Recaída

Os sintomas são os mesmos todas as vezes. Meu corpo começa a ficar mole, não quero fazer nada além de ouvir música - e aí as músicas me irritam e eu deito e não consigo dormir e fico pensando em todas as coisas ruins que me aconteceram/que estão acontecendo. Fico triste por nada, tomo banho quente e deslizo minhas mãos pela saboneteira, onde deixei minha lâmina esperando em silêncio para o momento que eu resolveria pegá-la.

É assim que sempre começa. Às vezes vai embora tão rápido quanto veio, das outras vezes gruda em mim por algumas semanas, e às vezes persiste até a tentativa de suicídio, a ligação amiga, o choro compulsivo e a necessidade de ter algo que eu não sei o que é, mas que não tenho. A comida da vovó é trocada por barras e barras de chocolate, e dormir cedo já não é mais uma tarefa fácil.

Depressão é algo tão insuportável. Você não pode fugir de si mesmo, então tem que ficar ali, aguentando toda a tristeza que brota e é jogada no seu rosto sem que possa fazer absolutamente nada. Você respira, tenta controlar, tenta esquecer ou disfarçar, mas seu corpo já não é seu corpo e nada mais faz sentido ou tem um motivo. Estar vivo dói, e é isso. Dormir é o mais perto que você pode chegar da morte, então você dorme e dorme e dorme, mas sabe que não pode dormir pra sempre.

Às vezes eu penso que deveria jogar minhas lâminas fora quando estiver me sentindo bem, pra quando eu estiver mal, não ter nada com o que me cortar, mas eu sei que vai ser pior se eu não me cortar, porque aí não terá nada pra conter a tristeza. Mesmo coisas bobas abalam de uma maneira absurda, o que é horrível. Literalmente você não tem fuga alguma, e tudo que lhe resta, tudo que me resta, é escrever, escrever sobre isso, escrever muito sobre isso, até que meus demônios se vão ou que eu me perca nas palavras e desista.

É tão ridículo estar aqui nessa situação de novo. Eu me sinto boba e infeliz, tanto por me deixar voltar a isso quanto por ser assim. Depressão não é algo que eu posso tirar um dia e dar uns tapinhas para ir embora. Está comigo o tempo inteiro, independente do que eu faça, me colocando mais e mais pra baixo. Minha autoestima no chão, ao ponto de que eu simplesmente não me importo mais de como me pareço.

Talvez meu avô estivesse certo. Talvez tudo que eu precise é de um "namoradinho". Alguém que, mesmo mentindo, me diga que me ama e que vai ficar tudo bem e que me dê toda a atenção do mundo, para que eu mal tenha tempo de pensar em mim ou na minha vida. Mas não quero lidar com sentimentos, não me apaixono, não quero nada. Quero que isso acabe, quero que isso exploda e se vá, vá, vá, que morra longe e para sempre e nunca mais volte pra perto de mim.

Não quero um namoradinho ou uma namoradinha. Não quero ler meus livros ou ver meus animes ou ler meus mangás ou ver minhas séries ou ver meus filmes ou ouvir minhas músicas ou jogar meus jogos ou falar com meus amigos ou lidar com a faculdade ou com o dia-a-dia. Eu só quero que isso acabe, junto com a depressão. Eu só quero que tudo isso se vá de uma vez, porque é cansativo e insuportável e eu não mereço.

É chato. É horrível. Estou começando a perder o sentido, sim, mas não ligo, porque a garota morta na minha mente continua com os olhos de vidro virados para mim, mas ela não espera mais que eu me torne nada. Nem eu espero. Não temos ambição alguma, por isso nos encaramos sem esperar nada além de futuro desespero uma da outra. Sabemos que o momento vai chegar de uma maneira ou outra, por isso só esperamos que ele venha para tentarmos nos segurar em alguma coisa e o superarmos. Até lá, nos encaramos e até sorrimos, porque podemos. Depois, paramos, porque perdemos a razão.

Geralmente minha depressão vem em ondas, e a maré costumava ficar mais e mais alta quando meus pais brigavam ou quando eu tomava um fora do garoto que eu gostava - o mesmo garoto, várias vezes, porque sou besta e porque ele era um imbecil. Agora que não gosto de ninguém e que me afastei dos meus pais, não sei o que traz isso. Talvez seja porque eu não tenho dormido bem ou comido bem ultimamente, ou talvez tudo isso seja o mero resultado da depressão que estava aqui e que eu não percebi. Suspiro. Suspiro e suspiro e suspiro, e é difícil respirar.

Esse peso é errado. E essa dor no meio seio esquerdo também. Não dor de coração apertado, dor porque eu afundei minhas lâminas na pele até ver o sangue escorrer e me sentir melhor. Água quente e sangue escorrendo são uma visão que realmente relaxa e te faz esquecer raiva ou tristeza extrema, eu acho. Mas alguma coisa continua, como um desânimo. Fica com você mesmo depois disso tudo. Talvez essa seja a verdadeira depressão, a coisa que você não pode se livrar nem se rasgando compulsivamente para tirar isso de você.

Por que você voltou eu não sei, e nem sei quando você vai embora também. Estou tentando respirar, e algo me diz que vou conseguir. Acho que ainda não foi a maior onda. Talvez não. Mas foi grande o suficiente pra eu me rasgar mais uma vez, coisa que eu não fazia há quatro meses, então talvez queira dizer alguma coisa. Talvez eu esteja seguindo os passos errados de novo e que tudo vá começar de novo, e eu não quero. Vou parar. Mas parar com o quê? O que é que eu estou fazendo errado? E o problema é mesmo comigo? Talvez. Mas a única solução que vejo pra corrigir esse probleminha é enfiar uma bala na cabeça, ou me entupir de comprimidos, ou saltar de um prédio ou chutar um banquinho e sentir meus pulmões pedindo por ar e não o conseguirem. Essa última parece tentadora, de verdade. Principalmente porque eu mal consigo respirar agora, e parar de respirar de vez seria delicioso. Agora, mesmo as coisas que eu sei que me mantêm viva no dia a dia não importam.

Vou fechar os olhos por um momento. Não pra morrer, eu acho. Ainda está muito cedo pra chegar nesse ponto, mas pode vir a ser uma consequência.

Mas por agora vou fechar os olhos porque cansei de escrever, e fim.