Finalmente, Laura, a grande amiga de Letícia, aparece neste capítulo.

Espero que gostem. Boa leitura!

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Manhã de segunda-feira. Letícia sorriu antes mesmo de abrir os olhos.

Não sonhou com o marido, pelo menos não se lembrava. Mas adormeceu com a imagem de Ricardo e foi a primeira que lhe veio à mente ao despertar. Seus beijos, suas carícias, suas doces palavras.

Saiu da cama num salto e correu para o chuveiro. Queria estar bem limpa, arrumada e cheirosa para ele, despedir-se antes que fosse para a empresa.

Suspirou. Ia ser difícil passar aquelas horas sem sua companhia. Lamentava-se em parte de ter desperdiçado o domingo longe dele para tirar dúvidas com os pais a respeito de sua conduta por causa de boatos e um ciúme bobo. Só não se arrependia totalmente porque havia passado ótimas horas em seu lar de infância e juventude com pessoas que lhe queriam muito bem, além de seu pai e sua mãe.

O bom que não ia ser tão penosa essa segunda-feira pela visita que, finalmente, receberia de Laura e também por mais uma de suas sessões com a doutora Marcela.

Letícia escolheu um vestido tomara-que-caia florido. Torceu o nariz pelo comprimento, mas era um dos menos indecorosos que possuía em sua opinião. Decidiu que após a consulta no hospital compraria alguns vestidos de comprimento maior e que doaria boa parte deu seu guarda-roupa para alguma instituição. Aqueles decotes lhe constrangiam, apesar dos vestidos serem de bom gosto. Como teve coragem de usá-los algum dia? E como Ricardo deixou que os usasse?

Colocou o vestido, penteou-se com esmero, maquiou-se e colocou algumas gotas do perfume Joy, o preferido de Ricardo, como o próprio afirmou. Sorriu como uma boba só de imaginar ele apreciando a fragrância. Corou. Depois de se admirar no espelho, desceu.

Seu coração bateu forte quando viu seu marido de pé diante da janela como de costume, mas voltado para a frente à sua espera e com um largo sorriso. Completamente impecável e elegante em um de seus ternos.

Ele é tão lindo e é todo meu.

O pensamento fez seu coração acelerar e o estômago fervilhar.

— Bom dia – disse Ricardo e estendeu os braços para ela

— Bom dia – respondeu Letícia com um sorriso incontido e o abraçou.

Estremeceu ao sentir aqueles braços fortes lhe envolverem. Era um lugar do qual nunca mais queria sair. O sorriso se alargou quando sentiu Ricardo passar o rosto sobre seu pescoço e aspirar seu perfume.

— Você colocou o Joy. - sussurrou ele e beijou-a no pescoço. Ela se arrepiou – Foi para me provocar?

— Não… eu… - afastou a cabeça para mirá-lo de frente – Você me disse que era seu perfume favorito – abaixou o rosto levemente ao vê-lo esboçar um sorriso malicioso – Eu quis apenas te agradar.

— Letícia…

Pronunciou de modo sensual seu nome e a puxou suavemente para um beijo. Ela arfou com o contato entre as bocas e a carícia lenta que ele gostava de fazer entre os lábios antes de aprofundar o beijo. E quando ela sentiu a língua dele invadir sua boca, a temperatura de seu corpo se elevou. Era o frenesi! O mundo podia acabar naquele momento que ela não se importaria.

Mas aquele interlúdio foi interrompido pela entrada de alguém.

— Senhor Ricardo – era Glória. Tinha que ser. Ela pigarreou e eles com relutância interromperam o beijo e afastaram as bocas, mas continuaram com os braços um no outro, os dele sobre sua cintura e os dela em volta de seu pescoço – Posso… mandar servir o café?

A expressão severa no rosto da governanta fez Letícia corar e abaixar o rosto.

— Pode sim, Glória – assentiu Ricardo – Obrigado.

A governanta fez um aceno com a cabeça e saiu.

— Ah, Deus, que vergonha! - disse Letícia cobrindo o rosto com a mão – Ela nos pegou aos beijos!

— E qual o problema, minha querida? - Ricardo riu enquanto retirava a mão do rosto da esposa – Nós somos casados.

— Mas não é para sermos visto assim pelos empregados. O que eles vão pensar?

— O que vão pensar a mim não importa. Que guardem a opinião deles para si, mesmo que sejam a Glória e o Anselmo. – pegou no rosto da esposa e fitou-a com ternura – Que vejam que estamos juntos… e felizes.

— Ai, Ricardo, mas eu fico tão sem graça! - passou a mão numa mecha de cabelo e abaixou a cabeça

— Minha doce Letícia... - ele balançou a cabeça e quase riu – Você tinha que se ver toda vez que fica com vergonha.

— Por… por que diz isso? - levantou a cabeça e engoliu em seco – É porque eu não era assim, não é? Eu… eu vou tentar voltar ao que era antes, eu…

— Não, meu bem, não me interprete mal. Estou adorando essa nova faceta sua – alisou o rosto dela e olhou-a mais terno – Adoro minha Letícia espontânea e solta, mas também estou adorando essa nova você, toda tímida. É como se você me enxergasse como seu primeiro namorado… e estou me sentindo assim – emulou um sorriso presunçoso – Você continua transparente como sempre foi, Letícia. Gosto de saber o efeito que tenho sobre você, observar suas reações diante de mim. E fica linda quando cora de vergonha!

— Bem, se é assim… - ela emulou um leve sorriso

— Vem cá, minha querida. - ele a envolveu novamente num beijo

Escutaram sons de passos de mais de uma pessoa entrando e saindo; certamente, eram as empregadas que estavam colocando as guloseimas do café sobre a mesa, mas não se desgrudaram. Apesar da vergonha, Letícia deixou que Ricardo a beijasse à vontade até se sentir satisfeito.

Quando terminaram, uma empregada os aguardava de pé com expressão neutra. Letícia ruborizou, mas ostentou o rosto naturalmente enquanto seu marido a conduzia pela mão até a mesa com um sorriso de orelha a orelha.

A serviçal os atendeu no que lhe pediram e, em seguida, deixou-os a sós.

— Esqueci de te perguntar sobre a sua visita na casa de seus pais ontem… estava com a cabeça em outras prioridades – sorriu malicioso enquanto passava geleia na torrada – Como foi?

— Foi muito bom. Me senti bem com eles… e com as pessoas que trabalham lá.

— Você… teve alguma recordação? - olhou-a com neutralidade e sem deixar transparecer emoção na voz, mas Letícia podia perceber sua preocupação – Lembrou de algum fato?

— Não – disse-lhe tranquila em vez de ase aborrecer por ele manter a atitude de lhe esconder fatos de sua vida. Começava a entender seu senso de proteção pela conversa com a mãe – Até tive uma sensação de reconhecimento, mas não me lembrei de nada.

— Hum. - foi sua resposta, aparentando indiferença

— E você? Como foi o seu dia? Ganhou muitas partidas de tênis?

— Normalmente teria ganho, mas ontem perdi todas – fez uma careta – Estava desconcentrado.

— Nossa… Por quê?

— Minha cabeça estava no nosso beijo de ontem… o primeiro de mais cedo – tomou-lhe a mão e a beijou. – Não sabe como estava ansioso para chegar em casa, te encontrar e voltar a beijá-la.

— Bem... agora você poderá fazer isso sempre que quiser – respondeu Letícia com um sorriso tímido

— Não sabe como me deixa feliz escutar isso – ele alargou o sorriso e beijou sua mão mais vezes – Pena que tenho que ir para empresa hoje… os negócios pedem minha atenção.

— É, eu sei – abaixou o rosto incapaz de disfarçar seu aborrecimento

— Ei, não fique assim – ele segurou em seu queixo e ergueu-o – Eu ligo para você hoje.

— Verdade? – não escondeu a animação

— Claro, minha querida. - havia muita ternura em sua voz e olhar. – Para que você não se sinta sozinha e também para eu me tranquilizar sabendo que está bem.

— Vou ficar bem… o meu dia até que vai ser movimentado. Não se esqueça que a Laura vem me visitar hoje.

— Ah, é mesmo – a expressão de Ricardo se fechou.

— Algum problema? - indagou Letícia intrigada

— Nenhum – disse ele e abriu um sorriso forçado – E… que mais? Hoje você tem sessão, não é?

— Sim. E depois da sessão eu estava pensando em passar em alguma loja para comprar umas roupas. Aquelas que tem no meu guarda-roupa são um tanto inapropriadas para se usar, pelo menos a maioria. Umas são decotadas demais e outras bem curtas. Não me sinto muito bem em vesti-las.

— Sou obrigado a concordar com você – Ricardo assentiu.

— Ah, é? - Letícia cruzou os braços – E então por que me deixou usá-las?

— Você não é do tipo que se permite ser contrariada – respondeu ele com expressão sombria e um leve tom de amargura – Ou pelo menos era assim.

— Pois não quero ser mais ser desse tipo – declarou um pouco incomodada por saber de tal característica sua; um defeito, pelo visto. Apertou a mão dele – Vou procurar escutar mais sua opinião de agora em diante.

— Fico feliz que pense assim, mas não quero de modo algum que deixe de realizar suas vontades. Não quero que pense que desejo controlá-la.

— Jamais pensaria isso de você. Eu... apenas quero também te agradar.

— Ótimo, então você não vai se opor em ser acompanhada pelo Igor, o segurança de hoje.

— Ricardo… - ela o fitou desgastada

— Você concordou, Letícia. - emulou um sorriso – Lembra-se? Conversamos no sábado pela manhã. E acaba de me dizer que quer me agradar.

— Mas eu não precisei de segurança quando fui visitar meus pais ontem – ela tentou protestar numa fraca tentativa, mas sabia que cederia

— Não precisou porque o Pedro estava com você e a levou direto para a casa dos seus pais. – Letícia suspirou. Ricardo alargou o sorriso e pegou em seu queixo – Sei que a aborrece, querida, mas…

— Você só está preocupado e é superprotetor – interrompeu-o com suavidade, com expressão resignada – Tudo bem, Ricardo. Você tem razão. Eu concordei e vou cumprir com o que te disse sem reclamar. - suspirou mais uma vez – Paciência.

— Boa menina. - deu-lhe um selinho e empertigou-se no assento – Bem, é melhor tomarmos logo esse café ou não conseguirei ir para empresa.

Após o desjejum, Letícia acompanhou o marido até a garagem, ambos não escondiam a tristeza; ele, por ter que deixá-la; ela, por ter que ficar sem sua companhia naquela mansão a qual não se sentia ainda à vontade. Despediram-se com um suave beijo, pois o segurança de Ricardo estava por perto e, embora fingisse olhar para outra direção que não a do casal, não pretendiam se entregar a uma sessão explícita de beijos e amassos.

Assim que ficou sozinha, Letícia se dirigiu ao quarto e esperou impaciente pela chegada de Laura, que não tardou muito. Eram nove horas quando veio, de acordo com o combinado.

— Dona Letícia, a dona Laura chegou – informou Glória diante dela na porta do seu quarto – Ela a aguarda na sala de baixo.

— Obrigada, Glória – disse a moça esboçando um genuíno sorriso para a governanta pela primeira vez, mas era pelo entusiasmo

E sem esperar que a governanta saísse, disparou como uma criança ansiosa e correu para receber a amiga com quem tanto conversou somente por telefone durante aqueles dias. Encontrou Laura sentada num sofá. Sabia que era ela não só por Glória anunciar, mas por reconhecê-la através de fotos. Uma moça bem magra, alta, cabelos loiros, grandes e ondulados e os olhos azuis. Trajava-se de modo simples, com uma blusa de alças pretas e calça branca.

— Laura – disse.

— Letícia! - a moça se levantou com expressão sincera de alegria, aproximou-se e abraçou-a. Letícia se sentiu bem como se encontrasse uma amiga de muito tempo, uma irmã. Parecia haver uma sintonia entre elas, um sentimento completamente diferente do que tinha com Cláudia. Foi Laura quem desfez o abraço e fitou-a com expectativa – Você… se lembrou de mim?

— Não, infelizmente não. Mas reconheci você por fotos que meus pais me mostraram e porque Glória me anunciou – pegou nas mãos dela

— Minha amiga, eu… - súbito, Laura começou a chorar, soltou uma das mãos de Letícia e tapou o rosto para tentar se conter – Me desculpe, eu…

— Está tudo bem, Laura – Letícia se sentiu à vontade com ela para abraçá-la novamente – Estou bem. Sem memória, mas bem.

— Eu… fiquei tão feliz quando sua mãe me contou que você tinha acordado – continuou ela, mas se mantinha abraçada a Letícia – Não sabe como quis interromper o que estava fazendo e voltar correndo para lhe ver...

— Eu sei, Laura, você me disse por telefone.

— Mas, eu… eu… - ela desfez o abraço outra vez, engoliu mais um choro, suspirou para se acalmar e encarou Letícia de frente – Mas eu sabia que tinha um dever a cumprir com nossa ONG, o sonho de nossas vidas. Eu devia isso a você… depois de tudo.

— Depois de tudo o quê? - Letícia arqueou a sobrancelha

— Depois… depois do trabalhão que tivemos para construí-la– apressou-se em dizer. Letícia pensou notar alguma apreensão nela, mas interpretou como a emoção por se reverem. Laura enxugou as lágrimas dos olhos – Mas você não sabe como estou agradecida a Deus por te ver inteira e que a única sequela foi sua perda de memória.

— Sim, mas ainda que não me lembre de você, tenho a sensação de te conhecer bastante… e desde a primeira vez que você me telefonou.

— Que bom! Pelo menos isso… - Laura fez expressão de alívio – Sempre tivemos uma sintonia muito grande. Somos amigas desde os dez anos. Nos conhecemos no colégio na quarta série

— Minha mãe me disse. Mas sente-se… vamos conversar – as duas se ajeitaram no sofá. Letícia viu sua governanta terminar de descer a escadaria – Glória, por favor, peça que preparem um suco e biscoitos para Laura

— Já ia mandar providenciar – retrucou Glória.

— Não, não precisa – dispensou Laura com um gesto – Não tem nem uma hora que acabei de tomar café. Estou satisfeita.

— Certeza? - insistiu Letícia

— Sim, obrigada.

— Então… pode deixar, Glória – virou-se para a governanta – Obrigada.

Glória apenas assentiu com sua máscara de frieza e antipatia e retirou-se. Letícia sentiu incômodo, embora começasse a se acostumar com tal postura

— Ela ainda não gosta de você, não é? - observou Laura

— Você… também notou? - Letícia se surpreendeu um pouco

— Qualquer observador mais atento, notaria.

— Você disse… "ainda". Ela não gostava antes?

— Er… sim, mas… não faça caso. Deve ser porque como ela praticamente criou o seu marido, deve se sentir como uma espécie de sogra… e ter uma certa implicância como qualquer uma.

— Mas não é só ela. Tenho a impressão que os outros empregados também não gostam de mim, pelo menos a maioria – Letícia soltou um suspiro – Se ao menos eu soubesse o motivo...

— Não vamos falar sobre isso – Laura pareceu desconfortável e emulou um sorriso – Me fale sobre você. Como tem sido esses dias, não se lembrar de nada. Falamos por telefone, mas não entramos em detalhes.

— Pra falar a verdade, tem sido angustiante. As pessoas saberem de você, te conhecerem, contar histórias, mas você não se recordar, não conseguir se imaginar fazendo ou dizendo alguma coisa.

— Posso até ter uma ideia, mas não deve ser nem metade do que imagino.

— E nem queira. Não desejaria tal condição nem para o meu pior inimigo se eu me lembrasse de ter algum – emulou um sorriso resignado – É, mas... eu tenho sorte. Meus pais são maravilhosos… e Ricardo… Ele tem sido tão paciente e gentil!

— Que bom. – Laura tentou sorrir, mas não conseguiu – E vocês estão… convivendo como marido e mulher?

— Quase. Ontem e hoje nos beijamos – ela se sentia como uma adolescente que compartilhava de sua vivência com seu primeiro amor – E… alguns amassos – enrubesceu ao fitar a amiga que permanecia séria – Mas ainda não tivemos relações… eu... ainda não estou preparada. - suspirou – Mas ele tem se portado como um cavalheiro e não me forçado a nada.

— Ainda bem. Pelo menos isso – a última frase pronunciou num murmúrio, mas audível suficiente para Letícia escutar.

— O que quer dizer? - Letícia a encarou intrigada

— Nada… Fico feliz por vocês se entenderem – a expressão de Laura era serena e o tom de voz era firme, mas Letícia sentiu a mentira, talvez por terem aquela sintonia que nem sua amnésia conseguiu apagar – Tem ido ao médico para tentar recuperar sua memória?

— Sim, mas até agora só tive duas recordações… e mesmo assim isoladas, uma delas com você.

— Ah, é? Qual?

— Uma que comemorávamos a fundação da ONG… No dia que reencontrei Ricardo após anos de afastamento. Foi ele que me disse.

— Ah, sim. É certo. - concordou, mas fez uma expressão melancólica – Foi aí que tudo começou.

— Começou…?

— O sentimento dele por você.

— Foi o que ele me disse – sorriu – Sou uma mulher de muita sorte por um homem como ele ter se apaixonado por mim.

— É… - disse Laura a olhando com expressão indefinível

— Mas me conte mais coisas, por favor – Letícia quase suplicou – Eu… não me lembro de praticamente nada do que vivemos, mas preciso que fale tudo o que puder sobre mim para que eu possa me lembrar.

— O que… exatamente quer saber? - Laura pareceu fitá-la com cautela

— Ah… para começar... me fale mais sobre você. Se é casada, solteira…

— Divorciada – respondeu Laura com expressão sombria

— Ah. - foi tudo o que Letícia disse.

— O nome do meu ex é Maurício – continuou Laura num tom ácido – Um filhinho de papai que se tornou senador.

— Maurício… - Letícia abaixou a vista como que se lembrasse de uma informação – Acho… que me lembro de você ter mencionado o nome dele nessa minha recordação. Num momento em que me deixou a sós com o Ricardo

— Sim, nessa época éramos noivos, mas faltavam poucos dias para nos casar – suspirou – Mas nosso casamento não durou muito, apenas dois anos. Foi um desastre!

— Nossa, mas por que…? - Letícia se interrompeu – Desculpe, estou perguntando algo que deve lhe trazer lembranças dolorosas.

— Não, tudo bem, é natural você querer colher o máximo de informações a meu respeito, mas… é uma história desagradável que não quero te contar… pelo menos não hoje – sorriu – Mas te digo que resultou em algo maravilhoso, ou melhor, alguém. Meu filho.

— Um filho? Que maravilha! E como ele se chama?

— André… e ele está com três anos. - o sorriso de Laura se alargou – Queria ter trazido ele aqui, eu costumo levá-lo à ONG porque lá tem um espaço onde cuidam das crianças dos diretores e funcionários, mas achei melhor deixá-lo hoje com minha mãe porque queria conversar com você sozinha. Na próxima, eu prometo que o trago.

— Pode trazê-lo, sim. Fiquei louca para conhecê-lo.

— Sim, inclusive... você é a madrinha dele.

— Ah, que bom! Quer dizer que Ricardo e eu temos um afilhado! – o sorriso de Letícia murchou ao ver a fisionomia de Laura se fechar – O que foi?

— Na verdade, o padrinho de André é… outra pessoa. Como na época, você e o Ricardo não estavam casados e… eu não tinha muita proximidade com ele, indiquei… um parente meu. - engoliu em seco – A paróquia onde meu filho foi batizado não exigia que os padrinhos fossem casados.

— Ah, certo. - Letícia assentiu intrigada pelo desconforto de Laura

— Mas… que mais você quer saber de mim? - Laura irrompeu com uma euforia exagerada – Ou de nós? Posso lhe contar várias travessuras que aprontamos quando pequenas… e mesmo quando éramos adolescentes.

— Ótimo! Fale tudo – Letícia se contagiou

Escutou animada os relatos da amiga. Riram-se por diversas vezes, Letícia sentiu-se como uma garotinha, as duas pareciam crianças. Nem viram o tempo passar quando se aproximava a hora do almoço, apenas quando Glória se aproximou e indagou se poderia colocar mais um prato à mesa para Laura.

— Ah, não, obrigada, Glória! - disse ela e levantou-se de supetão – Nossa! Como as horas voaram!

— É mesmo. – Letícia também se levantou e pegou em suas mãos – Mas insisto para que fique para o almoço.

— Eu adoraria, minha amiga, mas vou ter que recusar dessa vez. Marquei de almoçar com… uma pessoa hoje e não posso faltar.

— Uma pessoa? - Letícia esboçou um sorriso malicioso – Um homem?

— É… mas não é o que está pensando. Apenas… um parente meu.

— Seu primo? - arriscou Letícia.

— Como você sabe… que tenho um primo? - Laura parecia alarmada

— A Cláudia mencionou quando veio aqui outro dia – Letícia a encarou intrigada. Quase podia sentir o alívio na expressão de sua amiga – Eu o conheço por acaso?

— Vagamente – Laura deu de ombros aparentando indiferença, mas não convenceu Letícia – É melhor eu ir porque ainda quero ver algumas pendências na ONG.

— Eu vou acompanhá-la – disse Letícia sem abandonar a expressão intrigada

Laura puxou conversa, mas Letícia apenas respondeu por monossílabos. Estava pensativa e observava sua amiga. Tinha a sensação de que ela também fazia parte do jogo estabelecido por seus pais e seu marido de "esconda certos segredos de Letícia", pelo menos sua atitude de há pouco o demonstrou à menção do primo, embora não pudesse atinar que problema teria em falar dele.

Se Laura agiria como os outros, isso era mau. Significava que não podia contar com ela para lhe revelar aspectos sobre si, como sua vida amorosa, por exemplo, que só não abordou por não ter dado tempo no meio daquelas recordações de histórias engraçadas.

Parecia que Laura não se sentiu à vontade em falar do primo. Por quê?

Essa Laura... é tipo uma alpinista social que se aproveitou de sua amizade... eu sempre lhe digo isso. Ela só teve a sorte de estudar no mesmo colégio que a gente por causa do paizinho dela que foi um dos professores e até diretor. Fora isso... em que mundo ela poderia circular nos mesmos lugares? E o primo dela também... O que ele fez só confirma o que sempre pensei daquela sonsa... e você não me ouviu.

As palavras de Cláudia fizeram-na pensar. O que o primo de Laura fez? Mas não teve tempo de refletir mais porque logo se aproximaram do carro da amiga. Um porsche quase igual ao seu, diferia apenas na cor e no modelo.

—Você também tem um porsche?

— Foi um presente que você me deu de casamento. Na verdade, Marcos o comprou, mas você quem escolheu o modelo. Sempre compartilhamos o mesmo fascínio por carros – ela sorriu – E pelo visto, você não perdeu esse gosto, mesmo que não se lembre. Posso ver o brilho nos seus olhos por admirar meu Porsche.

— Verdade… Eu tenho reparado que conservo algumas predisposições… que não perdi minha personalidade, não de todo… e gosto de muitas coisas que me disseram que eu fazia antes

— É um bom sinal – Laura a observou com uma expressão analítica que causou estranheza a Letícia – Significa que seus sentimentos pelas pessoas permanecem intactos mesmo que não se lembre.

— Nossa sintonia, por exemplo... e eu me sentir à vontade com você – retrucou Letícia. - E os meus pais… e Ricardo – suspirou – Sinto que vou voltar a amá-lo como antes.

Laura assentiu com uma expressão estranha, mas não disse nada. Apenas a abraçou.

— Então… até outro dia, Letícia. - disse e separou-se para mirá-la – Devo passar aqui em mais algum dia desta semana. Vou arrumar um tempinho da ONG.

— Passe sim, Laura, estarei te esperando. Ah, e acabou que não deu tempo de falar sobre a ONG… Eu sei que devo me inteirar mais a respeito… e voltar em algum momento...

— Não se preocupe. Como te falei antes, estou dando conta… e o pessoal da coordenação tem me ajudado. - passou as mãos nos ombros da amiga para tranquilizá-la – Não tenha pressa, apenas se cuide. E…

— Sim? - Letícia a incentivou.

— Quero que saiba que conta comigo para qualquer decisão. Não vou falhar com você, não importa o que me custe. Quero que saiba disso, Letícia. Entendeu?

— Sim… Entendi – mas estava confusa com aquelas palavras

— Você é a minha melhor amiga, sempre foi. Mais do que isso, a irmã que nunca tive. - Laura parecia quase chorar – Posso ser apenas uma mulher divorciada, uma mãe preocupada com a criação do filho e não ter dinheiro nem influências, mas não vou permitir que nada nem ninguém a faça infeliz.

E antes que Letícia perguntasse o significado por trás daquelas palavras, Laura entrou no carro e partiu.

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Letícia se preparava para ir ao hospital em mais uma sessão com a doutora Marcela quando Ricardo lhe telefonou.

— Oi, querida! Como está? - indagou-lhe terno

— Muito bem. - sorriu como uma boba – E você?

— Não muito, já estou sentindo a sua falta.

— Então somos dois. Eu também.

— Mal posso esperar para voltar para casa e enchê-las de beijos.

— Nossa, Ricardo - mordeu os lábios – Assim você me deixa sem jeito.

— Pois eu adoro isso – ambos riram – E… como foi a visita de Laura?

— Foi muito bom! Conversamos bastante. Eu me senti tão à vontade com ela! Mesmo sem me lembrar da Laura, eu não a estranhei.

— É, vocês sempre foram muito unidas... nada parecia abalar a amizade de vocês. - o tom de sua voz era estranho – E… do que vocês falaram?

— Ah, sobre muitas coisas. Ela me contou algumas histórias de como aprontamos quando crianças e adolescentes.

Relatou a ele tudo o que se lembrava da conversa. Por algum motivo, não mencionou o primo com quem Laura afirmou que almoçaria, talvez por considerar irrelevante. Ou talvez porque a atitude da amiga diante de sua pergunta se conhecia o tal primo a intrigasse e não quisesse compartilhar com Ricardo.

— Eu adoraria conversar mais com você, Letícia, mas infelizmente vou ter que desligar. Tenho uma reunião agora.

— Nossa! E eu enchendo seus ouvidos com um monte de histórias!

— Não, imagine, adorei escutar você falar tão entusiasmada. Eu sabia dessas histórias porque você me contou antes, mas uma ou duas eu não tinha conhecimento – ele riu – É, a minha Letícia aprontou muito. Danadinha!

— Ah, Ricardo, duvido que você também não aprontou… e com meu irmão ainda por cima.

— Não, até que com o Sérgio não. Ele era muito certinho. Mas sim tenho um passado muito negro nessa área – ele fez um tom de voz assustador. Riram juntos mais uma vez – Então… te vejo depois.

— Tá, tchau. Um beijo.

— Outro para você.

E desligou.

Letícia ainda ficou com o telefone na mão suspirando e recordando os beijos que se deram pela manhã, quase esquecida da ida ao hospital. Porém, o alarme de seu smartphone lembrando do compromisso de meia a meia hora a despertou.

Terminou de se arrumar e foi ao hospital acompanhada de Igor, um segurança que revezava com Raul. O homem se parecia bastante com o ator Vin Diesel, com sua altura descomunal e a cabeça totalmente raspada; era intimidador, embora calado.

Na recepção, Letícia avistou o doutor Tiago, seu antigo neurologista. Ela acenou para ele, porém, o médico não a cumprimentou de imediato, a expressão sombria. Ela estranhou, mas se aproximou. Antes, fez um gesto para Igor se manter à distância.

— Boa tarde, doutor - disse e estendeu a mão – Como está?

— Bem. – ele apertou sua mão rapidamente como se temesse o menor contato. Ela o fitou intrigada – E como você está, Letícia?

— Bem, apesar do meu neurologista ter me abandonado – emulou um leve sorriso brincalhão, mas o desfez quando Tiago permaneceu com expressão séria. Ela engoliu em seco, arrependida da brincadeira – A doutora Marcela tem sido ótima comigo, mas não tive muito progresso. Apenas me lembrei de dois fatos que me aconteceram, mesmo assim em fragmentos.

— Já é alguma coisa – respondeu ele friamente. Fez menção de se retirar – Agora, se me der licença…

— Por que você abandonou meu tratamento? - perguntou Letícia antes que pudesse se conter

Por alguns instantes, houve apenas um silêncio. Letícia se arrependeu de ter perguntado, pois no fundo suspeitava que era pelo médico ter algum interesse por ela. Porém, surpreendeu-se com a resposta do neurologista:

— Não abandonei seu tratamento. Foram ordens da diretoria.

— Mas por quê? - estranhou – Não estou reclamando do tratamento da doutora Marcela, mas o seu não deixava a desejar.

— Creio que seu marido não pensava o mesmo já que foi ele quem exigiu que indicassem outro neurologista.

— Como? - Letícia piscou vagarosamente os olhos como se houvesse escutado mal – O Ricardo exigiu que você deixasse meu tratamento?

— Exato. Só fiquei sabendo depois porque a secretária do diretor é minha prima e ela quem me passou a informação… – Tiago parecia menos hesitante e frio ao lhe fazer a revelação como alguém que houvesse ligado o botão do "Foda-se" – Ela estava por perto quando seu marido foi conversar com o diretor e lhe fez tal exigência

— Mas o Ricardo não podia ter feito isso. - ficou pasma – E sem me consultar... Era eu quem devia ou não achar adequado. Por que ele tomou essa atitude?

— Letícia, você devia se olhar mais no espelho antes de fazer tal pergunta. - por fim, o médico acabou sorrindo

— Eu… como assim?

— Você é uma mulher que atrai muita atenção não só por sua beleza, mas por sua sensualidade. - ela corou com o elogio – Seu marido, com certeza, não pensou duas vezes quando viu que a esposa estava sendo tratada por um médico da mesma idade. Inclusive, ele solicitou que eu fosse substituído por uma médica. – riu – Claro que eu jamais ultrapassaria a linha entre paciente e médico por mais que eu te considerasse atraente – Letícia engoliu em seco, incapaz de retrucar – Mas o ciúme não dá espaço para a lógica… e nem grandes homens como Ricardo Fontes Guerra são imunes a esse sentimento.

— Eu… eu.. não sei o que dizer… eu…

— Não se preocupe, não é culpa sua. Fiquei chateado por meu trabalho ser afetado simplesmente porque bastou alguém poderoso estalar os dedos, mas agora até começo a achar graça na história. - balançou a cabeça – Mas acho que não devia ter contado para você.

— Eu… não se preocupe. Não vou dizer a ele que me contou… se acha que ele pode prejudicá-lo. - não queria acreditar nessa possibilidade, mas precisava tranquilizar o médico

— Não, não é por isso, mesmo porque estou abandonando o hospital. Recebi uma proposta para atuar numa clínica lá do Rio de Janeiro.

— Nossa, que bom – ela o congratulou, mas com um sorriso sem graça.

— Apenas acho que não deveria ter lhe falado para não a confundir. Você ainda deve estar em fase de adaptação, tentando entender vários fatos de sua vida… e conhecendo as pessoas, inclusive seu marido. - Letícia permaneceu calada, ainda tentava processar a informação. – Mas achei que você deveria saber com quem está lidando.

— Ahm... certo.

— É melhor você ir, Letícia. Esqueça o que eu falei. – ele balançou a cabeça como se estivesse arrependido de seu ato impulsivo – Pensando bem... talvez se eu estivesse no lugar de seu marido e você fosse minha esposa, agiria da mesma forma – ela abaixou o rosto, surpresa com aquela declaração – Até mais.

— Até… e boa sorte no Rio – disse num sussurro sem levantar os olhos para ele

Tiago pôs a mão no seu ombro como num cumprimento e se foi. Ela ainda ficou alguns segundos ali parada tentando refletir sobre tudo o que escutou.

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Depois da sessão com a doutora Marcela, Letícia foi fazer compras na mesma boutique onde havia adquirido seu vestido de gala para a festa de sábado; também foi em outras lojas para comprar outras peças. Apesar de considerar cansativo fazer compras – não sabia como sua mãe e Cláudia aguentavam – valeu a pena. Obteve tudo o que achou necessário; peças elegantes sem ser ostensivas, algumas sexys, mas não tão indecorosas como a maioria que havia em seu guarda-roupa.

Eram quase dezenove horas quando chegou à mansão. Rapidamente, tratou de se banhar, arrumar-se e perfumar-se para receber o marido. Certamente, ele chegaria a qualquer momento.

Estava na dúvida se deveria questionar Ricardo, contar-lhe sobre sua conversa com Tiago. Decidiu ignorar, embora houvesse prometido a ele na noite anterior que lhe relataria tudo o que pensasse e sentisse a seu respeito. Não é que temesse uma represália do marido ao seu ex médico, porém, não pretendia estragar a harmonia que havia se estabelecido entre eles com questões que já não importavam.

Deveria estar aborrecida com Ricardo, mas não. Ele não havia prejudicado Tiago, apenas solicitou que o substituíssem em seu tratamento.

Então seu marido era um ciumento incurável? Não deveria ter dúvidas com o ocorrido na festa de sábado com o tal Armando. Sorriu. O fato a deixava satisfeita; os igualava, pois ela também se revelava uma ciumenta.

Foi com esse estado de espírito que desceu e recebeu seu marido na sala. Ele havia acabado de chegar e, ao vê-la, abriu um largo sorriso e os braços para recebê-la. Beijou-a profundamente até ambos ficarem sem fôlego.

— Nossa, Letícia! - disse ofegante – Não sabe quanta saudade eu senti de você… e como estava louco para chegar em casa e beijá-la – cobriu o rosto dela de beijos e também o pescoço – Sentir você, sua pele, seu gosto, seu perfume…

—Eu também... senti sua falta. - disse ela arfante com as investidas dele

— Eu vou tomar um banho e já desço para o jantar – sussurrou ele e deu-lhe um selinho – Não me demoro.

Letícia apenas assentiu e o observou se afastar com uma expressão de felicidade e ânsia. Ela também se sentia inundada.

Deus, estou me apaixonando por ele! Espero que eu consiga fazê-lo feliz tanto quanto antes. Não, mais ainda.

Era seu sincero desejo. E esperava que conseguisse cumpri-lo.

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E aí? O que acharam de Laura? Ela também parece cheia de mistérios, né?

Uma boa notícia: sem ser o próximo capítulo, no outro depois finalmente teremos a tão aguardada primeira noite desses dois. É, a coisa vai ferver, pode crer. Mas mesmo o próximo ainda não tendo hentai, vão ter alguns momentos calientes. Mereço reviews? Sim, mereço. Até a próxima.