ficamos um pouco mais grudentos um com o outro do que o normal, comentando que queríamos nos ver de novo, nos beijarmos e afins. E eu comecei a ficar com medo de me apaixonar por ele, e quando disse isso pra ele, ele disse que estava com medo de se apaixonar por mim também.

Nós somos dois imbecis. Talvez não nos demos bem com essa brincadeira de amizade colorida ou amigos com benefícios. Não sei se deveria tê-lo beijado, apesar de não me arrepender por isso. De qualquer forma, nos beijamos, ficamos com medo de ficarmos apaixonados um pelo outro e... Chegamos a conclusão de que isso era bobagem.

Por quê? Porque ele significa muito pra mim, e vice-versa. Como ambos tivemos experiências ruins namorando, ambos concordamos que namorarmos seria bobagem. Babaquice. Porque alguma merda aconteceria, terminaríamos e perderíamos a incrível amizade que temos juntos.

Mas ontem... Ontem ele chegou atrasado. Não me importei, pois estava jogando. Só dava alt+tab de vez em quando, pra conferir se ele tinha ou não aparecido. Quando ele apareceu, jogamos juntos até anoitecer com uns amigos, e depois dizemos tchau para eles e ficamos em conferência no Skype.

Perguntei por que ele tinha chegado atrasado. Ele disse das coisas da igreja dele e afins (que ele já tinha dito, mas eu tinha esquecido, pra variar) e eu ri, perguntei como tinha sido e afins. Aí ele contou de uma tal amiga que está triste e tal. Eu perguntei quem era, e ele disse que era uma amiga que ele tinha as mesmas liberdades que tinha comigo.

Lembrei da gente se beijando e me perguntei rapidamente se ele fazia isso com ela também, mas não falei nada. Não precisei, pois ele já disse logo que eles tinham se acariciado e que ele tinha passado a mão pelo ombro dela. Tinha quase rolado um beijo ali (ele disse que queria que tivesse), mas não foi dessa vez. Eu sorri, chamei-o de garanhão e sugeri que ele tentasse de novo na próxima vez. Quem sabe ele não pegava ela?

Eu sou burra. Uma imbecil. Fico me machucando por bobagens. Eu devia apenas ter ficado calada. Se amanhã ele chegar e me contar que não apareceu hoje e que traiu as nossas madrugadas juntos pra, sei lá, transar com ela, eu vou ficar mal.

Mais mal do que deveria. Sabe... Ele não tem obrigação alguma de me dar satisfações. De se explicar. Ele pode beijar e transar com quem ele quiser. Eu sei disso. Eu sei. Mesmo. Mas, de novo, eu não consigo me conformar. Eu acho que quero ele apenas pra mim. Isso é amor? Apenas possessão? Eu só sou uma amiga ciumenta? Eu não sei. Não sei mesmo.

Não consigo pensar em estar com ele. Não daria certo. Não faz sentido. Mas eu não quero que ele beije outra pessoa. É egoísmo, eu sei, é muito egoísmo. Mas eu estou aqui pensando... Onde será que ele está? Eu deveria ligar a cobrar pra ele? Deveria mesmo me preocupar?

Ele só tem sorriso de adolescente, não é um. Ele sabe se virar, ele pode se sustentar e... E eu não deveria ficar preocupada. Que inferno! Meu cérebro consegue me dizer exatamente o que eu devo fazer e o que eu não devo fazer, mas não consigo prestar atenção nele porque meus sentimentos ficam aflorando a cada segundo! Que droga.

Talvez eu esteja apaixonada por ele. Talvez... Talvez. E se eu estiver, eu vou me ferrar por isso. Talvez, se eu estiver, eu guarde isso pra mim. Vai ser menos doloroso pra ambas as partes. Se eu for uma imbecil que finge que nada aconteceu, as coisas ficarão mais simples.

Provavelmente vai ser o que farei. Amanhã, quando ele chegar, só vou perguntar por que ele sumiu hoje e dizer que fiquei preocupada. Pedir pra ele me mandar sms da próxima vez, ou qualquer coisa do tipo. Ele vai me dar os detalhes do dia de hoje sem que eu precise perguntar, se qualquer forma.

Agora é esperar o que meu coração vai me dizer se eu souber que ele transou ou beijou outra garota. De qualquer forma, não sei nem mesmo se ele está vivo. Espero que ele esteja bem. E que me mande um sms, caso estiver. Só me apaixono por garotos imbecis. Sou uma estúpida.

De qualquer forma, vou deixar minha madrugada solitária por aqui. É melhor que eu durma e que espere que o dia de amanhã seja melhor, mesmo. Ficar me lamentando não vai ajudar. Certo, talvez seja um pouco tarde pra dizer isso, mas antes tarde do que nunca. É. Vou dormir e esperar que ele apareça pra pedir satisfações, mesmo que ele não me deva nenhuma.