Da verdade ao segredo

A verdade sobre os fatos do passado não era de conhecimento geral. Havia segredos mantidos no escuro para evitar que o mal interferisse na harmonia do reino, mas existia livros sobre esses fatos, porém, o acesso a eles era restrito. Eram poucas cópias e a única conhecida nos dias atuais estava na Biblioteca Imperial, esquecida em um cofre. As histórias do passado não eram mais consideradas ameaças, ainda sim, muitos preferiam fingir não conhecê-las.

Nesse livro em questão, narrava a Guerra das Sombras dos dias antigos. Há mil e sete anos, durante as festividades anuais da primavera, um inimigo surgiu do sul vindo pelo mar, uma grande e poderosa sombra de magia negra, ódio e destruição; cobriu todas as cidades de trevas e medo.

O terror se espalhou rapidamente, porque naqueles tempos, a magia estava restrita e não era algo comum entre o povo. Por isso, bravos homens que mesmo sem ter fé ou boas armas, defenderam suas vilas até suas forças se esgotarem e suas esperanças morrerem. Mesmo que tentassem o seu melhor, não eram pareôs para a magia do inimigo que trazia a morte, destruição e profunda agonia em desolação. A derrota era eminente e a vitória das sombras parecia certa e rápida, pois já havia dominado grande parte do reino, se aproximando do norte, onde se formava a última resistência.

Então, aconteceu uma intervenção que fez o inimigo, pela primeira vez, temer quando os portões do Castelo de Bellephorte foram abertos por magia. Foi a primeira vez que o povo sentiu aquele tipo de mágica no reino. Em defesa, vieram homens, mulheres e até crianças, eram todos nobres detentores de armas magia até então desconhecidas. Juntaram-se àquela última resistência e o inimigo recuou. Foi revelado, pela primeira vez a todos, que o poder de Les Marcheé estava na mágica dos nobres de Bellephorte, e ao derrotarem o inimigo, destruindo as sombras e o medo, devolveram a esperança para todos os seres do reino.

Porém, o mal ao ser vencido, antes de ser totalmente absorvido para não mais existir, deixou como uma semente sua magia de fúria e desespero, escondida por entre o tempo, a vida e a morte. Vagando secretamente entre a mente e os corações das pessoas, se misturando em seus pensamentos e sentimentos, se alimentando da magia já existente. Essa semente foi ganhando tamanho e força.

Com o passar do tempo, era um tipo de magia que quase tinha forma física e podia ser sentida e, inclusive, vista pelos nobres que possuíam um alto nível de poder.

Dos nobres mais poderosos era a linhagem Imperial da família Protheroi, que após a vitória contra as sombras, era ainda mais reverenciada. E foi eles os primeiros a perceberam essas sementes do mal que germinava entre o povo, se tornando mais forte e independente a cada dia. Não restavam dúvidas, era obrigação dos Imperadores Protherois acabarem de uma vez por todas com essa magia sombria de fúria que causava o desespero.

Para a Batalha das Sombras, as Musas fizeram pessoalmente sua intervenção. Elas eram divindades detentoras de toda a magia que fluía em Les Marcheé. Eram em número de seis: Leonora, Daopra, Esteh, Kursora, Ventura e Bellepo. Eram feitas de magia e não tinham corpo físico, mas naqueles dias, por mágica, assumiram uma forma para concentrar seu poder e assegurar a vitória.

Seus poderes eram imensos e, por isso, precisavam compartilhar. Podiam estar em toda parte, tornando a magia acessível a todos, mas chegar até elas necessitava certo domínio mágico. Isso era algo que os nobres sempre souberam e não compartilhavam com todos, pois certos poderes precisam ser controlados, nem todos saberiam usar com sabedoria uma magia tão cheia de poder.

Mas aqueles que sabiam usar e tinham a graça das Musas, se tornavam poderoso para fazer feitos extraordinários, e um desses feitos memoráveis foi quando os Imperadores reuniram, em uma única forma de fogo e fúria, toda a magia que havia sido plantada pelas sombras. Essa magia assumiu a forma de um dragão, feito de fogo, vermelho e brilhante, de angustia e desespero, queimavam e consumiam toda magia menor ao seu redor. Era poder demais para permanecer sem controle e, por isso, mais uma vez, algumas Musas assumiram a forma física, concentrando seu poder e aprisionando aquele dragão com um Selo, que jamais deveria ser aberto novamente até que pudesse ser controlado ou destruído.

Este Selo permaneceu em segredo nas mãos dos Imperadores, mas o coração do filho mais jovem do Imperador não estava tranquilo. Havia sussurros em sua mente, dizendo que ele poderia se tornar tão poderoso a ponto de dominar aquele Selo. Começou a dedicar sua vida em estudos para aumentar sua sabedoria em magia. Assim, rapidamente superou seus pais, e conquistou a admiração de todos, sendo glorificado e aclamado como o Sucessor do Império.

Porém, ao ser coroado, seu desejo de dominar o Selo e tomar para si o Dragão de Fogo lhe roubou a mente por completo. Sua obsessão superou a razão e nada pode evitar que ele abrisse aquele poder selado. O poder não era demasiado para si e ele foi capaz de dominá-lo, pois há muito seu poder havia crescido em um nível incomparável. Mas o desejo por algo maior lhe corrompeu o caráter e ao sentir-se o mais poderoso de Les Marcheé, comparando-se as Musas, tentou forçá-las a se materializar para torná-las suas servas.

Nunca houve a relação de mestre e servo, toda relação era cooperativa e o respeito era mútuo em ambos os lados! O povo respeitava e admirava os nobres por vontade livre, serviam por prazer e em troca recebiam confiança e proteção. Ninguém em Les Marcheé jamais foi obrigado a nenhum tipo de escravidão ou opressão, mesmo depois da Guerra das Sombras, quando os nobres demonstraram sua força e eram venerados pelo povo, a cooperação era amigável e espontaneamente.

O que o novo Imperador estava fazendo ali era construir uma nova Era baseada em senhores e escravos, oprimindo através do seu poder.

O povo se revoltou, uma parte dos nobres concordara, pois achava interessante a ideia de dominação; outra parte não. O reino se dividia e crescia sentimentos negativos de várias formas. Aquele poder, antes aprisionado, agora estava com o novo Imperador, e começava novamente a se alimentar da magia existente e, principalmente, dessas forças negativas de ódio, rancor, indignação, revolta e contrariedade.

Assim, quando as Musas de fato se materializaram, Leonora, a mais poderosa entre elas, assumiu a forma mais física já vista em todos os tempos, e com suas próprias mãos tirou a vida do Imperador, mostrando a todo reino que jamais, em tempo algum, seria aceito qualquer tipo de força contrária que ameaçasse a paz e harmonia. Em seu discurso, deixou claro seu descontentamento, e jurou abandonar o Reino para sempre caso voltasse a acontecer tamanha vergonha como aquela.

O reino inteiro tremeu de medo, e aqueles que haviam apoiado o Imperador sentiram tamanha vergonha que preferiram a morte. Os Protherois que não haviam concordado com aquilo se sentiram aliviados pela intervenção das Musas, mas nenhum deles queria assumir o trono, pois os atos de seus parentes causaram grandes desonras.

As próprias Musas escolheram um sucessor, e por muitas décadas permaneceram em sua forma física, auxiliando e ensinando sobre novas magias, criando novos selos para conter ou doar novos poderes que estavam nascendo devido às mudanças.

Muitas coisas surgiram naqueles dias, todas para a manutenção do bem e superação do mal, e assim, pode se iniciar uma nova Era, onde os atos impensados do passado serviriam de exemplo para nunca mais serem repetidos.

Com o passar do tempo, cada Musa foi abandonando sua forma física e voltando a ser magia onipresente. E a cada geração que passava, mais os Protherois sentiam vergonha pelos atos do passado e começaram a negar sua descendência, rompendo quaisquer ligações com seus ancestrais.

Nessa linha de tempo, muitas coisas foram perdidas e esquecidas. Nos dias atuais, a maioria dos Protherois não sabia sobre os fatos do passado e os que sabiam escondiam muito bem e, principalmente, evitavam a magia a qualquer custo.

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Naquela noite, durante o jantar, depois de muito discutirem, Codhe e Khei chegaram à conclusão que não deveriam esconder de seus pais o fato de terem dominado a magia, pois em sua casa jamais houve mentira e nem se ocultava qualquer coisa que fosse. Assim, quando revelaram para seus pais, não entenderam o motivo de tanta preocupação e julgaram exagero dos mais velhos sobre a situação.

No entanto, seus pais conseguiram, em partes, disfarçar seu desespero, depois de terminar o jantar com um clima tenso, se retiram para seus aposentos em uma conversa decisiva.

— O que faremos? Por que isso aconteceu? Temos nos empenhado tanto em anular qualquer magia! Como ele conseguiu? - Lady Protheroi se lamentava, andando de um lado para outro.

— Não fomos eficientes, agora que aconteceu, temos que pensar em como lidar com isso. Pense positivo, Nilla, a maior parte da magia existente em Les Marcheé é boa, proveniente das Musas.

— Ora, meu Senhor! Esse tipo de magia, exatamente como nos dias antigos! Veja como ele contou que aconteceu, fúria e desespero! O mesmo sentimento! - Nilla começava a chorar e logo foi abraçada pelo marido que a confortava.

— Não pense nisso. A magia tem muitas formas! Os dias do passado estão tão distantes, e nossas crianças têm um coração puro e bondoso. Ele salvou a irmã da morte! Como pode algo que nasce dessa forma ser para o mal?

— Se fosse qualquer outra forma de magia... mas esse fogo... essas chamas que consomem toda esperança... essa mesma maldição que persegue nosso sangue manchado de vergonha e traição!

— Nilla, querida, por favor, fique tranquila... Vamos lidar com isso com muito amor e carinho. Nós ensinamos para nossas crianças o caminho certo!

— Eles já não são mais crianças, Rowah! Farão dezoito anos daqui quatro meses! Já são adultos! Já são livres e independentes para ir e vir... e seguirem seus próprios caminhos... - completou a frase com pesar e tristeza.

— Então, vamos sugerir que Codhe vá para Imperah terminar seus estudos, entrar para a faculdade e, quem sabe, fazer parte do Coirlem.

Nilla Protheroi pensou que essa seria a solução mais viável. Se o filho fosse aceito no Coirlem, o Conselho Imperial do Reino de Les Marcheé, de onde saia todas as decisões, ordens e leis para todas as coisas, ele estaria, de certa forma, protegido e vigiado. Sentiu-se afortunada por ter se casado com um homem tão sábio, que sempre resolvia todos os problemas e tirava todas as suas preocupações. Sorriu para o esposo e beijou-lhe a face.

— Obrigada! Vamos descansar e amanhã conversaremos com eles sobre nossa sugestão.

Na manhã seguinte sugeriram ao filho que fosse concluir seus estudos na Capital e, ao completar dezoito anos, apresentar-se ao Coirlem para que decidissem sobre seu futuro. É claro que ele não discordaria dos pais. Era um bom filho e obediente em tudo. Mas uma questão surgiu.

— Khei irá comigo, certo?

Bem, eles não tinham pensado em enviar a filha para a Capital, não havia necessidade disso, mas quando ouviram a pergunta do filho, seu coração se partiu. Sentiam que não deveriam separar os gêmeos, mesmo eles já sendo quase adultos, ainda sim, a decisão de cada um seguir seu caminho separadamente deveria partir deles e não de forma forçada. Era assim que as coisas deveriam ser e, por isso, mesmo com o coração triste, permitiram que Khei também fosse para a Capital, no mesmo caminho.

E na mesma semana, eles foram para Imperah. Khei estava animada e sentia realizar um sonho, seus momentos favoritos eram nos festivais quando iam se apresentar com o Coral, mas não era a vontade de Codhe, porque o tempo todo pensava em Loren. Mesmo que ela não demonstrasse interesse nele, pensava que logo agora que tinha a magia poderia usar a seu favor para, finalmente, ganhar o coração dela e, quem sabe, até compartilhar a mágica.

Ainda faltava algum tempo para que pudessem ser aceitos na faculdade, isso se o Coirlem permitisse; antes teriam que concluir seus estudos e demonstrar seu valor. No entanto, para Codhe e Khei cujos títulos eram todos por méritos, seria um caminho quase certo, de aprimoramento para seus corpos e mentes, principalmente, sua magia.

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Depois de alguns meses em Imperah, já eram uma promessa de grande futuro para a nobreza, pois Codhe demonstrava um talento quase nato para o domínio dos seus poderes, enquanto Khei era mais lenta, porém, notável.

Codhe impressionava até os mais experientes. O fogo mágico parecia sempre ter feito parte dele, estava em toda a sua essência: havia fogo no brilho dos seus olhos, na sua personalidade, no seu temperamento, principalmente, no seu coração; que se incendiava toda vez que pensava em Loren.

Sentia a saudade lhe queimar, o sentimento ficava cada dia mais intenso, alimentado pela distância e agora, mais do que antes, se sentia tolo por nunca ter se declarado abertamente pra ela. Percebia que tinha agido, até pouco tempo, como uma criança boba e envergonhada, somente quando encontrou a magia foi que o mundo parece ter lhe revelado como agir corretamente.

Mas agora, de certa forma, era tarde. Não sabia quando voltaria a vê-la e quem sabe, ela nem quisesse vê-lo. Sua esperança era que Loren também viesse para Imperah e poderiam se reencontrar ficando juntos, como antes naqueles tempos em que eram todos amigos.

Pensou em Shaido, em como agiu mal com o amigo rompendo a amizade de forma grosseira por causa de Loren, no fim das contas, não adiantou de nada, somente o fez perder o amigo. Quem poderia saber o quanto Shaido também havia se magoado com aquilo?

Sabia exatamente onde Shaido estava, pois o amigo era bem popular na Capital, sendo um pouco mais velho, já havia completado dezoito anos e aceito no Coirlem com louvor. Sua fama se espalhava por todo o reino, seu poder era notório assim como o sucesso entre as mulheres, que corriam atrás dele ensandecidas. Era sabido que muitas queriam ter um relacionamento sério com ele, enquanto algumas queriam um relacionamento de qualquer tipo, mas Shaido não mudou seus pensamentos a esse respeito desde a época da adolescência. Continuava o tipo que prioriza qualquer coisa, menos relacionamentos afetivos; Codhe ria quando ouvia alguma história sobre esses fatos. Sentia vontade de reencontrar o amigo, tantas coisas que gostaria de conversar.

Codhe, por sua vez, mudou em muitas coisas desde que chegou em Imperah. Tingiu seus cabelos de um vermelho escuro e passou a trajar-se somente de preto, porque seus dias eram negros sem o brilho de Loren. Começou a colecionar armas, pois achava lindo o brilho do metal quando exposto ao fogo. Também colecionava frascos de cristais coloridos, pretendia enchê-los de perfumes e essências para presentear Loren, como se fossem poções mágicas. Muito do que fazia era pensando nela.

Da última vez que a viu, dormindo tão profundamente, não foi capaz de acordá-la para sequer dizer adeus. Isso o chateava e intrigava, mas seu humor ainda era caloroso e fez alguns amigos, alimentava gatos na rua e comprava tortas decoradas para dividir com a irmã. Recebia olhares e sorriso das moças, e por onde quer que estivesse, era sempre bem visto.

Um dos lugares que Codhe mais amava em Imperah era a Biblioteca Imperial. Logo que foi alfabetizado, começou a ler todos os livros da biblioteca de sua casa. Na escola, era um leitor assíduo, principalmente de livros de poesia, mitos, guerras e história sobre o passado do seu reino. Mas os livros dali eram diferentes, havia magia neles, o conhecimento adquirido através de estudos e leituras o tornava mais sábio e admirável.