A mulher dos olhos negros
por Milena Dias


Minha vida nunca foi das melhores. Eu nunca fui uma boa pessoa. Realmente não tenho nada de bom a acrescentar a alguém. Eu poderia apenas passar por essa vida, desta maneira ou de outra, que provavelmente minha significância iria ser a mesma. De fato, nunca tive expectativas além da minha realidade.

Porém, eu nasci nesse meio. Faço parte dele tanto quanto ele faz parte de mim. É natural e aceitável.

- Quanto você custa?

Então por quê, uma pessoa como ela, estaria aqui de maneira totalmente inédita, falando isso para mim?

Digo...

- Acho que você entrou no lugar errado. A loja de griffe fica daqui a dois quarteirões.

- Esse tanto está bom para você? – Ela disse, mostrando algumas notas de dinheiro.

Olhei-a surpreso. E foi aí que passei a enxergá-la.

Suas roupas de marca não me surpreenderam. Sua pele perfeita não me era inédito. Seus cabelos sedosos não eram inesquecíveis – era normal eu conviver com esse tipo de mulher.

Mas os seus olhos...

- Por quanto tempo?

- Apenas essa noite.

Eles tinham um brilho misterioso. Negros, simplórios e estranhamente complexos. Pareciam guardar muito mais do que sua superfície nebulosa mostrava.

Não entendia o motivo desta mulher, jovem e rica, oferecer tanto dinheiro por um cara como eu.

- Você sabe, - comecei, dando um sorriso irônico – se quiser além do básico, terá que pagar um adicional.

- Eu pago o quanto for necessário. – Os lábios dela se mexeram suavemente.

Então, vi-a sorrir.

Um sorriso contido, doce, sofrido.

- Vamos.

Logo ela se sentou sobre o meu colo, tirando sua blusa e a jogando para um lugar qualquer do quarto. Olhei a parte nua do seu corpo e então, para os seus olhos.

- Beije-me. – Ela disse, num sussurro quase inaudível.

Por um momento, eu esqueci de todo o resto.

- Você não pode se apaixonar por mim. – Falei.

Com sua boca entreaberta, ela me olhou. Seus orbes negros se misturaram à escuridão do quarto, causando-me um arrepio. Ela se aproximou mais, então nossas respirações se misturaram.

- Isso nunca irá acontecer.

Nossas bocas se encostaram.

Então, pela primeira vez em muito tempo, senti prazer.

Acordei com o sol batendo em meu rosto.

Porém, o meu mal-humor matinal não apareceu como sempre. Parecia que eu finalmente havia dormido bem, mesmo dormindo poucas horas de sono.

Olhei por toda a cama, observei todo o quarto e a única coisa relacionada àquela mulher foi as notas de dinheiro em cima do criado-mudo que havia ao lado da cama. Não pude deixar de me sentir estranho.

- Então se resumiu a isso...

De qualquer forma, nunca criei expectativas sobre ela. Nem sabia o seu nome.

Ouvi batidas na porta antes do Mário entrar.

- Léo, uma pessoa está morta no nosso saguão! Você precisa ver isso.

Não entendi a excitação dele sobre isso, mas de qualquer maneira, vesti minha roupa e fui olhar. Todas as mulheres e homens da casa estavam lá, olhando abismados. Alguns clientes estavam fugindo, visto que não queriam se meter nesse problema.

- Ninguém viu o que aconteceu!

Então, eu vi.

Era ela.

A mulher dos olhos negros, deitada numa enorme poça de sangue.

Seus cabelos sedosos e longos, molhados num liquido escarlate. Sua pele estava tão branca, aparentava estar tão fria – tão diferente de antes.

Vi os paramédicos a levarem para a ambulância.

E novamente, depois de muito tempo...

Uma única lágrima escorreu pelo meu rosto.

Eu nunca saberei o nome dela.


N/A: Essa é minha primeira história psotada no FictionPress. Estou ansiosa! Este conto, mesmo que um pouco antigo - ela tem uns dois ou três anos de idade - sempre foi uma das minhas favoritas.