Do litoral e seu povo


Notas do Autor
Esta ficção, que leva o nome de "Les Marcheé" faz parte de um universo particular que criei em minha mente durante muitos anos, pelo simples gosto de inventar histórias. Tenho muito amor e orgulho por todo esse reino mágico e personagens, aqui o foco principal será a história dos quatro amigos, personagens principais.
Foi muito difícil a decisão de compartilhar essa fic aqui, não sou boa escritora nem escrevo buscando reconhecimento ou fama; posso dizer que escrevo, na maior parte, para minha própria satisfação.
Porém, quando decidi torná-la pública, trazendo para o mundo real de forma escrita, espero que esta história também ganhe o carinho de vocês.
Só tenho a agradecer por cada um que está aqui, disposto a ler!
Boa leitura
;)


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No Reino de Les Marcheé, havia muitas coisas que instigavam o interesse e imaginação, como as cidades bonitas, as paisagens incríveis e as pessoas importantes. As histórias, vidas e destinos, entrelaçados e envoltos em mistérios, despertavam atenção.

Les Marcheé era um lugar diferente, um pedaço da era medieval perdido no mundo moderno. Ali, muitas coisas eram antigas e remotas, como as paisagens, arquitetura das vilas e castelos, hierarquias e, também, os costumes e tradições. Com o passar dos tempos, houve algumas evoluções como na educação, ciências, medicina, gastronomia e vestimentas. Também havia a eletricidade, os trens a vapor e as estradas asfaltadas.

Naquele lugar, a pequena cidade que ficava ao sul, no litoral, chamava-se Boandis. Era uma das mais prósperas, pois nela estava a maior parte das terras férteis, os melhores agricultores e o maior comércio. Lord Thon Levi era o governador da cidade, com título de Príncipe e descendência nobre de muitas gerações. Um homem quase idoso, sábio e justo para o qual muitos na cidade trabalhavam, direta ou indiretamente, tendo em vista que a maioria das terras de Boandis pertencia a ele.

Cada cidade tinha seu ministério, com ministros e conselheiros. E todos estavam sob ordens dos Imperadores em Imperah, a cidade capital de Les Marcheé, de onde saiam as ordens e leis. Cuidar do povo de cada cidade sempre fora função dos Governadores. Para proteger e manter a ordem, cada região tinha um exército. O de Boandis era pequeno, mas seus homens eram nobres, os melhores da cidade, bem treinados e educados; no entanto não guerreavam porque não havia guerras. A última vez que acontecera uma guerra fazia quase um século, e havia sido apenas por disputa de território. Guerras mesmo, daquelas épicas, só se sabia o que as lendas contavam.

Desse povo, havia aqueles cuja educação ou valentia se sobressaia dos demais e isso lhes dava títulos de nobreza, nomeando-os lords ou ladys. Toda característica que tinha um nível admirável, era valorizada e exibida com títulos, que por sequência, ganhava reverência e inveja. Fosse pela destreza com armas, pela educação erudita, pelo talento na música, instrumentos musicais, artes, esportes ou algo que se referisse à magia. Aos que conquistavam bons e grandes títulos, nomeava-se nobres, e os melhores faziam parte da corte na capital Imperah junto ao Imperador, cuja residência era o Castelo de Bellephorte [1].

Nem todos tinham títulos e nem todo título era bom e honroso. As pessoas eram bondosas, mas nem todas eram sábias. Muitas eram severamente críticas e julgadoras. Assim como se admiravam e demonstravam alegria com algo diferente do seu cotidiano, também tinham receio e, frequentemente, rejeitavam fazendo associações com "coisas do mal". Frutos de muitas lendas do passado que estavam fixadas em suas mentes e não sabiam diferenciar os mitos das verdades.

Por isso, quando a família Macrin se mudou do norte para o sul, com seu pequeno atelier de tapeçarias, há muitos anos, tinham deixado de lado sua tradição de família em ervas, chás e poções. As mulheres da casa, por gerações, estudavam e ensinavam a arte da cura pelas plantas, mas de algumas décadas pra cá, muitas haviam sido acusadas de bruxaria por suas receitas milagrosas que curavam até o amor. Esse poder diferente, que não fora totalmente compreendido pelo povo, acabou sendo temido e reprovado.

Esse passado não agradava o Sr. Fooy Macrin, que desejava manter esse fato latente, proporcionando uma boa vida à sua esposa e as três filhas. Preferia deixar as curas para os estudiosos da medicina, que mesmo usando homeopatia, fitoterapia e, principalmente, a magia, por serem nobres e terem frequentado a faculdade; estes não eram julgados.

Das três filhas, as duas mais velhas já estavam casadas. A família crescia e juntos trabalhavam com tapeçarias, tingindo fios e tecendo bonitos desenhos de paisagens e animais. A mais jovem nasceu quando a Sra. Macrin acreditava já não poder mais ter filhos, mas ali veio outra menina e era a mais bonita de todas. Porém, a mais preguiçosa, que não gostava de tecer, nem bordar, nem tingir, nem desenhar... Gostava mesmo de ir para o meio do mato, colher ervas, e criar "poções mágicas", como costumava dizer, o que deixava seu pai muito preocupado e sua mãe envergonhada.

Loren Macrin, a terceira filha, era o orgulho da casa como também a preocupação, já que era extremamente curiosa. Tinha curiosidade em saber como tudo funcionava e como as coisas aconteciam. Passava boa parte do seu dia fazendo experiências sobre tudo o que se possa imaginar; desde misturar tintas para ver novas cores até matar pequenos animais e abri-los para ver como eram por dentro, se tinham os mesmos órgãos vitais dos humanos.

Sua curiosidade era inocente; às vezes, quando ultrapassava os limites e deixava sobre a mesa de jantar entranhas de algum bicho, alegando serem "experiências", seus pais a repreendiam, davam-lhe um castigo, mas nunca pensaram que sua filha tivesse alguma tendência pelas "coisas do mal". Afinal, depois ela inventava uma poção de limpeza e deixava tudo como se nada tivesse acontecido. Não demonstrava maldade, mas também nunca se arrependia.

Ela tinha alguns amigos e uma paixão quase secreta. O primeiro amor, aquele platônico, despertado no início da adolescência, pelo menino poucos anos mais velho que si: Shaido Levi, o neto mais jovem do Governador; era tão bonito, tão corajoso e já possuía habilidades com espadas.

Estudavam na mesma escola, pois só havia uma na cidade, e era frequentada tanto por nobres como pelas pessoas simples [2]. Shaido destacava-se no coral da escola com sua doce voz barítono [3], e também, era o número um em tudo o que fazia. Loren sempre o observava de longe, se perguntando quando conseguiria se aproximar dele.

Loren fizera algumas amizades, as que mais lhe agradavam era dos gêmeos que também cantavam no coral: Codhe e Khei Protheroi. Eram seus melhores amigos e, por isso, Loren concordou em juntar-se ao coral.

Isso lhe dera a esperança de uma aproximação com Shaido. Descobriu que Codhe e ele, eram amigos bem próximos. Pensou que depois de alguns meses, conseguiria se tornar amiga do seu amado também, mas não foi assim que aconteceu.

As poucas conversas que tinham, deixavam claro que ele não estava interessado nela, nem em qualquer outra garota. Shaido era muito austero para sua idade e levava seus estudos, aulas de canto ou qualquer outra atividade muito a sério, o que ocupava toda sua atenção e dedicação.

Bem o contrário dos gêmeos, que apesar de participarem de várias atividades extracurriculares, conseguiam tempo para se divertir com Loren. Iam à praia fazer experiências com conchas e águas vivas, ou no mato com plantas e insetos, enquanto Shaido, às vezes, os acompanhava, mas deixava claro o quanto aquilo era entediante e perda de tempo.

— Por que perder tempo esmagando folhas ou colhendo fungos de árvores? Vocês são nojentos e bobos fazendo essas coisas que não levam a nada!

— Mas Shaido, são experiências para descobrir o que acontece com essas misturas inusitadas. - Loren tentava defender suas ideias - Pode ser que descobrimos algum dia uma poção mágica!

— Mágica não vem de plantas esmagadas, mágica vem de dentro de você. - Shaido era cético e direto. - Se você quer encontrar a magia, tem que buscar em você.

— Eu acho que a Loren tem razão, a magia pode estar em muitas coisas. - Codhe concordava com a amiga, como sempre – Mas precisamos testar todas as coisas para saber onde ela está.

— Eu acho que cada um tem um pouco de razão. - Khei parecia a mais madura dos quatro amigos. - Acho que a magia está dentro de cada um de nós, mas também fora, em todas as coisas. Precisamos combinar tudo isso!

— Eu não acho, eu tenho certeza que vocês três são bobocas. - contrariado, Shaido sem paciência, dava as costas e ia embora sozinho, como sempre fazia.

Loren não gostava de discutir, ficava triste pela forma grossa que Shaido a tratava, tinha vontade de chorar quando ele a chamava de boboca, mas ele era tão lindo que ela logo esquecia as ofensas.

Gostava de vê-lo tão perto. O sol refletindo nos cabelos dourados do menino e nos olhos de um azul estranho tão bonito, a olhavam com reprovação, os lábios que lhe diziam palavras duras eram tão bem desenhados, carnudos e rosados que ela mal ouvia as críticas; ele era uma pintura perfeita e ela gostaria de tecer uma tela com aquele rosto.

Ela era bonita, sim, todos diziam. Mas se perguntassem sobre uma menina bonita, ela diria que Khei era a mais linda, com seus olhos verdes iguais aos musgos que costumavam esmagar e seus cabelos negros, longos e lisos. Lindos! Como Loren gostava daqueles cabelos da amiga, queria que os seus fossem assim, mas tinha nascido como todas as mulheres da sua casa: cabelos castanhos e cacheados e seus olhos eram verdes, mas bem clarinhos, quase deixando o verde ir embora.

Codhe era muito parecido com a irmã, já que eram gêmeos, não idênticos, mas suficientemente parecidos para serem confundidos, principalmente, porque era costume e tradição, os homens terem cabelos compridos iguais os das mulheres. A diferença era que meninas usavam muitos enfeites coloridos e prendiam em diferentes penteados, enquanto os meninos usavam soltos ou prendiam em um simples rabo de cavalo.

Os homens adultos eram mais cuidadosos com seus cabelos, afinal, cabelo longo era sinal de honra e virilidade, tanto que a humilhação pública dada a um homem era raspar sua cabeça. Assim, exibir seu cabelo em um coque ou trançá-lo como à moda élfica, eram coisas bem comuns. Quanto mais bonito e bem cuidado os cabelos, mais considerado nobre era aquele homem.

Codhe dizia que isso era vaidade e bobagem. Tinha os cabelos compridos porque sua mãe o obrigava, mas já havia tentado cortar e apanhou o suficiente para não mais tentar. Khei dizia que era porque sendo criança, ele não sabia o quanto aquilo era importante no mundo dos adultos. Shaido dizia que era apenas uma forma de exibicionismo e sedução, e Loren dizia que era parte da magia que os adultos tinham, e por isso, às vezes, ela fazia experiências com cabelos, para descobrir qual a magia que estava nos cabelos longos dos homens que tornavam eles tão especiais.

A magia era um assunto corriqueiro e despertava muita curiosidade entre as pessoas. Sabia-se que os nobres tinham poderes mágicos para fazer muitas coisas, desde curar até matar. Mas a maioria, principalmente as pessoas humildes, não sabiam como isso funcionava, como se desenvolvia ou como se aprendia. Nenhum nobre falava, às vezes, demonstravam publicamente, talvez, para se exibir; principalmente em torneios e competições que faziam em alguns festivais durante ano.

Loren, às vezes, criava coragem e perguntava alguma coisa pra Shaido, que sendo nobre, neto do Governador, com certeza tinha algum poder, mas nunca mostrara pra ninguém. Ou talvez, só tivessem poderes mágicos quando se tornassem adultos? Ele odiava que falassem sobre isso. Loren evitava, não queria ganhar mais aversão do seu amado tanto quanto já tinha com suas "experiências".

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E aquele ano se passou e, ela, achou que a amizade entre ela e Shaido poderia progredir, mas não progrediu. Ele ficava cada dia mais irritado com a curiosidade dela em relação às coisas e, principalmente, a magia. Ele achou que a escola não ensinava o suficiente e sua família concordou que ele fosse para a capital fazer estudos mais profundos e eficientes, principalmente, na área do canto e da luta com espadas.

Loren não viu mais Shaido, por cinco longos e tristes anos. Apenas se lamentava e tentava descobrir o que acontecia na vida dele através de Codhe e Khei, que mantiveram correspondência com ele na capital, mas até isso foi diminuindo ao longo dos anos. À medida que cresciam, as coisas mudavam.


Notas finais
[1] Bellephorte: A pronuncia do "ph" sempre será com som de "f", assim, lê-se Beleforte.

[2] Loren não é nobre, mas também não é de família simples. O atelier de tapeçaria, assim como na idade média, tem grande importância comercial e torna a família Macrin afortunada em Boandis, mas eles não possuem títulos devido ao passado das mulheres associadas à bruxaria, erroneamente, e por esse motivo, sofrem preconceito.

[3] Barítono é a voz masculina intermediária, que se encontra entre as extensões vocais de baixo e tenor. Trata-se de uma voz mais grave e aveludada que a dos tenores e sem tanta potência ou altura.

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