Amo quem sou

Faltam dois minutos para as 3 da manhã e eu estou pensando. Estava jogando, mas a internet caiu. Então parei pra ouvir música e me remexi na cadeira. Quando me mexi, senti o cheiro da minha vagina. Perereca, buceta, piriquita, sei lá como você prefere chamar. Sei lá se você pensa que essa palavra é horrível e não deveria estar num texto. Ela está, aceite. Enfim. Eu senti o cheiro da minha vagina. Eu tomei banho pela manhã (de ontem, já que está de madrugada), por isso ela não deveria estar cheirando a nada, mas provavelmente é porque há pouco me masturbei e não troquei de calcinha.

Você está excitado/a ao ler isso? Bem, não fique. Esse não vai ser um texto do tipo "quero atiçar você". Esse vai ser um texto do tipo "eu", assim como todos os outros – só que esse é um pouco mais erótico. Enfim, quando o cheiro sobe desse jeito, eu sempre fico um pouco reflexiva.

Eu estou excitada. Com o meu próprio cheiro. Porque eu imagino como seria o cheiro de outras vaginas misturados aos meus, como seria esfregar o meu clitóris no de outra pessoa, e como seria tocá-la. Eu penso nessas coisas. Todo mundo pensa nessas coisas. É incrível como a sociedade meio que reprime que a gente toque nesse tipo de assunto. Eu fico nervosa só de digitar isso, porque, sei lá, a CIA pode estar me observando. Isso é o que a sociedade faz com a gente. Ou o que a gente faz com si mesmo por causa da sociedade.

Será que a pessoa que canta essa música que estou ouvindo agora pensou que alguém estaria escutando-a de madrugada e pensando nessas coisas? Será que ela já cogitou a quantidade de pessoas que escuta a voz dela quando está feliz, quando está triste, quando está no mercado, quando está pronto para se suicidar? Isso é incrível. Estar em todos os lugares. É quase como ser onipresente. É quase como ser Deus. A internet é um ser superior. Ela está em todo lugar, e interliga pessoas de todos os cantos, e informações de todos os cantos. A internet é um Deus.

Mas também não é sobre isso que esse texto se trata. É sobre mim. Foda-se a internet. E a pessoa cantando. O cheiro. O meu cheiro. Isso que importa. Ultimamente eu tenho questionado minha sexualidade. A dúvida "Lésbica ou bissexual?" passeava pela minha mente. Eu não acho que eu tivesse dúvidas em primeiro lugar. Eu sei o que sou, eu sei quem eu sou.

Mas a dúvida bateu, porque ser bissexual não é fácil. Muitos não aceitam – ou não aceitarão, já que eu não contei pro mundo minha sexualidade (ela não é a parte mais interessante sobre mim) que eu goste de mulher, mas eles se acostumam. Agora, eu ser bissexual? É um absurdo. A típica pergunta sempre vem "Ué, mas você não pode escolher entre um e outro?"

E eu sei que, quando eu contar, vão dizer "Ué, mas se você é bi, porque você não escolhe só ficar com homens e faz tudo bonitinho?" Porque não É ASSIM. Eu não sou hétero. Eu não sou lésbica. Eu sou bissexual. BI. Bissexual. Sou os dois ao mesmo tempo, se você quiser. Hétero e lésbica. Foda-se esses rótulos. Mas eu gosto de homem e de mulher, de mulher e de homem. Não tem isso de "escolher" entre um e outro. Se eu me apaixonar por uma mulher, eu me apaixonei. Se eu me apaixonar por um homem, eu me apaixonei. Se eu quiser transar com um homem ou com uma mulher, eu quero. Se eu quero beijá-los, eu quero. Não importa se a pessoa tem uma vagina ou um pinto dentro das calças. Eu gosto dos dois, mesmo.

Não tive experiências com mulheres, apesar disso. Nenhum tipo, quero dizer. Nem mesmo beijo. Selinho já, mas coisa boba. Beijos não. Nenhum beijo. Nada de sexo. Nada de oral. Nada de nada. Uma menina já me quis, e eu já quis uma menina. Eu dei um fora na menina que me queria, e levei um fora da que eu queria. As coisas são assim. Mas um dia eu vou ter. Talvez. Bem, eu quero ter. Quero experimentar os dois lados da moeda. Quero beijar uma menina, passar a mão por seu cabelo, sentir os seus seios encostarem nos meus e nossas vaginas se esfregarem. Quero passar as mãos por suas coxas e subir, e saber exatamente onde devo colocar meu dedo, porque tenho algo idêntico comigo.

E também quero fazer isso com um homem, já que nunca fiz. Não sexo. Perto disso, já. Minha imaginação não é tão intensa com caras. Eu imagino eu estando debaixo dele, e ele está metendo em mim e eu estou gemendo e tocando todas as partes do corpo dele que eu consigo.

Eu imagino ele/ela dizendo que eu sou linda. Beijando meus lábios no meio do sexo, passando a mão pela minha bochecha, rindo comigo, descobrindo do que eu gosto e aonde eu gosto enquanto eu descubro do que ela/ele gosta e aonde ele/ela gosta. Os detalhes, os momentos, as sensações. Com ambos. Esta noite penso em meninas, talvez por causa do cheiro da minha vagina.

Ser bissexual não é ser indeciso. Ser bissexual é amar e desejar os dois lados da moeda. É querer lamber uma vagina e lamber um pênis, tocar um peitoral e tocar mamilos. É muito simples. Eu amo os dois. Eu quero os dois. Eu penso nos dois. Queria que as pessoas entendessem, mas a mente fechada delas não permite. Elas não entendem que eu não escolhi sentir atração sexual por ninguém. Eu só sinto, e é assim. E eu amo o que eu sou. Acho que é desnecessário dizer, mas eu me amo. E eu me amaria se eu fosse hétero, transexual, lésbica ou qualquer coisa.

Eu sou feliz como eu sou e com as coisas que eu gosto. Eu sou feliz nessa madrugada, com o meu próprio cheiro impregnando o ar enquanto eu escuto uma música de batida irritante. Minha respiração e o sangue correndo por minhas veias. Meus pensamentos e meus segredos e as imperfeições do meu corpo e da minha personalidade. Eu me amo, eu amo quem eu sou.