Capítulo XIV

"Coco Jamboo"

O letreiro da Spiritus Noctem parecia mais iluminado aquela noite, embora uma das letras – o "N", mais precisamente – estivesse em tilt, piscando entre oscilações cada vez mais rápidas.

Ele entrou na fila de ingressos, às costas de um casal de punks aos beijos, ambos de penteado moicano, e à frente de um rapaz introvertido, óculos e mãos nos bolsos, não demonstrando querer muito estar ali. As alucinantes batidas emitidas pelo sistema de som da boate alcançavam a rua, perturbando os pensamentos do agente do FBI. Atrás de seus óculos escuros, não queria criar suspeitas. Mas, mesmo num local frequentado por pessoas tão díspares, temia acabar chamando muita atenção.

Por cima dos ombros alheios, o vidro fosco da bilheteria passou a melhor se delinear – um sujeito de cabelo raspado, camisa e casaco negros e expressão de extremo tédio picotando bilhetes a cada frequentador que lhe estendia dinheiro por um buraco.

Os dois punks demoraram mais do que deviam jogando conversa fora com o atendente, deixando claro conhecê-lo além de sua função. As risadas e caretas terminaram quando o resto da fila, atrás de Ernest, começou a reclamar – passagem liberada para que ele adquirisse sua entrada.

Ao encarar o federal, o sorriso no vendedor causado pelo encontro com os amigos desapareceu.

– Um ingresso, por favor – Adams empurrou uma nota de dez através da abertura.

O funcionário hesitou, olhar se alternando entre o dinheiro e o agente, a insegurança martelando sobre se deveria ou não permitir que entrasse. Destacou o bilhete ainda a contragosto, entregando-o por baixo do vidro numa bufada:

– Não vá criar problema aí dentro, Schwarzenegger.

Ernest assentiu impaciente e prosseguiu à porta.

A entrada dava para um vestíbulo todo revestido de carpete azul, terminando numa divisória de cortinas vermelhas, os frequentadores sendo revistados por dois seguranças – pelo porte e aparência, também vampiros – antes de atravessá-las. Com seus alinhados ternos, pontos eletrônicos aos ouvidos e armas expostas à cintura, vistoriaram os trajes de Adams, inclusive o interior da jaqueta, em busca de algo ameaçador. Seu aspecto lhes gerou o mesmo preconceito sentido pelo atendente do lado de fora, mas não terem achado nele coisa alguma impediu que o comprovassem.

Depois das cortinas... bem, ele estava na boate propriamente dita.

O teatro fora todo convertido para sua nova função, porém a estrutura básica continuava a mesma. As fileiras de assentos da plateia haviam sido arrancadas e o chão nivelado para dar lugar a uma extensa pista de dança, potentes alto-falantes vibrando ao redor e feixes coloridos de luz sendo projetados de refletores posicionados pelas paredes e teto. As galerias elevadas tinham se transformado em camarotes VIP, casais utilizando-os para protagonizar cenas ousadas ou grupos de amigos simplesmente dançando animados com uma visão privilegiada do alto das sacadas. Já o palco continuava destinado a apresentações – a natureza destas, todavia, diversa: pole dancers alvas como cera, vestindo lingerie mínima e provocante, os cabelos tingidos em tons berrantes que iam do violeta ao amarelo, executavam coreografias junto às suas hastes metálicas.

Ao seu redor, homens dos mais variados tipos e origens se aglomeravam. De excitados rapazes de classe média, balançando a cabeça em concordância ou cochichando entre si a cada movimento mais revelador das dançarinas; até investidores saídos direto do pregão de Wall Street, gravatas e paletós desalinhados enquanto prendiam dólares aos elásticos das calcinhas das moças – alianças visíveis em várias das mãos.

Mesmo em meio aos passos eróticos e postura sensual, Adams conseguia distinguir os movimentos mecânicos daquelas mulheres, os olhares hipnotizados –voltados a algum canto obscuro de seus seres para não terem de absorver a realidade de viverem daquele modo. A vergonha e humilhação enterradas sob a fachada de corpos vistos meramente como objetos de satisfação alheia.

Escravas de Baltazar. Precisava libertá-las.

Consternado pela constatação de que antes Rosemary também fora submetida àquele papel deplorável, Ernest deu conta de que precisava se focar no planejamento para fazer alguma diferença. Continuar o exame atento do lugar, identificando brechas e mapeando possibilidades.

A entrada conduzia a uma arcada de altura média, limitada por um parapeito ao qual o agente estava debruçado e que garantia boa visão do recinto. Dos dois lados da estrutura desciam rampas curvas até a pista de dança, esta terminando na plataforma com as pole dancers ao fundo, num nível mais alto. À esquerda do palco existia um nicho aberto na parede com um bar indicado em neon verde, garrafas penduradas de ponta-cabeça acima do balcão. Do lado direito... uma porta cinza destoante do resto da boate, apenas o aviso "Somente funcionários" se destacando num adesivo vermelho.

Adams conjecturou o que havia atrás dela, ocupando o espaço dos antigos camarins. Área administrativa, escritório. Respostas. Baltazar.

OK, aquele era seu objetivo. Precisaria estar atento à retaguarda caso fosse descoberto – os seguranças do vestíbulo e no mínimo outros três que já detectara vagando pelo local certamente viriam encurralá-lo. Antes de qualquer coisa, no entanto, tinha de encontrar uma pessoa em particular...

A pista estava lotada, tanta gente se agitando e movendo os braços tornando difícil distinguir alguém específico – até mesmo com seus novos sentidos aguçados. As rampas serviam como local de escolha para paquera, tomadas por rodas de rapazes ou moças e complicando de igual modo o rastreio.

Num súbito favorecimento pelas circunstâncias, ele a viu.

Enrolando uma mecha da peruca rosa mal colocada à cabeça, usava a outra mão para equilibrar uma bandeja contendo drinques adornados com fatias de frutas e latas de bebida. Nada caindo, numa admirável subversão das leis da física, conforme se esgueirava entre os clientes, evitando cotoveladas e esbarrões. Dinheiro era depositado sobre a bandeja, mãos ávidas apanhando o álcool em troca. A espiral no cabelo postiço já virava um nó à ponta de seus dedos.

O mais natural possível, Ernest desceu por uma das rampas na direção dela, tentando prever sua trajetória antes que se afastasse para o outro lado da pista. Chegou perto o bastante quando a garçonete teve o caminho bloqueado num dos cantos por dois universitários bêbados pedindo mais cerveja, nenhum dos lados se entendendo devido ao volume da música.

– Rita! – Adams chamou-a alto o suficiente para lhe atrair a atenção.

A funcionária virou o semblante para ele, mais assustada do que deveria. Ainda lidando com os rapazes, apontou discretamente para duas entradas, lado a lado, brilhando sob uma lâmpada laranja numa das paredes adjacentes à pista de dança.

Claro, os banheiros!

O agente afastou-se. Disfarçado no meio da pista, andou em círculos imperfeitos de uma ponta a outra ao som do trance. Recebeu olhares atraentes de várias mulheres, as quais prontamente ignorou. Observando de soslaio, acompanhou Rita ainda fazer várias viagens entre o bar e a pista, a bandeja se enchendo e esvaziando em sucessão até que, minutos mais tarde, o fim das bebidas a fez avançar até o ponto de encontro. Astuto, Ernest convergiu à mesma posição.

Entraram no banheiro feminino, a porta balançando atrás deles. O federal torceu mais do que nunca para não ter sido visto.

– Não estou confortável com isto... – manifestou-se.

– Olha, o banheiro masculino sempre está cheio de gente vomitando ou medindo o tamanho do pau! – ela explicou, parando de torcer a mecha pink. – As garotas que frequentam aqui se maquiam todas em casa. Você sabe, estilo gótico, cinco quilos de pó na cara. Dificilmente usam o banheiro. Pode confiar.

– Então... – Adams olhou apreensivo em volta. – Trouxe para dentro o que pedi?

– Primeiro o pagamento.

Ele suspirou. Trato era trato, mas não significava não se incomodar. Levou uma mão ao interior da jaqueta. Ela retornou com um pequeno saco marrom amarrado. Colocado na palma de Rita, a garçonete desatou-o. Atirou o rubi entre os dedos. Depois veio a corrente de ouro.

– Assaltou uma joalheria, é? – a moça inquiriu desconfiada.

Ernest poderia ter esclarecido serem as joias conservadas de sua avó, herança de família, porém só exigiu sua parte no acordo:

– Minhas coisas.

Rita ainda examinou os brilhantes por um momento ou dois antes de indicar um dos cubículos do banheiro. Adams abriu-o cauteloso. Os olhos se levantaram da privada suja até a bolsa presa entre a caixa da descarga e a parede logo atrás, suspensa metros acima do chão. O cabo da Katana pendia para fora. Ou ninguém vira, ou achara ser parte exótica da decoração.

– Não escondeu direito o que tem dentro... – Ernest resmungou enquanto recuperava o equipamento.

– Bem, ninguém me viu carregar sua tralha até aqui. Nenhuma pergunta foi feita – ela já havia guardado o saco com as joias num bolso e recuperava a bandeja deixada numa pia. – Não temos pendências.

– De acordo.

Aproveitando o vaso sanitário como apoio, Adams passou a usar o próprio cubículo para se munir do necessário. Entre o deslizar de zíperes e o tilintar de correias, a ponta do cano de uma espingarda visível através da divisória em dado momento, a garçonete acabou demorando-se à saída por alguns instantes – mais por curiosidade do que para proteger o inusitado aliado.

Ele estava quase pronto quando a ouviu perguntar:

– A finalidade disso tudo é acabar com o Baltazar?

– Tentar – Ernest passou a alça da bainha em torno do tronco.

– Tente não, faça! – Rita concluiu, retornando à pista de dança. – O emprego é péssimo e o desgraçado é um crápula.

Terminando de arrumar a jaqueta, Adams sorriu. Sugestão anotada.

Put me up, put me down

Put my feedback on the ground

Put me up, take my heart

And make me happy

A música eletrônica parecia mais alta e atordoante do que antes de entrar no banheiro, Ernest chegando a questionar se sabiam de seu plano e faziam aquilo de propósito para confundi-lo.

Podem ter certeza de que o Smith não ficou feliz em ter o coração levado...

Atravessou mais uma vez a pista cheia, escapando de vários encontrões e golpes involuntários, até o canto direito do palco. Certificou-se de não ser observado.

Num só avanço, girou a maçaneta da porta cinza. Aberta.

Empurrou o obstáculo pela beirada, cheio de cautela. Não sabia até que ponto poderia contar com a sorte. Lembrou-se das palavras do reverendo Lent, sobre escolhas, livre-arbítrio. Podia muito bem dar as costas ao desafio e ir embora. Deixar toda aquela loucura de vampiros, submundo sobrenatural e deter Baltazar para trás.

Fitou a porta mais uma vez.

Entrou.