Brumm. Brumm. Brumm.

O barulhinho incessante na janela de Kenned o incomodou. A chuva que ainda caía lá fora fazia uma dança lenta de dedinhos tamborilando numa caixa de papelão, mas aquele barulhinho estava muito chato, parecia um trator ou qualquer geringonça que fazia muito barulho. Gostava da chuva e também gostava do cobertor quentinho até o pescoço e o copinho de leite quente que mamãe deixava na cômoda do quarto.

Brumm. Brumm. Brumm.

Tirando só um pouquinho da coberta, o menino se debruçou sentindo um friozinho pela barriga apalpou o peito e descobriu que estava de novo suado, ensopado seria a melhor palavra. Mamãe havia dito que ele estava suando por causa de pesadelos, mas ele nem se preocupou saber o que sonhava, todas as noites eram as mesmas coisas e o mesmo barulhinho irritante, mas não hoje. Calçou o chinelo e ajeitou os óculos tortos na ponta do nariz e depois o empurrou devagar até perto dos olhinhos míopes.

Agora iria descobrir qual o problema com aquele barulho. Com passinhos silenciosos o garoto curioso se abaixou perto da janela e a abriu com cuidado, o vento mais frio do que antes passou por ele, rodopiou e se instalou no local, tremendo de frio o menininho pegou o casaco que escondia da irmã pequena que sempre queria babar nele e empurrou um pouco mais a janela.

A luz atravessou seus olhos míopes como um arame farpado, abaixou rapidamente e piscou várias vezes, se apoiou no peitoril da janela e observou o pequeno ponto brilhante. Fumaça vindo de lá de fora invadiu o quarto como um enxame de abelhas, a coisa preta foi se instalando e tampando toda a visão do menino que começara a tossir como uma britadeira com a invasão repentina do negror em seu pulmão. Ainda insistente ficou na pontinha dos pés, o máximo que sua altura permitia e olhou novamente, agora ele via com clareza, uma locomotiva negra cheia de janelinhas iluminadas com piscas-piscas que pareciam um arco-íris estava estagnada ao lado de sua janela.

O homem vestido de vermelho ao lado dela tinha um bigodão gigante, Kenned tinha certeza que poderia esconder um de seus personagens do Dragon Ball ali, a piada o fez rir.

- Você vai rir ou vai ingressar? – a voz do homenzarrão bigodudo parecia de um menino sapeca. Ainda retirando o chapéu ele se encurvou com um gracejo e abriu a portinha do trem. – É o último passageiro hoje, vamos logo com isso!

Kenned esfregou os olhinhos por baixo dos óculos e analisou mais uma vez o gorducho vestindo um uniforme vermelho quase um soldado, pensou.

- E para onde vai? – perguntou o menino ainda tentando se equilibrar no peitoril da janela.

- Vai para onde você quiser! Temos três locais distintos para escolher – ele alisou o bigode e voltou a falar. – Temos a Ilha dos Brinquedos, O Mágico Sonhar e por fim a Cidade das Lembranças.

Com um pouquinho de força Kenned conseguiu passar o peitoril da janela e… Bam!Caiu de cara no chão. O barulho mais parecia de um boneco gigante do que um menino magricela. O homem gordo levantou Kenned com apenas um braço e com o outro bateu o chapéu de leve nele para limpar a sujeira que impregnou na roupa.

- Pois bem – o homem voltou a falar e agora estava mexendo nos detalhes dourados do ombro. – Tenho certeza de que trouxe sua passagem carimbada e assinada pelos seus pais.

- O senhor deve estar enganado, meus pais não assinaram nenhuma passagem e o que aconteceu com a rua?

Só agora ele havia percebido que sua casa era a única na rua e a locomotiva ocupava todo o espaço da vizinhança parada como uma obra de arte ao lado do pé de limão do antigo vizinho de Kenned que ficava bravo toda vez que o menino chutava alguma bola muito alto e caía em seu quintal.

- Não existe rua, garoto – os olhos gentis do homem agora pareciam quase irritados. – Ande logo que os outros passageiros estão esperando pacientemente, me dê sua passagem para conferir o local em que vai parar.

O homem chegou perto demais, assim quase colado em Kenned ele percebeu que o homem tão bem vestido deveria ter uns dois metros ou mais, seu cabelo castanho estava penteado para trás e arrumados com uma grande quantidade de gel, a roupa vermelha cheia de detalhes dourados lhe dava ar de alguém importante e apesar de gordo e com um bigode assustador, o menino viu sinceridade e ligeira diversão no sorriso que o homem mostrou quando finalmente tirou de seu bolso um papel meio amarelado e amassado.

- Cidade das Lembranças! – exclamou o gigante, desamassou o papel e deu uma olhada na assinatura pequenina. – Poucas pessoas mandam seus filhos para essa cidade, a maioria prefere a Ilha dos Brinquedos.

- Por que as pessoas não vão para lá?

A mão grande e gorda acariciou os cabelos negros e encaracolados de Kenned, depois exibiu um sorriso gentil, rasgou um lado pontilhado do bilhete e lhe devolveu o outro pedaço.

- Algumas lembranças são boas outras ruins, mas eu acho que ninguém gosta de enxergar quem realmente é ou quem foi.

E com um aperto de mão que quase quebrou todos os ossos de Kenned, o homem o colocou para dentro e fechou a porta.

- Próxima parada Cidade das Lembranças.

O barulho alto da locomotiva ecoou nos ouvidos de Kenned e aquela gigante geringonça começou a rodar rumo à inesperada jornada.