Cena Última

Entra o boia-fria, carregando sua marmita.

DIABO – Vem aí o trabalhador rural contente, que pega firme no batente.

BOIA-FRIA – Bom dia, moço! Já é hora do almoço?

DIABO – Sua fala me irrita, mas traz aí sua marmita?

BOIA-FRIA – Meu arroz com batata vale mais que ouro e prata!

DIABO – Do que morreu, pobre plebeu?

BOIA-FRIA – Fui numa rua atropelado, por um caminhão estatelado!

DIABO – Morreu de acidente, mas mesmo assim está contente! Odeio gente assim, ri até do próprio fim!

BOIA-FRIA – Há muito tempo ando de lotação, e vejo aí um velho busão. Para onde segue esse transporte parecido com o da região norte?

DIABO – Segue ele para a zona infernal, onde não há escola ou hospital.

BOIA-FRIA – Diabo, sei que não sou um dos seus, mas sigo sempre a vontade de Deus! Se meu destino é o castigo, é que fui joio ao invés de trigo!

DIABO – Odeio honestidade, e grande é vossa imbecilidade. Trabalhou a vida inteira, nunca tomando a dianteira, e agora acha que não merece o céu, cabeça de pastel?

BOIA-FRIA – Tentar-me não adianta, seu corno e anta! Espere aqui, chifrudo, por favor, vou até o outro busão confirmar a vontade do Senhor!

DIABO – Já vai tarde, idiota sem alarde!

BOIA-FRIA, na frente do ônibus celestial – Quem guia este busão aqui parado, de gente que já havia expirado?

ANJO – Eu, nobre trabalhador. Ouço suas palavras com grande amor.

BOIA-FRIA – Meu destino é o inferno, onde há castigo eterno?

ANJO – Não caia na conversa do diabo, aquele crápula de chifres e rabo. Por sua humildade, terá agora eterna felicidade. Pelas dificuldades vencidas, terá agora as dádivas merecidas. Pela compaixão com os seus, verás agora a face de Deus. (O boia-fria entra no Busão do Céu).

FIM

Luiz Fabrício de Oliveira Mendes – "Goldfield".