Capítulo XXVI

"Escaramuça"

Adams e Petrenko avançaram com cautela, buscando a ocultação das sombras. Pararam junto a uma viga enterrada no solo, o metal largo o suficiente para esconder suas duas figuras enquanto espreitavam o local. O meio-vampiro analisou pausadamente cada uma das barracas para comentar entredentes:

– Não esperava um mercado do submundo aqui, mas nós sabemos nos adaptar às circunstâncias...

– Está acostumado a este tipo de lugar?

– Você aprende quando passa a visitá-los em busca de informações ou elementos suspeitos. A novidade aqui é este existir bem embaixo de um shopping.

– Acho que faz sentido eles criarem esses lugares onde as pessoas comuns nem suspeitariam... – Mara coçou o queixo. – Algo como um "Beco Diagonal".

Ernest gastou alguns segundos piscando confuso até entender a referência.

– Não consigo imaginar uma ucraniana integrante das Spetsnaz e de uma companhia de mercenários gostando de histórias de bruxinhos...

– Por que não? – ela sorriu de canto. – Desde que desembarcamos no país estou ansiosa em visitar o Carlinhos Weasley e aprender a treinar dragões.

A conversa sobre gostos literários terminou abruptamente quando os olhos de Adams voltaram a encontrar a comitiva de Baltazar.

A careca do vampiro brilhou sob uma lâmpada enquanto ele e os guardas detinham-se em frente a uma tenda. O sorriso do vendedor, um senhor baixinho de esparsos cabelos brancos e bigode fino, desapareceu ao deparar-se com os recém-chegados. Baltazar passou displicentemente as mãos por vários cestos de ervas e pós escuros enquanto informava o que queria ao comerciante. Levou um dedo à boca em certo momento, após esfregá-lo em algum tipo de gosma vermelha numa vasilha. Um composto contendo sangue como ingrediente, talvez?

Mesmo Mara estando a passos de distância de si, Adams sentiu-a estremecer.

– Acho que é o momento para dizer que minha fome está ficando um pouco difícil de controlar... – ela murmurou, evitando encará-lo.

– Devia ter trazido alguns bolsões de sangue a mais – Adams continuou atento a Baltazar, mentalmente agarrado ao desejo de a situação não se complicar.

– Ora, eu não sabia que precisaria tão cedo! Além do mais, estou habituada a dormir durante o dia. Se não estivéssemos nos aventurando por aí, com certeza aguentaria bem melhor!

Ernest queria que seus sentidos fossem capazes de identificar, a metros dali, o que exatamente o vendedor ensacava para Baltazar – mas estava além de seu poder. O recipiente repleto de grãos alaranjados, parecidos com areia, foi trocado por moedas de tons cobre variados – dinheiro do submundo, bem mais valioso àquelas transações que os padrões mortais.

Grãos de cor laranja... Adams vasculhou sua memória, relembrando até mesmo os encontros com Sasha. Aprendera alguma coisa com o russo, porém não o suficiente. Como um alquimista fazia falta em situações como aquela!

– Oricalco? Cinábrio? – especulou.

– Cinábrio tem uma coloração bem mais avermelhada – Mara observou. – Como sangue.

Seria melhor Ernest resolver rápido aquele problema.

O grupo de Baltazar avançou a outra barraca. Adams não sabia se torcia para as compras serem demoradas ou não, pois se por um lado teria maior tempo para determinar o que o vampiro planejava, por outro Mara logo entraria em frenesi – e não havia nenhum vendedor de sangue à vista.

O comerciante seguinte dispunha líquidos em potes e garrafas de formatos improváveis. Se uma lembrava um pescoço e bico de ganso com a substância no interior borbulhando pouco abaixo da borda, outra compunha um zigue-zague de vidro dentro do qual uma bebida dançava alternando-se entre azul e verde. Foi dela que o vendedor se serviu, limpando em seguida a boca com uma manga do paletó, para então atender Baltazar.

– Vai ver ele só esteja atrás de ácido... – a voz irônica de Petrenko agora soava preocupantemente contida. – Até os vampiros precisam.

Aqua regia, vitriol verde, aqua fortis... Um cortejo de nomes de substâncias alquímicas passava pela mente do aturdido Adams, sem que conseguisse associá-los a aparências precisas. Duas figuras de manto e capuz, arrastando correntes – peculiaridade que o meio-vampiro preferiu ignorar – bloquearam sua visão da tenda por alguns instantes, Baltazar já tendo recebido e ensacado um galão de vidro das mãos do lojista, a cor de seu líquido agora escondida, quando pôde voltar a enxergá-lo.

– Um pouco mais de sorte quando ele pegar algo da próxima barraca, quem sabe? – Ernest sugeriu nervoso, lembrando-se que a parceira conseguira determinar se o pó laranja de antes era ou não cinábrio. – Alguma sugestão, Mara? Mara?

Sua percepção deu falta da vampira ao mesmo tempo em que detectou o vulto esguio acelerando por entre duas tendas, assustando uma senhora que segurava repolhos listrados em vermelho e branco. Tal como um espectro, a silhueta de Petrenko aterrissou sobre um dos vigias uniformizados fazendo a guarda do mercado – sua farda logo banhada em sangue quando os vorazes dentes da vampira rasgaram uma de suas carótidas, a cabeça se curvando para trás aos gritos assim que teve o pescoço rompido.

Baltazar e sua guarda, tal como todo o resto do local, estacaram e voltaram os olhares vidrados para a cena. Hipnotizada, Petrenko só se preocupou em manter o cadáver junto a si num abraço, sugando sonoramente pelos orifícios aos quais os caninos ainda se prendiam.

O vampiro careca pronunciou uma ordem em romeno, erguendo um braço na direção de Mara.

Adams levou um dos punhos às costas, e a lâmina da espada raspou pela bainha antes de encontrar o denso ar do subsolo.

Dois integrantes da Gendarmerie avançaram na direção de Adams ao invés de Petrenko, como se teleguiados por sua presença, exibindo os dentes ameaçadores – fechando o caminho até onde a vampira continuava se alimentando. Não sendo humanos hipnotizados como alguns dos outros vigias, o agente ao menos não teria remorso em aniquilá-los.

A Katana girou contra um deles feito uma foice, o morto-vivo escapando por pouco ao jogar o corpo para o lado. Ernest precisou em seguida evitar o ataque do outro, defendendo-se com a lâmina de um golpe de cassetete. A espada não só aparou o bastão, mas cortou-o ao meio. O policial olhou embasbacado as duas metades da arma, abrindo a guarda e permitindo que Adams lhe arrancasse a cabeça num golpe em arco.

O crânio do vampiro nem teve tempo de tocar o solo, um esguicho de sangue escuro subindo pelo pescoço aberto, e o primeiro soldado já se recuperava para nova investida. Mais esperto, sacou um revólver e apontou-o a Adams a queima-roupa. Não que os tiros fossem capazes de derrubá-lo, porém o atrasariam – e nisso morava o perigo.

O estrondo do disparo misturou-se ao clarão no cano da arma, Ernest inclinando-se o mais rápido que conseguiu. Pôde sentir o calor do projétil e o forte odor de pólvora, ao menos evitando que a bala perfurasse sua testa. Quando o zunido nos ouvidos diminuiu e o tempo pareceu tornar a acelerar, viu o inimigo prestes a pressionar de novo o gatilho. A espada agiu num impulso similar a instinto, quase uma extensão cortante de seus reflexos...

Um segundo depois, gatilho e dedo indicador do vampiro subiam pelo ar, acompanhados de um jato vermelho. Sua boca contraída soltou um rosnar, ato simultâneo ao punho de sua outra mão se dirigindo ao rosto de Adams. A cacofonia metálica dos restos do revólver atingindo o solo poderiam ter confundido os sentidos do meio-vampiro, mas ele se manteve centrado.

Ernest abaixou-se. A manga do uniforme do guarda chegou a tocar seus cabelos, porém a mão só encontrou o vazio. Aproveitou a proximidade para impulsionar corpo e cabeça adiante...

Encontrão. O corpo do adversário pisou em falso, girou e colidiu com uma tenda à frente, rasgando o pano que revestia o fundo e fazendo-o desabar sobre um balcão repleto de produtos, frascos de vidro espatifando-se ou rolando pelo chão entre reprimendas ríspidas do vendedor.

Um composto alquímico tornou-se um pequeno incêndio esverdeado aonde caíra. Outro, uma espécie de geleia amarela que aumentou em altura e largura antes de desfazer-se em espuma. O vampiro tentava levantar-se do móvel, braços e pernas movendo-se entre a madeira e os cacos, Adams nada disposto a deixar que conseguisse.

Os olhos pousaram sobre os poucos vidros intactos. Um deles continha um pó branco com partículas brilhantes, algo que poderia passar por algum tipo de sal... O rótulo, intimidador: Lapis infernalis.

Uma sorte ele se lembrar a qual substância aquela alcunha se referia, ainda mais por já tê-la utilizado para fabricar suas próprias munições. Adams apanhou o frasco e não só abriu-o, mas espatifou-o no rosto do vampiro justo quando seu tronco começava a se erguer. O grito agonizante foi acompanhado da visão do crânio se desfazendo em fumaça, os olhos derretendo dentro das órbitas e a carne virando líquido e poeira até os ossos.

Nitrato de prata, Adams confirmou. Usado também para fabricar espelhos. Bem, definitivamente aquele infeliz não ia querer ver sua face refletida naquelas condições...

A clientela do mercado começou a se dispersar. Berros e lamúrias uniam-se às instruções de Baltazar, que sabiamente desapareça de vista. Deixando para trás o comerciante se queixando, Ernest continuou na direção de Mara.

Os demais vampiros a haviam alcançado; no entanto, ela já deixava seu transe faminto e, para alívio de Adams, reagia ao perigo. Usou o próprio corpo do humano que sugara como escudo quando dois guardas abriram fogo em sua direção, o pobre moribundo soltando espasmos ao receber duas rajadas inteiras de metralhadora antes de finalmente ser solto em frangalhos. Enquanto o cadáver caía, os inimigos parando para recarregar, Petrenko apanhou uma pistola de cada um dos dois coldres que o soldado trazia à cintura.

As armas eram potentes, de calibre 50. Um primeiro tiro praticamente estourou metade da cabeça de um dos vampiros, este caindo sentado enquanto gastava preciosos instantes se regenerando. O outro rolou para escapar do segundo disparo, vencendo a distância até Mara e tentando acertá-la com uma coronhada da metralhadora. Ela evitou o ataque já se abaixando numa rasteira, chegando a erguer o oponente do solo com a força do golpe. Antes mesmo que aterrissasse, Mara repeliu-o num chute... lançando-o de costas a uma estaca de ferro projetando-se de uma das vigas espalhadas pelo lugar, a haste cravando-se em cheio no coração do morto-vivo e paralisando-o dolorosamente após rápidas – e inúteis – tentativas de se libertar.

O primeiro vampiro já tinha o crânio refeito e, tendo apenas perdido a boina que compunha o uniforme, partiu mais uma vez para cima de Petrenko.

A calibre 50 voltou a rugir, a bala desta vez passando por cima do adversário e indo ricochetear em algum canto obscuro do abrigo. O guarda deu um grito furioso e saltou sobre Mara, agarrando-lhe o braço enquanto tentava, a todo custo, desarmá-lo. As mãos apertavam seu pulso, balançando-o para os lados conforme a vampira procurava repelir o inimigo aos chutes, falhando em acertá-lo...

Súbito, a pressão sobre o punho de Petrenko afrouxou. Os dedos alheios permaneceram entrelaçados em torno de sua pele... porém os braços do vampiro recuaram sem as mãos, cortadas fora em ambos os pulsos por uma lâmina que agora reluzia diante da vampira. O policial, desnorteado, agitou e estendeu os membros sem término feito um espantalho, seu sangue jorrando sobre as roupas de Adams enquanto concluía a investida separando-lhe a cabeça dos ombros.

O agente ofereceu uma mão a Mara visando ajudá-la a se levantar, mas ela ainda tinha as outras duas agarradas a si para cogitar aceitar uma terceira. Removeu-as cuidadosamente do pulso e ergueu-se sozinha, unindo-se a Ernest num exame atento dos arredores.

– Está querendo ficar quite comigo depois que salvei sua pele no prédio lá em Londres? – Petrenko questionou.

– Diferente de você, não sou de jogar as coisas na cara... – pelas bordas da claridade gerada pelas lâmpadas, Adams podia avistar mais vultos chegando perto. – Onde está Baltazar?

A voz do vampiro ecoou de algum ponto incerto, vibrando junto às estruturas metálicas, curvando-se em si mesma nas concavidades do subterrâneo:

– Então veio até a Romênia me caçar. Mesmo depois da dor que lhe infligi em Londres. Ou ainda tem um ótimo faro, ou gosta mesmo de sofrer.

– Vim averiguar sobre seu novo "Mestre" – Ernest lançou. – Certificar-me se Baltazar Dracul realmente desistiu da grandeza para virar um lacaio.

– Ou talvez seu novo senhor seja Alá... – Mara entrou na conversa, agora com suas costas coladas às de Adams, cada um atento a um lado do mercado; ele brandindo a Katana, e ela as pistolas.

– Ora, não me entenda mal! – Baltazar riu. – Justificar meus atos em nome de uma divindade possui sua função. Quem sabe quis apenas me sentir como o zeloso Ernest Adams, que crê ser tão diferente de mim, mas no fundo é tão igual. Olhe o que você e sua parceira acabaram de fazer. Dirá não sentir prazer na matança? Não obter contentamento em cada ato voluntário de crueldade? Você acredita piamente servir a Deus, a uma causa maior, semeando tamanha violência e fazendo verter tanto sangue, apenas por seus adversários serem amaldiçoados. Defende agir em nome de um tipo de "bondade". Pois bem, Adams... O que realmente o torna diferente de mim, enquanto sirvo ao meu Mestre?

O tom de Baltazar tornou-se ainda mais mordaz e traiçoeiro conforme continuou falando, convertido no sussurro de um inimigo à espreita, prestes a saltar das trevas:

– Se não formos considerar esse discurso aplicado apenas a nossos colegas que rezam prostrados, poderíamos associá-lo também àqueles que ontem e hoje juram combatê-los. As Cruzadas. Templários. Fronteiras fechadas. Bombardeios na Síria. As deportações. Deus vult. Tudo em nome de Deus. Acho que você e os atuais governantes deveriam andar de mãos dadas, não acha, Ernest? Aliás, um morcego me contou que um antepassado seu era Cavaleiro do Templo... Padre Adams, se bem me recordo?

Não, ele não pode saber disso! Os punhos do meio-vampiro se contraíram ao mesmo tempo em que as palavras o levavam a um mundo de névoa. Aqui, rompida por um sacerdote abraçando sua Bíblia em grande pesar. Ali, clareada pelas chamas famintas de uma fogueira, consumindo o corpo da mulher que amava amarrado a uma estaca. Seu corpo tornado cinzas. Seu corpo. Desejo. Tentação. Pecado. Sina. Não há como!

– Você está bem, meninão? – a consternação de Adams foi tanta que até Mara percebeu.

O agente bufou. Encheu os pulmões de ar.

– Abandone as sombras e nos enfrente de uma vez!

O riso de Baltazar se tornou uma espécie de grunhido, ligeiramente mais distante enquanto completava:

– Não, minha diversão é assisti-lo. Vê-lo orientar-se por um código de conduta tão falho e contraditório. Enfrentá-lo, agora, seria encerrar meu passatempo. Até porque acabaria morto, e ambiciono deixá-lo vivo um pouco mais. Mandarei mais alguns homens sobre vocês. Eles não são bem... mortos-vivos. Pais de família, jovens felizes com o primeiro emprego, todos sob meu controle. Decidam a melhor forma de lidar com eles. E vivam com suas consciências.