Capítulo XXVII

"Código de conduta"

Adams empurrou o abdômen da silhueta mais próxima de si num golpe com o punho, sentindo as costelas se partirem sob a farda. Outro soldado foi repelido num chute, a mandíbula quebrando enquanto o atacante desmaiava. O meio-vampiro compreendeu que deveria conter sua força e reflexos, ou acabaria matando aqueles homens. A urgência do momento, todavia, tornava difícil ter tato.

Os guardas controlados por Baltazar saltaram sobre eles feito um enxame. A percepção de Ernest notou quase vinte, enquanto mais saíam das sombras conforme os primeiros caíam. Boinas da Gendarmerie despencavam pelo chão devido aos movimentos rápidos dos militares, facas e cassetetes brandidos cheios de fúria contra os alvos. Mara felizmente deixara seu lado caridoso aflorar – talvez pela sede agora saciada – e guardou as pistolas para lidar com os inimigos utilizando as próprias mãos. Nenhum deles usava armas de fogo, o que contribuía para não se responder na mesma moeda. Dificilmente um toque de bondade de Baltazar visando poupá-los. O vampiro, decerto, queria ver seus desafetos partidos e rasgados, ao invés de meramente crivados de balas.

– Sua espada seria bem útil agora... – Petrenko observou em dado instante, depois de arremessar um oponente por cima de Adams.

A lâmina havia retornado à bainha tão logo a luta com os lacaios de Baltazar começara, e Ernest não parecia nem um pouco disposto a retirá-la.

– Sem mortes – o agente do FBI frisou, as ácidas palavras de Baltazar ainda ecoando nos cantos perturbados de seu pensamento. – Por favor.

Mara concordou num sorriso contrariado, a mão direita erguida dando a entender fazer um gesto para Adams... mas apenas derrubando num soco outro guarda que avançava.

Um novo soldado tentou atacar Ernest de frente. O meio-vampiro moveu a cabeça para o lado visando escapar de seu punho direito, agarrou o adversário pelo ombro esquerdo e, com a mão livre, acertou-lhe um golpe no estômago. Adams sentiu o rival desfalecer, ar escapando-lhe dos pulmões num chiado – enquanto os olhos se esbugalhavam e encaravam-no com assombro e inconformidade difíceis de descrever.

A imagem fez Adams remeter a outra, de muito tempo antes...


O garoto permanecia ajoelhado diante dele, um fio de sangue correndo de seu lábio inferior partido e suor pingando em bicas da testa. Os olhos se arregalavam cada vez mais, até então voltados para seu rosto – mas logo deslocados ao tijolo que erguia na mão direita, retirado da pilha em frente à construção.

– Qual é, cara, nós já paramos! – a voz do menino de quinze ou dezesseis anos, ou alguma idade aproximada para que correspondesse à turma um ano posterior à qual Adams cursava na escola, saiu tão trêmula quanto sua coragem há pouco tão confiante. – Estávamos só brincando com ele, não queríamos machucá-lo nem nada!

Os dedos de Ernest, feridos pela cal e os socos há pouco desferidos, apertaram o tijolo com mais força. Tanto à direita quanto à esquerda do jovem prostrado, outro tentava se levantar, gemendo de dor enquanto massageava alguma parte do corpo. Sangue do trio vertia sobre a areia do canteiro de obras. Mais para o canto, na junção da cerca de madeira, um quarto adolescente também se erguia, preocupado em tirar do chão a mochila rasgada antes disputada pelos valentões, checando os compartimentos num abrir e fechar de zíperes.

– Com que garantia deixarei vocês irem? – Adams rosnou, sua própria imagem debruçada na sacada da casa dos avós, assistindo àquele menino ser importunado praticamente todo dia, agora um fantasma de outra era. – Vão persegui-lo de novo. É o que fazem. É de onde tiram força: dos mais fracos.

– Então quebre o tijolo na cabeça do Mike! – um dos garotos ao lado daquele ajoelhado provocou. – Vai se tornar a merda de um criminoso. Pior que nós. É isso que tem aprendido na igreja, coroinha?

Sem mais nem menos, o calor do sol da tarde fez-se sentir sobre Ernest; e o tijolo passou a queimar feito brasa em sua mão.

Relaxou os dedos e soltou-o, o artefato aterrissando numa lufada de areia diante dos joelhos do valentão recém-absolvido.

Um a um, os três desordeiros deixaram o lugar, um deles mancando, enquanto soltavam pragas contra Adams. Ignorando-os, ele dirigiu-se até o último menino. A antiga vítima. Estendeu-lhe uma mão e ajudou-o a levantar.

Este limpou a poeira das roupas, ajeitou as alças da mochila às costas e exclamou, num sorriso tão confuso quanto desconcertado:

– Se aprendeu mesmo isso na igreja, acho que está levando aquela parte dos vendilhões do templo a sério demais!

Não esperou a reação de Ernest, baixando o olhar ao se dar conta de ter falado alguma besteira, para depois estender tímido a mão:

– Sou o Timothy.

Adams apertou-a sem cerimônia, imaginando-se mais uma vez com o tijolo na mão, pesaroso quanto ao que quase fizera e castigando-se demais mentalmente para soar simpático:

– Ernest.

Apesar da recepção fria, o outro menino pareceu tomado por algum tipo de euforia. Segurava algo entre os dedos – um pedaço retangular de papel picotado de um lado. Adams não se deu o trabalho de perguntar o que era. Ele logo revelou:

– Ufa, eles não encontraram isto aqui na mochila! Reviraram-na de ponta-cabeça, mas são bem burros afinal de contas... Pensei até que desta vez a quisessem só por causa do ingresso! "Garotos Perdidos". Estou louco para ver esse filme! Você gosta de vampiros?

Não, ele não era muito ligado em filmes de terror, até porque sua avó não o deixava vê-los. Tinha a ver com seu zelo religioso excessivo. Ou "fanatismo", nas palavras do avô. A única lembrança que guardava sobre o tema era justamente do avô assistindo a um filme muito antigo contendo essas criaturas, no caso um vampiro magrelo e careca de longas unhas, imagem em preto e branco. "Nosferatu", era esse o nome. Mesmo ainda muito pequeno, Ernest não sentira medo. A figura tinha um forte quê de engraçada.

– Pode ir ver comigo, se quiser! – Timothy seguiu falando. – Consigo uma maneira de descolar mais um ingresso grátis na bilheteria. O funcionário de lá é o Bob, ele namora minha irmã. Só não sendo para todo filme que estrear, sempre dá um jeito de me colocar lá dentro. Com certeza também pode ajeitar isso a você! Claro, é só não sair espalhando, né? Uma fonte boa dessas acaba secando com muita gente bebendo...

Adams devaneava, seu pensamento perdendo-se em impressões táteis. Texturas. Os ombros tão acostumados à cômoda madeira do parapeito do sobrado, remetendo aos olhos como meros espectadores do mundo. Injustiças, violências. Depois, a superfície áspera do tijolo na palma de sua mão. Promessa de compensação para os mais fracos. Mas uma nova violência.

A sua.


Outra fileira de soldados caiu feito dominós após um empurrão de Adams. Entre aqueles que permaneciam desacordados e se levantavam após receberem golpes, alguns atacando ensandecidos, Ernest ao menos constatava que o cerco em torno dos dois afrouxava.

Mais que romper através dos mortais enfeitiçados, o plano de fuga necessitava de uma rota. A entrada usada anteriormente estava apinhada de vendedores e fregueses do mercado sobrenatural, apavorados – e não era a melhor das ideias levar o combate ao meio de humanos incautos no shopping; Londres já fora o suficiente nesse quesito. O caçador tinha dificuldades em olhar ao redor buscando alternativas conforme derrubava os oponentes aos socos e chutes, mas Mara logo apontou a solução: uma escada de mão subindo dezenas de metros pelo concreto de uma das paredes do abrigo nuclear.

Proteger centenas de cidadãos que não se indignam com maus tratos a imigrantes para correr o risco de despencar daquela altura... – Adams refletiu, medindo a extensão da queda a partir do ponto em que os degraus metálicos imergiam na escuridão sobre suas cabeças. – Talvez eu devesse incluir política nas discussões sobre meu trabalho!

Deu uma testada em mais um soldado, juntou-se a Petrenko –adiantada – e acelerou na direção da saída.

A horda continuou em seus calcanhares, correndo, saltando sobre eles. Homens se esfolavam, quebravam membros, as roupas rasgadas e empapadas de sangue. Nada, todavia, lograva detê-los. O encanto os faria persegui-los até seus corações pararem de bater – ou, na pior das hipóteses, a magia sendo forte a ponto de conservá-los ativos até virarem puro esqueleto.

Mara pulou e agarrou primeiro os degraus da escada, ascendendo pelas barras de metal com agilidade. Braços e pernas cooperavam em incrível sincronia, tal qual engatinhasse na horizontal. Adams iniciou seu deslocamento de modo tão fácil quanto... até um inesperado peso em seu pé direito tragá-lo para baixo, os dedos se soltando e escorregando por duas barras até segurar a terceira, evitando aterrissar no grupo de guardas persistentes.

Aquele que o puxara pelo sapato já se desprendera, mas outros, aproveitando o agente do FBI a seu alcance, saltavam para derrubá-lo, visando suas pernas ou costas. Preso como podia ao degrau, Ernest distribuía pontapés às cabeças e mãos sob si, chegando a esmagar um punhado de dedos entre suas solas e o ferro da escada antes de, tomando impulso, retomar a subida.

Mal venceu seis degraus, notou os policiais amontoados à base da parede começarem a escalar uns aos outros, apoiando-se nos ombros ou palmas de seus companheiros para, feito equilibristas de circo desajeitados, erguerem-se o mais alto possível no encalço da dupla.

– Tem certeza que não quer dar uns tiros? – Mara riu acima de Adams numa olhadela para baixo.

Ernest avançou mais metros antes de arriscar-se a espiar novamente. Uma torre humana formada por quatro ou cinco soldados empilhados balançava perto da escada, aquele ao topo tentando projetar-se adiante o suficiente para agarrar um degrau... somente perdendo o equilíbrio e caindo de costas sobre os outros ao solo, mais preocupados em deterem os fugitivos do que ampararem seu pouso. Ao mesmo tempo, um trio subia a escada de modo tradicional – pelo início – ganhando velocidade na expectativa de alcançá-los.

Já a bons andares de altitude, o meio-vampiro grato pelos inimigos não terem simplesmente sacado suas armas para derrubá-los a bala, chegaram ao teto: imensa barreira de concreto e chumbo entrelaçados, uma escotilha fechada compondo única passagem através de sua grossa espessura. Petrenko forçou-a com as mãos, em seguida amparando-se num degrau para tentar com o ombro. O obstáculo mal se moveu. Não viam cadeado ou outro indício de tranca, e seria bom encontrarem uma solução com rapidez – os guardas diminuíam a distância na escada.

Mara cerrou os punhos. Deduzindo o plano, Adams retrocedeu certa altura, correndo o risco de ser puxado pelo inimigo liderando a escalada, para dar à vampira o espaço necessário.

Ela também desceu pelas barras, retraindo o corpo em busca da postura mais eficiente. No instante seguinte, impulsionou-o ao alto num salto calculado, cada coturno conferindo-lhe maior força ao bater contra os degraus do trajeto, até ambas as mãos – erguidas – colidirem com a escotilha, escancarando-a no estrondo da tampa contra a cobertura do outro lado.

Petrenko agarrou-se ao último degrau da escada em meio à queda decorrente do golpe, esgueirou-se através da abertura e, debruçada sobre a borda, concluiu a subida. Lá de cima, lançou um olhar de urgência para que Ernest se apressasse.

Ele não foi alcançado por meros palmos de diferença – mais um pouco e teria de se virar de novo em livrar os pés dos servos de Baltazar. Passou ofegante pelo buraco, a tampa fechada e selada com o peso de uma caixa de madeira empurrada por Mara antes que as batidas contra o metal sonhassem em ter algum efeito.

O objeto usado para obstruir o alçapão se reproduzia em pilhas e fileiras ao redor deles, indicando terem chegado a um armazém. Se Adams era dominado pelo déjà vu de haver enfrentado Baltazar pela primeira vez num cenário muito similar em Nova York, Petrenko foi mais proativa, enveredando-se por entre as caixas até avistar caminhões e furgões estacionados sob passarelas suspensas, revelando ser uma área de carga e descarga ainda nas dependências do shopping.

Por todas as plataformas até o grande portão fechado aos fundos do local, indivíduos de sobretudo negro montavam guarda, pistolas e submetralhadoras em mãos.

– Se tivermos um pouco de discrição, chegaremos ao outro lado sem problemas – afirmou a vampira, já se esgueirando junto a uma pilastra. – Ainda estamos no subsolo. O portão deve levar ao estacionamento.

– Não sei quanto a você, mas não pretendo sair daqui sem esclarecimentos... – Ernest murmurou espreitando os movimentos dos mortos-vivos metros acima.

– Bem... – o olhar de Mara acompanhou o dele. – Podemos ser discretos nisso, também...


Acordar com uma estaca semienterrada no peito, a mínima pressão à madeira fazendo-a voltar ao coração e recolocá-lo em torpor, não era das melhores sensações. Somava-se a ela estar de ponta-cabeça, mãos amarradas, pendurado fragilmente pelas pernas através dos vãos do parapeito da passarela... balançando em cima da carreta aberta de um caminhão contendo milhares de bulbos cuja cor oscilava entre o castanho e o bege.

O odor exalando da carga encheu-o de terror, um choque percorrendo sua espinha e levando-o a se debater – parando no instante seguinte ao concluir que o movimento só o colocava mais perto de despencar sobre o alho.

– Me tirem daqui! – berrou, a visão periférica acrescentando desespero à sua situação ao vislumbrar dois colegas imóveis, um também com uma estaca no tórax e outro sem cabeça, caídos a alguma distância do caminhão. – Me tirem daqui, porra!

Passos estremeceram a grade da plataforma atrás de si, sua perna esquerda escorregando poucos centímetros entre as barras – o bastante para gritar e chorar apavorado.

– O que Baltazar veio procurar aqui, e para onde foi? – a voz de Adams ressoou isenta de qualquer emoção.

– Não sei, apenas cuido da guarda do mercado! – a cabeça do vampiro girava de vertigem, as narinas em chamas pelo cheiro da carreta. – Não tenho nada com o Baltazar! Por favor!

– É guarda coisa nenhuma! Sua comitiva veio com o Baltazar, e também cobriu a fuga dele! – Mara rebateu, pisando forte a passarela para que as pernas do inimigo se deslocassem ao limite da proteção. – Desembucha!

– Só sei os ingredientes que ele veio comprar com os alquimistas... – o torturado gemeu, buscando retirar os termos da memória enquanto todo o peso de seu corpo pendia sobre o cérebro. – Pele da serpente píton-real... Cuprita... Óleo de terebintina... Ossículos de Asteroidea...

– Estrela-do-mar? – Ernest traduziu o último ingrediente à forma leiga.

– Pode ser, eu não sei! Só mandaram que eu decorasse os nomes, caso o Baltazar desse mancada! E que ele mesmo possuía o componente que faltava!

Diante do trêmulo vampiro, o agente do FBI tornou a sentir a aridez do tijolo contra a palma de sua mão. Dessa vez, não quis soltá-lo.

– Para quem o Baltazar trabalha? – ele inquiriu.

– Ninguém sabe! As ordens são passadas através da Gendarmerie, o chefe é desconhecido. Alguém do governo, pode ser? Agora querem me tirar daqui?

Grunhindo, Adams debruçou-se ao parapeito e puxou o vampiro pelo cinto, erguendo-o de costas à passarela. Os pés saíram das botas – presas em meio às barras – conforme era atirado de meias sobre a estrutura. Não teve tempo de reagir, correr ou sequer queixar-se antes do caçador, num soco, enterrar o que restava da estaca em seu coração.

– Hei, ele podia falar mais! – Petrenko alarmou-se. – Esse ingrediente faltando, por exemplo. O que seria?

A vampira fez menção de abaixar-se e retirar a madeira do corpo do capanga, detendo-se ao ouvir a resposta de Ernest:

– Sangue de uma criatura imortal. Conheço essa fórmula.

Acrescentou, ajeitando os óculos escuros com as linhas do rosto rígidas de preocupação:

– Eles planejam reviver alguém.