Epílogo

Mal conseguindo se locomover, sangue ainda sendo liberado em enorme quantidade por seu braço partido, Judite avançou até Gaspar. As pernas mal conseguiam sustentá-la, porém forçou-se a prosseguir de pé, amparando-se como podia nas prateleiras. Caso caísse e fosse obrigada a engatinhar ou arrastar-se na direção do companheiro, a situação seria bem mais complicada, ainda mais lhe faltando um membro em que se apoiar... Com o corpo inteiro dormente, a caixa conseguiu deslocar-se até diante do padeiro e então, sem forças, caiu sentada sobre o piso. Gemeu, porém não se deu por vencida: deslizou de cócoras pelo chão até chegar perto o bastante do colega e, empregando a mão que lhe restava, deu-lhe leve sacudida num dos ombros.

- Gaspar! Acorde, Gaspar!

Nenhuma resposta. O padeiro permanecia imóvel, olhos fechados. Não parecia nem respirar. A moça não entendia muito daquilo, mas apanhou-lhe o pulso direito – gelado e pálido – e tentou medir sua freqüência cardíaca. Não tinha idéia se fazia aquilo da forma correta ou não, porém nada sentiu. Nem mesmo uma leve pulsação. Desesperou-se, ainda mais ao fitar todos os rastros de sangue perto de Gaspar, partindo de suas costas feridas. Estava... estava morto?

- Não! – ela gritou, chorando.

Não podia suportar. O padeiro não! E pensar que começava a sentir certa afeição por ele... Talvez até mais que isso. A fraqueza em sua mente quase desligada uniu-se agora a um latente pesar. Por quê? Por quê?

Foi quando, até então cabisbaixa, lágrimas a escorrer de seus olhos cansados, a caixa sentiu seu tronco ser agarrado por um par de braços e acabar impelido para frente, alguém ou algo a puxando. Imaginou se tratar de um zumbi, ou quem sabe até Matheson ainda vivo, e, resignando-se, preparou-se para abraçar de vez a morte que tanto a rondara desde o princípio daquela noite trágica. No entanto, para sua surpresa... lábios macios, apesar de ressecados, se chocaram com os seus... E ambas as bocas, abrindo-se, misturaram-se num intenso e improvável beijo, línguas tateando-se com vontade como se uma quisesse ser apresentada a cada mínima papila da outra.

Logo o ósculo terminou, os beiços recuando interligados por breves fios de baba. Judite abriu os olhos... deparando-se com Gaspar, consciente, a observá-la sorrindo.

- Eu sempre te desejei, sabia? – ele falou, matreiro. – Ao menos esta noite maluca teve seu saldo positivo...

- Hum... – a jovem assumiu uma expressão de malícia e certa altivez. – Bem que sempre notei você me olhando. Parecia até querer me engolir!

- Por que não aproveitamos estes, que podem ser nossos últimos momentos, para concretizar nossos anseios?

- Você acabou de criar a primeira cantada para holocaustos de mortos-vivos... – Judite riu de leve. – Faltou só um "sua linda!". É tentador, mas não sei se consigo...

- Ora, você não vai querer dar uma de "João sem braço" agora, vai?

Apenas nesse instante, fitando com maior clareza os arredores, o padeiro depreendeu o sentido que sua sentença possuía ao notar o antebraço feminino decepado a poucos metros de si, assim como todo o sangue próximo e os jatos que ainda provinham do terrível ferimento da companheira com carne e ossos rompidos. Arregalando os olhos, inquiriu, pasmo:

- Caramba, o que aconteceu aqui?

- Eu derrubei o Matheson... – Judite respondeu quase sem voz.

- Nossa, é só eu resolver dormir um pouco que tudo vira de pernas para o ar... Eu fico imaginando o que pode acontecer agora!

Mal concluiu a frase, a porta dos fundos do mercado foi aberta num estrondo.

A visão da caixa tornava-se mais embaçada e escurecida a cada segundo, mas pôde observar com relativa nitidez, através do corredor, o que ocorria. Um grupo de vultos humanos adentrou o mercado pela dita entrada. Mais de dez, quiçá vinte ou além. Portavam algo em seus braços... Armas? Ela não conseguia ver muito bem. Alguns traziam estranhos volumes às costas. A julgar pelo som de seus passos, calçavam botas. Quando se aproximaram mais, ela constatou que não tinham rostos. Ou melhor, não rostos normais, de pessoas. A parte frontal de suas cabeças estava coberta por uma superfície negra, disforme, composta de três formas circulares: duas menores lado a lado, na altura dos olhos, e uma maior na região do nariz e boca. Ela reconheceu aquele aparato, já o vira antes em filmes: máscaras de gás.

As figuras penetraram no interior do estabelecimento e se dispersaram, várias delas desaparecendo da precária visão da sobrevivente ao deslocarem-se para trás de prateleiras. Pouco depois, chegou a seus ouvidos uma série de ruídos estranhos, semelhantes aos emitidos por bocas de fogão, quando acesas... acompanhados de um incômodo, e crescente, odor de queimado. Judite voltou-se para Gaspar, na esperança de que o colega houvesse percebido com maiores detalhes o que acontecia... porém descobriu, para sua penúria, que o rapaz tornara a desmaiar, olhos fechados e tronco agora ligeiramente inclinado junto à estante. Mais uma vez não aparentava respirar. A moça teria mesmo de se virar sozinha perante aquela provável nova ameaça.

Retornou suas atenções ao corredor. Uma parcela dos recém-chegados chegara mais perto, próximos o suficiente para que Judite observasse com quase total clareza o que faziam. Aparentemente haviam se dividido em dois grupos: um recolhia alguns cadáveres de zumbis, inserindo-os dentro de sacos plásticos pretos que eram em seguida sumariamente fechados. Já o outro, seus membros portando tanques de combustível às costas – explicando o volume pitoresco anteriormente notado – e poderosos lança-chamas, queimava os corpos de mortos-vivos remanescentes, reduzindo-os a cinzas.

O comunicado encontrado no subsolo, a equipe de contenção que fora prometida... Agora a caixa compreendia tudo. Eles haviam chegado. Homens envolvidos com toda aquela desgraça, provavelmente compondo parte dos que eram por ela responsáveis. Não podia confiar neles. Encontrava-se, entretanto, morrendo. Dentro de pouquíssimos instantes sucumbiria devido à falta de sangue. O fim chegaria de uma forma ou outra, e a promessa de lutar até o fim mais uma vez ressoou em meio a seus pensamentos embaralhados. Tinha de tentar. Gastaria até a última oportunidade de escapar viva dali.

Até então sentada sobre o piso, Judite, com certa dificuldade, prostrou-se junto a ele e, de forma altamente penosa, pôs-se a se arrastar na direção dos invasores. Mal tinha forças para impelir as pernas e o braço que lhe restara, mas sua força de vontade lhe serviu de motor. Arrastando-se até os homens, notou que um deles não usava máscara. Trajava, sim, vestes negras como os demais, porém a face estava exposta, revelando o semblante de um rapaz talvez não muito mais velho que ela, rosto cortado por uma repulsiva cicatriz. No topo de sua cabeça existia uma boina esverdeada contendo o emblema do Exército. Militares. Assim como ela suspeitara...

Numa posição que o deixava de lado para a jovem, mãos na cintura, o aparente comandante do destacamento, sem tê-la ainda percebido, distribuía ordens em alta voz:

- Recolham apenas dez corpos para análise. Os demais devem ser incinerados até os ossos. Não deixem vestígio algum!

Judite tentava se aproximar do soldado em questão. Deixava pelo caminho um rastro de sangue, oriundo principalmente de seu braço mutilado. Apesar de que, àquela altura, ela praticamente não possuía mais líquido para verter, seu coração aos poucos cessando de pulsar...

- O Projeto Ishtar, após este incidente, está temporariamente interrompido. Nós também desceremos às instalações no subsolo para efetuar a limpeza e destruir evidência. São ordens diretas do quartel-general!

- Por favor, me ajude... – implorou Judite, erguendo a mão e clamando numa voz tão fraca que mal era audível.

E o militar realmente não a escutou. Ou fingiu não escutar...

- Após assegurar o subterrâneo, atearemos fogo no mercado em si – continuou o líder. – Tudo não passará, à população, de um trágico incêndio iniciado em circunstâncias acidentais. Temos uma hora para o total cumprimento das instruções, portanto apressem-se!

- Ajude-me, por favor... – tendo se arrastado até ele, a caixa, a muito custo, conseguiu erguer seu braço para agarrar a calça do combatente, agitando-a na esperança de ser vista, como uma morta saída de sua tumba que voltava para assustar os vivos. – Preciso de ajuda!

Ele a viu, finalmente. Porém a expressão em seu rosto não transmitiu nem um pouco de compaixão. Contraindo as sobrancelhas, lábios torcidos, o comandante retirou do coldre que trazia à cintura sua pistola... E, logo após engatilhá-la... disparou-a sem pestanejar contra a testa da sobrevivente.

O corpo desta estremeceu, a mão soltando a calça do militar e os dedos se esticando ao máximo, como que tentando segurar o invisível... até que vieram ao solo, próximos da face de Judite, que mantinha os olhos bem abertos num semblante pavoroso enquanto o pouco sangue que lhe sobrara escorria através do buraco em sua fronte...

Nisso, um dos invasores munidos de lança-chamas aproximou-se do líder, questionando, com sua voz abafada pela máscara:

- Senhor, será que este procedimento será suficiente para conter a infecção? Não há perigo de ela se alastrar para a cidade?

- Não se preocupe, soldado... – sorriu o comandante, guardando sua arma. – As chamas purificarão tudo, tenha certeza disso... As chamas purificarão tudo.

O comandado assentiu e se afastou.


Uma e meia da manhã.

Um considerável número de pessoas cercava o Supermercado Super Preço no bairro Nossa Senhora das Dores, perto do centro da cidade de Santa Cecília do Oeste. A maioria dos populares era composta por moradores da área que, atraídos pelos estrondos e clarões oriundos do estabelecimento desde aproximadamente trinta minutos antes, trataram de acorrer ao local para averiguarem o que ocorria. Depararam-se com o prédio sendo consumido por um violento incêndio, contra o qual tentavam lutar em vão os poucos integrantes do corpo de bombeiros municipal. Boa parte do telhado havia cedido e agora as paredes externas também começavam a desmoronar, como se, diante da fúria das chamas, não passassem de folhas de papel. A luz causada pelo fogo era intensa e de qualquer ponto da pequena urbe era possível visualizar o desastre que tinha palco no lugar. Caso fosse dia, a espessa cortina de fumaça subindo das ruínas flamejantes também seria contemplada.

Entre os que chegavam para testemunhar de perto a destruição incluíam-se jovens que voltavam do baile de Halloween no Clube Ceciliano, não muito longe dali, e que no caminho para casa acabaram pegos de surpresa pelo acontecimento. Nesse grupo estava inclusa uma garota trajando uma fantasia que transitava entre vampira e bruxa, cabelos roxos, ao lado de um menino vestido de Alien. Dos olhos dela brotavam lágrimas tristes, inconformadas. Ela simplesmente não conseguia acreditar!

Segundo os relatórios preliminares dos bombeiros, o incêndio começara devido a um curto-circuito no sistema elétrico da construção, mais precisamente quando um grupo de funcionários, preso dentro do estabelecimento após uma queda de energia que lacrara a porta de entrada, tentou liberar a saída ao mexer no gerador. Todas as pessoas em questão acabaram carbonizadas pelo fogo, entre as quais Judite Monteiro. Irmã de Carla.

A caçula sentia uma enorme dor em seu peito, impotente diante de tamanha catástrofe. A ficha não lhe caíra ainda totalmente. Havia mesmo perdido a irmã daquela forma? As coisas teriam mesmo acontecido de maneira tão atroz? Uma mera fagulha do sistema elétrico seria mesmo capaz de ocasionar uma hecatombe como aquela? Não podia acreditar naquela história... Tinha de haver algo estranho por trás. Algo grande.

Naquele momento prometeu a si mesma descobrir a verdade por trás daqueles dolorosos fatos. Nem que levasse a vida toda para isso! Por Judite... Por si própria!


Cinco anos depois.

Ela digitava incessantemente sobre o teclado. Os dedos doíam – mas ignorava o incômodo. A pele quase inchada das pontas de cada membro pressionava as teclas numa dança constante, compondo na tela do computador palavras sérias, graves. Palavras de denúncia.

Concluindo mais um parágrafo, por fim fez uma pausa, encostando-se à cadeira. Seus pulsos também latejavam; por certo seria em breve acometida de tendinite. Olhou para a escrivaninha diante de si. O resto de refrigerante no fundo do copo plástico já se encontrava até seco, e o último pedaço de pizza dentro da embalagem de papelão, frio e duro, acumulava mosquitos. Envolvida na redação de seu texto, ela simplesmente se esquecera de comê-lo. E pensar que ela lembrara a si mesma disso pela última vez há no mínimo quatro horas...

Bocejou. A reportagem nem estava na metade. Vinha sendo difícil organizar na forma de texto tudo que descobrira nos últimos dias a respeito do incidente no mercado, e era até curioso pensar que optara pela forma narrativa de descrever os fatos. Muito do que incluía no relato acabava sendo fictício, pois, apesar de o antigo sistema de segurança do estabelecimento ter registrado diversas imagens e sons, nem tudo pudera ser presenciado da exata forma que acontecera. O recurso à invenção e às figuras de linguagem, no entanto, serviam para prender a atenção do leitor e envolvê-lo à história. Carla só temia estar sendo irônica demais... Afinal, aquele texto cobria as últimas horas de vida de sua falecida irmã. Talvez o tom amargo se desse devido à raiva que acompanhava a jovem dia e noite há cinco anos. E só agora, botando tudo no papel, é que ela começava a passar...

Olhou a seguir para as fitas de vídeo sobre o móvel, registros do aparato de vigilância do supermercado e do complexo laboratorial embaixo dele. Até poucos dias antes sequer pensara que tais evidências pudessem existir, quando, repentinamente, um misterioso "George" lhe enviou todo aquele material pelo correio. Que tipo de alcunha seria aquela? Uma referência jocosa a George Romero? De qualquer modo, a carta acompanhando as fitas deixava claro que o indivíduo desejava auxiliar Carla a derrubar o grupo misterioso responsável pelas experiências com hipericina tanto quanto ela. Uma promissora aliança se estabelecia ali e, quando a jornalista averiguou o conteúdo das gravações, concluiu que realmente encontrara um tesouro. Não só devido às imagens e sons devolverem a vida a Judite, mas também por explicarem de forma perfeita como ela e seus colegas acabaram perecendo diante da horda de mortos-vivos. E não é que aquelas coisas existiam mesmo?

Com os pensamentos focados na figura de um militar de cicatriz no rosto mostrado numa das fitas – o mesmo que executara friamente sua irmã – Carla assustou-se quando o telefone em cima da escrivaninha tocou, fazendo-a saltar da cadeira. Com a mão direita trêmula, apanhou o receptor e atendeu à inesperada ligação:

- Alô?

- Carla? – indagou uma voz masculina jovem do outro lado. – É você?

- Sim, em carne, osso, e cansaço – ela replicou desanimada, reconhecendo a pessoa com quem conversava. – Fala, Lucas.

- Você não vai à faculdade há três dias! Acabará reprovando por faltas desse jeito, sabia? Vai me dizer que durante todo esse tempo nem saiu do apartamento?

Sim, de fato Carla permanecia trancada em sua moradia há exatos cinco dias, perdendo aula em três deles – já que os dois últimos haviam sido sábado e domingo. Mas isso não importava. Tinha de terminar seu trabalho e revelar toda a verdade ao mundo. Além do mais, pouco se preocupava com a instituição que ameaçara cortar sua bolsa de estudos caso continuasse investigando os fatos ocorridos no mercado em 2005. Todos os segmentos daquela cidade pareciam mesmo envolvidos na conspiração...

- Ah, sei lá... – ela acabou respondendo, incomodada.

- O que você está tramando? Crise de depressão mais uma vez?

- Não, não desta vez...

- Então o que é? Se não quiser falar, tudo bem... Só queria te pedir um favor. Eu não estou conseguindo ligar para a Alice pelo celular, não sei o que aconteceu. Prometi que ia buscá-la naquele evento de anime, porém soube que está ocorrendo algum tumulto estranho no centro e pensei em ir antes. Será que você não podia ligar pra ela e pedir que me espere na frente da escola? Se não...

A ligação caiu, sem mais nem menos.

Resmungando, Carla desligou o telefone e concentrou-se mais uma vez no monitor do PC. Ia voltar a escrever, dedos se aproximando do teclado... Quando um violento estrondo, oriundo da rua metros abaixo, propagou-se pela vizinhança.

- Quê?

Levantou-se do assento e apressou-se até uma das janelas, por pouco não tropeçando no tapete. Temerosa abriu as cortinas, fitando o panorama externo. O céu estava cinzento, nuvens carregadas prometendo chuva para breve. Da via, lá embaixo, subia uma súbita nuvem de fumaça, simultânea a... tiros e gritos! Por azar, Carla morava no último andar e o apartamento, desprovido de sacada, não lhe permitia uma visão exata do que acontecia no nível da rua. Um repentino temor, no entanto, tomou sua mente, e ela cogitou o que poderia estar causando a aparente desordem... mas se recusou a acreditar. Ah, não! Não podia ser. Será que os fantasmas do passado, ao serem incomodados pelo ímpeto investigativo da garota, haviam agora retornado para assombrá-la, almejando levar consigo a outra das irmãs Monteiro?

Seu coração acelerou. Apressou-se até a área de serviço. No vão entre uma parede e a máquina de lavar, sua cachorrinha Fafi, pequena e peluda, descansava calmamente em sua casinha. Ao ver a dona, ergueu a cabeça e abanou o rabo. A jornalista apanhou-a rapidamente em suas mãos – ainda que o animal nada entendesse – e, segurando-a embaixo de um dos braços, dirigiu-se até a porta do apartamento. Verificou se sua carteira estava consigo, removeu as trancas da saída, e abriu-a... acabando por se esquecer das valiosas fitas enviadas por George, que permaneceram dentro do apartamento.

Olhou para ambos os lados do corredor. Vazio, as portas dos outros apartamentos fechadas. Fungou: nenhum cheiro de podridão ou nada parecido. Seus ouvidos tampouco ouviram gemidos, passos trôpegos ou demais ruídos característicos de humanos reanimados. Se fosse mesmo uma nova infecção zumbi, o prédio parecia seguro. Ainda. Mas, de qualquer modo, Carla via-se convencida a deixar o quanto antes aquela maldita cidade. O risco à sua vida, permanecendo ali, chegara ao ápice.

Um tanto mais calma, mas sempre atenta, a jovem dirigiu-se com sua cadelinha até o elevador. Detendo-se diante da porta metálica, pressionou o botão ao lado desta para chamar o transporte. Tentou duas, três vezes. Nada, nem mesmo a luz acima do interruptor sendo acesa. Não estava funcionando.

Agora sim ela ficava mesmo preocupada...

Teria de usar as escadas, uma longa e angustiante descida de quinze andares. Os degraus pareciam infinitos, a mão suada de Carla tateando o corrimão de forma hesitante, como se a cada piso inferior fosse surgir um ou mais mortos-vivos. Felizmente não encontrou nenhum, porém também não viu mais ninguém pelo caminho. Sem mais nem menos o prédio parecia ter se tornado um local abandonado. Teriam todos os moradores o deixado durante os dias em que permanecera trancada no apartamento?

Chegou à portaria. Igualmente deserta. A porta de entrada, no entanto, encontrava-se escancarada. A passos lentos, Fafi em seu colo olhando ao redor intrigada enquanto farejava odores estranhos, a jornalista ganhou a rua, depois de atravessar o semi-aberto portão que a separava da calçada...

E então o apocalíptico cenário se desenhou.

Vidro estilhaçado e fuligem haviam se tornado quase um revestimento para o asfalto. Aqui e ali também se observava poças e marcas de sangue. Carros batidos e capotados preenchiam quase todo o espaço da via, obstruindo-a em diversos pontos. Em alguns desses veículos e também em construções vizinhas, focos de incêndio começavam a despontar, consumindo aquilo que tocavam. Nas imediações de uma esquina, vinte ou trinta metros à frente de Carla, um grupo de policiais militares refugiados atrás de duas viaturas fechando a rua disparavam revólveres e escopetas contra alguém – ou algo – que se encontrava além do bloqueio, invisível àquele ângulo. E, trazido pelo vento, um temível coro de gemidos foi escutado pela moça, como se Miguel, arrependido de ter lacrado seu compatriota Lúcifer nas profundezas infernais no início dos tempos, houvesse voltado atrás e aberto o portal entre o mundo dos homens e a dimensão dos demônios, as almas condenadas denunciando sua presença através de suas vozes disformes.

A cachorrinha latiu, agitada. Tentou se soltar do braço de Carla e correr, mas a dona a manteve firme. Estaria mais segura consigo. Nisso, olhando em volta na tentativa de encontrar uma rota de fuga menos ameaçadora, a irmã de Judite avistou algo caído sobre o solo, perto de um automóvel espatifado... Aproximando-se, constatou se tratar realmente do que pensara: um revólver calibre 357, cabo ligeiramente sujo de sangue. Taurus... A mesma arma utilizada por Gaspar no subsolo do mercado, cinco anos antes. Apanhando o achado com uma só mão, a jornalista impeliu-o para frente, empurrando o cano e abrindo assim o tambor. Seis balas – totalmente carregado. Em seguida retesou o cano até sua posição inicial e, engatilhando a arma, fitou as silhuetas cambaleantes que começavam a se delinear junto ao bloqueio da polícia, braços estendidos e bocas abertas...

Ela respirou fundo. A jornada estava apenas começando...

...e Santa Cecília do Oeste se tornara o inferno sobre a Terra.


R.I.P.