A Dama do Mangue

A estrada, estreita e acidentada, cortava aquela inóspita parte da região norte brasileira que parecia ter sido esquecida por todos, até os próprios deuses – seja qual fosse em que se acreditasse. Aproveitando tal cenário, os senhores de terra se aproveitavam da situação para praticamente governar como bem entendessem aquelas áreas sem lei, fazendo seu poder valer graças ao uso de pistoleiros, típicos "jagunços" que compunham os braços armados de qualquer indivíduo com relativo poder que desejasse garantir seus interesses. Desse modo encontravam-se, quase sempre, encarregados de alguma tarefa – geralmente eliminar indivíduos perigosos aos objetivos desses proprietários: membros de ONGs, missionários, militantes, sindicalistas. Qualquer um que pertencesse a algum desses grupos, ou similares, logo se tornava alvo prioritário naquelas cercanias.

João Lucélio, ao menos como era conhecido, era um dos homens que adotavam tal ofício que poupava seus contratantes de sujarem as próprias mãos, e o nome. Cabelos crespos curtos, barba por fazer, sempre visto com roupas surradas, botas sujas de barro e, preso ao cinto, seu fiel coldre no qual mantinha o revólver calibre 357 carregado de munição e pronto para ser sacado. O cabo estava gasto, o cano ligeiramente enferrujado, o tambor já emperrara uma ou duas vezes, fato que inclusive por pouco não lhe custara a vida no passado, porém nunca abandonava a arma. Além de instrumento de trabalho, ela lhe era, acima de tudo, uma parceira.

Dirigindo o veículo – uma caminhonete 4x4 desafiando toda a rispidez do terreno – estava um homem quieto e sem expressão conhecido apenas como Rubens. Um tanto corpulento e evasivo, mantinha as mãos no volante e os olhos na estrada sem dirigir qualquer palavra para o pistoleiro no assento ao lado. Este não se importava: precisava apenas do transporte para chegar ao local informado e terminar tudo o quanto antes. Conservava a mão direita sempre sobre o coldre, de forma até um tanto obsessiva, como se fosse apanhar o revólver a qualquer momento e disparar contra a primeira coisa que surgisse diante da pick-up no trajeto...

Quanto mais cedo o trabalho fosse feito, mais rápido teria o merecido pagamento depositado em sua conta segura fora do país. O coronelismo podia sobreviver naquela região, mas isso não significava que certos aspectos do progresso não houvessem nela chegado.

A área em litígio era um vasto manguezal que se estendia por boa parte da costa daquela região. Alguns perguntariam qual a razão de homens lutarem tanto e até matarem por conta de uma área lodosa aparentemente inútil, mas a resposta era simples: caranguejos. A pesca desses animais vinha-se mostrando uma atividade lucrativa em expansão, compradores estrangeiros pagando caro devido a seu uso gastronômico. O senhor daquelas terras decidira, há cerca de um ano, entrar de cabeça no negócio e reivindicar para si todo o litoral de manguezais ao seu alcance. Conseguira sucesso na empreitada quase totalmente, a única exceção sendo uma pequena área habitada por uma senhora idosa, numa singela cabana, que conseguira encontrar uma maneira de expulsar ou fazer sumir todos os ali enviados pelo empreendedor. Não se tinha certeza se ela possuía ou não capangas – algo provável, para ter conseguido frustrar tantas tentativas de diálogo ou tomada de posse. Porém o assunto agora ficara sério. Lucélio estava sendo enviado para apagar a velhinha da forma que fosse mais conveniente. E ele jamais falhara.

De certo é uma "riponga" metida a ambientalista que descobriu os métodos usados aqui e resolveu aderir a eles... – o jagunço pensava conforme o veículo sacolejava pelo trajeto. – Mas alguém com mais experiência pode facilmente dar conta do pessoal dela, seja lá quem for.

A caminhonete avançou, a paisagem ao seu redor logo sendo totalmente dominada pelos aspectos do mangue. Um verde profundo passou a predominar nos matizes do ambiente, envolvendo as compridas e esguias raízes aéreas das árvores que, descrevendo improváveis trajetórias e embaralhando-se entre si, pareciam representar tentativas de os vegetais criarem pernas e migrarem daquele lugar. Uma perceptível umidade atingiu os recém-chegados, gerando gotículas sobre os vidros do veículo enquanto ele mergulhava no que parecia ser uma espessa coluna de névoa. Seria aquilo normal? Bem, nenhum dos dois estava acostumado aos manguezais. Julgaram que sim.

Os pneus passaram por cima de sucessivas poças d'água, salpicando de marrom a lataria do automóvel. Balançou, saltitou ao sabor da superfície irregular da estrada. E, após mais alguns minutos de viagem, o pistoleiro morrendo de impaciência em seu assento – dedos quase perfurando o coldre da arma de tanta pressão – atingiram seu destino.

Rubens foi o primeiro a sair. Disse que averiguaria primeiro o local e, após um exame satisfatório dos arredores, voltaria para informar João. Este aceitou, porém não se manteve dentro do veículo: também o deixou, permanecendo de pé ao lado da caminhonete, cintura apoiada no capô. O guia, desajeitado, sumiu na névoa a passos despreocupados. O pistoleiro não se importava nem um pouco com ele, passando o tempo todo a fitar uma árvore próxima que, poderia jurar, possuía olhos e boca ligeiramente humanos gravados em seu tronco. Mas a planta em questão acabou o distraindo por tempo demais e, quando deu por si, Rubens havia desaparecido há no mínimo vinte minutos – e som nenhum provinha da direção que tomara. Agora começava a se preocupar...

Suspirando de chateação, Lucélio pôs-se a seguir pelo mesmo caminho tomado pelo motorista, botas afundando ligeiramente na terra úmida. A neblina, pela qual logo viu-se por completo envolvido, impedia que visse qualquer coisa claramente. Avançou por vários instantes, mão sempre no coldre, ouvidos atentos à fauna e à flora. Até que, envolto pelas brumas cinzentas, viu um vulto quadrúpede. Algum animal, talvez hostil. Uma capivara, tamanduá ou qualquer outro bicho que abitasse aquele charco abafado. E pela primeira vez aquele dia, sentindo alívio, sacou o revólver.

Aproximou-se cauteloso, procurando não causar ruído. O solo alagadiço facilitava ligeiramente a tarefa, apesar do perigo de um escorregão. Vencendo os metros que o separavam da misteriosa criatura, o pistoleiro pôde aos poucos depreender suas características... Pele num tom dourado, pêlos baixos, traços felinos, porte altivo, uma abundante juba escura – legítima coroa – adornando-lhe a cabeça... Não, não era possível. Aquilo era mesmo um leão? O que uma fera das mais remotas savanas africanas fazia naquele mangue? Teria fugido de algum circo, de um zoológico? Aquilo não procedia...

Quando o rei da selva ergueu-se de onde estava e dirigiu-se devagar até o recém-chegado, este, ligeiramente trêmulo, apontou sua arma para a fera, pronto para disparar ao mínimo indício de ser atacado. Cada passo do animal era majestoso e ameaçador como o de um gigante; sua silhueta amarelada anunciando uma morte rápida, porém perpetrada pelo mais admirável dos agressores...

Porém tal coisa não aconteceu. Pelo contrário: com uma docilidade totalmente inesperada, o felino chegou bem perto do homem e esfregou a juba em suas pernas, como se desejasse cafunés – da mesma forma que o mais inofensivo dos gatos domésticos. O pistoleiro mal sabia como reagir diante de cena tão surreal, quando outro fato estranho desenhou-se diante de si...

Primeiramente um guincho alto, estridente. Mais outro, e seu autor surgiu da névoa, correndo, tropeçando, as pequenas patas rosadas sujas de terra deslizando desajeitadas pelo trajeto, o animal deslizando aqui e ali e encharcando a barriga de lama. Um porco de tamanho médio, gordo, muito aturdido. Acelerava esbaforido em torno de Lucélio e do leão, saltitando, rolando. Os guinchos aumentavam em intensidade e se tornavam cada vez mais desesperados. Num dado instante, João até acreditou poder identificar em meio àquele clamor suíno um quê de esbaforido berro humano. O bicho continuou correndo em torno do visitante, numa algazarra frenética que remetia a possessão demoníaca. Ficando nervoso devido aos incomparáveis barulho e agitação do animal, o pistoleiro mordeu os lábios, erguendo o revólver e disparando uma bala certeira contra a cabeça do porco.

O suíno finalmente se aquietou, jazendo imóvel no solo com um pequeno rio de sangue a lhe escorrer do ferimento letal. O leão parecia alheio a tudo que acabara de ocorrer, permanecendo manso e amistoso junto ao atirador. Mal este abaixou a arma, ouviu uma voz feminina, perto dali, dizer num tom que remetia a uma musicalidade maligna:

- Você fez um favor a ele, sabia?

Lucélio estremeceu, voltando os olhos na direção da fala. Um novo vulto surgia em meio à neblina, desta vez humano. Uma mulher, realmente. Havia, no entanto, algo errado ali: não parecia se tratar da senhora idosa que o pistoleiro fora instruído a eliminar. A figura, na verdade, era a de uma lindíssima jovem pouco acima dos vinte anos de idade, cabelos castanhos compridos e sedosos que lhe desciam até as costas e corpo alvo esculpido em divina perfeição. Descalça, trajava apenas uma espécie de túnica cinzenta que lhe envolvia o tronco e parte das pernas, seus encantos mais ocultos levemente perceptíveis devido à translucidez da veste. Uma figura, em suma, por completo contrastante à paisagem tornada extremamente opressora do mangue.

- O que quer dizer? – replicou João, tomado inesperadamente pelo medo, porém conservando um irresistível fascínio pela mulher.

Teve sua resposta quando, ao tornar a fitar o chão, viu que o cadáver do porco havia se convertido no de um homem nu, estirado no solo... Rubens, caído com parte da cabeça estourada. Nesse momento o pavor assolou o pobre Lucélio, a compreensão do que ocorria aumentando a pressão em suas veias a ponto de quase estourarem. Tentou dar meia volta e correr, mas suas pernas estavam imobilizadas feito cimento, recusando-se a sair do lugar. Tornara-se vítima da magia diabólica daquela maldita mulher!

- Quem é você? – o pistoleiro desejava saber ao menos isso.

- Eu sou Circe, e vocês não passam de vermes que vieram mais uma vez perturbar minha morada! Agora conhecerão para sempre a ira da filha de Hélio!

Como que instigado pela voz da feiticeira, o leão abandonou sua postura dócil e, estando já ao lado de João, derrubou-o com um violento golpe de suas patas – reassumindo o papel de caçador que a natureza, livre de interferência mágica, costumava lhe atribuir. Preso por elas ao chão, o pistoleiro gritou desesperado quando a fera abocanhou seu abdômen. A dor era insuportável, grandes pedaços de sua carne e pele sendo arrancados pela fera. E, antes de perder para sempre a consciência engasgando-se no próprio sangue, a última coisa que viu foi Circe afastando-se com um sorriso enigmático nos lábios, ela e a névoa tornando-se apenas uma conforme sua túnica tremulava com a brisa úmida do manguezal...

Luiz Fabrício de Oliveira Mendes – "Goldfield".