Mythos Noir

Caso #01: O Sumiço de Noel

I

Los Angeles, março de 1947

Ela aguardou dentro do cômodo por uma eternidade. Sua experiência na força policial lhe dizia que aquela era uma típica sala de interrogatório com espelho falso, as paredes revestidas com isolamento acústico do chão ao teto e até a clássica mesa com uma cadeira de frente para a outra estando presente – encontrando-se, no caso, sentada numa delas.

Só que não lidava mais com a polícia comum. Aquela era a D.A.O., e só por sua incumbência, era de se esperar que aquela não fosse simplesmente uma sala de interrogatório, localizada num complexo secreto vários subsolos abaixo do imponente prédio do Departamento de Polícia de Los Angeles, por completo desconhecido à vasta maioria da população mundial – que continuava assim vivendo em seu mundo normal e confortável, sob o véu que a impedia de entrar em pânico se soubesse do que se escondia nas sombras, das reais identidades por trás daquele ídolo tão charmoso ou do empresário tão bem-sucedido...

Tamborilou seus dedos sobre a madeira da mesa por vários instantes, ora tentando imitar o ritmo de uma conhecida melodia de Cole Porter, ora não fazendo sentido algum. Foi numa dessas notas desencontradas, todas parecendo iguais entre si por comporem o mesmo eco seco da tábua, que a porta do recinto se abriu – uma silhueta de terno e chapéu cinzentos entrando sem pressa, o que contrastava e muito com a impaciência que ela sentia.

O homem indefinido, trajado como todos os outros nas ruas lá em cima logo ganhou suas particularidades: vinha com um cigarro aceso preso entre os dedos de sua mão esquerda, e na direita carregava uma pasta cor de creme manchada de tinta aqui e ali. O rosto era sisudo e frio, como talhado em mármore, da exata maneira como disseram a ela que seria – e seus gélidos olhos verdes revelavam-se bem intimidadores, de modo a fazer pensar serem capazes de fitar sua própria alma através de sua carne; e perguntou-se se não era esse o poder de sua aura.

Sem a mínima cerimônia, o recém-chegado atirou a pasta sobre a mesa – ela por pouco não deslizando para fora e os papéis em seu interior não escapando pelo que pareceu um milagre. Levou o cigarro à boca e deu um trago, a fumaça impregnando a atmosfera fechada do cômodo de maneira a fazer a jovem sentir-se num cabaré de quinta categoria; porém não expressou seu incômodo. Se ela queria mesmo mostrar-se digna de fazer parte daquela organização, precisaria aprender a lidar com coisa muito pior que aquilo.

O sujeito sentou-se diante dela, afastando um pouco a cadeira para acomodar suas pernas – visto ser razoavelmente alto, assim como boa parte dos veteranos do Pacífico que ela costumava encontrar agora em Los Angeles, comprando imóveis nos novos bairros que surgiam para tentar recomeçar sua vida após a guerra.

Ele a olhava fixamente, fazendo-a perguntar-se a razão. Não estava particularmente arrumada, tendo os cabelos loiros presos num coque sob o quepe e a apertada farda azul da polícia contendo a silhueta de seu corpo quase ao máximo. O homem provavelmente somente a analisava de forma minuciosa, como fazia com tudo e todos – era algo da profissão e também fora avisada a respeito, tendo caído no engano de se esquecer por alguns segundos.

- Senhorita Olympus? – ele indagou, sua voz ao mesmo tempo cavernosa e eloquente, como um locutor de rádio. – Pandora Olympus?

Ela manteve o olhar erguido, mesmo achando-se pressionada pelo fato do interlocutor continuar encarando-a.

- Sim, sou eu.

Ele calou-se por alguns instantes, de certo examinando até mesmo como se davam os espasmos no branco de seus olhos, antes de continuar:

- Recebi a informação de que fez um pedido de recrutamento à D.A.O., e estou aqui para tutorá-la. É o procedimento padrão, como devem ter-lhe explicado. Como muitos nos procuram desorientados, sem saber ao certo qual é nosso trabalho, peço, por gentileza, que faça um breve resumo sobre a organização e sua função.

Certo, ela já esperava aquilo. Tratava-se da cartilha que todo candidato a uma vaga tinha de recitar de cor e salteado; os princípios que norteariam seu trabalho. Felizmente ela fizera a lição de casa, e mostrou-se bastante segura quando falou:

- D.A.O., sigla que corresponde a "Divine Aura Organization". Sua origem remete há aproximadamente dois séculos. Os deuses dos diferentes panteões do mundo, desde sua criação, viveram entre os homens, afetando diretamente sua existência. Na Antiguidade, povos como os egípcios, gregos e romanos registraram claramente esse contato, embora seus relatos tenham chegado a nós como mera mitologia. Na Idade Média, o predomínio do deus cristão fez com que as outras divindades fossem vistas como monstros e demônios, mas elas continuaram presentes entre nós. Até que, no século XVIII, devido aos malefícios que a intervenção direta dos deuses na vida dos mortais vinha causando à humanidade, as divindades resolveram se ocultar, saindo de cena e deixando que os homens caminhassem com as próprias pernas, sem o contínuo amparo dos deuses. Foi o início da Era da Razão, em que a tecnologia, continuamente desenvolvida pelo homem, substituiu o antigo poder divino; e desde então as diferentes crenças passaram a entrar em cada vez maior descrédito, boa parte das religiões, mesmo ainda tendo adeptos, sendo gradualmente enxergadas apenas como lendas.

Pandora efetuou uma pausa para recuperar o fôlego e continuou:

- Os deuses passaram a viver anônimos na sociedade, assumindo, com outras identidades trocadas de tempo em tempo para camuflar sua imortalidade, as ocupações de artistas, políticos, pensadores, empresários e outras posições de certo prestígio para compensar a perda de devoção. Não foi um processo simples, todavia: várias rivalidades entre divindades de panteões diferentes e até dentro de um mesmo panteão continuaram a existir, e os deuses passaram a temer serem atacados pelas costas por algum colega que violasse a regra de esquecer o passado e se misturar aos mortais. Além disso, seria necessário quem zelasse para conservar o segredo dos deuses. Assim, no mesmo período em que as divindades fizeram o acordo para deixar de interferir na história humana, foi criada a D.A.O., formada por mortais privilegiados incumbidos da tarefa de resguardar o sossego e a privacidade dos deuses. Para isso, cada um deles recebeu o poder da aura de um deus específico, permitindo fazerem uso de habilidades sobre-humanas de acordo com o domínio específico da divindade. Em suma, uma nova espécie de semideuses, servindo como guarda-costas de elite. Essa é a D.A.O., e é para fazer parte dela que estou aqui.

Ao término da exposição, o homem se manteve calado por mais algum tempo, dando novas tragadas no cigarro quase no fim. Pandora mal percebia mais a fumaça – o que a fez se sentir otimista, pois achou ser uma prova de que já se encontrava bem mais à vontade.

- Como soube de nós? – a pergunta foi incisiva, quase tão afiada como uma faca.

- Minha mãe foi integrante da organização por anos. Ela está agora, digamos, "passando o bastão adiante". Contou-me toda a verdade há algumas semanas, tão logo meus poderes, herdados dela, começaram a se manifestar. Já tenho experiência de anos na polícia, onde consegui subir ao posto de sargento, e estou habituada a investigações criminais. Desejo ocupar a vaga que antes pertenceu a Rhea Olympus.

Ele pigarreou, despejando cinzas do cigarro sobre o chão da sala com os dedos da mão esquerda num gesto que remetia a desdém.

- E qual é a aura divina atribuída à sua mãe Rhea, que dela herdou?

- Bastet – Pandora replicou meio abruptamente, devido ao orgulho que sentia de seu legado. – A deusa felina egípcia.

- Pode me provar, por favor? Entenda, recebemos embusteiros com não rara frequência...

Não viu incômodo algum no pedido. Mantendo-se sentada do outro lado da mesa, Pandora concentrou-se, baixando a cabeça e unindo as mãos abertas em cima do peito. Após seu corpo inteiro brilhar momentaneamente, sua silhueta diminuiu sobre a cadeira... perdendo gradualmente a forma humana para assumir a aparência de uma gata negra de pelo brilhante e longos bigodes brancos, mantendo-se sobre o assento enquanto encarava o tutor por cima do móvel com seus olhos claros de pupilas em fenda.

De modo a parecer um anúncio de que a transformação fora concluída – e consequentemente também superada a prova – a jovem convertida em animal soltou um breve miado.

- Esplêndido – o homem de terno e chapéu, que ela sabia se chamar Steve Vahls, recrutador da D.A.O., pronunciou-se, atirando fora o cigarro e juntando as mãos sobre a mesa.

II

Dezembro de 1947

Ela não esperava que o telefone tocasse.

O apartamento na Wilshire Boulevard possuía uma vista que lhe remetia a uma cidade pequena, fazendo-a se lembrar do quase povoado em que nascera e crescera na costa leste. Los Angeles, embora em expansão, era uma cidade de aparência ainda pequena, com poucos arranha-céus e ruas que lembravam vias cheias de lojinhas dignas do interior – e, sabendo que aquela paisagem não duraria muito por conta das obras por toda parte, Pandora queria aproveitá-la enquanto pudesse. A visão só não se tornava ainda mais familiar por conta da ausência de neve naquela época do ano – cortesia do clima californiano, o qual infelizmente impedia, já há alguns anos, que montasse bonecos com nariz de cenoura ou atirasse bolas geladas nos vizinhos. Mesmo não tendo mais idade para aquilo, não lhe faltava vontade.

O aparelho tocava sua campainha sobre a mesinha na sala de estar, rodeado por esculturas de gatos em porcelana – várias das peças remetendo ao período em que a mãe morara consigo, embora considerasse ter herdado o gosto por elas. Apanhou o receptor com a mão meio trêmula, tendo consciência de que, pelo fato de raramente alguém lhe ligar, só podia ser do trabalho. Ouviu um som que indicava a telefonista terminando de transferir a ligação. Um segundo depois, a voz calma e ao mesmo tempo inquisidora de Vahls fez-se ouvir como se fosse a única num mundo de mudos:

- Senhorita Olympus?

Ela teve que abrir a boca para ganhar ar, o coração traindo seu autocontrole e desatando a bater como o motor de um avião. O som de sua respiração veio alto demais, e devia ter sido perfeitamente audível ao telefone. Chamando-se de "idiota" mentalmente, procurou quebrar o breve silêncio respondendo, antes que o sempre analista Steve pudesse tirar alguma conclusão desfavorável a seu respeito:

- Estou ouvindo.

- Nós temos um caso – a naturalidade em seu tom era o de alguém afirmando que tomara suco de laranja no café da manhã. – Estou numa cabine telefônica na esquina da Wilshire com a Highland, a dois quarteirões do seu apartamento. Arrume-se e venha me encontrar em no máximo vinte minutos.

Após uma breve pausa, o superior concluiu:

- Seu desempenho como recruta tem sido admirável, Pandora. E o comando mostrou-se bem satisfeito com sua consultoria no caso do Dia dos Mortos há dois meses. Concordam que a comunidade mexicana deveria erguer uma estátua em sua homenagem. Aproveite essas benesses. Este é seu primeiro caso como Investigadora Júnior.

Vahls desligou o telefone antes que pudesse ouvir o suspiro maravilhado de Olympus – e, mesmo feliz, ela deu graças aos deuses por isso.

III

O automóvel Nash 600 de Steve, pintado num azul escuro que combinava com o temperamento frequentemente nublado de seu dono, estava parado onde ele dissera que estaria – junto à cabine telefônica na calçada apinhada de pessoas envolvidas em seu cotidiano. Pandora atravessou a rua observando a vestimenta sempre cinza de seu tutor, o chapéu de feltro presente em sua cabeça como se não o tirasse nem para dormir. Tão logo a percebeu, Vahls entrou no carro pelo lado do motorista, abrindo a porta do passageiro para ela. A recém-promovida integrante da D.A.O. entrou e sentou-se de modo natural, já acostumada a ser conduzida naquele veículo até os casos em que servira como consultora nos últimos meses. A partir daquele dia, o trabalho começava de verdade. Conhecendo as normas dentro da organização, dentro de mais algum tempo ela estaria assumindo sozinha suas próprias investigações.

Steve engatou o carro e acelerou para fazer a curva na esquina, ganhando a Wilshire Boulevard no sentido leste. Manteve-se calado nos primeiros instantes, Pandora percebendo uma pasta de cor caqui deixada sobre o painel do veículo, provavelmente com os detalhes sobre o caso que assumiam. Teve curiosidade em apanhá-la e vê-la, porém aguardou que Vahls fizesse sua exposição inicial do que ocorria, como gostava de proceder. Ele abriu a boca tão logo percorreram o primeiro quarteirão da avenida:

- Temos uma ocorrência de desaparecimento de V.I.P. coberto pela proteção da organização – em outras palavras, uma divindade desaparecida, como Pandora bem sabia. – Possui conhecimento de como um caso desses é iniciado?

- Os deuses sob nossa guarda devem estabelecer, por linha segura, contato com a D.A.O. no mínimo uma vez a cada 48 horas – Olympus explicou, tendo estudado a fundo o manual. – Se dentro desse prazo não houver relatório, então a divindade é considerada desaparecida, uma investigação sendo iniciada automaticamente.

- Correto – mantendo uma mão no volante, Steve usou a outra para apanhar a pasta e atirá-la no colo da jovem. – A identidade falsa do protegido, declarado desaparecido hoje de manhã, 23 de dezembro, é K.K., "Kris Kringle". Seu verdadeiro nome, Papai Noel.

Pandora estremeceu. Sentindo os dedos dormentes, abriu a pasta do caso com certa dificuldade... deparando-se, logo de cara, com uma foto em preto e branco de um simpático idoso um tanto obeso e de faces coradas perceptíveis pelos tons de cinza, uma extensa barba branca lhe caindo além do alcance da imagem. Embaixo dela, uma série de papéis, dentre outras fotografias.

Não soube de imediato o que responder. Desde que ouvira falar pela primeira vez da D.A.O., muito do que julgava conhecer do mundo caíra por terra – como seria de se esperar ao descobrir que deuses antigos ainda vivem disfarçados entre nós. Mas um mito de infância, alguém que jamais considerara um deus... qual era o sentido daquilo?

- Nunca suspeitei que o Papai Noel fosse uma divindade... – ela murmurou, desejando que Steve colocasse os devidos pingos nos "i"s.

- E ele não é – Vahls mantinha-se atento ao trânsito. – Existem certas entidades que possuem o status de Mythos, senhorita Olympus. A organização até estuda criar uma divisão específica para elas.

- E o que são elas?

- O poder dos deuses vem da devoção de seus seguidores, ou seja, da crença coletiva. É justamente por isso que os membros dos panteões mais antigos estão mais fracos hoje em dia, por mais que neguem; e assim, disfarçados como escritores de renome ou produtores de Hollywood, investem em livros e filmes de mitologia para se tornarem novamente conhecidos e, consequentemente, mais fortes. Isso explica o fato de mais da metade dos antigos deuses viverem hoje em Los Angeles, motivo pelo qual a D.A.O. transferiu sua sede de Londres para cá.

- Isso tudo eu já sei, mas não explica os tais Mythos – Pandora protestou, sabendo que já possuía uma liberdade maior perante o tutor para se mostrar petulante quando necessário.

- Bem, sabendo que o poder vem da crença, algumas vezes na História entidades que não eram deuses ganharam poder devido a um grande número de pessoas acreditarem nelas ao mesmo tempo. São, em resumo, lendas que se materializaram na realidade devido ao consciente coletivo. Esses são os Mythos, e Papai Noel, há alguns séculos, tornou-se um deles. Trata-se da união, no imaginário popular, de figuras como São Nicolau de Mira, um santo cristão, a lenda do "Tomte" dos escandinavos e até alguns traços do deus nórdico Odin. Assim nasceu o Papai Noel.

- Mas ele é exatamente como nas histórias de criança, um velhinho de vermelho que atravessa o céu num trenó puxado por renas? – Pandora estava confusa. – Ou os Mythos se disfarçam em meio à sociedade humana assim como os deuses antigos?

- Ele era como nas histórias de criança, porém aderiu ao acordo feito entre os deuses há duzentos anos e camuflou-se em meio aos humanos assim como eles, entrando para a proteção da D.A.O. do mesmo modo. Desde então continuou exercendo sua função como fabricante de brinquedos, e expandiu seus negócios conforme a população humana cresceu, vendo-se na necessidade de atender aos anseios de todas as crianças. Hoje ele é acionista majoritário das cinco maiores indústrias de brinquedos do mundo, inclusive a Kringle Co., que ele mesmo fundou na virada do século. Uma pessoa de relevância no próprio meio mortal, o que nos leva a não desconsiderar a hipótese de ter sido sequestrado por criminosos comuns querendo resgate.

- Ele vive aqui mesmo em Los Angeles?

- Exatamente. A casa dele está situada em Pomona, no extremo leste do condado. Estaremos lá em uma hora. O motivo de ele ter se mudado para cá, bem... – Steve fez uma pausa ao ultrapassar um lento caminhão na avenida. – Mesmo envolvendo-se em negócios, Papai Noel viveu sempre na porção finlandesa da Lapônia... Até ela ser invadida pela União Soviética na última guerra. Os comunistas, tendo conhecimento da D.A.O. e dos deuses sob sua proteção graças a segredos revelados por Rasputin nos tempos do czar, sempre enxergaram Noel como um dos maiores símbolos capitalistas e quiseram capturá-lo para eliminá-lo para sempre, assim como expulsaram todas as divindades da Rússia. O governo dos EUA deu asilo ao senhor Kris Kringle há três anos, e ele viveu em paz aqui na Califórnia até agora.

- Sendo assim, também não devemos excluir comunistas infiltrados no país como possíveis suspeitos de sequestro...

- Na verdade, não devemos excluir absolutamente nada. É algo raro de acontecer, mas esse Mythos criou tantos inimigos que possuía mais chances que um deus de desaparecer. Conto com sua ajuda, senhorita Olympus, para descobrir seu paradeiro. Como estamos a dois dias do Natal, as empresas sob controle de Kringle já distribuíram todos os seus brinquedos nas lojas. Mas Noel é um empresário de tato comercial invejável e, se ele for apagado de alguma maneira, as fábricas a ele associadas sofrerão. Em suma, se este caso não tiver um final feliz... acho bem possível que a crise no ramo dos brinquedos faça do Natal de 1948 um pesadelo para grande parte das crianças do mundo.

IV

O carro avançou por bons minutos através da estrada secundária, rodeada por plantações de laranja em que os frutos mais pareciam pomos dourados à luz do sol. Pandora sabia que a cidade de Pomona ganhara tal nome devido à deusa romana das frutas, de mesmo nome, ali viver oculta como uma empresária hortifrutigranjeira desde o final do século XIX, sendo uma das grandes responsáveis pelo desenvolvimento do famoso Orange County.

Estava com sede, e teve muita vontade de ingerir um bom suco gelado naquele calor. Sabia, no entanto, que uma pausa para o refresco poderia significar o fim do Papai Noel.

Adentrando uma área residencial de classe alta, a moça deparou-se com a bela paisagem de casas de muro alto e portões suntuosos distribuídas por uma longa pista asfaltada e arborizada, ramificando-se em caminhos menores levando a cada uma. Não muito longe, desenhava-se uma das divisas montanhosas do belo Vale São Gabriel. Quando Pandora já se sentia sonolenta no assento, Vahls fez uma curva um tanto brusca para dentro de uma estradinha conduzindo até o portão aberto de uma das residências. Uma viatura da polícia encontrava-se estacionada junto a ele. Ganhando o pátio da moradia, a jovem viu policiais circulando pelo local, embora soubesse que os integrantes da D.A.O. chegados antes já haviam dado um jeito de afastar os oficiais e averiguarem apenas eles a cena do crime, geralmente passando-se por federais.

Steve parou o carro e dele desceu junto com Pandora. O superior acenou para os policiais, um deles movendo a cabeça de modo a confirmar que eles poderiam entrar na casa. Esta possuía um andar só, todo cercado por uma varanda erguida em arcos onde cresciam plantas tornando o ambiente bastante fresco. A grande porta de madeira aberta levava a uma extensa sala de estar, repleta de estantes de pedra, esculpidas em formato arrojado (as formas curvas e desencontradas fizeram Olympus se lembrar do surrealismo de Salvador Dali), possuindo brinquedos dos mais variados tipos: miniaturas de automóveis, soldadinhos de chumbo, bolas, bonecas de pano e plástico, aeromodelos... Em meio a eles, outros objetos e utensílios pareciam por completo estranhos, como um rádio, uma vitrola e uma pequena coleção de livros. No centro do recinto, uma mesinha com um vaso de flores conferia ainda mais vivacidade ao lugar, bastante iluminado e arejado devido às várias janelas que davam para a varanda. Chamou a atenção de Pandora o fato de o local estar impecavelmente arrumado, de modo a afastar qualquer suspeita de ter havido ali uma luta – ao menos naquele cômodo.

- Toda a casa está intocada – afirmou um homem de camisa branca sob um par de suspensórios pretos, gravata vermelha ao peito, surgindo por uma entrada que presumivelmente levava aos outros ambientes da residência. – A única evidência que temos de que o lugar foi invadido são os arrombamentos no portão e na porta.

- Talvez seja um ardil – opinou a jovem. – O criminoso pode ter raptado Noel fora de casa e veio depois aqui causar esse dano para que começássemos a investigar por uma pista falsa.

- Sua cria está cada vez mais perspicaz, Vahls! – o sujeito sorriu. – É melhor ter cuidado, ou logo ela o desbancará! Bem, apesar da arrumação, o senhor Noel me parece ainda assim meio preguiçoso... – disse isso apontando para uma das paredes da sala, cuja pintura branca oscilava entre tons claros e escuros em diversas partes, o padrão se repetindo por todo o cômodo. – Se não queria fazer ele mesmo, podia ter ao menos contratado alguém para melhorar isto aqui!

Pandora conhecia o indivíduo: era Joe Melleck, da perícia da D.A.O., alguém em quem se devia confiar quando o assunto era examinar cenas do crime. Possuía a aura divina de Atena, o que já dizia muito a seu respeito. O caso era que eles costumavam se deparar com casos tão intricados que muitas vezes o próprio intelecto avantajado de Melleck precisava da ajuda de mais cabeças pensantes.

- E aí, Steve, com o que acha estarmos nos deparando aqui? – o perito questionou, bem-humorado, ao recém-chegado. – Mais um matador de deuses? No caso um matador de Mythos?

- Não há evidência alguma indicando assassinato, por enquanto não passa de um desaparecimento... – murmurou Vahls enquanto examinava de longe algumas das estantes, estreitando os olhos como que procurando algo específico.

- Tenho minhas dúvidas. Nietzsche também era discreto, lembra?

- Você vai querer mesmo trazer Nietzsche de volta à pauta, depois de tantos anos?

Joe calou-se meio desconcertado, ao mesmo tempo em que Steve, transparecendo impaciência, voltava-se para Pandora e ordenava:

- Olympus, inspecione os cômodos usando sua visão de gata. Tem uma percepção mais apurada do que nós.

Ela assentiu, fechando os punhos e concentrando-se.

Bastet, dê-me forças...

Seu corpo formigou, como de costume, quando os pelos negros começaram a brotar em sua pele, e a mesma sensação de vertigem tomou seus sentidos conforme diminuía em estatura. Ao término do brilho, estava convertida mais uma vez em felina – e Steve apressou-se em fechar as janelas pela sala, pois sabia que sua visão como gata funcionava melhor no escuro: quanto mais luz, mais era prejudicada.

Logo a sala foi dominada pela penumbra, a pouca luz a entrar pelas frestas das janelas e portas ampliando-se em seus globos oculares para tornar nítido todo o ambiente, como se alguém houvesse acendido uma intensa lâmpada esverdeada. Movendo-se a passos leves, porém rápidos, Pandora passou a inspecionar tudo, saltando para o topo das estantes enquanto observava – e farejava – cada canto, fazendo o mesmo em seguida com os demais móveis, entrando inclusive debaixo deles. Terminada a sala de estar, ganhou um corredor conduzindo aos demais recintos, começando pela cozinha. Estava tão bem limpa e arrumada que sequer uma migalha de pão pôde ser encontrada no piso, tampouco algo que se mostrasse relevante de alguma forma. O banheiro, cheirando forte a detergente, estava na mesma situação.

Restava o quarto.

Este já se encontrava, por sorte, com as janelas fechadas, o que não prejudicou a visão de Pandora. A cama de solteiro, arrumada com lençóis vermelhos e brancos, também não possuía qualquer mínimo indício de desordem – assim como o guarda-roupa e a cômoda com espelho. Um repentino odor, no entanto, despertou seus instintos felinos... levando-a para baixo da cama.

Quando a gata negra retornou à sala, tinha algo da mesma cor de sua pelugem entre os dentes. Transformando-se de volta em humana (e, para bem de sua dignidade, as roupas sempre voltavam junto), o artefato foi parar em sua mão direita, segurado com cuidado pelos dedos. Aproximou-se dos dois homens, estendendo-o até eles para que vissem melhor. Tratava-se de uma pena preta de ave. Joe arregalou os olhos, enquanto Steve, frio, limitou-se a apenas coçar o queixo.

- Isso reduz bastante nosso escopo de suspeitos! – afirmou o perito.

- De fato – Vahls concordou. – Eu de início havia considerado o Grinch, outro Mythos. Ele odeia o Natal e tudo que remeta ao mesmo. Mas está detido em Alcatraz quase desde sua fundação, e nós com certeza saberíamos se houvesse ocorrido uma fuga da "Rocha". Agora essa evidência nos aponta outro suspeito, com suas razões para odiar Noel...

- Odin – Joe afirmou gravemente. – Ele sempre usou seus corvos Hugin e Munin para espionar tudo que fosse de seu interesse, mesmo depois de ter se camuflado na sociedade.

- Levando em conta que Noel incorporou no imaginário das pessoas elementos antes associados a Odin, é provável que sinta inveja por todos reconhecerem Noel e não ele – ponderou Pandora.

- Bem, ele tem o motivo, e a evidência encontrada depõe contra ele – disse Steve. – Agora precisamos saber se possui um álibi. Noel desapareceu entre as noites dos dias 20 e 22. Seria útil se conseguíssemos reconstituir os passos dele e de Odin.

- Onde podemos encontrar Odin aqui em Los Angeles? – a jovem investigadora indagou, tendo conhecimento de que o deus nórdico estava na cidade, só não sabendo exatamente em que local.

Como resposta, Joe levou uma mão aos bolsos da calça, revistando-os até encontrar um pequeno cartão azul. Estendeu-o a Pandora, que o apanhou e leu o que estava escrito nele em letras chamativas, junto a um endereço em Santa Monica:

VIKINGS MECÂNICA – A chave-inglesa mágica!

(Aberta todos os dias, menos às quartas)

V

- Eu apenas não entendo por que vocês vieram até a minha oficina me dizer todas essas coisas sobre o maldito Nicolau!

A figura de Odin era sem dúvida intimidadora. Alto e forte, nem o cabelo e barba grisalhos nem o tapa-olho lhe cobrindo parte da cabeça eram suficientes para desmerecer seu porte altivo. Só que, ao invés da armadura de outrora, vestia um macacão azul de mecânico todo sujo de graxa, assim como sua pele exposta nas mãos e no rosto. Se no passado trazia a temível lança Gungnir em sua mão direita, agora a mesma se alternava entre chaves inglesas e de fenda, sem contar os outros utensílios de mecânico. Pandora esperava encontrar ao menos um dos corvos mágicos nos ombros do deus, um dos poucos resquícios que conservava abertamente de sua antiga vida; porém só viu um imundo e rasgado pedaço de trapo velho que Odin usava como flanela, limpando as mãos com ele naquele momento.

No breve e desconcertante momento de silêncio que se seguiu, Olympus fitou, além de Steve e Joe, o abafado ambiente da oficina. Havia carros por toda parte, muitos deles desmontados – e o fundo do local era dominado por um comprido caminhão parado de lado, o capô da cabine erguido com as entranhas metálicas do motor à mostra revelando também passar por algum tipo de reparo. O ar cheirava a óleo e graxa, sem contar o constante som de batidas vindo das costas do trio de investigadores, o compasso aparentando querer intimidá-los.

Eram dadas por Thor, filho de Odin, baixinho e atarracado – mas com braços, pernas e peitoral tão ou mais musculosos que os do próprio pai, a cabeleira e extensa barba ruivas contribuindo para seu aspecto guerreiro. Usava uma camiseta branca sem mangas grudada ao corpo devido ao suor e calças recuadas à altura dos joelhos; enquanto, brandindo uma grande marreta, desamassava a lataria de um DeSoto verde como se golpeasse um gigante de gelo – levando Pandora a questionar se o Deus do Trovão realmente consertava o carro ou terminava de arruiná-lo apenas para espantá-los dali.

Bem, ao menos não é Mjölnir, o martelo mágico de Thor. Podia ser pior...

- Senhor Odin, temos razões para suspeitar que esteja envolvido de alguma forma no desaparecimento de Kris Kringle, o Papai Noel – Vahls acabou lançando a acusação, sem mudar a expressão facial ou expressar qualquer medo. – Gostaríamos de saber o que tem a falar para se defender. Apenas esteja consciente de que nos agredir significará o rompimento do acordo com os outros deuses e o automático início de hostilidades contra eles.

A face do Senhor de Asgard se fechou, os músculos tensos e a careta transparecendo não estar nada feliz, e que poderia extingui-los da face da Terra sem o menor esforço.

- Como vocês vêm até aqui me acusando de algo que não fiz? – o deus nórdico exclamou, com uma entonação raivosa. – É fato que detesto o tal Nicolau, e a maneira como essa festa do deus cristão deturpou os antigos ritos nórdicos e minha própria figura, mas não fui eu quem sumiu com ele! Que evidência podem ter para tamanha mentira?

- Encontramos isto na casa de Noel, e acreditamos pertencer a um de seus corvos – afirmou Melleck, erguendo a pena preta numa mão.

Num gesto rápido, Odin apanhou a suposta prova dos dedos do perito – e felizmente não a desintegrou ou a partiu em duas, como Pandora por um segundo temeu que acontecesse. A jovem viu o pai de Thor examinar a pena atentamente em suas mãos por demorados instantes, até estendê-la de volta a Joe, dizendo num tom mais calmo, mas não menos inconformado:

- Sim, é uma pena de corvo. Talvez seja até de Hugin ou Munin. Mas eu não instruí meus corvos a nada, muito menos bisbilhotarem a casa do Nicolau; principalmente pelo fato de estarem desaparecidos há dois dias.

Havia ali um fato novo. Bem poderia ser mentira, porém era algo novo.

- Como? – Steve quis confirmar. – Seus corvos desapareceram?

- Exato. Vocês sabem que eu os envio pelo mundo toda manhã para observarem as atividades dos mortais e até as de alguns deuses escondidos, então voltam e me relatam tudo ao cair da noite. Soltei-os pela última vez na manhã do dia 21, e não regressaram ao entardecer. Ontem, também nada; e a julgar pela proximidade do poente, creio que tampouco voltarão hoje. Algo aconteceu a eles. Não me surpreenderia se alguém os tiver capturado e tirado uma de suas penas, plantando-a na casa do Nicolau para me acusar!

Pandora estremeceu, como se houvesse aberto uma caixa proibida que, ao invés de sentimentos, despejara peças desordenadas de quebra-cabeça em sua cara. Ainda precisava organizá-las, mas eram as peças que faltavam... e se encaixavam às já existentes de um modo que achava perfeito.

- O que faremos agora? – ela perguntou, enquanto dava as costas para Odin assim como os dois homens, recebendo um último olhar zangado de Thor.

- Vamos voltar ao QG e analisar em conjunto tudo que temos! – respondeu Vahls, andando rumo à saída. – Acredito estarmos chegando perto de algo. Se os dois deuses nórdicos aqui tentarem fugir, tornar-se-ão fugitivos da D.A.O.

Definitivamente não era a resposta que Pandora esperava ouvir.

E, se não abrira a caixa que trouxera os sentimentos ao mundo, naquele momento achou-se tomada simultaneamente por boa parte deles. Titubeou, um pouco incerta. Em meio ao redemoinho de sensações, a ansiedade com certeza predominava. Considerou o que lhe veio em mente fazer. Seria prudente? De qualquer modo, não era mais uma recruta – fora promovida a Investigadora Júnior. Ela poderia sim, se quisesse.

- Peço permissão para fazer uma breve parada em meu apartamento no caminho até o QG, senhor – falou por fim, tomando todo cuidado para não transparecer insegurança em sua voz. – Tenho alguns livros de mitologia que gostaria de consultar para o caso.

- Permissão concedida. Demorará muito? Temos certa urgência.

- Não precisam me esperar. Eu me juntarei a vocês ainda esta noite, pegando um bonde até o QG.

Vahls torceu o rosto... mas acabou respondendo:

- Como quiser, senhorita Olympus.

VI

Ela saltou do bonde na Santa Monica Boulevard, o céu já estando na tonalidade azul escura com as primeiras estrelas. Em terra, por sua vez, Pandora sabia estar cercada por outras: encontrava-se no centro de Beverly Hills, uma das áreas de luxo de Los Angeles. Por cima de alguns telhados, conseguiu visualizar parte do prédio da Prefeitura. Tomando-a como ponto de referência, sabia que deveria rumar para o norte. Tinha devidamente anotado, num pedaço de papel, o endereço que procurava.

Diversos artistas e produtores de Hollywood viviam ali, suas casas inclusive sendo bastante visadas – por isso mesmo não se mostrando difícil descobrir onde se encontravam. Subiu pela North Crescent Drive, o nome da via combinando com os crescentes batimentos em seu peito. Pouquíssimas pessoas transitavam a pé ou de carro naquele momento, apenas as luzes de algumas lojas e residências – entre as que podiam ser visualizadas por cima dos muros geralmente elevados – indicando vida humana.

Ou acima da humana...

Rumava para a residência do famoso ator Alphie Patterson. Ídolo entre as mulheres, ganhador do Oscar pela atuação em seu último filme de guerra há um ano. Um dos maiores queridinhos de Hollywood, tanto pelos fãs quanto pelos realizadores, capazes de esbanjar milhões em qualquer película que estivesse associada ao nome dele, já que só isso era garantia de sucesso. Agora dera também para cantar em suas atuações, rivalizando até com nomes como o próprio Frank Sinatra – embora tal nova empreitada estivesse envolvida em certa controvérsia desde que algumas acusações, devidamente abafadas, relacionavam o sucesso dos papéis recentes de Patterson com sua associação à máfia grega de Filadélfia, na costa leste. Bem, se Sinatra era supostamente bancado pelos sicilianos, nada mais justo que o rival também ser amparado por gangsteres à beira do ringue... Embora ele também contasse com um talento "sobrenatural" para a coisa.

Olympus trazia consigo uma foto do ator numa de suas maiores atuações, o drama "Flores de Jacinto". Ela era fã dele desde adolescente, antes de descobrir que ele era na verdade um deus disfarçado entre os mortais. Seu trabalho na D.A.O. a fizera se desvencilhar um pouco da admiração pelo astro, passando a enxergá-lo mais friamente; só que os tempos de tiete seriam úteis para justificar sua aproximação de Patterson de forma tão repentina, procurando-o em sua própria casa.

Conforme caminhava, o som de seus saltos ecoando pela rua, Pandora pôs-se a relembrar o que sabia sobre a identidade falsa do imortal. Assim como na Grécia Antiga, criava bois, seu premiado e extenso rebanho sendo um dos maiores do Texas, onde também possuía diversas propriedades e recentemente passara a investir no petróleo. Começava a ganhar espaço para bancar e dirigir seus próprios filmes, os rumores pelos estúdios afirmando que planejava um grande épico narrando a Guerra de Tróia, uma das maiores produções já vistas.

Ah, e ele é o deus Apolo. Esse é um ponto importante de se lembrar...

Número 640. OK, era ali. Pandora viu-se diante de uma propriedade de muro alto, encimado por imponentes palmeiras do lado de dentro, ao longo de toda sua extensão. O portão de ferro possuía diversas esculturas talhadas, como querubins tocando harpa e, ao centro, o que parecia uma mulher sentada em transe realizando uma profecia. Bem peculiar, e também característico.

Numa das colunas sustentando o pórtico, havia o interruptor de uma campainha.

Sem hesitar, Pandora a tocou.

O som provocado pelo mecanismo dentro da mansão nem era audível àquela distância. Nenhuma reação veio do interior da propriedade, a jovem aguardando cerca de cinco minutos até acionar o botão novamente. Dessa vez, instantes mais tarde, passos foram ouvidos do outro lado do portão, rumo a ele. Houve o som de metal raspando, e uma pequena seção do obstáculo se abriu, um par de olhos atentos a fitando através dela.

- O que deseja? – a voz, idosa, tinha certa rispidez.

- Olá, sou Pandy! – o apelido fora ganho no colegial e ela o odiava, porém vinha a calhar em sua caracterização de fã. – Vim de ônibus do Kansas até aqui só para que o senhor Patterson autografe esta foto! – ergueu a imagem até o peito, no intuito de que fosse vista à altura da fresta no portão. – Por favor, o senhor pode chamá-lo? É meu sonho conhecer o Alphinho!

Por dentro a investigadora se sentia repugnante, mas, seguindo suas suspeitas, ela tinha de averiguar aquela casa, mesmo tendo que se rebaixar a tal ponto para conseguir acesso.

- Um momento – o provável empregado pediu, e a abertura se fechou.

Mais minutos transcorreram, até que o portão finalmente se abriu. Uma de suas seções foi puxada para dentro por um senhor de terno e gravata borboleta – claramente o mordomo – enquanto, pelo caminho de pedrinhas levando até a fachada do suntuoso palacete, vinha um homem de porte musculoso e cabelos loiros encaracolados, os olhos azuis tão brilhantes que podiam ser percebidos a uma grande distância. Trajava roupão alaranjado com os desenhos de figuras musicais nele costurados em dourado, chinelos confortáveis nos pés.

- Ora, então seu nome é Pandy? – a maneira como ele pronunciou a última palavra, mostrando os dentes brancos e os lábios bem-cuidados, soava a pura lascívia. – Autografarei sim sua foto, querida... e talvez eu também deixe mais alguma marca em você, se quiser, é claro.

Então aquele era Apolo. Não devia nada mesmo ao pai, Zeus. Olympus ouvira falar das festas que ele costumava organizar na mansão, e de como ele abria as portas para fãs ingênuas sem o menor pudor; mas testemunhar diretamente com certeza lhe dava mais enjoo. Conteve-se, porém. Tinha de manter o disfarce.

- Está desconcertada? – ele riu diante de sua falta de resposta. – Vamos, entre. Com certeza perderá já já a timidez!

Ele deu-lhe as costas e voltou ao palacete, Pandora pondo-se a segui-lo num sorriso mais falso que o próprio Loki. O mordomo ficou para trás, e agradeceu por isso. Não queria gente demais a observando quando estivesse averiguando o interior da casa.

Logo venceram a pequena escada de mármore diante da porta principal, e adentraram a sala de estar.

Pandora de imediato viu-se perguntando como Apolo se apaixonara pelo jovem Jacinto ao invés de Narciso. Havia fotos do deus, posando como ator, por todas as paredes do cômodo, emolduradas e protegidas por vidro gerando reflexo. As prateleiras e escrivaninhas ali distribuídas ostentavam rolos de filme, scripts encadernados, discos de vinil e diversas estatuetas dos prêmios que o residente já ganhara, inclusive o Oscar. Um bar, anexo ao fundo da sala, tinha taças penduradas de ponta-cabeça e um extenso armário de bebidas atrás do balcão. Foi para ele que Patterson rumou, apoiando-se na estrutura de madeira enquanto se voltava à recém-chegada. Esta se sentou desajeitada numa poltrona, esperando que sua interpretação de caipira do interior, até mesmo no sotaque, estivesse convincente.

- E então, o que gostaria de tomar? – o anfitrião questionou sedutor. – Um bom vinho? Ou um destilado mais forte?

Foi quando, sob a sola dos sapatos, Pandora sentiu uma batida no assoalho.

O som foi audível por toda sala, mas a moça procurou disfarçar, dando uma risadinha graciosa ao deus. Só não contava que, dois segundos mais tarde, o barulho fosse se repetir, acompanhado de uma abafada voz vinda do subsolo:

SOCORRO! ALGUÉM ME AJUDE!

Tremendo da cabeça aos pés, Olympus tornou a erguer o olhar para Apolo... e tudo que aconteceu em seguida foi muito rápido.

O semblante do imortal se fechou numa expressão tão terrível quanto a da Medusa, capaz de imobilizar quem olhasse pelo medo ao invés da transformação em pedra. Ao mesmo tempo o punho direito do deus brilhou, logo sendo envolvido por chamas mágicas – e, felizmente, Pandora não se manteve parada na poltrona: assim que percebeu a ameaça, saltou para frente, transformando-se em gata em pleno ar. Fazendo uso da infalível agilidade felina, pousou de pé do outro lado da sala... escapando da bola de fogo lançada por Apolo que incendiou o assento onde há pouco estava, as labaredas alastrando-se para o tapete aos seus pés.

- Malditos guardiões! – a voz dele era agora disforme e grossa, enquanto seu outro punho também se convertia em tocha e todo o corpo brilhava de modo a quase impossibilitar ser olhado diretamente. – Prendem-nos, ao invés de nos protegerem!

A resposta de Pandora foi um reles miado, que ao deus deve ter soado como zombaria. Disparou mais uma rajada incandescente em sua direção, a investigadora escapando ao correr rápido para outra parte do recinto.

- Vocês não me impedirão de dar fim ao maldito Mythos e acabar com essa farsa que é o Natal do deus cristão! A celebração do Sol Invictus retornará ao seu lugar no dia 25 de dezembro, e todas as divindades solares retomarão seu espaço! Rá e Amaterasu estão comigo! Kris Kringle será reduzido a cinzas junto com você e esta casa! Torrarão como os corvos de Odin!

A ameaça de Apolo era concreta, já que o fogo se espalhava pelos móveis, principiando um incêndio. O deus disparou mais esferas de chamas tentando acertar Pandora, que como gata se esquivava com facilidade – mas com isso fazendo as cortinas e vinis também arderem, acelerando a transformação da sala num inferno flamejante. As batidas no assoalho também se tornavam mais desesperadas.

Até que, sem mais nem menos, o brilho em Apolo se dissipou, e as chamas em seus punhos se apagaram como velas recém-sopradas.

Olympus se manteve onde estava, observando. As pernas do deus oscilaram, tentando andar... mas acabou somente tropeçando e caindo de cara no chão... um dardo vermelho fincado às suas costas e até combinando com as cores do roupão. Mal teve tempo de assimilar o ocorrido, a felina passou a procurar uma saída para fora do cômodo... e foi empurrada de encontro a uma parede por uma forte rajada de vento. As costelas latejaram, enquanto o ar continuava soprando no interior da sala como verdadeiro ciclone. Mesmo tendo de fincar as garras ao assoalho para não ser levada, o estranho fenômeno teve um benefício: apagou o fogo de modo mais rápido do que os bombeiros jamais poderiam ter feito.

Quando as chamas se dissiparam, restando fios de fumaça e o cheiro dos móveis carbonizados, Pandora sentiu-se segura para retomar a forma humana – deparando-se com uma nova figura presente no local: Vahls, sempre com o mesmo terno e chapéu, agora combinando perfeitamente com o cenário incendiado. Tinha ainda as mãos erguidas para frente como num gesto de ataque... e, mordendo os lábios, a jovem se deu conta de que finalmente descobrira qual divindade fornecera ao tutor sua aura.

- Zéfiro já teve desavenças com Apolo no passado, já que foi ele quem desviou o vento para matar Jacinto por meio do disco que ele mesmo atirou – Steve afirmou, ofegante devido ao esforço. – Agora dei mais um motivo para os dois deuses se odiarem...

- O que você fez com ele? – Pandora perguntou, aproximando-se do corpo inerte de Apolo.

- Um dardo de antiambrosia, é como conseguimos lidar com o poder deles... Nossos cientistas conseguiram manipular o alimento divino criando um composto capaz de derrubá-los. Está apenas desmaiado, acordará em algumas horas. Só que até lá...

Dizendo isso, Vahls retirou um par de algemas de um bolso da calça, feito de um metal dourado reluzente que não se parecia com nada encontrado na Terra. Prendeu com ela os pulsos do deus, declarando, mesmo sem ele conseguir ouvir:

- Apolo, você está detido pela D.A.O. pelos crimes de sequestro de um Mythos e rebelião contra o acordo dos deuses. Tem o direito a ficar calado e a uma Musa para defendê-lo no tribunal...

VII

Pandora observava alguns homens da organização conduzindo Kris Kringle, o Papai Noel, para fora da casa. Fraco e debilitado, o "bom velhinho" vestia apenas uma calça rasgada, o peito e a cabeça repletos de escoriações. Mesmo assim, ao passar pela moça, não deixou de abrir-lhe um grande sorriso, reavivando todos os seus sonhos de infância ao pronunciar nostálgico "Oh, oh, oh!" por baixo da espessa barba branca. Após caso tão arriscado, era o melhor alento que a jovem poderia ter.

- Espero que tenha consciência do que fez... – a voz de Vahls, em tom autoritário, fez-se ouvir em meio aos peritos da D.A.O. examinando a sala queimada.

Certo, chegara a hora de lidar com as consequências de sua precipitação. Olympus voltou-se ao superior, até movendo uma mecha de cabelo loiro para fora do rosto como se quisesse retirar qualquer obstáculo entre eles. Achava-se preparada para aguentar o que viesse.

- Eu tinha de agir. Mais um pouco, e Apolo eliminaria a vítima.

- Concordo, mas poderia muito bem ter nos relatado suas suspeitas. A D.A.O. invadiria a casa em grupo. Arriscou sua vida agindo sozinha. Sorte que tenho Parker, aquele veterano com aura de Hermes, seguindo boa porte dos novatos na organização, ou não estaríamos aqui conversando.

- Apolo teria tempo para agir contra Kringle se fosse surpreendido por uma ação ostensiva. Por isso me disfarcei como fã. Ele dificilmente desconfiaria. E tudo acabou dando certo, não é mesmo? Os brinquedos do próximo Natal estão garantidos...

- O que planejava fazer depois de entrar na casa? Mostrou muito bem aqui hoje ainda não estar preparada para enfrentar diretamente um deus.

- Distrai-lo, quiçá embebedá-lo com néctar, que quase todos os deuses possuem em suas adegas... Nesse ínterim, investigar a casa. E se encontrasse mesmo Noel, chamar reforços.

- Precipitou-se para ter o crédito de ser aquela a solucionar o caso. Noto certo narcisismo em suas ações, Pandora, assim como no próprio suspeito detido. Atente para que o impulso de se exibir não a torne aquilo que combatemos. Prefiro que aja com maior cautela da próxima vez, ou corre o risco de perder sua promoção.

Fazendo uma pausa para respirar, e deixar a ira de lado, Steve complementou:

- De qualquer maneira, foi uma ótima dedução, que escapou até mesmo a Joe. Como conseguiu chegar até ela?

- O conjunto de fatores foi decisivo. Primeiro, o estado impecável da casa de Noel. Apolo é uma conhecida divindade associada à ordem, equilíbrio. Depois, a pintura desigual na sala, com áreas claras e escuras. Tomei como base as sombras de pessoas projetadas nas paredes quando da explosão da bomba de Hiroshima. Seria necessária uma luz tão intensa quanto a do próprio Sol para gerar tal efeito. Depois, o rapto dos corvos de Odin. É extremamente fácil para uma divindade solar, capaz de projetar-se no firmamento, raptar as aves ao acompanhar todos os seus movimentos de cima. Assim ele fez, e plantou a pena no quarto da vítima para acusar o nórdico. Por fim, ele teria o motivo. Apolo era idolatrado como o Sol na cultura greco-romana, e o Natal substituiu a antiga festa dedicada a ele. A inveja devia ser bem maior que a de Odin...

- Impressionante.

- O suspeito mencionou Rá e Amaterasu como cúmplices. O que estão fazendo a respeito?

- A afirmação soa mais como blefe. Rá está bastante ocupado envolvido nos processos de independência das colônias africanas, e Amaterasu reclusa no Japão desde que seu povo perdeu a guerra. Nós os colocaremos sob vigilância, porém acho improvável descobrirmos algo incriminador. Foi útil ter prestado atenção nisso, de qualquer maneira.

Dando as costas à investigadora, Vahls colocou-se a caminho da saída da casa – mas, na metade do trajeto, virou-se mais uma vez para ela e exclamou, atirando-lhe algo:

- Feliz Natal, senhorita Olympus.

Ela apanhou o objeto no ar, examinando-o em seguida na palma de sua mão: uma pequena miniatura feita em cerâmica representando um gato – ou melhor, gata – na cor preta, os bigodes brancos assumindo o contorno de um sorriso.

E, guardando consigo o presente, a própria Pandora sorriu.

Luiz Fabrício de Oliveira Mendes - "Goldfield".