Adeus, adeus, adeus

Sinto falta de quando as coisas eram ruins. Bem, não exatamente. Não sei explicar. Ainda assim, sinto falta de acordar tarde e dormir mais tarde ainda. De faltar aula todos os dias, sem ter ninguém se importando. De comer besteiras compulsivamente e poder gritar jogando de madrugada, de me masturbar sem medo de alguém me encontrar e de ouvir música no máximo.

Eu gosto de agora ter pessoas que se importam comigo e cuidam de mim. Realmente gosto. Gosto de ter um almoço saudável todos os dias, de poder ir para uma faculdade, de comprarem o que eu peço. Ainda assim, eu sinto um pouco de saudade de quando as coisas estavam horríveis. Acho que porque eu me sentia completamente distante do mundo real, e isso era bom.

Era bom não precisar fazer nada, não ser nada, não se importar com nada. Éramos só eu e a minha internet o dia inteiro e a noite inteira e eu decidia quando parar. Sem responsabilidades ou compromissos, apenas o meu sorriso e berros ao longo da madrugada enquanto eu era morta no LoL ou enquanto conversava animadamente com pessoas no Skype.

Agora, tenho limites. Posso fazer coisas que não podia fazer antes, como sair, não ser obrigada a assistir o que alguém quer que eu veja. Aqui, não apanho de ninguém. Mas por que ainda assim eu sinto que tem algo fora do lugar? É como se eu tivesse me acostumado tanto com a discórdia que agora sinto falta dela.

Antes, eu queria muito me mudar. Muito. Depois, isso deixou de fazer sentido. Porque não era só a situação que estava ruim, eu estava quebrada. E eu me levaria pra onde quer que fosse. Logo, eu estaria destruída e me destruiria aonde quer que eu estivesse. Me sentiria mal aonde quer que eu fosse. Nada acontece. Eu me sinto vazia. E triste, às vezes, mesmo que sem motivo.

Minha vontade de transar se foi. Minha vontade de beijar se foi. Minha vontade de sair com amigos, de me divertir, tudo se foi. Eu gostei de viajar, mas a viagem só me provou que eu posso ser incrivelmente feliz sozinha, sem frescura, sem gente me incomodando. Não quero mais ter que conviver com o mundo ou comigo mesma.

De uns tempos pra cá, deixei de pensar em suicídio. Nesse ano inteiro, só me cortei duas vezes. Parece que as coisas estão melhorando, minha pele diz isso, minha cabeça diz isso, mas ainda assim... Fora do lugar. Eu. Todos. Alguma coisa. Não sei explicar. É como se eu sentisse falta dos problemas e de toda a merda.

Eu gostaria que meu pai estivesse morto. Antes eu me sentia um pouco mal de pensar isso sobre o meu próprio pai, mas é verdade. Ele não faz diferença alguma. Mesmo longe, ele ainda é um incômodo. As partes ruins dele superaram todas as partes boas que eu amava. Sinto que estaria satisfeita se ele morresse.

Às vezes penso que todos que conheço poderiam morrer que eu não me importaria. Ou eu mesma gostaria de morrer. Simplesmente não consigo sentir o amor ou os laços que me unem às pessoas que sei que gosto. Assim como perco a vontade de fazer meus hobbys. Por mais que eu ame e me importe, tem horas que esses sentimentos somem. Às vezes só queria morrer.

É cansativo. E sem sentido. Eu ainda me sinto um pouco culpada por dizer que gostaria do meu pai morto, na verdade. Mesmo quando nos falamos, eu não consigo sentir nada. Só tédio, e talvez um pouco de rancor. Quando fiquei sem falar com ele, eu chorava e sonhava com ele frequentemente, pensando em como eu o amava e em como ele era um imbecil. Agora, não o amo mais e não ligo mais, apesar de falar com ele. Interessante, não?

Enfim. Estou cansada. Cansada de tudo isso. Faço o que querem que eu faça, pois não sinto vontade de alcançar nada ou ser nada. Também não quero ir a um psicólogo tentar resolver isso. Quero que o dia acabe. Quero que o mundo acabe. Quero que tudo termine nesse exato momento. Adeus, adeus, adeus.