Adams

Prólogo

Ela andava sozinha pelas ruas da cidade, vestes negras, mãos nos bolsos. A neve caía sobre seu corpo, fria, mas ela nada sentia. Não era como as outras pessoas. Não mais.

Sua sombra se projetava sobre os muros, sobre as casas. Uma maldição sobre os vivos. Ela de quando em quando parava na frente de alguma residência e via as luzes acesas, as guirlandas nas portas, as árvores de Natal piscando nas salas. Olhando através das janelas, observava as pessoas ceando, famílias felizes comendo peru e tomando vinho. Mas ela não, ela era diferente...

O vento rugia em alta voz, fustigando seu corpo sem piedade. Ela correu para dentro de um beco para se esconder da força da natureza, fugindo de sua própria desgraça. Lembrou-se então da jovem que costumava ser, das pessoas que perdeu, da vida que lhe evaporara como fumaça.

Após tocar brevemente seus cabelos negros repletos de flocos gélidos, ela soluçou com amargura, enquanto uma salgada lágrima escorria por seu rosto tão branco quanto a neve.

O único calor que teria naquele inverno.


Um homem corre desesperado pelos becos forrados de branco. Apesar de estar sem fôlego e com as pernas doendo, ossos latejando, a última coisa na qual pode pensar é parar. Sua vida está em jogo.

Ele pode ouvir os passos atrás de si, as sinistras sombras de seus perseguidores se projetando sobre as paredes pichadas. O medo havia dominado seu corpo assim como a sensação de frio e cansaço.

Mas, para seu azar, acaba por escorregar sobre a neve da viela...

Seu corpo cai sobre o concreto num baque violento e doloroso, mas ele praticamente não sente. O importante é levantar o mais rápido possível e continuar correndo.

Porém, o esforço mostra-se inútil. Seu destino já está selado. As sombras se aproximam, ganham forma. Distorcem-se. E o pobre homem, imobilizado pelo temor, apenas olha para trás, esperando que a morte chegue.

Surgem cinco homens vestindo roupas negras, pele incrivelmente pálida. Algo que os torna similares entre si, fazendo com que componham um grupo uniforme. Abas de sobretudos são erguidas pelo vento, coturnos deixam suas impressões na camada alva. Eles caminham de modo calmo, sabem que seu alvo não pode mais fugir. São seus últimos instantes.

Um dos perseguidores, careca, coloca-se à frente dos outros, sorridente. O perseguido, logo que fita o rosto de tal líder, começa a gritar de horror, presa encurralada pelo caçador. O pouco de esperança que o tomava se esvai. O algoz gargalha alto, e em seguida diz, voz soturnamente mansa:

– Smith, Smith... Aonde pensa que vai?

– Por favor, Baltazar, me perdoe! – as palavras saem atropeladas. – Eu não o decepcionarei mais, não faltarei com minha palavra!

– É você quem deve me perdoar, Smith, pois deixei bem claro que não toleraria mais nenhuma falha sua... Agir com benevolência, no seu caso, fez-lhe mal ao invés de bem.

– Não me mate, por favor! – o fugitivo passa a encolher-se. – Eu estou para me casar! Aceitei trabalhar para você justamente para poder sustentar minha noiva, para que pudéssemos pensar em ter um filho...

– Então acho que sua noiva ficará viúva antes mesmo de tê-lo como marido, infelizmente...

– Não, Baltazar! NÃO!

O homem careca se aproxima ainda mais de Smith, que simplesmente não consegue se levantar do chão devido ao medo. Ele berra feito uma criança, lágrimas de pavor abundam em sua face, seu corpo inteiro treme intensamente. Aquele que lhe causa tanto pavor abaixa-se ao lado do perseguido com aparente ternura, expressão dócil, dando a inesperada impressão de que o perdoaria...

– Baltazar? – indaga ele, incrédulo.

Mas a compaixão transforma-se em traiçoeira fúria. Baltazar abre a boca, exibindo caninos enormes e pontiagudos, com um sinistro brilho vermelho tomando seus olhos. Smith dá um último grito de angústia, e o vampiro enterra seu braço direito no peito da vítima, rompendo através da carne.

A mão de Baltazar penetra no tórax de Smith, enquanto rios de sangue escorrem de sua boca mantida aberta. Os lacaios do líder, também amaldiçoados, atiram-se perto da vítima para aproveitar os esguichos de líquido. Lambem o chão. Súbito, o vampiro, tateando dolorosamente os órgãos internos da vítima, agarra algo, que arranca violentamente de dentro do pobre homem, já morto, num só puxão.

Os fluídos de Smith tingem a neve, enquanto Baltazar segura seu troféu: o coração do mortal, ainda pulsante.

– Ninguém desaponta Baltazar Dracul, mortal imundo!

Os demais vampiros riem ao redor, ao que Baltazar atira o órgão de Smith dentro de uma lixeira, suas mãos sujas de sangue. Leva-as à boca, sugando-as como se aproveitasse os restos de gordura de um assado.

– Venham, nós ainda temos muito a fazer antes que o sol nasça!

Os cinco vampiros deixam o beco como se nada houvesse acontecido, enquanto a neve, seu fluxo jamais interrompido, cobre o corpo de Greg Smith aparentando querer ocultar sua desgraça do resto do mundo...