Capítulo I

Belo Horizonte, primavera.

Os raios de sol envolviam as copas das enormes palmeiras imperiais com sua luz, desenhando sombras pela calçada que dançavam com o vento fresco, típico de uma manhã primaveril. Pássaros cantarolavam um dueto com as risadas sapecas de crianças que passeavam com seus pais, de bicicleta ou acompanhadas por seus bichos de estimação. Sob as cabeças daqueles pacatos cidadãos, um céu de azul límpido adornava o topo dos belos edifícios e seus vinte e tanto andares. A tranquilidade da Praça da Liberdade havia se aliado à trégua do trânsito da capital devido às primeiras horas daquele domingo ensolarado e ameno.

Infelizmente, ela estava atrasada demais para admirar o belo cenário. Seus passos largos atravessavam apressadamente a praça centenária, ritmados pelos batimentos cardíacos acelerados e a respiração ligeiramente ofegante. Praguejava mentalmente a sua incrível capacidade de viver sempre meia hora atrás da vida e, o fato de terem se passado exatamente trinta e três minutos após o horário marcado para o seu compromisso matinal, em pleno domingo, havia deixado-a ainda mais enfurecida com a recente quebra do próprio recorde.

Seu vestido amarelo brincava desajeitado pelas coxas de pele alva, enquanto as sapatilhas tilintavam pelo caminho ladrilhado. Ela parou bruscamente ao perceber que havia chegado a seu destino, depois de alguns xingamentos em baixo tom quando errara a avenida endereçada e tivera que retornar dois quarteirões. Afobada demais para endireitar a própria vestimenta de tons alegres, conferiu no pedaço de papel atentamente o nome que também constava na placa do arrojado edifício branco de formas arredondadas à frente de seus olhos joviais.

- Biblioteca Pública Estadual Professor Luiz de Bessa. – Disse a si mesma, finalmente vencendo o seu arqui-inimigo, o relógio de pulso, que agora marcava trinta e sete minutos de atraso. Eram quase nove horas da manhã e o local fechava pouco antes de meio-dia. – Começando com o pé direito, que maravilha! – Resmungou, enquanto guardava o pedaço de papel de volta na bolsa de um marrom vintage.

Porém, o instante em que o ponteiro do relógio se preparava para apontar trinta e oito minutos de atraso, fora suficiente para que, distraída, a moça do vestido amarelo esbarrasse em alguém. Desajeitada, acabara por deixar o pedaço de papel cair ao chão, junto à sua bolsa, terminando por assustar o enorme cachorro que se interpôs entre ela e o desconhecido.

- Qual é! Não olha por onde anda!? – Reverberou de maneira mais alta do que previa, enquanto já se abaixava prontamente para pegar as suas coisas. Desnorteada, ela continuou a reclamar, agora não mais se importando com a gratuita falta de educação para com o desconhecido que entrara em seu caminho. – Por um acaso você é...

- Cego?

A voz masculina em flagrante tom de deboche chamou a atenção imediata da moça do vestido amarelo. Seus olhos se arregalaram ao finalmente identificarem que o enorme cachorro nada mais era do que um labrador de sedosa pelagem também amarelada, preso por uma coleira especial segurada pelas mãos do jovem que usava jeans surrado, all star vermelho, blusa branca e óculos escuros do tipo Wayfarer.

- Ah! Mil desculpas! – Ela se levantou de supetão, gaguejando enquanto segurava os seus pertences de maneira desengonçada. Não só havia batido o recorde de atrasos de sua vida, como também das situações mais vergonhosas que lembrava ter passado!

- Tudo bem. Não fui eu que não olhei por onde andava. – O moço de óculos escuros revidou em tom ríspido, fazendo-a corar instantaneamente.

E enquanto o relógio marcava trinta e nove minutos de atraso, a moça do vestido amarelo apressou o passo em direção à biblioteca estadual, saindo sem se despedir do rapaz cego e seu cão-guia e, ironicamente, agradecendo aos céus por ele não conseguir enxergar o quão sem graça ela tivera ficado.


Tentando esquecer o mal entendido que passara mais cedo, a moça do vestido amarelo se concentrava nas informações prestadas pela atendente da biblioteca estadual. Seus dedos finos passeavam pelo extenso balcão, inquietos, enquanto sua mente não conseguia parar o bombardeio de sarcasmos a todo o momento. Foi lhe entregue uma ficha para que preenchesse com os seus principais dados, enquanto a atendente continuava com suas explicações, educadamente.

- Ficamos sempre muito animados quando pessoas aparecem aqui na biblioteca interessadas no trabalho voluntariado. – Ela dizia. – A propósito, como foi que você tomou conhecimento que estávamos precisando de voluntários?

- Minha avó... Ela passou anos como voluntária em orfanatos. Então sempre tive interesse em pesquisar essas coisas. – Respondeu timidamente, de maneira casual, entregando a ficha de inscrição para a atendente.

- Entendo. – A mulher lia rapidamente as informações, com um sorriso complacente no rosto. – E seu nome é... Ana. Ana...?

- Só Ana. – Disse a moça do vestido amarelo, incomodada por decepcionar a ligeira expectativa da atendente por um segundo nome.

- Entendo. – Repetiu a atendente, deixando o sorriso tornar-se ligeiramente amarelo. – Vejo que você também não é daqui, da capital. Mudou-se com sua família a pouco tempo?

- Na verdade... Eu vim sozinha... – Ana pigarreou. Odiava responder as vazias perguntas "só-para-puxar-conversa".

- Entendo. – Repetiu pela terceira vez, enquanto carimbava mais alguns papéis, aquela burocracia do serviço público de sempre. – Então, Ana, animada para começar? – A mulher voltou sua atenção para a jovenzinha do outro lado do balcão.

Ana acordou de suas momentâneas indagações sobre quantos "entendo" a atendente da biblioteca deveria dizer por dia. Piscando curiosamente os olhos, ela esqueceu a boca entreaberta por mais alguns instantes, ainda perdida da realidade desde o fatídico trombo com o desconhecido mais cedo.

- Você quer dizer... Que já posso começar hoje? – Finalmente perguntou, aos poucos colocando as ideias no lugar.

- Claro. – A atendente alargou o sorriso. – É um serviço voluntário, só precisávamos de alguns dos seus dados.

- Então... Eu... Já posso começar a leitura oral para... – Ana vacilou, engolindo em seco. As palavras ríspidas do jovem rapaz ecoando em sua cabeça: - Os cegos?

A desastrada moça do vestido amarelo, ao perceber as palavras que acabara de escolher, sentiu as bochechas levemente salpicadas por sardas queimarem instantaneamente.

- Na verdade, eu quis dizer... Você sabe... As pessoas com deficiência visual... Digo... As pessoas que vou fazer a leitura... Bem... – Atropelava-se nas próprias palavras, fazendo com que a atendente olhasse-a de certa forma com pena.

- Não se preocupe, mocinha. – Disse a mulher em um tom extremamente dócil e compreensível. – A maioria das pessoas que vêm até nós, querendo ser voluntários, nunca teve contato com esse público. É normal que você se sinta um pouco perdida na maneira que vai conduzir o trabalho ou na maneira que vai se comunicar com eles. Mas se for do seu real interesse em continuar frequentando a biblioteca aos domingos, tenho certeza de que logo você irá se acostumar. E grande parte sequer se sente ofendida quando é chamada de "cego", muito disso é senso comum.

Ana simplesmente não conseguia se acalmar, repetindo para si mesma o quão azarada fora de ter encontrado com a minoria que realmente se sentia ofendida! Enquanto isso, ela era guiada pela mulher de meia idade pelos corredores repletos de prateleiras e em pouco tempo, as duas haviam chegado ao setor de braile e áudio-livros da biblioteca.

A atendente indicou uma cadeira vazia em uma das mesas redondas de estudo e leitura no canto da ampla sala. As demais estavam ocupadas por outros voluntários, os quais liam em baixo tom textos acadêmicos e científicos, ou corrigiam gabaritos de provas para os deficientes visuais.

- Agora é só esperar que alguém chegue. E não se esqueça de ajudar a indicar a sua mesa para a pessoa. Espero que goste do trabalho, qualquer dúvida, pode me procurar no balcão principal. – Disse a mulher, afastando-se da mesa aos poucos.

- Espere... – Ana balbuciou, levemente envergonhada. A atendente virou-se em sua direção, esperando que a menina continuasse. – Eu pensei... Que iria ler... Você sabe... Livros... Normais? – Ela perguntou, receosa se teria sido clara o suficiente.

- A maioria que procura o serviço voluntário precisa de ajuda para corrigir gabaritos de concursos públicos, ou estudar para provas de vestibular. – Sorriu a atendente, como se escondesse uma pequena surpresa, ao ver o ligeiro olhar de decepção da jovem sonhadora de vestido amarelo. – Mas não se preocupe, nosso público é bastante heterogêneo, tenho certeza de que você terá a oportunidade de compartilhar a literatura nacional e estrangeira com alguém.

E sem mais delongas, Ana ficou sozinha, sentada à mesa do canto daquela ampla sala, esperando a primeira oportunidade para começar o voluntariado que se propôs a participar naquela capital. Num suspiro, sua mente rodopiou, ainda não conseguindo acreditar na ironia que havia passado mais cedo, culpa das suas manias incorrigíveis de viver atrasada.

- Será que ele estava saindo da biblioteca? Será que ele frequenta a seção de braile? – Indagou-se mentalmente, seus cotovelos apoiados na mesa e o olhar distante. – Cego... – Suspirou, aquela palavra vagando dentro de si. – Vovó, sinto tanta a sua falta... A vida aqui parece que vai ser tão diferente do que estava acostumada no orfanato...

Ana olhou pela janela, as memórias de sua infância mesclavam-se com as flores que dançavam pelo clima primaveril. Flores de um Ipê. Amarelo.