Capítulo VII

Biblioteca Pública Estadual Professor Luiz de Bessa. E um poema de Oscar Wilde.

Ana tentava se concentrar nas palavras contidas no pequeno livro de uma capa azul simplória. Sua mente implorava para focar nas estrofes com seus versos ritmados e em sua voz aguda e estridente para que encontrasse um tom suficientemente audível sem que atrapalhasse o restante dos deficientes visuais e seus respectivos leitores voluntários nas demais mesas de estudo da biblioteca.

Contudo, uma voz insegura teimava dentro de si que todos os seus esforços estavam sendo em vão. Ainda que ela deixasse fluir nitidamente cada palavra do poeta escolhido, ou que tentasse suprimir pensamentos inconvenientes, limpando a sua mente para ajudá-la a reencontrar a história narrada em sonetos, Ana sabia ao fundo que estava sendo constantemente flagrada a cada instante em que sua voz falhava miseravelmente, num ligeiro gaguejo ou numa mudança brusca de tom. Não adiantava mentir para si mesma, se o belo rapaz que se encontrava bem à sua frente, quem justamente não poderia enxergá-la neste estado tão patético de nervosismo, também já havia percebido claramente o quão a jovem moça estava envergonhada.

Eram ações e reações que se espelhavam e apenas contribuíam para agravar o estado de timidez da garota e, consequentemente, a leve irritação na fina linha constante nos lábios de Caleb, em contragosto.

Ana iniciava uma nova estrofe, fazendo jus a uma leitura com dicção impecável, capaz de prender a atenção e transportar para o mundo narrado naquela obra o ouvinte sentado à sua frente, o atraente rapaz cego com quem havia ironicamente esbarrado semana passada, que descobrira tragicamente que conviveriam na mesma casa, feito irmãos, poucos dias depois e... E lá se ia pela enésima vez todo um esforço descomunal em dar prosseguimento ao poema de maneira clara e objetiva.

Quando Caleb ouviu a voz dela falhar pateticamente em mais uma ocasião, ele já não possuía mais paciência. Era evidente que Ana ainda se sentia encurralada na presença dele, afinal de contas, ambos possuíam uma dificuldade titânica em falar abertamente sobre o problema em que se viram atados, morando juntos graças a um capricho de seu pai, o Dr. Miguel Bittencourt. No mesmo momento, a jovem retornava os seus pensamentos nas imagens surreais em se ver colocando a sua mão, gentilmente, nas de seu "irmão irritante". Simplesmente ainda estava desacreditada no tamanho da coragem que possuía! Ao digerir a hipótese de que o seu desencadeamento de ações como propor uma trégua e enfrentar frente a frente aquele rapaz arrogante haviam culminado em um frágil acordo tácito, Ana sentia-se agora zonza, como se o retorno à realidade, de maneira tão brusca, tivesse danificado os seus sentidos mais básicos.

Ela havia transposto uma grande barreira sem perceber, o que só agravava a sua sensação de incômodo perante Caleb. Estava sendo cada vez mais insuportável ter os misteriosos olhos dele por trás daqueles óculos escuros em sua direção, ainda que ela soubesse muito bem que ele era incapaz de enxergá-la. Ana havia caçoado dele e, logo em seguida, pedido desculpas com um gesto ingênuo e puro, mas que ao mesmo tempo quebrava totalmente a distância segura que ambos haviam estabelecido a duras penas. Ela adentrara em território inimigo e não podia deixar de se sentir ameaçada, mesmo que no fundo ele tivesse demonstrado sinais minimamente suficientes de que, pelo menos, não pretendia mais surtar com ela. Um grande avanço feito a poucos minutos atrás, de fato.

Então como Ana conseguiria fingir uma normalidade nunca antes sentida na presença dele? Como poderia agora ela esquecer simplesmente de todos os problemas que haviam atado os dois e se concentrar no maldito poema?!

Suspirou, sentindo-se exausta mentalmente. Cada instante que castanhos curiosos iam de encontro com a exuberante figura masculina a sua frente, ela sentia seu estômago revirar ainda mais. Caleb nunca havia sorrido sem se blindar com o seu sarcasmo costumeiro e a sua grave voz cínica e venenosa. Não até pouco tempo atrás... Uma imagem captada em velozes segundos, mas que foram suficientes para eternizá-la em sua mente. Chegava a ser perturbador o quanto ele conseguia ser ainda mais bonito! As leves covinhas em suas bochechas se acentuavam mais, ela se recordava de dentes perfeitamente brancos e alinhados naquele sorriso charmoso emoldurado por seus lábios finos e bem contornados. A pele clara não possuía quase nenhuma imperfeição, tão somente alguns quase imperceptíveis fios de sua barba por fazer para dar o ar da graça. Os cabelos castanhos em tons acobreados caíam ligeiramente em seu rosto devido ao corte mediano, contrastando com suas espessas sobrancelhas e sua trincheira impenetrável que era o par de óculos escuros que utilizava. Caleb era esguio e bastante alto para um rapaz de vinte e um anos de idade, chegando pouco mais de um metro e oitenta centímetros bem distribuídos em seu físico magro, mas esbelto, sempre bem vestido em roupas despojadas e tênis All Star.

Definitivamente ele era lindo. E intocável. Um poço de espinhos que havia prometido deixá-la em paz, após tantas insistências corajosas e suicidas. Mas agora Ana havia caído numa armadilha sem volta ao sentir-se drenada para o fundo, instintivamente, cada vez que se pegava fitando-o à sua frente, falhando na leitura do poema de novo e de novo e de novo... Não adiantava mentir para si, sabia muito bem o quanto queria descobrir os mais profundos segredos daquela personalidade arredia e explosiva que Caleb possuía, ainda que já previsse que isso poderia lhe trazer danos dolorosos por demais e...

- Terra chamando Lua. Houston, nós perdemos contato com uma astronauta, câmbio.

A grave voz masculina, em um tom casual, despertou-a subitamente. Ele continuava de frente para si, cotovelos apoiados na mesa e um meio sorriso malandro que já havia se tornado sua marca registrada para ela. Ana engoliu em seco, percebendo que estava fazendo papel de ridícula, pra variar. Pensou em se desculpar, mas segurou sua voz tão logo se lembrou do quanto isso poderia irritá-lo sem necessidade, vez que ele a havia alertado, à sua maneira, que era inútil proferir tal palavra só porque ela se sentia encurralada ou pega de surpresa. Ironizou mentalmente o grande avanço que ambos haviam feito, pois graças à surpreendente conversa de outrora, agora ela se encontrava perdida em tantas possibilidades novas, preocupada em como Caleb poderia reagir, que acabava por deixá-la simplesmente de mãos atadas.

- Sem neuras, Ana-só-Ana. – Ele retomou a palavra após um pequeno silêncio constrangedor invadir o ambiente, fazendo com que a moça finalmente percebesse que ainda se encontrava boquiaberta ponderando as mil e umas formas adequadas de respondê-lo. – Se continuar desse jeito você vai acabar fugindo correndo de mim e eu ficarei aqui, falando sozinho nessa biblioteca pela segunda vez por sua causa. – Um sorriso arrogante crispou-lhe os lábios, como se ele conseguisse enxergar o estado confuso dela tranquilamente. Ana o xingou baixinho, furiosa por se esquecer por alguns minutos que, com trégua ou sem trégua, ainda se tratava de Caleb Bittencourt e o seu humor ácido característico.

- Você não está ajudando em nada. – Ela o acusou, cruzando os braços num trejeito infantil, provocando uma risada abafada dele por causa de sua voz mimada. Ele realmente adorava se divertir às custas da timidez dela tanto assim?! Ana rolou os olhos, contrariada, já imaginando a possível resposta.

- Muito bem. – Caleb endireitou as suas costas largas no encosto da cadeira, evitando expressões na defensiva. – O que posso fazer para que você consiga se concentrar na leitura do poema, "irmãzinha"? – A jovem estreitou seus olhos em direção àquele rosto traiçoeiro.

- Sumir da minha frente seria uma boa ideia. – Resmungou, por fim.

- Está vendo?! Eu não fiz absolutamente nada além de perguntar o que tanto te incomoda, e é assim que sou recebido! – Caleb gargalhava sutilmente, evitando chamar a atenção do restante da biblioteca para ambos. Sua voz grave forçadamente ingênua estava deixando Ana nos nervos.

- Não banque de santo pro meu lado, garoto.

- Eu nunca disse que sou um. – Ele alargou o sorriso cínico, como se conseguisse ver nitidamente as bochechas dela inundarem em vermelho devido à timidez e à raiva que ele conseguia incendiar nela. – Whatever. Não vim perder a minha manhã de domingo com uma voluntária que não sabe ler. E creio que poucos irão até você procurando ajuda com literatura "normal". – Disse, fazendo com que Ana se recordasse de sua primeira conversa com a secretária da biblioteca, quando fora alertada de que a maioria dos deficientes que procuravam o serviço voluntário visava ajuda específica em relação à leitura de livros didáticos e correção de gabaritos de provas diversas. Para o seu azar, Caleb provavelmente havia ouvido boa parte do diálogo, descobrindo a ligeira decepção de Ana para com o seu primeiro dia como voluntária. Se voluntariando, inclusive, para ser o único ouvinte ideal para ela. E desde então, a vida de Ana não parara de rodopiar...

- Esse seu tom de voz metido a esperto... – Ela retomou a palavra, pedindo aos deuses desesperadamente que lhe devolvessem àquela coragem de outrora. – Por um acaso você está me propondo um acordo? O "rapaz que não aceita tréguas", propondo um acordo, comigo?! – Perguntou-lhe enquanto sentiu uma de suas sobrancelhas se arquear, mordaz.

- Mais uma vez, interprete como quiser, Ana-só-Ana. – Caleb lhe respondeu, saindo pela tangente do mesmo modo magnífico com que ela já estava começando a se habituar. – Eu estou curioso com o final do poema. E acredito que você não quer continuar nesse papel patético de patinho feio. – Atacou, adiantando-se antes que a jovem de voz estridente e irritante começasse a tagarelar possessa: – Acho que posso ajudar a resolver o seu problema. – Sorriu por fim, astuto.

- Você não deve ter uma audição tão boa assim a ponto de conseguir me ouvir quando sumir da minha frente. Caso contrário, acho que não teremos solução. – Ana resmungou, desacreditada.

Contudo, ela sentiu um ligeiro sobressalto ao ouvir a cadeira dele rangendo preguiçosamente sob o chão da ampla sala. Caleb se levantou e retirou sua bengala dobrável de dentro do bolso de sua calça jeans, tentando localizar Baunilha, que cochilava tranquilamente abaixo dos pés da mesa de estudos. Num rápido movimento, o labrador se colocou próximo às pernas de seu dono, abanando o rabo animadamente.

- Aonde você vai? – Ana perguntou, evitando gaguejar pela surpresa e flagrante insegurança que ainda sentia com relação às ações daquele rapaz arrogante e maluco. Honestamente, ela não se espantaria se ele surtasse novamente e desaparecesse daquela biblioteca, jogando num abismo todos os esforços dela nos últimos dias com uma facilidade desumana.

- Sumir. – Ele se limitou em sorrir, enquanto pegava em mãos a guia especial de seu cachorro. Deu alguns passos um pouco perdidos entre as demais mesas de estudo, sendo auxiliado por Baunilha, que o ajudava a desviar dos obstáculos no caminho, enquanto Ana seguia-os, confusa. Até que por fim, ambos, mestre e cão-guia, pararam próximos a uma pequena porta aos fundos de um dos corredores que alocavam as diversas prateleiras de livros. – Você vem, Ana-só-Ana? – Ele perguntou, direcionando a sua voz para trás de seus ombros largos.

- Pensei que tivesse dito que iria sumir. – A resposta não tardou a vir, a voz feminina dela se aproximando pouco a pouco, ligeiramente relutante.

- E vou. Para te ajudar a se concentrar no maldito poema. – Caleb completou, por fim, alargando o sorriso quando suas mãos encontraram uma maçaneta bastante conhecida. – Bem-vinda à sala da União Europeia. Nosso mais novo esconderijo secreto.

Ana desviou seus olhos curiosos para uma placa velha de metal em cima da entrada daquela pequena sala, escrito "Acervo – União Europeia". Logo em seguida, ouviu Caleb abrindo a porta, caminhando com o labrador amarelo em direção ao interior do local.


As instruções haviam sido suficientemente claras. Caleb sentaria no chão ao lado da prateleira de livros velhos e empoeirados, os quais fediam a mofo, desaparecendo em meio ao acervo antigo da sala mais abandonada de todo aquele edifício. Em contrapartida, Ana deveria se assentar do lado oposto, certificando-se que por todo o campo de sua visão ela só encontraria livros e mais livros dispostos nas estantes ou, na "pior" das hipóteses, o focinho gelado de Baunilha iria lhe fazer companhia, haja vista que o labrador preguiçoso parecia ter encontrado na mais nova moradora do luxuoso apartamento dos Bittencourt uma cúmplice para com seus planos de amolecer o coração do rabugento dono.

Absolutamente ninguém frequentava o acervo da União Europeia, esquecido numa salinha antipática ao fundo de um dos vários corredores da biblioteca. Caleb havia se certificado de fechar a porta, de modo que nenhuma alma viva ou penada os atrapalharia na leitura do poema de Oscar Wilde. Era o ambiente perfeito que simulava a zona de conforto e segurança com a qual Ana conseguira, bravamente, propor uma trégua numa das noites no lar dos Bittencourt. Entretanto, em vez da porta do quarto do belo rapaz, eles teriam os livros como únicas testemunhas.

- E então? – Ele perguntou impacientemente, sua voz ultrapassando a barreira de palavras e páginas amareladas. – Você finalmente vai me contar o final desse maldito poema ou não?!

Ana não conseguia suprimir um sorriso bobo, surpresa pelos esforços de Caleb em minar com as inseguranças dela. Definitivamente ele não era o maior dos exemplos em gentileza ou empatia, ela sabia disso muito bem, mas não podia deixar de se surpreender com o jeito tão especificamente dele em demonstrar que estava disposto a não mais infernizar a vida dela, em troca de boas histórias para serem lidas. Havia ainda uma infinidade de perguntas não respondidas, mas talvez, em meio às prateleiras daquela biblioteca, algum dia Ana conseguiria desvendar todos os pormenores da personalidade dele de que tanto ela estava curiosa a respeito...

- Tenho que confessar que você teve uma ideia genial. Ainda que eu saiba que possa me arrepender disso, pois vai te dar a chance de ficar insuportavelmente metido. – Ela riu entre dentes, procurando a página correta em que ambos haviam pausado a leitura.

- Impressão minha ou você está fazendo os piores juízos de valor em relação à minha pessoa, Ana-só-Ana? – A grave voz dele, se fazendo de vítima, cantarolou em meio as estantes, seguido das risadas tímidas de ambos.

- Foi você quem começou, garoto. – Ela se defendeu.

Do outro lado, Caleb se espreguiçava tranquilamente, percebendo que apesar do irritante tom demasiadamente agudo e feminino, a voz de Ana possuía um bom-humor contagiante com o qual ele ainda não havia se permitido analisar profundamente, seguida de uma risada leve, sem grandes pretensões por trás, que transmitiam paz de espírito.

Sem perceberem, ambos haviam passados longos minutos sentados cada um de um lado da velha estante, conversando sobre a história presente no poema, das sensações que os dois haviam conseguido captar até então. Uma conversa simples e casual que até poucas horas atrás lhes parecia praticamente impossível, pelo fato de se verem atados em uma guerra sem sentido.

- Eu não imaginava que você havia gostado tanto da história por causa das descrições do poema. – Ana tagarelava, ingenuamente. – Acho que você tem um interesse especial nos momentos que o autor usou de cores e sinestesias nas descrições dos sentimentos do personagem.

Contudo, um inesperado silêncio tomou conta da sala da União Europeia. Ana piscou os olhos, ligeiramente confusa. Teria ela feito uma afirmação que invadia a privacidade de seu complicado ouvinte? Era expressivamente difícil lidar com a deficiência visual de Caleb, seja pelos próprios preconceitos que Ana aos poucos percebia ter em relação a este tema, seja por ainda possuir uma grande distância dos segredos dele e de como ele interpretava as suas limitações e o fato de enxergar o mundo em uma escuridão sem fim.

Ao se dar conta de suas próprias palavras mentalmente, um gosto amargo invadiu-lhe a boca, uma sensação de incômodo retornou a alojar em seu estômago. Caleb não enxergava cores, tampouco formas e feições como ela e a maioria das pessoas conseguia. Ter a real noção do que aquilo representava era como levar, de repente, um forte soco no abdômen. E, novamente, uma terrível insegurança começou a corroer a pobre garota por dentro, na medida em que o silêncio se arrastava, pelo medo de que ele voltasse a se isolar em suas próprias barreiras e abandonasse Ana à deriva de suas tentativas em entendê-lo e se aproximar dele.

- Eu... Eu não quero ficar me desculpando a todo momento... – Ela balbuciou, indecisa se o fato de não mais conseguir ver as expressões no rosto de Caleb teria sido a melhor decisão, ainda que soubesse que tê-lo frente a frente de si piorava, exponencialmente, a sua sensação de vergonha. – Mas não quis incomodá-lo com esse assunto... Saiu sem querer... E eu nunca sei como você... "Vê"... Tudo isso... – Confessou, por fim, tomando um longo suspiro.

Ana já se preparava para desistir e sair da sala com a pior expressão possível de derrota, torcendo para que passasse despercebida por entre as estantes de livros, ainda que isso significasse a fúria dele em ser deixado pra trás, falando sozinho. Mas ela não podia lutar de igual para igual com instintos tão fortes em fugir quando se sentia encurralada. Ana ainda era, infelizmente, uma garota fechada.

Porém, para a sua surpresa, o silêncio fora cortado pela grave voz dele. E ela não pôde ter certeza se a presença de tantos livros a deixava mais calma no fundo ou se de fato Caleb estava também tentando se esforçar do outro lado da grande estante. Mas Ana soube, no momento em que aquele tom embalou os seus ouvidos, que a voz de Caleb nunca antes havia soado tão gentil para com ela.

- Tudo bem. É natural que as pessoas tenham curiosidade sobre a cegueira. É normal que você faça suposições sobre essa... Condição minha... Tão diferente da sua...

- Sim, mas eu não quero invadir a sua privacidade! – Ana antecipou a fala em um tom levemente desesperado tão logo percebeu que a voz dele morria vagarosamente, sentindo-se inquieta do outro lado, presa num corredor de livros velhos. Queria se levantar dali o mais rápido possível, transpor a barreira de estantes entre ambos, ter certeza pelas expressões dele de que realmente tudo estava bem, de que eles não iriam regredir. Uma vontade tola que sem perceber havia incendiado o seu coração sem tantos motivos, surpreendendo-a com as próprias palavras atropeladas que havia dito.

- Talvez você ficasse menos alarmada se, em vez de fazer suposições, perguntasse diretamente para mim. – Ela ouviu-o dizer pelo outro lado, jurando que podia ver o seu sorriso ligeiramente petulante reacender em seu belo rosto de marfim. E, ironicamente, pela primeira vez aquilo não a havia deixado irritada. Pelo contrário, havia-a tranquilizado como nunca. Como se ele dissesse, entrelinhas, de que o velho Caleb não havia desaparecido e abandonado-a por causa de um mero deslize.

- Eu pensei que você não estava disposto a responder minhas perguntas curiosas com tanta facilidade. – Ela confessou enquanto olhava para o chão, enroscando suas pernas entre os braços, abraçando seus joelhos num tom defensivo.

E do outro lado da prateleira de livros velhos, Caleb sorriu. Genuinamente.

- Mas é claro que minhas respostas têm um preço. – Respondeu-lhe, soberbo. – Contanto que eu também faça as minhas próprias perguntas e você terá que responder... Digamos que isso é um acordo. Mais um.

- Não imaginava que você poderia ser tão diplomático, garoto. – Ana ainda encontrou fôlego para implicar com ele, seguido da risada de ambos. Sentiu-se extasiada por um breve momento.

- Você sempre fazendo os piores juízos de valor sobre mim, Ana-só-Ana.

A garota limitou-se em sorrir, fitando as prateleiras cheias de livros à sua frente. A partir de então, em cada domingo, aquela sala seria o esconderijo secreto deles. Ela poderia cumprir a parte de seu acordo, lendo diversas histórias para o seu ouvinte, protegida por uma barreira feita de palavras e páginas amareladas. Ela, inclusive, poderia lhe fazer perguntas, desde que fosse justa o suficiente de lhe responder as indagações que ele eventualmente pudesse lhe fazer a respeito de si mesma. E de acordo em acordo, ambos aos poucos poderiam concretizar a almejada trégua. E saciar algumas curiosidades.

Esperançosa, Ana se pôs a ler, determinada a chegar até o final do poema de Oscar Wilde, de maneira clara e com a sua dicção perfeita. Contudo, Caleb acabou por interrompê-la nas primeiras estrofes, confuso a respeito se ela não estaria mais interessada em saber a resposta dele sobre o seu suposto interesse nas cores e sinestesias descritas no poema justamente por não enxergar o mundo como ela o fazia. Porém, para a surpresa do intangível rapaz, Ana respondeu-lhe simplesmente, com uma voz que, se possuísse alguma cor para descrevê-la, ela seria amarela:

- Tudo bem, Caleb. Você pode me responder quando se sentir confortável em fazê-lo. E eu vou esperar a sua pergunta em troca. Nós temos um acordo.