Distância II

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Estamos parados de lados diferentes da cama, jogando o lençol por cima dela em silêncio. Meus pés doem depois de um dia inteiro com eles dentro do salto-alto, e minha cabeça lateja. Foi um dia terrível no trabalho. LS também parece compartilhar de minha tristeza. Ele está quieto, compenetrado, como se estivesse fazendo uma tarefa muito mais complicada do que forrar a cama.

- Ei. – Ele chama, sem me olhar. Lembro-me de quando ele me chamava assim quando começamos a namorar. Mas não era nesse tom sério. Era doce. Muito, muito doce.

Eu o encaro com o lábio inferior tremendo levemente. Quero muito abraça-lo e beijá-lo, mas ele está longe demais para que eu faça. Quando mais novos, morávamos em estados diferentes, mas naquela época estávamos mais próximos do que agora. O trabalho o deixava distante.

Eu sabia que não era fácil ser dono de uma grande empresa. Casei com ele sabendo disso. Desde jovem, com ele na faculdade, eu sabia como seria. Mas eu não imaginava que fosse doer tanto. Eu não imaginava que ele fosse se afastar de mim de tal maneira.

LS larga o lençol e senta-se na cadeira ao lado da cama, e ainda sem me encarar, ele pergunta:

- Depois de todo esse tempo juntos, você ainda me ama?

Uma sensação de vazio se espalha por meu estômago e sobe por meus seios, deixando um bolo na minha garganta. Minha resposta é "Sim, definitivamente sim, eu te amo como nunca amei ninguém, LS", mas pelo jeito que ele perguntou, é porque ele não se sente da mesma maneira.

Acho que meu marido não me ama mais.

Abro e fecho a boca, nervosa. Estou com medo de responder e de levar um fora. Estou com medo de que ele me deixe, de que traga outra pessoa para nossa casa, de que transe com alguém na nossa cama, de que não me ligue mais, de que se esqueça de mim, de que desista de mim e de todos os nossos momentos juntos.

- Amo. – Respondo, deixando meu orgulho e medo da rejeição de lado. Os dedos da minha mão estão tremendo e eu tiro eles do lençol e prendo nos bolsos de trás da calça jeans. – Você não me ama mais?

Ele coloca as mãos na frente do rosto e respira fundo. Não, ele não me ama mais, e consigo sentir isso. Sinto nas minhas entranhas sua rejeição, a dor no meu peito já se espalhando, as lágrimas já querendo sair dos meus olhos.

Não posso acreditar que irei perdê-lo depois de tudo. Sempre me esforcei para ser o suficiente. Nas brigas, mesmo sendo orgulhosa, eu admitia meus erros e relevava os dele. Eu o abraçava e beijava sua testa quando ele estava com medo, quando estava preocupado, quando estava frustrado.

Eu amava LS com todas as minhas forças, mas ele não me amava mais.

- Amo. – Ele responde com a voz embargada. – Mas você está tão distante ultimamente, MH. Eu achei que você estivesse deixando de gostar de mim.

- Como, meu amor? – Pergunto, de repente feliz, mas com as lágrimas já saindo de meus olhos sem controle algum. – Não teria como isso acontecer, eu te amo. E você também está distante. Estamos distantes um do outro.

- Eu te amo. – Ele diz, erguendo os olhos e me olhando. Sinto o vazio dentro de mim sendo preenchido, e sei que toda a minha vida valeu a pena pelo simples fato de eu tê-lo conhecido.

- Eu amo você. – Respondo. – E sempre vou amar.

Ele se joga na cama de joelhos, desfazendo tudo que acabamos de arrumar, e abraça minha cintura. Não imaginava que ele estivesse tão preocupado. Até cheguei a pensar que ele tinha deixado de me amar...

Afago sua cabeça e a beijo. Depois, sento na cama e o abraço e beijo seus lábios e seu pescoço e seus ombros, murmurando que o amo várias e várias vezes, até que aquilo fique gravado em sua mente, em sua carne e em sua alma.

Não temos muitas certezas nessa vida, com certeza não. Mas tenho certeza de que quero ficar com ele. Pelo menos até o meu último dia de vida, ou até o último dia de vida dele.

Assim, minha vida terá valido a pena.

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Acho que é muito difícil definir o que é o amor. Mas é mais ou menos assim que eu me sinto. Querendo ficar com a pessoa até o fim da minha vida, ou até onde der, na nossa pequena eternidade.

As inseguranças vêm e vão, como no texto. Mesmo que você confie na pessoa, mesmo que você saiba que ela ama mesmo você, com ela estando todos os dias ao seu lado, a dúvida sempre vem. Ao menos comigo.

Mas no fim, tudo fica bem. Quando se ama, sempre existe uma eternidade. Eternidade de um dia, de um momento, de alguns segundos, de meses, de anos ou de décadas. Todo amor é uma pequena eternidade.