Arthur saiu da sala e andou pelo longo corredor que levava ao quarto de Alice que se situava em uma das torres do castelo, ao lado da sala do trono, a escada que dava acesso ao quarto era bastante iluminada, com um tapete azul trabalhado em cobre e sua subida um tanto longa.

Quando Alice ficara cega, após o acidente com Ivan, tentaram muda-la para um sala no térreo do castelo, mas a menina não aceitara, sabia que as escadas para seu quarto eram apenas a primeira barreira que teria que enfrentar sem a visão e quando conseguiu finalmente sair do quarto, exigiu que ninguém a ajudasse a descer as escadas, faria aquilo sozinha.

Hoje, Alice era capaz de subir as escadas correndo e chegar em seu quarto primeiro que todos os cinco.

As paredes ao longo da grande escadaria continham alguns quadros dos antigos príncipes e princesas que possuíram o quarto. O retrato de Bianca, mãe de Alice, se encontrava ali, nos últimos degraus, Arthur sempre se espantara como elas eram parecidas a não ser pela cor dos cabelos, Bianca era loira e Alice ruiva.

Ao chegar até a porta, Arthur levantou a mão para bater, mas hesitou. Alice tinha um comportamento explosivo e era bem capaz de atirar nele a primeira coisa que conseguisse alcançar.

Suspirou e encostou-se em uma janela que tinha ao lado da porta observando o pôr-do-sol. Era possível ver as várias cores que os magníficos raios de sol deixavam. Ali, era um dos melhores locais do castelo para ver o dia virar noite.

Arthur foi tirado de seus pensamentos por Alice que estava ao seu lado, ela chegara tão mansamente que ele não conseguiu ouvir, era uma de suas especialidades, chegar sem que ninguém a ouvisse. Lara gostava de compará-la a um leopardo, Arthur sorriu com essa lembrança.

Alice aparentava estar mais calma, estendeu a mão e segurou a dele levemente, Arthur já se acostumara com o fato de Alice saber onde achar tudo que procurava, sua mão ao lado da dela, o copo de água em cima da mesa, a caneta que precisava para escrever alguma coisa. Sentiu-se pior com o fato de chama-la de cega, da forma que fizera. Não conseguir enxergar era muito diferente de não ver as coisas, e Alice via tudo.

Arthur ia começar a se desculpar, virou-se para ela, e Alice o puxou para si, abraçou-o e encostou a cabeça em seu peito, com os olhos fixos no horizonte, como se pudesse ver o pôr-do-sol. Arthur franziu o cenho.

- Que foi Lili? Digo... Além do que aconteceu, o que mais? – Perguntou preocupado, Alice sorriu pesarosa.

Quando tinham cinco anos, Alice e os outros brincavam com o pequeno Ivan, ele acabara de chegar de Cerdent e era apenas um bebê, na correria que os cinco arrumaram durante a brincadeira, Ivan tropeçou e ia cair com a cabeça na escada, mas Alice fora mais rápida e o resgatara. A consequência foi que ao bater a cabeça nas escadas do palácio, afetara a retina e com ela a visão, deixando-a cega.

Durante o resguardo de Alice, o maior medo que ela tinha era o de ser vista como invalida, mas ao contrário, o Conselho passou a vê-la como a mais forte dos cinco. Chamaram Iacop o lendário sábio para treiná-la.

Iacop era um velho Guardião do Éter que nascera cego, além de dominar o Elemental com destreza, seu estilo de luta corpo a corpo seria ideal para Alice. Iacop nascera em Nórican e descobrira cedo que tinha o poder do Elemental do Éter, como um Guardião, se aprimorou no poder do elemental e estudou todos os tipos de luta corpo a corpo que soubesse que existia. Com o tempo, e sua incansável busca para aprimorar seus sentidos e compensar a cegueira, Iacop se tornou o líder dos Guardiões de sua época, até que se aposentou como um dos sábios.

Normalmente quando um Guardião perde um dos sentidos os outros se apuram, assim foi com Iacop e assim aconteceu com Alice.

Iacop chegou ao Castelo quando Alice ainda estava de resguardo, a primeira vez que entrou no da menina soube que ela era especial. Arthur estava no quarto com a amiga passando-lhe o que haviam ensinado nas aulas, quando Alice se sentou ereta na cama e virou-se para porta, Iacop estava ali observando-a. Arthur não ouvira nem sentira entrar no quarto, Iacop o fizera sem barulhos, entrou, fechou a porta e encostou-se ali.

Alice e o mestre pareceram se encarar, então ele fez uma reverencia e ela assentiu.

"Consegue se levantar, princesa?" Perguntou, Alice afastou as mantas que lhe cobriam as pernas e Arthur segurou-lhe as mãos.

"Os médicos disseram que você deveria descansar." Insistiu Arthur, mas Alice balançou a cabeça em negativa.

"Me sinto ótima, Art. Confie em mim". Arthur soltara as mãos da amiga com certa relutância, ela tateou a cama, virou o corpo e colocou os pés no chão, levantando-se.

Arthur olhou Iacop que sorria abertamente, o velho assentiu.

"Seu treinamento começa amanhã, Alice." Disse. Alice fez uma reverência.

"Sim, mestre." Concordou, Iacop virou-se e saiu do quarto.

Iacop acabara por substituir o Guardião do Éter que seria o professor dos cinco, mas seu foco sempre estava em Alice. Ensinou-a sentir e ouvir coisas que estavam a quilômetros de distancia, ensinou-a a distinguir vários tipos de cheiros, inclusive venenos.

Alice tivera aulas extras para aprender a conhecer a forma de andar de cada pessoa, a sentir a vibração dos passos, ouvir o som de cada um, ela aprendera a utilizar do elemento Éter e de sua intuição para ver o que ninguém podia enxergar.

Mas houvera uma época em que Alice pudera ver o por do sol da janela ao lado de seu quarto, e naquele momento, o maior desejo da mulher era ver o pôr-do-sol.

- Como ele é? – Murmurou mansamente, Arthur encostou a bochecha no topo da cabeça da mulher, envolvendo-a com os braços.

Aquele tipo de atitude Alice apenas dispersava a ele, Arthur, expor sua dor por não poder enxergar, a mulher fazia isso porque confiava nele, sentiu-se como se houvesse a traído com o comentário idiota na sala.

- Hum... O céu está roseado, mas parece que não irá fazer frio... Há umas nuvens no céu, são poucas, mas os raios batem nelas...

- O pátio, Art, como está o pátio? Os raios batem nas pontas das árvores, eu sei disso, ainda posso senti-los em meu rosto, quer dizer que eles ainda iluminam as árvores...

- Sim, eles batem nas pontas das árvores, estão brilhando, Lils. – Concordou Arthur, fazendo-a sorrir.

- Então... Nada mudou. – Sussurrou, soltou-se do abraço de Arthur e se debruçou no parapeito da janela, por reação, o homem se aproximou para segurá-la se precisasse, Alice apenas ignorou o gesto, sabia que ele fazia aquilo por amor. – O sol ainda bate na fonte do meio do pátio não batem? A fonte depois da escada para as portas do castelo...

- Bate Lils... E reflete dentro dela formando um arco-íris.

Alice assentiu e se levantou, virou-se para Arthur dando-lhe um empurrão.

- Por que me tratou daquela maneira? – Perguntou agressiva. Arthur estava um pouco risonho, já estava acostumado com as explosões aleatórias da mulher. – Você sabe que é o único, com quem eu me abro, e você, mais que ninguém, sabe que eu sou capaz.

Arthur olhou-a nos olhos, ela o encarava com ferocidade, sentia-se péssimo, perdera a cabeça, se agarrara a pior desculpa que poderia dar. Puxou-a pra si abraçando-a fortemente.

- Nem tente...! – A mulher tentou empurrá-lo, mas Arthur a manteve ali, abraçando-a fortemente.

- Desculpe Alice. De verdade, me desculpe eu estava...

- Não justifica, Arthur! Você não podia! Você não tinha esse direito! Você mais que qualquer um não podia. – Gritou tentando se soltar, Arthur afrouxou o abraço e sem saber o que fazer ajoelhou-se aos pés de Alice.

- Me perdoe. – Sussurrou, olhando-a de baixo, Alice abaixou o rosto para ele e suspirou.

- Minha confiança, Arthur... Minha confiança.

- Eu sei. – Sussurrou arrependido, Alice deu-lhe as costas.

- Não estou pronta para te perdoar. – Disse simplesmente.

Arthur suspirou e se levantou, fechou os olhos. Alice não estava fazendo um jogo com ele, era o jeito dela, tinha dificuldade de perdoar, ficaria remoendo o que aconteceu por um tempo até ser capaz de perdoá-lo, eventualmente ela conseguiria fazê-lo, eventualmente ela conseguiria lidar com os próprios sentimentos.

- Tudo bem, Lili. – Falou mansamente olhando-a de esguelha, Alice virou um pouco o rosto para ele. – Você sabe...

- Eu sei, você tem medo. – Completou, Arthur assentiu, ela pareceu perceber e concordou. – Doeu, Arthur. Você precisa se controlar.

O homem aproximou-se dela vagarosamente, ganhara um pouco de território ali, ela não se afastara, acariciou levemente o ombro da mulher, o sol havia se posto de vez, mas o céu ainda estava claro.

- Eu sei, estou me esforçando.

- Se esforce mais, não quero ser seu saco de pancadas. – Rispidamente, Alice levantou o rosto para ele, fazendo-o ficar em silêncio.

Arthur abaixou a mão para segurar a de Alice que o puxou para si, abraçando-o novamente.

- Não quero que nada aconteça com você, a cada dia fico mais ansioso com essa viagem, Lils, não vai ser fácil pra nós, não vai ser fácil pra...

- Não, não vai ser, mas eu vou consegui, por favor não quero discutir isso novamente! Você precisa se controlar! Com relação a todos, com relação a mim! Você precisa controlar seus medos. Não será como nossos treinos, nunca fomos colocados a prova, sabemos a teoria, sabemos controlar os Elementais, mas e aí?

- É justamente...

- Não! – Ela virou-o para si e colocou a mão levemente em seus lábios. – Nosso relacionamento não pode ficar no meio disso tudo, Arthur! O Conselho já não o vê com bons olhos, ele nos deixa fracos.

- O relacionamento de nós cinco nos deixa fraco, Alice... – Comentou ele, Alice forçou os dedos levemente sobre os lábios do homem fazendo-o parar de falar.

- De qualquer forma, temos o quê? Mais cinco anos, o que você fará? Precisarei fazer o ritual de fusão juntamente com você, os Espíritos não sobreviveram, você realmente acha que nós, cinco humanos, vamos sobreviver? Você fala que quer me proteger...

- Alice... – Arthur tentou novamente, mas ela se afastou dele.

- NÃO! Você tem que entender! Eu não vou me afastar de vocês nesses últimos cinco anos, Arthur, eu não vou me afastar de você! É tudo que temos! O que você pretende fazer? Evitar o ritual? Colocar tudo a perder?

Arthur olhou-a estático, ele sabia que essa era a maior questão, essa sempre fora a maior questão, os cinco foram treinados para se sacrificarem pelo bem do mundo, mas será que ele conseguiria? Ele queria viver, ele não queria que Alice morresse ou nenhum dos outros, não queria que tivessem que se sacrificar.

- Você vai fugir, Arthur? – Alice insistiu, Arthur olhou-a nos olhos, a mulher parecia encará-lo.

O homem fechou os olhos e respirou fundo. Não, não era um traidor, não colocaria tudo a perder.

- Não Alice, não vou fugir, estarei do seu lado, estarei do lado dos outros para fazer a fusão.

Alice pareceu encará-lo por mais um tempo a respiração ofegante, levantou um pouco mais o rosto andou até a porta do quarto e a abriu.

- Me deixe sozinha. – Disse por fim.

- Lils...

- Amanhã, Arthur, agora não. – Insistiu, entrou no quarto e fechou a porta.

Arthur olhou o pátio, agora escuro lá embaixo, os pensamentos em turbilhões na sua cabeça. Claro que aquele era a maior questão para todos os cinco. Após achar cada fragmento teriam que se sacrificar como os Espíritos fizeram. Talvez não seria um problema para Lara, seria apenas mais uma aventura, mas para ele, Arthur... O homem tinha calafrios só de pensar no ritual.

As luzes dos jardins começaram a se acender, Arthur olhou mais uma vez para a porta do quarto de Alice antes de descer as escadas, iria para seu quarto ficar sozinho com seus pensamentos.